This Glorious No Age

Após um hiato, os Youthless voltam à carga.

This Glorious No Age é o primeiro LP do duo, sucedendo aos Eps Telemachy e Monsta. Trata-se de um registo fervilhante, camadas e camadas de densos instrumentais sobrepondo-se em lancinante tensão. É um disco onde a banda mostra que o ruído, tal como as palavras, não deve ser gasto em vão.

 

Meses antes [a entrevista pode ser lida em http://diferencial.tecnico.ulisboa.pt/2016/01/13/youthless-e-a-evasao-pela-arte/],numa tarde ressacada de Outubro, Alex (voz e bateria) havia-me exposto parte do conceito artístico subjacente ao álbum:

“Retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada. Não é arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não é um lamento ou uma lição, mas creio que tem uma componente social implícita, como toda a arte. É uma obra contemplativa, que descreve a viagem desde o mundo pré-eléctrico até ao caos tecnológico moderno. “

De facto, This Glorious No Age apresenta-nos uma experiência itinerante , impressões vigilantes da desordem quotidiana. Ao longo de faixas como “Sail On” e “High Places”, expõe-nos uma realidade que sempre vimos, mas em que não reparámos.

O álbum funde momentos catárticos e tumultuosos (de que “Skull and Bones” e “Lightning Bolt” são exemplos) com interlúdios ominosos, de synths em aflitivo desvario (em “Pale Horse”, por instância, a internet faz-se som, e presenciamos o transe sónico do ultra-moderno).

this gloriousAo riff distorcido e estrepitante de “New Wave Suicide” opõem-se as vezes reminiscentes do plano onírico, em “Silver Apples”, e ao refrão cristalino de “High Places o pranto pungente de “Holy Ghost”.

 

“Só agora estamos a sentir as ramificações da invenção da electricidade, pois a tecnologia superou a capacidade de assimilação psíquica do ser humano. Este disco é a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirmara, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar. Trata-se de um álbum muito influenciado por Marshall McLuhan.[um dos fundadores da teoria dos Media e quem cunhou os termos global village e the medium is the message]”.

 A composição assume a sua maior expressividade em malhas como os singles “Golden Spoon” e “Attention”. No primeiro, reverberações primárias alertam a hecatombe. A bateria pujante dá o mote, acompanhando o refrão que não resistimos a cantarolar, em concordância com o fim inevitável. É um hit que não foge, contudo, á matriz ruidosa que os caracteriza. Os breaks tombam em massa, antecipando o feedback, término animalesco de veia noise à No Age (duo americano).

De realçar, ainda, “Black Keys White Lights”, onde fazem do barulho, belo. Nesta música, os coros infantis (os próprios filhos do baixista Sab foram os ilustres convidados) vaticinam a transformação premente, em irónica afronta.

“O meio eléctrico descentraliza tudo, dá espaço e credibilidade a todas as vozes e perspectivas e, por isso, desaglomera o poder”, frisara Alex. “A desilusão colectiva com a política irrompe. A verdade é relativizada. Vivemos numa era onde a informação mudou a natureza das coisas.”.YouthlessTGNA

 

É com esta estratificação ideológica em mente que, em “Lucky Dragons” – canção belíssima que encerra o projecto – saltamos no vazio, após a quebra súbita na muralha sónica.

Lúcidos mas não menos alienados, convencemo-nos de que as horas se gastam. Resta-nos contar minutos e desfrutar de bandas como esta.

Afinal, por muito que o recado fatídico incomode, quando os mensageiros são desta qualidade, merecem ser poupados.

 

 

–Single “Golden Spoon”: https://www.youtube.com/watch?v=PkSWyuhrYGQ

–Os Youthless tocam dia 8 de Julho no Optimus Alive.

 

 

Gil Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Youthless e a Evasão pela Arte

A pequena sala da galeria Zé dos Bois, em Lisboa, tremia face ao volume sonoro esmagador. Baixo e bateria reverberavam incessantemente, numa actuação que desafiava tanto a audiência, quanto o sistema de som. Estávamos a 19 de Setembro e os Youthless, sob o nome de Flaming Tits, davam um concerto surpresa. Os temas sucediam-se, sôfregos, numa catadupa frenética e desinibida, que obrigava a multidão a dançar. O duo erguia uma muralha sónica densa, não entre o palco e a audiência, mas sim em nosso redor, delimitando um espaço comum, febril e criativo.alex youthless

 

Um mês mais tarde encontro-me com Alex (bateria e voz) e Sab (baixo) no Jardim da Estrela. O Outono já chegou e com ele os dias mais curtos e remelosos. Cheira a chuva e a luz gasta-se, rapidamente, antecipando um fim de tarde sombrio. Os próprios músicos parecem reflectir a mudança do clima, estando visivelmente mais calmos do que quando os conheci no Verão. Esta mudança anímica não é, porém, novidade para quem toca junto desde os tempos da escola.

“Conhecemo-nos no Instituto Espanhol de Lisboa, e aí formámos uma banda chamada Three and a Quarter. Ensaiámos até o Alex ir para a universidade, nos EUA, onde gravámos um álbum e fizemos uma digressão”, explica Sab. As transições geográficas imperaram sempre numa banda cujos membros provêm de países distintos: “Alex veio de Nova Iorque aos 14 anos e eu passava sempre muito tempo com a minha família, em Londres.”

Foi desta amálgama de culturas, bem como de uma busca constante por novas influências, que despertou o projecto Youthless. A mãe de Alex mostrou-lhe música clássica minimalista, o pai jazz e o irmão rock. Num ensaio, por brincadeira, ele foi para a bateria e Sab para o baixo. Rapidamente criaram sete músicas e aperceberam-se que conseguiam compor a dois.

As suas músicas assumem uma estrutura paralela à da maior parte do rock, na medida em que fazem uso apenas da bateria e do baixo. Este último é ligado a dois amplificadores distintos, o que possibilita tocar em quatro oitavas simultaneamente. A sonoridade é, portanto, espessa e ruidosa: “Queríamos soar como se os Sonic Youth tivessem sido produzidos pelo King Tubby [célebre produtor de dub]”, adianta Sab.

Nas primeiras gravações delinearam o molde em que iria assentar o seu som ecléctico: “um manto sonoro de barulho, onde o próprio ruído seja um catalisador psicadélico”. À composição a dois, e sempre num ambiente descontraído, opõem-se os concertos, celebremente caóticos e explosivos. Não obstante, o seu noise rock visa comover e não apenas alienar, porque, como explica Alex: “a música é uma vibração e nós queremos tocar para pessoas que não a racionalizem, mas que a sintam.”

Talvez por isso prefiram tocar em clubes, salas pequenas e com uma identidade forte, onde o público seja receptivo. Intenções que não impediram, todavia, espectáculos anárquicos, em que assistências menos hospitaleiras ficaram pasmadas com a potência fracturante do seu som e das suas performances. Alex recorda que “num concerto organizado pelo Fua [Joaquim Durães, produtor do festival Milhões de Festa], o Sab bebeu demasiado bagaço e vomitou em palco. Já eu saltei de um segundo andar e magoei-me nas costas…”youthless foto11

 

É curioso ouvir todas estas peripécias e excessos numa tarde sonolenta de Outono. O sino da Basílica da Estrela ressoa, imponente, enquanto Alex pede mais um chá. Veio há pouco de uma sessão “duríssima” de fisioterapia porque, após seis semanas intensas e desregradas, contraiu uma grave lesão nas costas, o que obrigou a uma pausa do grupo. Só recentemente regressaram aos palcos, mais revitalizados do que nunca: em Março irão lançar o seu primeiro álbum.

Apesar de ainda pouco poderem revelar acerca do lançamento do This Glorious no Age, a editar em Portugal pela NOS e no Reino Unido pela CLUB.THE.MAMMOTH e Kartel Records, o seu entusiasmo é palpável. “É um disco que retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada”, principia Alex.

Estes temas são já focados no primeiro single, Golden Spoon, que conta com um videoclip do amigo e colaborador Francisco Ferreira (Capitão Fausto e BISPO). A este seguir-se-á Attention, uma faixa que aborda a complacência com a hecatombe do quotidiano.

Pergunto-lhe se vê as suas composições como eminentemente sociais. Diz-me que “não são arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não são um lamento ou uma lição, mas creio que têm uma componente social implícita, como toda a arte.”

É perceptível a sua mudança de postura: o baterista pondera agora com vagar as respostas. Faz-se notar a seriedade com que escreve as letras, cuidadosamente camufladas sob a erupção instrumental. “Estes singles são a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirma, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar.”

Alex medita e cita alguns dos seus autores de referência, uma e outra vez, revelando a profundidade do seu projecto de escrita. Ao fazê-lo as suas palavras contrastam com o fim de tarde bucólico: “O capitalismo vai fazer a humanidade definhar. Criou um espectáculo onde a experiência directa cessa e se vive através de um show amplificado pelos media. A internet, por exemplo, permite um maior alcance, mas tira valor à música. Se o que chega a mais gente é mais pequeno, então o seu impacto é menor.”

À medida que o nosso tempo se esgota, consome-se também a luz do dia. Muitas questões ficam em aberto acerca do novo trabalho desta banda, que dissimula observações sociais em malhas distorcidas de alta voltagem. Questões estas que apenas os concertos, como o de dia 21 de Novembro, em Évora, podem ajudar a responder. Até lá fica a convicção da banda de que “a arte nos tira de um meio hermético e nos mostra algo de muito real e verdadeiro. É aí que assume uma vertente social e é nisso que reside o seu enorme poder.”

 

Gil Gonçalves

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Foto: Jannike Stelling