Autoria: Beatriz Costa (LEFT), Joana Abreu (LEFT) e Vanessa Filipe (LEQ)

O Instituto Superior Técnico é considerado, tradicionalmente, como o paradigma da excelência no que toca às faculdades de engenharia em Portugal, contudo, nos últimos tempos, o seu modelo de ensino tem vindo a ser amplamente contestado. Na nossa perspetiva, o IST deixa muito a desejar, especialmente pelo grande prestígio que tem – vejamos porquê.

No best-seller Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, Stephen R. Covey, especialista em liderança empresarial de renome internacional, relata uma história com palco numa escola em Inglaterra em que, devido a um erro de programação de um computador, uma turma de “bons alunos” foi classificada como uma turma de “maus alunos” e vice-versa. O erro apenas foi detetado 5 meses e meio depois, mas, antes de ser retificado, a direção da escola decidiu submeter os alunos envolvidos a novos testes de QI. Os resultados obtidos deixaram que pensar: a turma dos “bons alunos”, que foi tratada como se fosse constituída por “crianças mentalmente limitadas, pouco cooperativas e difíceis de ensinar” obteve resultados significativamente piores, enquanto a turma dos “maus alunos” melhorou muito nos resultados obtidos. No IST, parece que somos submetidos a uma experiência semelhante: centenas ou até mesmo milhares dos melhores alunos do país entram nesta faculdade habituados a sobressair no seu meio escolar e, desde o primeiro dia de receção aos alunos, são submetidos à ideia de que se irão tornar medianos ou até mesmo maus alunos durante os próximos anos, com o consolo de que quando voltarem ao mercado de trabalho irão voltar a sobressair. Para aqueles que acham que o típico aluno do Técnico é um “nariz empinado”, a verdade é que, desde o primeiro dia em que entramos nesta instituição, somos acostumados a esta ideia de que somos melhores que os alunos das outras faculdades (que obviamente não corresponde à realidade) como um prémio de consolo pelo sofrimento que se avizinha.

    Contudo, o Técnico não é a tropa. A faculdade não é uma prova de resiliência física e moral e muito menos de aquisição de disciplina. Nós, enquanto alunas de ensino superior, estamos à procura de uma instituição para nos formarmos de forma completa e que aguce a nossa curiosidade pela ciência. No IST, somos rebaixados, enxovalhados e sofremos quase uma lavagem cerebral de que o sofrimento nos conduz a uma inteligência superior. Ao longo dos anos, o número de vezes que um aluno do Técnico ouve a expressão “isto é trivial” por parte de professores, claramente com o intuito de rebaixar e inibir os alunos de fazer perguntas, é incontável. O IST é apenas um carimbo para futuros empregadores de que sobrevivemos enquanto bons alunos, sem, na realidade, nos sentirmos como tal. A cultura ridícula da sobrevivência impôs um regime de medo e obsessão pelos estudos que, inexplicavelmente, é celebrada em Portugal e que leva o IST a ser aclamado como “uma das melhores faculdades do país”.

    De forma a fazer um paralelo com outra faculdade, contactámos um ex-aluno do Técnico, que, atualmente, estuda numa das faculdades da Universidade NOVA, que nos descreveu a sua experiência: “Estive um ano no Técnico e […] percebi que havia muitos problemas na instituição. Nunca tinha estado noutra faculdade, mas decidi mudar porque não me via a passar os meus próximos dois/três anos da forma como passei esse ano.”. Acrescentou ainda: “o Técnico faz questão de manter a tradição, de manter os métodos de ensino e de não se preocupar com o lado dos alunos. Na visão dos professores, eles dão as aulas e o trabalho está feito, independentemente da plateia que têm.”  Para além disto, enfatizou ainda outros aspetos que distinguem a atual faculdade do IST, nomeadamente a constante “reestruturação do currículo para se adaptar às necessidades das empresas e do mundo profissional […]” e o facto das aulas serem “adaptadas às nossas necessidades”.  Concluiu que a principal diferença está  “na forma como somos tratados, na disponibilidade dos professores e na consideração por nós e pelas circunstâncias em que nos encontramos. A diferença nestes aspetos é abismal. Nada se compara à pressão do Técnico, onde nos atiram informação e esperam que percebamos tudo imediatamente para avançar para o próximo capítulo. Sinto que agora tenho o espaço, o tempo e as condições para aprender e crescer, enquanto que no Técnico só estava a tentar sobreviver.” 

A verdade é que, aos 20 anos, não devíamos ter medo de professores, não devíamos tomar antidepressivos, não devíamos ter distúrbios alimentares, de sono, ou de personalidade, não devíamos lotar serviços de psicoterapia, não nos devíamos sentir exaustos e inúteis a toda a hora. É lamentável que a presidência, o corpo docente e os mais variados órgãos de escola não dêem a devida atenção ao tópico da saúde mental na nossa faculdade e que tenham uma atitude de desresponsabilização. Ninguém deve nem pode ter medo de admitir que precisa de ajuda. Às vezes, a ajuda de familiares e amigos não é suficiente, além de que, muitas vezes, estes podem inclusivamente agravar a situação, visto que não estão dentro da realidade do Técnico. A ajuda psicológica e psiquiátrica nem sempre envolve gasto de dinheiro uma vez que existem linhas de apoio telefónico, urgências hospitalares, seminários e divulgações por parte de várias entidades como a APAV, entre outros, e muito menos de tempo!

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