Recuo (parcial) do Técnico para semestres: Um resumo, ponto de situação e desabafo

Autoria: Tomás Vieira (LEMec)

Num ano de mudança que os dirigentes do IST recusam apelidar de retrocesso, há muito que será em 2026/2027. Não tendo muito mais a acrescentar ao tema, resta ao Diferencial servir de meio para que se difundam, ainda mais, avisos sobre o que se avizinha.

Um resumo breve

A história remonta ao ano letivo 2018/2019. A Comissão de Análise do Modelo de Ensino e Práticas Pedagógicas (CAMEPP), órgão interno criado com o propósito de refletir sobre o ensino e avaliação no IST,  elaborou um documento cujas reflexões propunham uma mudança de eixos. “O presente relatório foi produzido […]  para repensar o modelo de formação pedagógica do Técnico de modo a formar engenheiros mais capazes de antecipar, intervir e responder aos desafios futuros.” Apoiando-se em “tendências globais” e dificuldades sentidas, tanto o calendário escolar como o período letivo foram adaptados. A Escola passou de executar as suas disciplinas em 14 semanas para 7 (de semestres para períodos), tendo cada aluno menos cadeiras simultaneamente, instaurando-se assim “cadeiras em regime intensivo”. Contudo, há que ressalvar duas nuances (argumentavelmente) políticas: o relatório da CAMEPP não decretava um período de 7 semanas como solução ótima e o atual calendário escolar e seus constrangimentos não são, também, o seguimento literal das suas conclusões. Resumidamente: o encadeamento causa-efeito que levou ao regime atual não é de todo linear, do relatório (2019) à instauração dos períodos (2021) houve mais participações, diferentes iterações e diversas fações internas com opiniões (muito) fortes. 


Montado o ano letivo 2021/2022, deu-se o ano de transição. Os relatos de alunos não montam uma recordação positiva. Houve quem tivesse de fazer ‘Eletrónica 2’ antes de ‘Eletrónica 1’ e Matemáticas complicadas com equivalências geraram algumas sobrecargas horárias. Esta imagem fica clara quando temos em conta detalhes tão letais como Unidades Curriculares (UC) que transitaram de ano curricular, UC que foram extintas, UC que foram criadas e alunos com UC por fazer – tudo já complexo, mas agravado pela mudança de dois para quatros períodos letivos distintos. Contudo, os terrores não se limitaram aos estudantes: a promessa de facilitar a gestão das atividades de investigação, dada aos professores, mostrou-se falsa. Faço aqui referência a um famoso inquérito (representativo), oferecido ao corpo docente, mas que, aos dias de hoje, escusa ser invocado.

Presente (e algum passado recente)

O que se seguiu foram três anos de queixas, um fórum de professores descontentes hilário, alguns textos do Diferencial, alguns posicionamentos da AEIST que pecavam em substância e um estudo interno, orientado pelo professor Mário Figueiredo. À luz desta mudança, escusado será dizer que o conteúdo deste relatório não era simpático, culpando, em grande parte, as falhas do sistema no calendário académico. Não é uma leitura que recomendo, mas vou guardar para sempre que está lá escrito que “os alunos escolhem opções de mobilidade (Erasmus) em instituições mais suaves” – isto não é uma citação direta, mas dá para perceber a ideia.

Em fevereiro de 2025, ironicamente, logo após o Diferencial compilar uma das suas edições mais venenosas – a falar mal do ensino -, o presidente do IST anunciou à escola a sua vontade de pôr em discussão a possibilidade de se flexibilizar o modelo.  Sublinho o verbo flexibilizar, não por ser fã, mas porque já mo foi repetido algumas vezes. A ideia é deixar ao critério dos especialistas, os departamentos, como administrar as suas aulas, em semestres ou períodos.
Desabafo, que prometo não ser pessoal

Saltando um ano de reuniões, audições a delegados e outras formalidades que só integrantes do Conselho Pedagógico ligam, estamos aqui.  O aluno que não lê os emails informativos do Conselho de Gestão – portanto, 99% de nós – é o mesmo que só a semanas da implementação sabe de tudo isto. Este fenómeno já me foi descrito múltiplas vezes: para quem vive o sistema, dirigentes, é difícil ter presente que nem toda a gente vive igualmente antenada. 
A título de exemplo, é produtivo olhar para o Fórum Mecânica , o núcleo dos estudantes de Engenharia Mecânica. Até onde sei, partiu dos alunos organizar uma sessão de esclarecimento, com o presidente do departamento e os coordenadores dos 1º e 2º ciclos, sobre o que o próximo ano reserva. Entre as questões de alunos, aspetos particulares sobre a mobilidade (ex: Erasmus) e as equivalências neste contexto de transição foram abordadas. Este tipo de iniciativas chocam por não terem sido mandatórias e não terem existido em boa parte dos outros cursos.

E não faço essas críticas em vão: Não houve indicação direta para que os delegados informassem TODOS os seus pares – é informação pública que a transparência de muitos limitou-se a anúncios vagos nos grupos de Whatsapp, um meio não-oficial como o Conselho Pedagógico o classificaria; Não se viu nenhuma comunicação SIMPLES E DIRETA sobre o assunto – um email, um aviso no Fénix, eu até aceito uma lona na Alameda. E sim, Conselho Pedagógico, um link de um ficheiro Excel a circular à mercê da vontade dos outros, com todas as mudanças compiladas não chega. “Vejam aí, numa das páginas está o vosso curso.”; Isto tudo evitando falar do “órgão máximo” dos estudantes, AEIST, porque só quero ocupar uma página. Se aceitamos que é preciso bloquear o Fénix a quem não responde aos inquéritos QUC, para que haja respostas, aceitemos também que difundir informação do mesmo grau de atratividade, MAS MUITO MAIS CRÍTICA, não é tarefa de um aviso singular, nem desprovida de estratégia. É um desafio comunicar no Técnico, mas é também o emprego de muitos, até porque isto excede preciosismos de comunicação, é um princípio democrático.

Numa faculdade onde vídeos do Presidente a beber shots no Arraial percorreram todo o grupo e rede social; onde há publicações diárias sobre cada microatividade interna; onde há dinheiro para gastar em drones que fazem mini-filmes de festas académicas; é assim tão insensato pensar que se deve promover informação, evitando casos similares aos de 2021/2022?

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