Saga das Cantinas: as roulotes do Jardim Norte e a falta de noção

Autoria: João Carranca (LEEC)

      No célebre dia de 22 de dezembro, Rogério Colaço decidiu, num rasgo de inspiração comunicacional, usar o tradicional email de boas festas à comunidade estudantil para fazer um pequeno anúncio. Em janeiro, a cantina e o bar de civil vão fechar para obras.

      Após terem lido esta notícia, poder-vos-ão, talvez, ter passado pela cabeça algumas perspectivas pouco otimistas em relação aos próximos meses. Quem sabe, talvez, até curtos vislumbres de uma fila ainda mais insuportável para o Social ou de uma carteira vazia ao fim do mês, mas temam não, caros colegas! O Presidente e o Conselho de Gestão têm tudo pensado. Para colmatar a perda temporária destes dois espaços, serão disponibilizadas “ofertas adicionais”. O que constituem estas ofertas adicionais, perguntam vocês? Dois Grab & Go (um deles da Galp), um takeaway, roulottes de fast food e uma quantidade simpática de “Spots”, alguns deles para Uber Eats. De notar ainda o cuidado da administração ao disponibilizar três alternativas vegan, marca da sua moderna mentalidade e proximidade aos alunos. De facto, é tão moderna a mentalidade, que parece estar aqui montado o próximo parque de comes e bebes da Web Summit, pronto para acolher uns quantos nómadas digitais e investidores de startups. Para estudantes universitários em Portugal, no entanto, é capaz de faltar uma coisinha ou outra.

      Em primeiro lugar, os preços. Poderá o leitor atento ter inferido pelos nomes e tipos de ofertas listadas que talvez não consiga obter uma refeição completa por 2,80 euros. Olhemos, por exemplo, para o menu da Wurst, uma salsicharia austríaca vegan. O item mais barato que se pode sequer assemelhar a uma refeição é o Wurst cachorro, com salsicha e molhos. Custa 5,50 euros. A Pizza Primo Basilico não tem nenhuma pizza por menos de 7 euros. O padrão é semelhante ao longo de todos os menus.

     Em segundo lugar, a qualidade. A maioria destas “alternativas” são nomes que esperaríamos encontrar no piso de restauração de um centro comercial, por outras palavras “fast food”. Não é só por 2,80 euros que terão dificuldade em encontrar uma refeição completa nestes estabelecimentos, ou “Spots” como lhe chama o Presidente, é por qualquer preço. Não se tratam de todo de elementos de substituição às cantinas a que estamos habituados. Não se tratam de alternativas que façam sentido nutricional para quem come várias vezes por semana no IST.  Quando se fala de Spots de Uber Eats como alternativa a cantinas é quase um incentivo oficial a um estilo de vida pouco saudável. Spots estes que fazem pouquíssimo sentido tendo em conta a zona extremamente central em que está o IST, com praticamente todos os restaurantes conhecidos de fast food num raio de 500 metros.

      Por último, o espaço. O bar de civil disponibilizava espaço para sentar. A cantina de civil disponibilizava espaço para sentar. As roulottes e derivados, como todos sabemos, não disponibilizam espaço para o fazer. Numa instituição onde a falta de espaço para todo o tipo de atividades já é crónica, é esperado dos alunos que se remetam a comer em pé? Parece ser esse o sinal dado pelo Conselho de Gestão. Talvez a ideia seja fazer um pouco de “jogging” durante a refeição para compensar o facto de todas as opções serem fast food.

      Trata-se de toda uma situação lamentável, certamente fácil de parodiar, mas que deixará de ter graça, quando todos tivermos de conviver com ela diariamente. Tal como quando as filas na cantina Social começaram a exceder o limite do aceitável, ficam várias questões no ar. As obras nestes dois espaços do pavilhão Civil são descritas, pelo Presidente, como “indispensáveis”, mas, tendo em conta as obras que ainda decorrem na cantina Social, era mesmo impossível evitar, pelo menos, esta sobreposição temporal? Não era de todo possível um melhor planeamento em prol do bem estar dos alunos? Mesmo que por alguma obscura razão esta sobreposição fosse inevitável, não haviam outras alternativas de substituição mais adequadas às necessidades de um estudante, tanto de um ponto de vista económico como de um ponto de vista nutricional, que pudessem ter sido implementadas? São perguntas que ficam por responder e é uma entrada com o pé esquerdo em 2023 por parte do IST.

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