Entrevista ao “Truques da Imprensa Portuguesa”

No seguimento do artigo sobre o jornalismo na nova era, convidámos as pessoas responsáveis pela página “Truques da Imprensa Portuguesa” para uma entrevista sobre as suas perspectivas relativamente aos desafios da imprensa e, como não podia deixar de ser, abordámos também o projecto que têm vindo a desenvolver, o crescimento da comunidade de seguidores e as polémicas e quezílias que se criaram com alguma parte da comunicação social portuguesa.

Antes de discutirmos mais a fundo os desafios que o jornalismo enfrenta actualmente, gostaria de começar por vos perguntar, estando fora do mundo do jornalismo, o que é um jornalista e qual o papel que este deve desempenhar?

A nossa perspectiva é a perspectiva de leitor, de público, construída de forma relativamente empírica. Nós achamos que o jornalismo, em geral, e o papel do jornalista, em particular, é fundamental, porque é o intermédio entre a realidade e o público, constitui-se como uma charneira entre aquilo que acontece e aquilo que é dado a conhecer sobre uma dada realidade – por isso mesmo é tão importante que seja criticado, reflectido e revisto, e é isso que nós tentamos fazer.

De onde surgiu a decisão de criar este projecto? De um juízo de que existe um desvirtuamento do jornalismo português?

Não, nós temos uma visão crítica em relação ao estado do jornalismo, mas não temos uma perspectiva catastrofista sobre o mesmo. É verdade que o mundo do trabalho no jornalismo enfrenta problemas muito grandes, o modelo de negócio de empresas de comunicação social enfrenta desafios enormes, há muita gente a discutir e a reflectir sobre isso, e há problemas muito específicos que estão a ser colocados nesta altura. Nós temos referido, de forma sistemática, quais são esses problemas: o problema das fontes, da pressão, da quantidade de trabalho, da necessidade de publicar cada vez mais rapidamente. Enfim, há um mar de problemas que nós procuramos explicar e demonstrar sempre através de exemplos concretos, essa é a nossa filosofia.

Uma crítica que costumam apontar frequentemente nos vossos posts, é o facto de existir um certo consenso entre jornalistas em colocar a responsabilidade da dificuldade em fazer bom jornalismo nas redes sociais e em apontá-las como um antro de notícias falsas…

Não é bem isso que dizemos. Existe a perspectiva por parte de alguns jornalistas, e começa a cultivar-se essa ideia, de que as redes sociais são um problema, são um inimigo do jornalismo. Isso não é necessariamente assim, não acho que exista uma espécie de dicotomia, de guerra, entre o jornalismo que defende a verdade e as redes sociais que defendem a mentira. Ora, se as redes sociais são espaços onde, de facto, prolifera muita mentira e muitas notícias falsas, sendo as eleições norte-americanas um bom exemplo disso, são também um espaço de muita crítica, que permitiram o surgimento de novos protagonistas e onde toda a gente pode dar a sua opinião de forma relativamente igual, não havendo propriamente um exercício de controlo sobre quem pode ou é capaz de o fazer. O intermédio da imprensa muitas vezes estabelece quem tem acesso a esse espaço de visibilidade pública – quem são os opinion makers, quem são os protagonistas – e as redes sociais eliminam isso. Do nosso ponto de vista é bom, é uma vantagem.

Mas um jornalista, que há dez ou vinte anos, tinha um monopólio da informação, vê-se agora condicionado pelo facto de qualquer pessoa poder ser um “jornalista” e divulgar as notícias de uma forma muito mais rápida do que um meio de comunicação tradicional…

Mas nós discordamos desse processo. Achamos que aquilo que pertence ao mundo do jornalismo deve continuar a ser exclusivo do mundo do jornalismo, não pretendemos disputar, com a página que temos, o seu universo. Se alguém tenta substituir, isso não faz sentido, é uma profissão que requer instrumentos, seja do ponto de vista formal, seja do ponto de vista intelectual. O jornalismo deve ser respeitado e deixado aos jornalistas. As redes sociais, por si, são uma estrutura, que pode ser utilizada para o bem ou para o mal, aliás como a própria imprensa, que não é inerentemente boa. As redes sociais são uma estrutura onde existe tudo, porque é onde estão todas as pessoas de todos os tipos. Essa correlação directa entre as redes sociais e as notícias falsas, para nós, é errada e desonesta do ponto de vista intelectual.

Se grande parte do público recorre às redes sociais para receber notícias, o controlo e a visibilidade que os media têm acaba por se diluir um pouco na amálgama de informação da rede social. Essa descaracterização e omnipresença das redes sociais não se vai reflectir numa transformação do comportamento dos media tradicionais?

Compreendemos que isso é um grande desafio e que deve ser feita uma reflexão urgente, mas esta não deve ser feita por nós. Agora, nós achamos que este desafio não deve levar os jornais ao clickbait, porque isso só funciona a curto prazo. No fundo, o clickbait pode enganar o público nos próximos tempos, dias, meses, anos, e conduzir a mais venda de publicidade, mas lentamente vai desgastando a credibilidade da imprensa tradicional, que é o seu principal capital. Se abdicam deste capital, então é inevitável que mais ou menos lentamente se acabem por destruir enquanto projecto de jornalismo.

Mas uma empresa de comunicação social, enquanto negócio, não pode esquecer quais as características do público para quem comunica. Se o público tem mais interesse em notícias sensacionalistas, em notícias que se foquem no futebol ou no mundo das celebridades, existirá uma tentativa de dirigir a sua linha editorial para que seja mais atractiva para essa parte mais significativa do público…

Sim, mas isso é uma questão de ética profissional. Não significa que a comunicação social tenha de capitular perante isso. Não acreditamos que é um mau público que faz uma má imprensa. É uma má imprensa que faz um mau público e um mau público que faz uma má imprensa. É uma situação de circularidade. O Correio da Manhã tem uma grande tiragem não só porque há muitos leitores a comprar, mas também porque há muitos leitores pouco informados para aceitarem algumas coisas do Correio da Manhã, porque existe o Correio da Manhã a fazê-las. É um processo em simultâneo.

O que acham da comunidade que se formou à volta da página e do seu crescimento?

Nós achamos que é interessante e que de certo modo veio dar razão às nossas críticas. A página é assumidamente um espaço de crítica e de subjectivação. Não queremos dar informação, não nos queremos substituir ao jornalismo. Se a comunidade cresce, significa que há gente a achar relevante esse espaço de crítica.

Relativamente a algumas críticas que têm saído por parte da imprensa em relação à vossa página- sendo o exemplo mais recente o caso com o Ricardo Costa, jornalista do Expresso- o que transparece é uma reacção algo corporativista da comunicação social que não parece ser capaz de encaixar críticas feitas ao meio, e isso é algo que me incomoda, porque numa situação em que a crítica é dirigida à comunicação social, sendo ela própria responsável por informar e servir de plataforma para fomentar a discussão e opinião, pode dar-se o caso de ser parcial em situações que a envolvam…

Sim, quem é o árbitro nessas situações? Não te consigo dizer. Acho que tem de ser o público. Penso que há, de facto, uma reacção corporativista à nossa pagina. Há muita crítica muito pouco fundamentada. O caso do Ricardo Costa é um exemplo… é capaz de ter feito muitos tweets sobre nós, mas o que encontras nos tweets são só críticas ad hominem e intimidação. Não há nada de concreto. Nós estamos totalmente disponíveis para discutir factos concretos sobre os nossos posts e críticas, e isso às vezes acontece. Se fores ver os comentários, há muita gente que dá posições opostas e nós tentamos dar visibilidade a esse debate. Da parte dos jornalistas, pelo menos de alguns, até porque há muitos a elogiar a página e o trabalho feito, há mais dedicação à destruição da credibilidade e simpatia da página junto do público.

O que acham da qualidade do jornalismo em Portugal? Pensam que o vosso trabalho tem dado frutos no sentido de a melhorar?

Relativamente à qualidade do jornalismo, pensamos que a maior parte dos jornalistas faz um bom trabalho, diário e silencioso, e podemos vê-lo quando abrimos os jornais. Havendo problemas, é necessário destacá-los e discuti-los. No que toca aos frutos do nosso trabalho, nós preferimos deixar essa questão ao público. Queremos acreditar que sim, até porque isso se traduz numa correcção de notícias em resultado da publicação de posts da página. Isso já nos deixa satisfeitos. Se é uma transformação estrutural ou mais de fundo, isso deixamos para os seguidores e leitores.

Consideram que existe um condicionamento do jornalismo português devido a pressões políticas e de grupos económicos? Veja-se o caso angolano, em que boa parte da imprensa portuguesa se manifesta de forma silenciosa sobre acontecimentos que sejam negativos para o actual executivo angolano.

Nós preferimos falar sobre assuntos em concreto. A questão angolana é bastante importante. Nós acompanhámos o caso de Luaty Beirão e verificámos que existia um padrão. Os jornais com capitais angolanos passaram o caso para segundo, terceiro planos, ou às vezes nem isso… quando era um assunto com interesse, do espaço da lusofonia, que tem interesse para o público português. Agora, nós não fazemos esse tipo de acusações, porque não nos cabe a nós nem temos meios para provar essa influência, mas fazemos uma crítica e damos essa informação aos nossos seguidores para reflectirem sobre estas questões da imprensa.

Por que razão se preferem manter no anonimato?

A questão do anonimato não é uma questão fechada, mantém-se em aberto. O anonimato tem a ver em primeiro lugar com a protecção da nossa privacidade, temos vidas privadas que nada têm a ver com o jornalismo, nem somos figuras públicas, e isso podia ser colocado em causa. Ao estarmos a aprofundar temas sobre um poder fundamental da democracia, a imprensa, muitas vezes secundarizado ou esquecido, nós sabemos que a nossa posição nos fragiliza imenso, até porque já recebemos várias ameaças. Em segundo lugar, nós acreditamos que o anonimato é uma questão fundamental, porque funcionamos como gestores de conteúdos, uma vez que cerca de 95% dos nossos posts advêm de sugestões dos nossos seguidores. Que sentido faz assumirmos a autoria de uma coisa quando somos apenas coordenadores de um projecto?

Porém, a questão do anonimato não permite defender, por exemplo, de acusações sobre afiliações partidárias e pode gerar alguma desconfiança…

Sabemos que traria algumas vantagens não permanecer no anonimato. Permitir-nos-ia destruir essas acusações. Mas repara no seguinte, nós não pedimos a ninguém para confiar em nós. Não fazemos ameaças a jornalistas, nem é frequente referirmos nomes de jornalistas. É muito pontual e sempre de forma justificada. Não é um anonimato que esconda um crime ou vergonha. Mas tem, claro, as suas desvantagens. A nossa identidade, para o valor das nossas opiniões, é absolutamente irrelevante. Se as nossas críticas forem mal fundamentadas ou mal dirigidas, elas podem ser expostas e criticadas na mesma, independentemente de quem somos.


Entrevista: Miguel Martinho

O Pequeno Buda quer trazer a meditação às universidades

Tomás Mello Breyner, também conhecido por Pequeno Buda, foi um dos oradores do TEDxISTAlameda e encontrou na meditação um método para aprender a viver em harmonia com as cirscunstâncias da vida. Tem a sua própria escola de yoga e é responsável por um projecto que pretende implementar a meditação diárias nas escolas.

Pela tua talk, ficámos com a ideia de que tens uma visão “naturalista” da religião. Defines-te como panteísta ou simplesmente pensas na natureza como uma manifestação do divino?

Eu penso no divino como um todo, não só como a natureza; mas a natureza também pode ser um todo. Para mim tudo é divino – tudo o que está dentro de nós e à nossa volta -, Deus está em todo o lado. Não me identifico com nenhuma religião e identifico-me com todas. Gosto um pouco de todas, porque acho que todas falam exactamente o mesmo. Depois existem as guerras porque alguns dizem “O meu Deus é melhor”, “Com o meu chegas lá mais rápido do que com o teu”, etc.

 

Ficámos curiosos quando disseste que devíamos aceitar (a palavra utilizada foi até embrace) as coisas que nos acontecem, independentemente de serem boas ou más. Como é que se pode lidar e aceitar de forma “passiva” as coisas más que nos acontecem?

Eu gosto de acreditar que tudo é bom. Quando digo bom, não entro no dualismo bom/mau; as coisas são o que são. O que para uma pessoa é mau, para outra pode ser bom, o que nos leva logo a concluir que as coisas não são boas nem más por si só. Se tu classificas uma coisa como boa, e outra pessoa classifica essa mesma coisa como má, quem é que tem razão? As experiências são apenas experiências que existem. Depois a classificação entre bom ou mau já é uma coisa mental que parte de nós, mas, na sua verdadeira essência, as coisas não são boas nem más; são apenas coisas.

 

Trabalhas principalmente com crianças. O facto de haver uma certa ingenuidade da parte delas e, portanto, inconsciência relativamente a este dualismo bom/mau, é uma mais-valia?

Nós não vamos tão a fundo com as crianças, apenas as tentamos trazer para o momento presente. As crianças costumam estar bastante agitadas – o que está, em parte, relacionado com a era digital em que vivemos – e, depois, quando se tentam concentrar, é um problema, o que dificulta a tarefa dos professores. Assim, o que nós tentamos fazer é resgatar as crianças para o momento presente e fazer com que elas percebam que têm de se concentrar, que é bom estar concentrado. Depois a parte da meditação que conecta com o coração e com a essência não é muito abordada. Por vezes falamos um pouco sobre o coração, mas nunca sobre Deus, religião ou filosofias deste género do bem e do mal.

 

Como é que reagem as crianças quando meditam pela primeira vez?

É muito engraçado! Nós trabalhamos com crianças pequenas e, tudo o que é novo para elas, é relativamente fácil. Elas adoram! É um momento no qual elas dizem que se sentem mais calmas e mais felizes. Já tivemos feedbacks super engraçados, como “É o tempo para o coração respirar”. Elas pedem aos professores para fazer meditação antes dos testes. De certa forma, parece que as crianças sabem que precisam destes exercícios; sabem que estão super agitadas e isto é bom para elas. É fantástico ver como as crianças alinham nisto!

 

E os professores também alinham, ou é mais difícil convencer os professores do que convencer as crianças?

É! O nosso desafio é esse mesmo: convencer os adultos de que as crianças têm de fazer 5 minutos de meditação. Por exemplo, professores de Matemática e professores de Ciências não estão muito para aí virados, então às vezes não fazem. Às escolas que aderem ao projecto, nós pedimos mesmo que façam todos os dias; nem que seja só tocar numa taça tibetana, que faz um sonzinho “plim”, e deixá-las em silêncio. As crianças precisam de aprender a estar em silêncio, porque elas estão completamente agitadas de um lado para outro, cada vez mais. No fundo, é normal as crianças estarem agitadas, berrarem, etc; mas, quando se chega a um extremo, já não é tão normal. Nós tentamos resgatá-las para a calma, para que elas consigam estar mais concentradas na sala de aula e, consequentemente, o processo de aprendizagem seja mais fácil.

A meditação também pode ser uma mais-valia em casos clínicos?

Sim. Para crianças que sofrem de autismo, por exemplo, a meditação é uma grande ajuda. É mais difícil para elas fazerem-no – por exemplo, fechar os olhos muitas vezes é difícil -, mas nós tentamos dar uma força e explicar que é importante. Há várias técnicas para as ajudar. Claro que nós não vimos pregar que a meditação é a salvação e que podemos parar de tomar medicação – não, nós queremos incluir a meditação aos poucos! Estamos só a plantar uma semente.

Achas que a meditação poderia ser útil aos estudantes universitários?

Sem dúvida. Nós estamos a pensar em começar a vir também às universidades. Neste momento também já estou a trabalhar com alunos da Oeiras International School – que vão ter os exames finais exames do secundário no final deste ano lectivo -, a qual me contratou para ir todas as semanas à escola fazer sessões com os alunos. Nas universidades é igual: quando nos acalmamos, as nossas ideias arrumam-se; quando estamos em stress, as nossas ideias dispersam-se.

Na tua talk, falaste ainda sobre o teu problema auditivo. O problema resolveu-se?

Não, continuo com o problema; a minha visão da situação é que mudou. Eu continuo a ouvir o zumbido e ouço mal, mas aceitei a minha condição – é assim que eu sou. Às vezes posso não ouvir bem, mas, em vez de ficar chateado comigo mesmo, aceito-me. Se me cortassem uma perna, também não ficaria à espera que a perna me crescesse, teria de aceitar a minha condição. É assim que eu sou e vivo feliz.

E-mail: tomasmbreyner@gmail.com

Site: tomasmellobreyner.com


Entrevista: Inês Mataloto

Grande Entrevista: Arlindo Oliveira

Esta é a versão, na íntegra, da entrevista publicada na edição impressa de Novembro de 2016


Ao fundo do corredor do Conselho de Gestão, o professor Arlindo Oliveira, Presidente do Técnico, recebeu-nos no seu gabinete para uma entrevista descontraída e sem formalidades. Nesta conversa pragmática e de “engenheiros” foram discutidos vários temas relevantes aos alunos e comunidade académica, desde o processo de transição do aluno para o ensino superior até aos desafios futuros do Técnico. No fim, ainda houve fotografias, em que a confiança do professor nos dotes do Gonçalo o levou a dizer “vê lá se me apanhas aí mais direito, que eu estou um bocado torto”.


Arlindo Oliveira
Arlindo Oliveira

Diferencial: Quais foram as razões que o levaram a decidir-se por um curso nesta instituição? Sabia que era isto que queria?

Alindo Oliveira: Já sabia, eu gostava muito de computadores, na altura usava um ZX Spectrum, portanto
na altura foi muito fácil escolher engenharia Electrotécnica e de Computadores.

Durante a sua vida estudantil chegou a participar em associações ou grupos de estudantes?

Não tive uma vida muita activa nos grupos de estudantes, porque também comecei a trabalhar cedo. Entrei no 3º ano para o laboratório no INESC e a partir daí fiz actividades de investigação e desenvolvimento. Na altura também jogava xadrez, que me ocupava um bocado do resto do tempo. Devo ter ido a algumas actividades, mas não estive directamente envolvido. Também na altura não havia tantos núcleos com há agora.

Que tipo de hobbies gosta de praticar no tempo livre?

Eu não tenho assim muito tempo livre, mas jogo ténis e paddle quando posso. Faço jogging uma vez por outra e ski no inverno, quando posso. Já não jogo xadrez, mas quando era novo jogava muito a sério. Agora, volta e meia faço uma perninha no xadrez.

A entrada para o ensino superior é um momento marcante na vida de um estudante. Acha que as escolas secundárias são eficazes nesse processo de transição?

Não sei se as escolas secundárias ajudam muito. Por exemplo, na das minhas filhas os alunos tiveram a oportunidade de visitar universidades, mas acho que é difícil para muitos jovens saber o que que querem quando estão no 12º ano. Eu não sei o que é que podiam fazer para além de algumas alterações.

[O processo de transição] depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

Arlindo Oliveira

Por exemplo, a cadeira de Informática podia ter uma componente maior de programação, os laboratórios podiam incluir um pouco de electrónica, mas expor os alunos a outras disciplinas é mais difícil. Estou a pensar em Engenharia Civil, por exemplo. Depende muito de os jovens terem ideias definidas e hoje em dia se calhar têm cada vez menos.

E quanto ao papel do Técnico neste processo?

Acho que aqui eles aprendem rapidamente. Ao fim de um semestre já perceberam bem o que é o curso, não totalmente, porque ainda têm uma carga grande de Matemática e Física, mas existem pelo menos uma ou duas disciplinas no primeiro ano que dão uma boa ideia do que os alunos vão estudar no futuro. Além disso, têm alguma liberdade para mudar (de curso).

Se a chegada à universidade é um ponto fulcral na vida de um estudante, outro é a saída deste meio e a entrada no mercado de trabalho. Como encarou essa fase?

Na altura entrava-se para a carreira de docente como assistente, logo quando se acabava a licenciatura até. Eu na altura tinha-me candidatado para assistente, tinha sido um dos melhores alunos do meu curso, e decidi seguir a carreira académica, que implica o doutoramento. Quis fazer o doutoramento nos EUA, concorri a algumas universidades, entrei numas e não entrei noutras, e acabei depois por ir para Berkeley. Na altura não tive grande dúvida, porque também já estava na carreira académica.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor considerou a Praxe uma “prática fascizante” e apelou tanto aos dirigentes académicos como aos representantes dos alunos que acabassem com a Praxe, substituindo-a por actividades com vista à integração do aluno na comunidade académica. Qual é a posição do Técnico em relação a este tema?

Concordo com o ministro no que respeita aos casos em que a Praxe é de alguma maneira humilhante, feita de forma a baixar a auto-estima dos alunos. Eu acho que a recepção aos alunos tal como é feita no Técnico, que foge muito a esse tipo de Praxe humilhante, tem os seus lados positivos, embora por vezes se excedam um bocado. São todos jovens…

Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Arlindo Oliveira

Eu tive duas filhas que entraram aqui e até gostaram dessas cerimónias de recepção. Acho que a recepção feita no Técnico é uma coisa positiva de que a maior parte dos alunos gosta, e aqueles que não gostam não têm qualquer pressão para participar.

Quais são as áreas da Engenharia que acha que se estão a expandir actualmente?

Acho que a área da interface entre as tecnologias de informação e comunicação, electrónica, informática, biomédica e biologia, física e nanotecnologia vai ter um grande desenvolvimento nas próximas décadas. Assiste-se também neste momento a um grande interesse noutras áreas que não estão muito relacionadas com esta, nomeadamente as áreas do espaço e da energia e ambiente. Todas estas áreas têm relações com outras como a Engenharia Mecânica, que está a ter grandes desenvolvimentos, um bocado por força da electrónica e da computação.

Este ano lectivo é marcado por uma alteração de paradigma ao nível das médias de entrada. Isto representa uma aposta dos jovens na instituição e a fé de que uma formação nestas Engenharias constitui uma mais-valia. Como vai responder o Técnico a este crescente nível de exigência e expectativa?

Havia já uma tendência, a média dos nossos cursos (Engenharia Aeroespacial e Física Tecnológica) estava a subir e a de Medicina a descer devagar. Há também outros cursos do Técnico, como Matemática e Engenharia Biomédica, que ficaram com médias muito altas. Isso mostra que a Engenharia é uma disciplina atraente neste momento para os jovens e que existe também algum desânimo com a Medicina. É verdade que coloca uma maior responsabilidade, mas temos vindo a crescer e isto já tem muitos anos. Tenho a certeza de que continuaremos a ter cursos com médias muito altas e com alunos muito bons.

Qual é a sua perspectiva relativamente às novas tendências de e-learning face a um ensino mais tradicional?

Acho que relativamente a essas tendências, onde se incluem os MOOCs (Massive Online Open Courses), se tenha exagerado um bocado na velocidade e no impacto com que vão entrar no ensino superior. Nós olhamos à volta para o MIT, CMU, Berkeley, etc., e continua a haver muitas aulas no formato clássico, embora haja já algumas nesse formato. Não é uma coisa que acontece de um momento para o outro, tal como não acontece que toda a gente deixa de vir à universidade e são só MOOCs para todos.

Não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa.

No entanto, não acontecendo de um momento para o outro, acho que é uma tendência que nós temos de seguir, porque, com tudo o que há na Web e ao nível de aplicações móveis, com as imensas maneiras que há de aprender agora, não faz muito sentido termos uma aula teórica a ser dada por um professor e gravar a aula inteira, quando os alunos podem ver um vídeo de um professor muito mais interessante e resolver exercícios em casa. Acho que nos temos de adaptar progressivamente. Não há justificação para haver más aulas, as aulas deviam ser todas boas, mas se não há condições para que todas sejam boas, se calhar mais vale que estas sejam vistas em casa e que na universidade sejam mais interactivas. Também obriga à alteração dos hábitos dos alunos, que não estão habituados a vir para cá já com o material preparado. Nós vamos agora lançar alguns MOOCs e isto é um passo nessa direcção.

Então esse foi o único passo dado até agora nesse sentido?

Não foi o único, há algumas cadeiras que estão a funcionar em regimes alternativos, mais experimentais, pelo menos no Taguspark.

Uma realidade que afecta grande parte dos estudantes do Técnico é a dificuldade em encontrar um espaço para estudar e trabalhar. É público que há em vista a construção do Técnico Learning Center na antiga gare do Arco do Cego, mas esse é um projecto a longo prazo…

Não é muito a longo prazo, nós queremos iniciar a construção no princípio de 2017 e acabar em menos de dois anos. Neste momento, temos tudo preparado para lançar o concurso este ano. Acho que vai ser um espaço que poderá funcionar em adição a este (Espaço24). Há outros espaços que nós estamos a tentar recuperar para dar melhores condições aos alunos.

Arlindo Oliveira
Arlindo Oliveira

A que espaços se refere?

Estamos a pensar qual é a melhor função a dar à piscina, que neste momento está fechada e que provavelmente não vale a pena recuperar.

Existem algumas salas e infraestruturas que apenas podem ser acedidas por alunos de cursos que pertencem a certos departamentos, o que leva a que os alunos tenham uma experiência diferente em termos de qualidade. O que acha desta situação?

A gestão de espaços no Técnico é uma das coisas mais difíceis. Existem de facto alguns cursos mais pequenos que conseguem gerir um pouco melhor os seus espaços e ter algumas salas. Não sei se elas estão completamente reservadas para eles. A nossa ideia é criar boas condições para todos e também pretendemos fazer outra coisa: criar espaços onde os alunos de diferentes cursos estejam juntos para aprenderem uns com os outros, trocarem experiências, fazerem projectos. O Learning Center, além do Espaço24, vai ter espaços para este tipo de colaboração. Aquilo que posso dizer é que também não vale a pena ir piorar as condições de alguns cursos que se calhar têm as condições que todos os cursos deviam ter. A minha esperança é que melhorando as condições globais se elimine um bocado essa assimetria que eu até aceito que haja.

No passado referiu que existia uma disparidade brutal ao nível do salário de um engenheiro no primeiro emprego entre estados da UE. Acha que está a aumentar?

Até pode ser que esteja estável, mas continua a ser grande. Falamos de um factor de 2 ou 3 para a Alemanha e 5 para a Suíça. Os salários em Portugal não têm aumentado e isso causa uma pressão competitiva que é difícil para Portugal, porque há muitos engenheiros que decidem ir para esses países e isso constitui uma preocupação. No entanto, para os engenheiros que não querem sair do país, é um factor competitivo importante. Há muitas empresas a quererem estabelecer-se aqui porque a mão-de-obra de engenharia é mais barata. Ainda agora cheguei de Silicon Valley, onde há várias empresas portuguesas que têm lá o CEO e o departamento de vendas, enquanto toda a equipa de engenharia está em Portugal, nomeadamente em Lisboa e no Porto. Lá, um engenheiro custa à volta de 150 m€ anuais, aqui se for 50 m€ por ano já é um bom salário. Há coisas boas e coisas más.

Tendo em conta o papel das instituições de ensino superior no desenvolvimento da sociedade, o que podem fazer para combater esta realidade e melhorar as perspectivas profissionais dos engenheiros que pretendam trabalhar em Portugal?

Eu tenho andado a pensar bastante nisso. Porque é que em Portugal um engenheiro ganha menos do que na Alemanha ou em Silicon Valley? Porque estas outras sociedades como um todo são mais ricas. Ou seja, um engenheiro lá ganha mais, mas o mesmo é verdade para um professor, por exemplo. Apesar de tudo, o salário de um engenheiro em Portugal não é mau comparado com o salário médio nacional.

Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia (…) O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas.

Arlindo Oliveira

Porque é que este não é mais alto? Não se pode aumentar por decreto como querem os sindicatos. Para aumentar a riqueza geral do país é preciso exportarmos mais e isso implica que tenhamos mais tecnologia, porque neste momento o que se exporta são produtos de metalurgia, biotecnologia, agricultura e pouco mais. O grande valor acrescentado está nas empresas tecnológicas. É necessário criar empresas que exportem mais. Isto é uma coisa que não tem corrido bem, nas últimas décadas não temos crescido quase nada. Penso que neste momento há alguns bons indícios, temos muitas startups, temos empresas de natureza tecnológica já com alguma dimensão. Também temos algumas preocupações, o sistema bancário está muito mal, o sistema industrial também não está como devia estar, mas nós não temos nenhuma mágica.

Passemos à questão da autonomia das universidades. No último orçamento de estado, as universidades ganharam alguma autonomia…

Quase nada, aquilo foi uma coisa muito pequena…

Então diga-me como tem visto a relação entre universidades e o estado.

Nós não temos mais autonomia, o Estado dá-nos um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro. Não podemos contratar e, quando se compra qualquer coisa, tem de se ir à eSPap (Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública). Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

O Estado dá-nos um orçamento um orçamento de 50 M€ e depois não nos deixam fazer nada com esse dinheiro (…) Dêem o dinheiro que têm, não é muito, o país é pobrezinho, tudo bem. Mas não nos chateiem, deixem-nos gerir esse dinheiro.

Arlindo Oliveira

Porque existe essa desconfiança?

Porque outros serviços do Estado têm de ser muito bem controlados. Nesses serviços, se se meterem mais pessoas depois tem de se meter lá o dinheiro para pagá-las. As universidades não são assim, não recebem pelas pessoas que têm, recebem pelos alunos que formam. Devem ter total liberdade de fazer o que querem com o dinheiro, naturalmente fazendo concursos públicos para as posições de pessoal, etc. É uma coisa difícil de mudar, porque o Estado continua a olhar para as universidades como repartições públicas. A semana passada estava a ouvir o presidente de Cambridge a dizer que há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade, e isso já vimos que as universidades e o Técnico, em particular, têm. Depois, de autonomia. O public trust nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

Há duas coisas que a universidade precisa: public trust, ou seja, que as pessoas confiem na universidade (…) e autonomia. [A primeira] nós conseguimos, a autonomia só quando os legisladores mudarem.

Arlindo Oliveira

Qual é a direcção que o Técnico deve tomar nos próximos 10 anos?

Estamos a tentar reforçar as ligações com a sociedade e com as empresas. Temos o programa de Parcerias Empresariais que está agora a ser criado com a comunidade Alumni. Queremos em geral reforçar a transferência de tecnologia e a capacidade de criar empresas e startups. Também queremos internacionalizar mais o corpo docente e os alunos, eventualmente evoluindo para um ensino cada vez mais em inglês ao nível do 2º e 3º ciclos. Há obviamente o desafio orçamental, onde vamos continuar a lutar por outras fontes de financiamento.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico


Texto: Miguel Martinho

Fotografia: Gonçalo Ferreira

Entrevista João Silva – Candidato à Presidência da AEIST

O Diferencial entrevistou a três dias das eleições João Silva, o único candidato à Presidência da AEIST.

João Silva é o actual Coordenador de Gestão e Serviços da AEIST e cabeça da Lista E,  figurando assim uma proposta para a continuidade da lista que finda o mandato.

 

Em seguimento da entrevista com o Presidente cessante, na qual foi admitido que tem de haver uma política de sustentabilidade e responsabilidade orçamental, qual é o vosso plano orçamental para o próximo ano?

Primeiro, é preciso dizer que a dívida foi abatida em 20% neste mandato, o que significa que já temos uma folga um pouco maior do que a do mandato anterior.  Isto não significa que podemos fazer tudo o que quisermos, o objectivo é ir pagando com responsabilidade os planos de pagamento que estão em dia e que têm de ser pagos, fazendo face às despesas que temos. No entanto queremos sempre, e dentro das possibilidades, melhorar ao máximo todas as condições que temos enquanto associação e todos os serviços que fornecemos aos alunos. Como exemplo, posso dizer que a situação dos microondas é uma das situações que estamos a analisar, até para rever o nosso espaço de alimentação, e que estamos a tentar que seja melhorada sem gastos, através de uma parceria ou patrocínio. No entanto, se chegarmos ao caso em que temos de gastar dinheiro, será em prol dos alunos e é o que faremos. Temos de ter noção que não podemos fazer nada megalómano, porque estamos sempre numa posição complicada.

 

Tens em mente algum valor ou percentagem do passivo que tencionam abater até ao final do mandato?   

Nesse campo não temos uma percentagem definida, simplesmente porque não sabemos que coisas podem vir a acontecer no futuro. No entanto, querendo continuar nesse caminho [de sustentabilidade e responsabilidade], talvez a meta dos 20% fosse uma boa meta a atingir.

 

Relativamente à Piscina da AEIST, esta foi encerrada e a última informação publicada foi que estavam a decorrer conversas entre o Conselho de Gestão (CG) e a AEIST. Vai haver algum investimento? Tencionam abrir o espaço novamente este ano? Qual é o uso que tencionam dar ao espaço?

 

A piscina, como foi referido na entrevista ao Rodrigo, para voltar a abrir enquanto piscina, teria de ter obras muito profundas e isso é um investimento que a Associação não consegue fazer. Toda a canalização teria de ser substituída. Além disso, a piscina não é rentável no seu funcionamento normal. Temos de ter em conta que à volta temos concorrência, com melhores condições e preços competitivos. Nem a piscina no seu máximo funcionamento seria rentável para a AE.

Sim, o que está em causa é se a piscina voltará a ser usada como piscina ou se esse plano foi completamente abandonado, a longo ou a curto prazo. A forma de utilização do espaço está indefinida. Com este novo mandato, qual é a tua decisão ou plano para a piscina?

Na minha perspectiva, a perspectiva de quem acompanhou este mandato [como Coordenador de Gestão e Serviços], a piscina enquanto piscina, no Técnico, é uma coisa que tem os dias contados. Como tal, o objectivo seria transformar aquele espaço noutro equipamento com funcionalidade diferente. No entanto, é um investimento que a AE não consegue fazer neste momento. Existem as tais conversações com o CG para saber o que podemos fazer e, neste momento, estamos à espera que o CG avance. Já apresentámos o nosso projecto.

Em que consiste esse projecto?

Implica uma remodelação do espaço da piscina no sentido de ficarmos com um centro de estudos, com algumas salas para os Núcleos e espaço de salas de reunião para as Secções Autónomas.

 

No vosso programa, na rubrica de Administração, há um plano para “Incremento de Recursos na Secção de Folhas” (SF). Em que consiste esse plano?

A SF funciona como venda de sebentas e fotocópias, e o objectivo é aumentar o portfólio de material que se pode vender. Têm decorrido algumas conversas com empresas para podermos vender material informático e computadores, e já temos actividade aberta nas Finanças para que isso aconteça. Pretendemos ainda aumentar o portfólio de material escolar e de escritório para que os alunos tenham uma oferta mais variada.

 

Qual é o sentido da tua candidatura?

Acho que nem vale a pena estar a referir o passado da mais antiga e maior associação de estudantes do País, o que acarreta uma grande responsabilidade. O meu objectivo primário é melhorar a situação em que a AE se encontra, relativamente ao seu passivo, através de uma política de responsabilidade e de gestão consciente. Além disso, espero conseguir que os alunos se aproximem da AE. Noto que há uma grande distância entre os alunos e a AEIST e quero que, durante este mandato, haja abertura para que os alunos se dirijam à AE por todo e qualquer problema que tenham, pois a AE é o orgão que os deve representar e defender.

A proposta do Fórum AEIST serve para complementar esse sentido? É suposto ser aberto aos vários Núcleos e Grupos de estudantes? É suposto ser uma plataforma entre Núcleos ou entre Núcleos e a AEIST?

O Fórum AEIST é uma proposta que já vem de há muito tempo e ainda não pôde ser realizada. Para isso queremos ter uma plataforma de diálogo mais próxima e mais rápida, de modo a que os Núcleos possam, por exemplo, reservar salas directamente com a Associação, visto que actualmente não podem. Queremos ter uma relação próxima com os Núcleos e queremos que a relação com os mesmos seja formalizada, e desta forma será mais fácil. Queremos estar a trabalhar com os Núcleos agora, e pode acontecer que uma próxima direcção não tenha essa filosofia e não queira trabalhar nessa forma. Queremos protocolar as relações entre as duas partes, com um espírito de vantagem para os dois lados.


Entrevista: João Santos

Entrevista Rodrigo do Ó – Presidente Cessante da AEIST

Entrevista ao Presidente cessante da AEIST, em Abril de 2016

 

Uma das principais decisões da direção da AEIST este ano foi publicar na Assembleia Geral de Alunos (AGA) o valor do passivo da AEIST, 415.000€. Qual é o contexto desta dívida? Há quanto tempo começou a ser contraída?

Apesar de termos tido uma perspetiva totalmente diferente da tida anteriormente, eu consigo compreender que, em ocasiões passadas, não se tenha exposto abertamente esta situação, visto ser chocante e fraturante termos chegado a este ponto. No entanto, achámos, tendo em conta o passivo existente, que os estudantes iam compreender pelo menos o porquê da associação não conseguir fazer o mesmo tipo de atividades que fazia antigamente.

Não consigo precisar quando é que esta dívida começou a ser contraída, em grande parte porque foi gerida durante muito tempo. Houve bastante tempo para agir, contudo, era, e é, precisa abertura por parte das várias direções para se perceber que há mudanças a fazer e tendo mandatos tão curtos, de um ano ou dois, torna-se difícil realizar mudanças profundas. Se se for gerindo, vai-se acumulando sempre mais, embora tenham ocorrido flutuações entre crescimento e mitigação de dívida. Para estas flutuações terminarem seria necessária, durante uma série de anos, a existência de uma política, não digo de contingência, mas de responsabilidade e sustentabilidade. Acho que a maneira real como se tem de olhar para uma associação de estudantes é, por um lado, numa perspectiva empresarial e, por outro, numa perspectiva de associação. E a parte empresarial, com todas as actividades correntes, tem de ser no mínimo sustentável e, preferencialmente, lucrativa, de modo a financiar a perspetiva da associação.

 

-Na estrutura da AEIST o Conselho Fiscal (CF), que supostamente deve confirmar e dar o seu parecer sobre os relatórios de contas, não resultou. Não se deveria ponderar uma correção da estrutura da AEIST? Porque é o CF não foi eficaz ao longo deste tempo?

O que eu penso é que não deve haver um acerto à estrutura mas sim um acerto de mentalidades, mais concretamente de como nós gerimos a situação. Analisando a situação de forma simples, o CF recebe o plano de actividades e orçamento no início do ano e, no fim, pede o relatório das respetivas atividades e despesas. No entanto, há muitas medidas tomadas que não têm necessariamente repercussões imediatamente visíveis. Desta forma, há coisas que podem passar despercebidas ao CF ou à direção.

Uma sugestão que deixo aqui, para aqueles que vierem a seguir, é a realização de relatórios de contas trimestrais, de modo a melhor se compreender a evolução durante os mandatos.

 

Outro problema que também pode ser identificado é que, sendo o CF eleito democraticamente, ser recorrente existirem listas com candidaturas paralelas à presidência e aos órgãos de controlo, o que pode retirar alguma imparcialidade ao CF. Não há também a possibilidade de alterar a forma de eleição? Elegendo o cargo num regime menos transitório ou com imparcialidade mais definida, recorrendo, por exemplo, ao Conselho de Gestão do Técnico (CG)?

Antes de responder, discordo completamente que o CG tenha algo a ver com a AEIST e acho que tem de ser uma máxima, que algumas vezes tem sido esquecida, o facto de a AEIST ser completamente independente do CG para que, assim, possa defender bem os direitos dos alunos.

Quanto à questão das candidaturas paralelas, não acho que isso seja necessariamente um problema, pois não implica que não exista profissionalismo. De facto, a minha lista de CF foi constituída por pessoas que já tinham pertencido a mandatos anteriores, enquanto a minha lista de direção era composta por 95% de pessoas novas, não foi uma lista de continuidade. A candidatura para o CF era constituída por pessoas do mandato anterior e de outras abrangências do técnico, com perspetiva de querer nesse órgão pessoas que não tivessem problemas em questionar-me. Não quer isto dizer que não aconteça tomar-se uma decisão errada, visto estarmos tão envolvidos no meio em que estamos a trabalhar.

Sim, essa responsabilidade também não é só de quem se está a candidatar mas, deve ser responsabilidade dos alunos ou da estrutura democrática…

Sim, se houvessem mais listas, mas isto remete para outro problema que é a participação dos estudantes na vida associativa ou governativa, que é mais preocupante.

 

Continuando no âmbito financeiro da AEIST, na AGA deste ano foram referidos os balanços dos 2 últimos anos letivos, sendo estes negativos, de 150 mil euros em 2014 e 40 mil euros em 2015. Este ano, já se consegue dizer se em Maio o balanço será positivo?

Existiram várias nuances em 2014 devido ao projecto Copypoint, que teve um investimento grande, mas não foi essa a única razão. Estamos a falar de uma situação de crise económica e a AEIST é sustentada por apoios do IPDJ, da CML e do Técnico, que também tiveram as suas estruturas reduzidas e cujos apoios foram cortados. Julgo ter sido uma das nossas principais vulnerabilidades.

Enquanto o ano não acabar efectivamente, não te posso avançar se vamos ter lucro ou não, nem te consigo adiantar valores. Mas posso avançar-te que ainda estamos com resultado positivo e abatemos 20% do nosso passivo, o que já é bastante bom. Nesta cadência, ainda vamos demorar 4 anos até estarmos completamente sustentáveis.

 

A piscina da AEIST, tinha sido encerrada em fevereiro de 2015, o vosso plano é reabilitar a piscina fazendo uma parceria com o técnico? Qual é esse plano?

A piscina foi encerrada na altura por uma questão de segurança, mas foi nos entregue no inicio do mandato já com capacidade  de ser aberta, a decisão de não a abrir foi minha. Mesmo na altura em que a piscina funcionava em pleno, tínhamos prejuízos mensais a rondar os 6 mil euros. As dimensões da piscina tornaram-se uma limitação, só tem 4 pistas de 25 metros de comprimento, e tornam-na inviável, porque a piscina costumava estar cheia. Como não é possível expandir a piscina e abriu muita concorrência recentemente à nossa volta, que pratica preços muitos baixos, é difícil mantermos o nosso género de mercado. A hipótese alternativa, que seria renovar um pavilhão de 1937 para condições exuberantes, para se poderem aplicar preços mais altos, implicaria uma exuberância de dinheiro também, que não é oportuna.

Depois de tomada esta decisão, surgiu a necessidade de revermos o que podemos fazer com a piscina, tivemos reuniões com o CG do Técnico e com a reitoria da Universidade de Lisboa. Há várias possibilidades a ser discutidas e vamos analisar em breve, com arquitetos indicados pelo Técnico e com o vice-presidente da Gestão de Espaços do IST, outros usos possíveis para o pavilhão.

 

Outro assunto, apresentado no plano de actividades da vossa candidatura e também no discurso de tomada de posse, é o vosso objectivo de “mudar o paradigma de desinteresse da nossa geração”, como aproximar a AEIST dos alunos. Como avalias o teu trabalho, ou como é a tua antevisão de como consegues acabar o ano, relativamente a este assunto?

A mudança do paradigma de desinteresse não é um processo que se resolva de um ano para o outro. Não há uma alavanca mágica que se possa puxar para resolver o problema.

Considero que tem havido mais abertura este ano, pelo menos dentro dos membros da AEIST e dentro da própria direção, à qual até dei um pequeno mote para que fossem capazes de saberem eles próprios, por convivência, quais são os problemas dos alunos do técnico e não se fecharem no edifício da associação, ao inverso do que se via no passado. Eu não consegui sair tantas vezes como queria, mas uns “sacanas” ainda conseguiram umas fotografias minhas a estudar no Aquário [Risos], porque é verdade, eu estudo. Não tenho muito tempo para o fazer, mas estudo.

Contudo, é complicado a AEIST credibilizar-se perante os alunos se não consegue ter noção dos seus problemas, o que só consegue com contacto permanente. É um traço comum haver muitas queixas entre colegas, mas não é vulgar entenderem que se levarem essa queixa à associação o resultado pode ser diferente e que não cai em ouvidos moucos. O problema é este distanciamento entre o aluno, os seus problemas e a associação como estrutura. Acho que se as pessoas compreenderem melhor a Associação dos Estudantes acabará por haver uma maior afluência a esta, com a intenção de ajudar os outros.

 

A direção atual foi eleita com cerca de 700 votos, numa faculdade de 12.000 alunos, o que demonstra que não há essa concretização de interesse. Onde é que isso pode ser corrigido? Mas, em consciência de que é difícil ser a AEIST a ter de se corrigir sozinha, sendo só um lado da questão. Qual é o sentido de resolução do problema?

Isto é parte de um problema muito maior que não podemos ver como algo específico do Técnico, pois atinge a nossa geração a nível nacional. É um panorama de descrédito dos jovens nas estruturas representativas e governativas. Não acreditam que sejam capazes de realmente os representar ou ajudar a resolver problemas; o que vem desde cima: governo, autarquias, por aí a baixo. O que acontece é, em concordância com essa perspectiva que já têm de outras instituições, olham para a associação da mesma forma.

Mas na nossa perspectiva interna, cabe-nos a nós tentar fechar este gap, encontrarmos os problemas dos alunos, demonstrar-lhes que os conseguimos resolver e que não caiu do céu. Várias vezes a AEIST resolve problemas em conjunto com o Técnico, no entanto, é o Técnico quem lança a notícia de como foi corrigido e de como vai passar a funcionar, o que agrada os alunos, mas depois ficam com a ideia que a resolução foi ação exclusiva do CG, quando foi a AEIST a pressionar e a queixar-se das situações. Não nos damos a conhecer como queríamos.


Entrevista: João Santos

Entrevista – Roberta Medina

A entrevista que se segue é da autoria de Inês Mataloto e Gil Gonçalves, e foi feita no âmbito da comemoração dos 30 anos de existência do Rock in Rio. A Roberta Medina, Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio, partilha um pouco do que tem sido a história deste festival de música.

Rock-in-Rio

 

  1. Este ano, o Rock in Rio celebra 30 anos de existência. Quais considera terem sido os pontos mais marcantes de todo o processo de desenvolvimento do festival até agora?

Realizar a primeira edição do evento no Brasil, “contra tudo e contra todos”, e reunir 1.380.000 pessoas em dez dias de música e em paz. Conseguir pôr o Brasil no mapa do entretenimento mundial. Ser o primeiro festival de música organizado do mundo e tornar-se uma referência internacional. Os três minutos de silêncio Por Um Mundo Melhor em 2001, que tiveram impacto em 90 milhões de pessoas ao mesmo tempo através dos meios de comunicação. A estreia do evento em Portugal, provando que o sonho da internacionalização era viável. A estreia nos Estados Unidos, levando novidade na forma de fazer e na oferta do evento, mesmo para um mercado tão forte na área do entretenimento como o americano.

 

  1. Roberto Medina criou, celebremente, o festival após uma discussão com a esposa, onde esta o espicaçou dizendo que “não tinha ainda feito nada de realmente grande no seu país”. Três décadas corridas, o que ainda vos motiva, não só a voltar ao Brasil como a expandir fronteiras e palcos?

O que nos motiva é o facto de criarmos um movimento global Por Um Mundo Melhor. É usarmos a música como plataforma para mobilizar pessoas por todo o mundo por uma mesma causa. Nós sentimos o poder das pessoas unidas a cada espectáculo, sentimos que aqueles milhares de pessoas cantam juntas. Queremos fazer com que essa força seja usada para construirmos, juntos, uma sociedade mais harmónica.

 

  1. Como surgiu a ideia do Rock in Rio e como foi todo o processo de preparação para a primeira edição?

O Rock in Rio surgiu de uma visão do Roberto. Como o próprio costuma dizer, o Rock in Rio é que o procurou, e não o Roberto que o procurou a ele. O Roberto estava descontente com o país e, depois de anos de ditadura militar, ele queria fazer algo realmente impactante capaz de unir várias tribos para mostrar uma juventude forte, com liberdade de expressão. E queria também promover o Rio de Janeiro como destino turístico a nível internacional, já que nesta altura o Brasil não era um destino apetecível.

Mas depois de desenhar a ideia, rapidamente começou a perceber as dificuldades em executar a mesma! Na época, era muito complicado levar para o Brasil qualquer banda internacional porque custava o dobro do que levá-la a qualquer outra parte do mundo; o país não estava sequer preparado para um evento desta dimensão e não existiam infra-estruturas; os bilhetes custavam pouco e para financiar um projeto desta envergadura o Roberto sabia que era preciso angariar patrocinadores, o que era impensável nesta altura. Durante quase 70 dias o Roberto não foi bem-sucedido em nenhuma das suas abordagens. Teve que bater em muitas portas e levar muitos “nãos”. Foi então que se lembrou de usar uma última cartada, chamada Frank Sinatra. O Roberto tinha trazido o artista para atuar no Brasil e eles criaram uma relação, pelo que resolveu pedir a sua ajuda para conseguir promover um encontro com os grandes players do showbiz, para conseguir apresentar o Rock in Rio a agentes e artistas e cativá-los. A estratégia funcionou e, no dia seguinte, já diversos jornais divulgavam o evento!

O passo seguinte foi pensar em como conseguir investimento e atrair o público e foi aí que chegou ao conhecimento do Roberto que a Brahma, cervejaria, na altura cliente da agência dele (Artplan), queria aproximar-se mais do público jovem. E, como publicitário, o Roberto acabou por fundir as duas coisas e conseguiu, não só investimento para montar o Rock in Rio, como respondeu com o maior dos sucessos ao briefing da Brahma, que acabou por lançar uma nova cerveja e experimentá-la perante o público de mais de um milhão de pessoas!

 

  1. De que forma a legenda atribuída em 2001 (Por Um Mundo Melhor) ainda se reflecte nos ideais do festival?

Com o projeto “Por um Mundo Melhor” o evento assumiu o compromisso de ser mais do que música e entretenimento, passando a usar o seu mediatismo e a capacidade de mobilizar massas para sensibilizar as pessoas na construção de um mundo melhor. Isso passa por assumirmos causas sociais ou ambientais a cada edição, contribuindo ativamente com elas, e, acima de tudo, com vários exemplos que podemos dar através das nossas ações e escolhas.

Já investimos, desde 2001, juntamente com os nossos parceiros, mais de 24 milhões de euros em causas diversas; em 2006, o Rock in Rio compensou, pela primeira vez, a sua pegada carbónica, o que permitiu, em 2008, implementar um manual de boas práticas com vista à redução da pegada carbónica que, por sua vez, em 2010, evolui para um plano de sustentabilidade, integrando questões sociais e económicas. O Rock in Rio é, também, o único evento com a certificação na ISO 20121 – EVENTOS SUSTENTÁVEIS, desde 2013.

Na prática, todas estas ações resultaram em fatos concretos como: os resíduos produzidos tiveram, até ao momento, uma taxa média de reciclagem de 71%; até 2016 termos plantado cerca de 300 mil árvores; instalamos 760 painéis solares que geram rendimento permanentemente para projetos sociais através da Sic Esperança; doámos 15.632 refeições; compensámos as emissões de CO2 do evento, entre muitos outros resultados a nível nacional e internacional. Ou seja, para além das ações no recinto aliadas às preocupações de redução da pegada carbónica, reciclagem dos resíduos produzidos, entre outras, mantemos o nosso compromisso de contribuir para uma comunidade mais justa e equilibrada e apostamos na compensação dos nossos impactos e em potenciar os impactos positivos. Esta visão tem vindo a crescer e é um compromisso que faz parte do ADN da marca e do evento que é hoje internacional, tornando este compromisso também ele global, nunca esquecendo a nossa ação local a cada edição.

Agora estamos a lançar o Amazonia Live, o primeiro projeto transversal a todos os países onde o Rock in Rio está, e que se vai estender por mais de uma edição, até 2019. Com este projeto, o Rock in Rio compromete-se a plantar 1 milhão de árvores na Amazónia, o “pulmão do mundo”, mas tem como objetivo atingir os 3 milhões e, para isso, vai motivar parceiros e fãs a abraçar esta causa sob o mote “Mais do que Árvores, Vamos Plantar Esperança”. A Amazónia foi a zona escolhida porque tem impacto em todo o mundo uma vez que abriga a mais importante reserva de biodiversidade do mundo, tendo um papel fundamental na redução do impacto do aquecimento global.

 

  1. O Rock in Rio desde as suas origens que agrega multidões recordistas, tendo tido um enorme impacto nos amantes de música de todo o mundo. E a sua recepção pelos próprios músicos como foi? O que sente ao ouvir estrelas como James Taylor apontarem o festival como um momento transformador e singular?

É muito emocionante, é a prova concreta do poder transformador da música e do poder das pessoas unidas por um mesmo objetivo, força essa que atinge não só quem assiste mas quem faz. Antes do primeiro Rock in Rio só havia o Woodstock, e este tornou-se uma referência para muitos dos grandes músicos que estão em tournées hoje em dia, tendo sido o sonho de meninos que estavam a começar suas carreiras e que desejavam um dia tocar naquele palco. Ouvimos isso de artistas como os Metallica, 30 seconds to Mars e muitos outros.

 

  1. O festival foi palco de momentos tão díspares e caricatos como disparos de canhões, travessias de moto e beijos. É a imprevisibilidade o factor transversal à música ao vivo, que nunca a envelhece ou entedia? 

É a vontade de fazer as pessoas felizes! Nas 12 horas de festa que se vive na Cidade do Rock, em dias de evento, a nossa principal preocupação é para com as pessoas, com o seu bem-estar e o seu conforto. E é o facto de conseguirmos, num clima de enorme festa, fazer as pessoas conviverem umas com as outras, num clima de união e felicidade, que torna este evento único. A vibração que se vive na Cidade do Rock é demasiado forte para, algum dia, entediar!

 

  1. O que distingue o Rock in Rio Lisboa dos restantes?

Com certeza o Parque da Bela Vista, que é um ambiente natural único para acolher os milhares de pessoas que vão para curtir as 12h de festa em cada dia de evento. Outra diferença é o público português, que recebe os artistas de forma intensa e vibrante, além de ter um comportamento exemplar. A atmosfera do Rock in Rio Lisboa é muito especial, o clima que se vive na Cidade do Rock é o palco perfeito para fazer desta experiência algo ainda mais feliz e inesquecível.

 

  1. Qual a edição de que mais gostou? Porquê?

2012 foi uma edição que me comoveu muito porque o país estava num clima muito deprimido por causa da crise e o que se viveu dentro da Cidade do Rock foi exatamente o contrário. O Parque da Bela Vista tornou-se uma bolha de alegria que serviu para recarregar as energias e renovar a esperança de quem passou por ali e dos milhares de pessoas que acompanharam o evento pela televisão. Isso faz com que o nosso trabalho tenha um valor ainda mais especial.

 

  1. Qual o concerto a que mais gostou de assistir?

Ao longo de tantas edições é difícil escolher um só concerto. Afinal, já passaram pela Cidade do Rock cerca de 1.500 artistas. Mas houve um concerto que me marcou recentemente: o dos Queen com Adam Lambert, na edição de 2015 no Rio de Janeiro. Quando eles puseram um público imenso a cantar “Love of My Life”, em 1985, eu era muito nova e não assisti a esse momento mas ouço falar dele há 30 anos! Em  2015, eles voltaram e foi muito emocionante ver as pessoas a levarem as suas famílias para relembrar aquele momento. E agora eu também já tenho o “meu” Love of my Life! (risos)

 

  1. Qual a música que mais a comoveu?

Primeiros erros do Capital Inicial e Circo de Feras do Xutos & Pontapés.

 

  1. O que podemos esperar do Rock in Rio no futuro?

Enquanto marca, ser cada vez mais global e mobilizadora de pessoas em prol de um mundo melhor. Enquanto evento, continuar a liderar o nosso segmento no que cabe à entrega de qualidade, à inovação, à qualidade das infra-estruturas, das atrações e do line up world class que entregamos sempre ao público.

 

  1. O festival sempre se caracterizou por trazer os maiores nomes, os criadores de hits e tendências. Porque não apostar também em grupos menos conhecidos, divulgando-os de forma única?

Um dos aspetos diferenciadores do Rock in Rio desde sua primeira edição foi sempre misturar estilos musicais e talentos de renome com outros menos conhecidos. Pelo perfil do público do evento, a presença de grandes nomes tem que ser sempre maior. O Palco Vodafone, por exemplo, tem precisamente o objetivo de trazer para o evento artistas de um segmento mais restrito, o da música alternativa. Uma das grandes oportunidades neste caso é justamente dar a conhecer estes talentos – alguns já com grande notoriedade no seu segmento – para um público mais massivo.

Fizemos isso quando fomos um dos primeiros festivais a dedicar um palco à música electrónica, em 2001, quando ela ainda atingia apenas um segmento de nicho. O mesmo aconteceu no caso do Palco Raízes com a World Music em duas edições do evento, o Hot Stage que foi dedicado aos novos talentos em 2008, o Sunset que continua a promover encontros únicos de artistas de renome com novos talentos.

No Palco Vodafone, este ano, vamos voltar a receber grandes nomes internacionais como os irreverentes e eletrizantes Black Lips, o trio canadiano Metz, os brasileiros do rock psicadélico Boogarins, as espanholas Hinds e até uma das maiores revelações dos últimos tempos, os Real Estate. E a nível nacional, marcarão presença nomes como Keep Razors Sharp, Sensible Soccers, Capitão Fausto e até o conhecido por uma capacidade de produção surpreendente, B Fachada. Para além destes nomes, a opening slot deste palco ficará a cargo da Vodafone Wild Card – novos talentos na música portuguesa.

 

  1. Pela altura desta edição de 2016, os alunos do Técnico ainda estarão submersos em trabalho. Convença-os a largar os estudos pela música.

Faz uma pausa nos estudos e vem recarregar as energias no Rock in Rio-Lisboa! Festa, festa e festa, é isso que vamos oferecer a todos os que passarem pela Cidade do Rock nos cinco dias de evento. Desde o Palco Mundo ao Palco Vodafone, passando pela Eletrónica, com a novidade das pool parties, e pela Rock Street e Street Dance, o maior evento de música e entretenimento do mundo vai ter atuações únicas de artistas de topo, com hits que vão fazer toda a gente cantar e dançar da primeira à última música. E estamos prontos para vos receber numa Cidade do Rock ainda mais bonita, com muitas atividades e muita música boa!


Entrevista: Inês Mataloto & Gil Gonçalves

Entrevista a João Jerónimo do Movimento Técnico

O Diferencial foi entrevistar João Jerónimo, membro do Movimento Técnico, de modo a perceber como se rege e o que motiva o movimento político de estudantes ávido de mudança que promete, entre outros, lutar pelo direito a um ensino superior “Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade.”

Quando e por quem foi criado o Movimento Técnico? Fala-me um pouco sobre a motivação que levou à sua criação.

João: O Movimento Técnico foi criado no início do ano lectivo de 2009/2010 por um conjunto de estudantes do Técnico. O objectivo é mobilizar os estudantes do IST para que lutem pelos seus direitos, para que desse modo possamos todos defender e construir esses mesmos direitos. Apesar de o IST ter uma história de participação nas lutas estudantis, nomeadamente na época das lutas contra a ditadura fascista, verifica-se que a Associação de Estudantes se encontra na maior parte das vezes desligada das lutas actuais. Pretendemos mudar isso. Nesse sentido, o Movimento propõe-se fundamentalmente a envolver os estudantes nas decisões que lhes dizem respeito e a dar o exemplo, para que no IST haja um exemplo de luta e de protesto consequente contra as políticas que hoje prejudicam os estudantes.

No vosso manifesto comprometem-se a “mobilizar os estudantes para que reivindiquem o seu direito a um ensino superior Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade”. Na prática, como é que levam a cabo esta tarefa?

João: O Movimento Técnico recorre a todos os meios de que dispõe, desde os mais clássicos, em que conversamos presencialmente com as pessoas, como a distribuição de panfletos, a recolha de assinaturas e a convocação de concentrações, até aos mais tecnológicos, como o recurso ao Facebook. A mobilização dos estudantes é uma tarefa complexa mas muito necessária, pois sem ela não é possível os estudantes defenderem os seus direitos. Procuramos envolver as pessoas sem fazer grandes exigências, pois notamos uma grande dificuldade em conseguir que as pessoas se comprometam. Sabemos que temos muito a ganhar se permitirmos que cada um ajude da maneira que pode. O Movimento Técnico tem participado nos actos eleitorais para os órgãos da AEIST e para os órgãos de gestão do IST, pois vemo-los como espaços de intervenção essenciais, onde poderia ser feito muito mais para envolver os estudantes e tomar posições colectivas pelos seus interesses.

O que é para vocês um ensino superior “Democrático”?

João: O ensino superior de um país democrático tem que ser um sistema capaz de elevar toda a juventude aos mais elevados graus do conhecimento e não um ensino elitista como o que temos actualmente em Portugal. É assim que se consegue contrariar as desigualdades sociais que o próprio sistema económico cria. A maneira de o conseguir torna-se óbvia se olharmos para o que já foi o ensino superior português. Conquistado pelos estudantes, até 1991 tínhamos um ensino superior gratuito, sem propinas, ou seja, sem uma barreira financeira óbvia que impede a igualdade de oportunidades no acesso à educação. Um ensino superior democrático requer ainda que haja bons apoios para quem quer estudar e que as universidades sejam adequadamente financiadas pelo Estado, pois os impostos têm que servir para investir no futuro do país e, actualmente, isso não tem acontecido. Para além disso, é necessário que se re-democratize a gestão do ensino superior, garantindo a participação e o poder de decisão dos estudantes nos órgãos de gestão.

Existe alguma ligação entre o Movimento Técnico e algum outro movimento à escala nacional ou internacional?

João: O Movimento Técnico não está ligado a mais nenhuma organização. Isso não quer dizer que estejamos isolados, nem quer dizer que todas as pessoas que participam no Movimento sejam política e partidariamente neutras. Somos compostos por pessoas variadas com disponibilidades variadas e que podem, obviamente, ter ligação com estudantes de outras faculdades. Somos um espaço de discussão aberto a todos os alunos do IST que desejem reivindicar o seu direito a um ensino Superior Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade. Também os membros do Diferencial estão convidados a aparecer!

Quais são, na tua opinião, os maiores problemas que nós, como alunos, enfrentamos?

João: Na nossa opinião o maior problema é, sem dúvida, os milhares de jovens que gostariam de estudar mas não conseguem suportar os custos. Depois temos os encargos suportados por quem se encontra a estudar, como a necessidade de pagar passes que em alguns casos ascendem aos 100 euros mensais, e a necessidade de comprar materiais para os projectos do curso. Finalmente, há algo que todos sentimos: a degradação geral das condições materiais e humanas do ensino superior, causada pela falta de financiamento. Este último aspecto tem vindo a piorar no IST, com edifícios degradados, fecho de serviços, etc.

Assistimos recentemente a uma alteração da gestão da cantina social de um sistema de concessões para os serviços de acção social. Consideras que esta mudança foi consequência de protestos estudantis? De que forma interveio o Movimento Técnico?

João: Há muitos anos que os estudantes protestavam contra a qualidade vergonhosa que era causada pela gestão privada da cantina. Algum dia o protesto teria de dar resultado e, no semestre passado, o Movimento Técnico foi consistente nos apelos à mobilização, o que teve resultados consequentes e acabou por resolver o problema. Não temos dúvidas nenhumas de que se os estudantes não tivessem agido em protesto contra a situação que existia, ainda hoje comeríamos a mesma comida. E o Movimento incentivou-os para essa acção, por isso estamos orgulhosos do nosso papel. No futuro será igual: ou os estudantes se mobilizam ou corremos o risco de voltar à velha situação.

Como se organiza o Movimento internamente? As reuniões são regulares? Como se processa uma reunião habitual?

João: Procuramos que as nossas reuniões sejam produtivas, mas o mais descontraídas possível. Há normalmente uma ordem de trabalhos que se decide no início. Por vezes escolhe-se alguém para dirigir a reunião, dar a palavra, escrever o resumo, etc, mas o essencial é tornar a reunião produtiva e participada. A nossa intervenção é muito prática, mas sem discutir os temas seria difícil conseguir unir as pessoas. Nas reuniões discutimos as iniciativas que é necessário preparar, sejam a mobilização para uma luta local, para uma manifestação, seja a participação do Movimento nos actos eleitorais, distribuímos tarefas, etc.

Supõe que um aluno do Técnico, ao ler esta entrevista, fica interessado em participar no Movimento. De que modo o pode fazer?

João: As reuniões são geralmente a cada duas semanas, mas não há um dia definido. A melhor maneira é mesmo enviar uma mensagem para a página de Facebook do Movimento, ou para o nosso endereço de e-mail, a perguntar quando será a reunião seguinte (endereços em baixo). Claro que também podem comunicar connosco se nos virem a agir enquanto Movimento Técnico. Temos gosto em que qualquer pessoa apareça nas reuniões, para discutir a acção do Movimento Técnico e o seu possível envolvimento no Movimento.

Mais Informações em:

    • https://www.facebook.com/mov.tecnico
    • movimento-unitario-ist@sapo.pt

Entrevista: Miguel Duarte