Entre a Utopia e a Desilusão: Prémio Nobel da Literatura de 1946

Autoria: Maria Alves (LEQ)

Publicado em 1943, em meio ao caos da Segunda Guerra Mundial, O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse, ergue uma sociedade utópica dedicada à pura contemplação do saber. No entanto, por trás dessa seriedade absorta, o autor revela uma profunda crítica à alienação intelectual e à crise espiritual do Ocidente, transformando a sua obra numa metáfora sobre o isolamento da cultura diante da barbárie humana.

Referida como um “triunfo da imaginação”, esta obra tornou-se a ponte que levou Hesse a vencer o Prémio Nobel da Literatura em 1946. Passando-se para lá do nosso tempo histórico, num futuro em que a humanidade teria superado os conflitos que marcaram o século XX, a narrativa apresenta Castália, uma província intelectual cuja elite se dedica a reger os produtos da mente, desde os axiomas da matemática até à eloquência musical. Composta por eruditos, a Castália valoriza o aprimoramento do conhecimento e o Jogo das Contas de Vidro, um instrumento ritualístico onde todas as áreas do saber se cruzam, elemento central na vida dos seus membros.

De forma serena e até algo monótona, a obra retrata a vida de Joseph Knecht em tom biográfico. Ao longo do seu percurso, Knecht é desafiado e confronta os valores da sociedade castaliana em debates com personagens oriundos do mundo exterior. Ele depara-se com um paradigma em que o intelecto está em constante transformação, isto é,  o preto e o branco já não são tão distintos, e a moral de um homem revela-se plástica e mutável.

A personagem, cujo apelido significa “servo”, chega como forasteiro para ocupar o posto mais alto da hierarquia intelectual, tornando-se Magister Ludi. Este novo cargo impõe-lhe responsabilidades que contrastam com o seu desejo crescente de se envolver no mundo exterior.

No fim, ao perceber que já alcançara tudo o que ambicionava, Joseph decide abandonar a sua posição e seguir rumo ao desconhecido, um mundo não regido por axiomas, mas por guerras políticas, fome e sofrimento.

Num primeiro olhar, Castália pode parecer uma realidade a almejar, um mundo guiado apenas pelo conhecimento, desprovido de ambiguidade. O Jogo das Contas de Vidro, tido como um ritual quase divino em que todos os saberes se interligam numa linguagem simbólica, é um dos elementos mais importantes do romance. Representa o ideal castaliano: a tentativa de reunir todo o conhecimento de forma congruente e perfeita, qualificando-se como uma utopia do espírito, onde o caos do mundo é superado pela harmonia e pela razão.

A jornada de Knecht, porém, revela a falência desse ideal. Ao alcançar a perfeição, ele descobre a sua ilusão e despe-se da mesma, empreendendo um caminho humano que procura reconciliar o pensar com o viver, a teoria com a prática. Pensar não é viver: a contemplação abstrata é insuficiente sem a experiência concreta.

À procura de uma conexão real entre o saber e a experiência, Knecht encarna a verdadeira preocupação de Hesse, ou seja, a incongruência entre o isolamento intelectual e o compromisso ético com a realidade. Castália representa, assim, uma utopia espiritual e racional, onde o conhecimento é colocado num pedestal, afastando-se do pathos das paixões e do ethos da política. É uma sociedade que busca harmonia, ordem e sabedoria universal, tentando fugir do caos e da irracionalidade, mas que, paradoxalmente, ignora a dimensão humana, emocional e histórica.

O jogo é, então, uma analogia dupla: representa o ápice da cultura e do conhecimento humano, mas também o afastamento dos sentidos e da vida. É o eterno dilema da humanidade: o desejo de compreender o mundo e a necessidade de nele agir; entre a busca pela perfeição racional e o risco de perder aquilo que nos torna humanos.

Escrita durante o auge da Segunda Grande Guerra, a obra reflete a angústia de Hesse diante da barbárie europeia, do nacionalismo, do militarismo e da perda dos valores espirituais. Castália simboliza não só uma fuga de um mundo brutal, mas também uma crítica à elite intelectual que se refugia na abstração e no culto do intelecto enquanto a sociedade se desmorona. Hesse denuncia não a cegueira, mas a recusa deliberada em ver, a ignorância pervertida de quem sabe, mas ignora.

Esta crítica mantém-se profundamente atual num mundo regido pela ciência e pela tecnologia, onde a procura do conhecimento supremo e a fuga da realidade ainda persistem. Hoje, a alienação intelectual e a falta de compromisso ético assumem novas formas. Por exemplo, universidades de todo o mundo enfrentam debates sobre o uso da inteligência artificial em avaliações, ferramentas de deteção de plágio e produção de conhecimento, questões que envolvem privacidade, autoria e justiça. Quando estudantes são acusados de má conduta com base em algoritmos falhos, como recentemente ocorreu na Australian Catholic University [1], evidencia-se o risco de uma tecnocracia sem humanidade, um paralelo direto com o isolamento intelectual de Castália. A obra de Hesse alerta-nos de que o saber, quando desvinculado dos valores humanos, corre o risco de se tornar um ritual vazio: belo, mas desconectado da realidade.

Em conclusão, O Jogo das Contas de Vidro é um apelo atemporal à integração entre razão e vida. Hesse lança um debate filosófico que ultrapassa o seu tempo, questionando o valor do conhecimento que se fecha sobre si mesmo. É uma crítica ao irreal e ao inumano e, sobretudo, uma chamada à importância de viver, de sentir e de agir. Porque, afinal, o verdadeiro jogo não é o das contas de vidro, mas o da própria existência.

Referências:

[1]  “University wrongly accuses students of using artificial intelligence to cheat.” ABC News, 8 de outubro de 2025. https://www.abc.net.au/news/2025-10-09/artificial-intelligence-cheating-australian-catholic-university/105863524 (Acedido pela última vez a 09/10/2025) 

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