MAAT: O Museu com telhados de cerâmica

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15 horas, cinco de outubro: dia da celebração da implantação da república. É dia dessa instituição aclamada por uns e censurada por outros – o Feriado. Sob um sol abrasador, acumula-se, à porta do MAAT, uma multidão. A pausa a meio da semana e a gratuitidade contribuíram para isso.

A ânsia de conhecer o novo museu da cidade é grande. Há pessoas a ignorar a organização improvisada das filas e ouvem-se alguns gritos e impropérios. Cá fora, sobre a calçada, o sol queima e nem os jornais gratuitos do MAAT valem como um bom tapa-sol. Para muitos, quase todos, a espera vale(rá) a pena.
Passados 35 minutos, a espera acaba. 4 anos e 20 milhões de euros depois, a hora chega.

Chegamos ao foyer e olhamos em redor. Um feixe de pessoas entra, ininterruptamente, pela porta. Vemos, do outro lado, um muro. Aproximamo-nos.  Sob os nossos pés, ao longo de uma parede curva que se fecha numa elipse, desdobra-se a primeira sala do MAAT. Impressionante.

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A Sala Oval, o maior espaço do museu.

Lá em baixo, uma rede cobre os quase 4 mil metros quadrados da sala, e sob ela grandes tapetes arrumados como livros. E bolas. Há crianças, velhos e adultos, os primeiros correm atrás das bolas e os segundos e terceiros vigiam-nas ou simplesmente deitam-se sobre os livros.

É a primeira instalação in-site do MAAT. Pynchon Park. Da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster – e é quase tudo o que há do museu. À volta, há uma video room e uma project room. Mas mal se notam.
Soube a pouco.

Mas se é verdade que um bom livro não se consegue julgar pela capa, o MAAT é o corolário do inverso – um bom edifício cujo interior não lhe faz jus. É um facto.  Impressiona pela forma e pela sua inclusão na cidade. Diríamos, ao contrário do costume, que o espaço foi feito para aquele edifício.

O imenso terraço é uma alucinação. Uma simples protuberância na marginal. Iluminado por todos os lados (a luz, essa, é a rodos!) conta com o revestimento em cerâmica para ajudar à festa.

“O nosso lugar é nos dois lados da luz”. Sim, mas da artificial!

À entrada do MAAT está escrito algo como “O nosso lugar é nos dois lados da luz”, pode até ser verdade, mas, do lado de dentro, a luz que vem de fora não entra. Apenas a energia da EDP serve para iluminar os espaços. Embora não o sintamos, estamos numa cave. Alta, ampla e muito iluminada. Não é em si um incómodo e muito menos será um problema, isto permite escurecer a sala por completo e fazer, por exemplo, projeções localizadas – a instalação de Foerster tira já partido disto.

Do MAAT muito e muitos esperavam – 60.000 pessoas, são raras em Portugal as inaugurações de espaços como este – alguns terão saído desiludidos, outros encantados, alguns até indiferentes. Mas com as obras do edifício a estarem concluídas apenas em 2017, muito ainda está por fazer e mostrar. Então, voltaremos a escrever…

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À entrada do MAAT, visitantes acumulavam-se à medida que a tarde ia chegando ao fim.

Texto: Afonso Anjos

Fotografias: Afonso Anjos

Galeria: Gonçalo Ferreira

Agenda Cultural para Outubro

MÚSICA_
(6) Prof Jam – Copenhagen. Após uma temporada em Londres, ProfJam organizou um Get Together para dizer a toda a gente que está de volta a Lisboa. Para fãs de rap português e curiosos.(8) Nu Sta Djunto Benefit Show – Disgraça. Concerto de música alternativa (punk, post-hardcore e experimental) para caridade, encabeçado por Treehouses 2290.

 

(21) ¡Matinée Monc! – “A monc é uma collectiva de pessoal que faz cenas em conjunto. E para mostrar esses projectos ao pessoal vai ser feita esta matinée!” Com Império Pacífico e um Morning Coffee às 12h, o espectáculo promete.

FESTIVAIS_
(de 6 a 9) OUT.FEST Diversos locais no Barreiro. O Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, um festival de vanguarda que apresenta músicos experimentais de todos os cantos do hemisfério. Inclui workshops com os arrtistas e visitas à cidade.

(de 24 a 30) Jameson Urban Routes – MusicBox. Festival indoors no familiar espaço do MusicBox que conta com a presença de Sensible Soccers e MUITOS outros.

CONFERÊNCIAS_
(4 de outubro) Música e Ciência – Culturgest. Iluminismo, romantismo e eletromagnetismo (sécs. XVIII e XIX) – razão e emoção, entre Mozart e Maxwell, em busca da felicidade e das leis da natureza.

(11 de outubro) Música e Ciência – Culturgest. Realidade, abstração e espiritualidade. Do infinitamente pequeno ao infinitamente grande (sécs. XX e XXI) – os caminhos de Schoenberg, Einstein, Heisenberg e Stockhausen.

TEATRO_
(de 13 a 15) O que é que o pai não te contou da Guerra? – Teatro São Luís(de 13 a 29) Comedia.Paradiso – Teatro São Luís

 

(de 14 a 16) No dia em que os cães se revoltaram – Teatro São Luís

(até 22 de outubro) O Rio – Teatro da Politécnica

(até 9) Música – Teatro da Cornucópia

(até 9) O pato SelvagemTeatro Nacional D. Maria II

(até 30) Constelações Teatro Aberto

(de 7 a 9) Mastodonte Teatro Nacional D. Maria II

(de 13 a 29 de outubro) A beleza, pequena conferênciaTeatro Nacional D. Maria II

(20 de Outubro a 18 de Dezembro) O Terrorista Elegante – Teatro A Comuna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Curada por Matilde Outeiro e Francisco Carvalho.

Estórias do Indieota Festaval

No berço do Montijo surgiu o Indieota: um festival puramente alternativo projectado pelo Luís D’Alva Teixeira, um rapaz com a ideia de trazer e reunir as bandas que aprazem a um fiel nicho da população. De 9 a 11 de Setembro passaram pelo TimeOut Bar e pelo Bot’Abaixo bandas que representam o contexto underground do distrito de Lisboa e arredores. Desde bandas locais como Postcards from Wonderland até nomes mais sonantes como Pista; o festival animou-se ao longo de três dias.

indieotaDia 9 começou com um anúncio agridoce: Mighty Sands não iriam tocar. Para os substituir? Cave Story que, já presentes como Eternal Champions, tiveram a graciosidade de actuar também sob o nome do projecto principal. As reacções foram mistas, mas o festival prosseguiu com optimismo.

As actuações de destaque do dia foram diversas. This Attic’s Home, o projecto solo de Alex Domingos, cantautor local, presenteou-nos com uma íntima (e ansiosa) demonstração de vulnerabilidade nas suas canções entoadas com um timbre “Dylanesco”. Outra surpresa agradável foi Odyssey Os Argonautas, outfit psicadélico lisboeta, que nos levaram numa jornada sensorial por uma versão possível do deserto da Arábia.

A jóia da coroa do primeirodo Indieota Festaval, no entanto, estava sem dúvida entre linhas de uma Cave Story. Os filhos das Caldas, meninos dos olhos do indie português, subiram ao palco: foi um deleite ver todos os rostos na sala do TimeOut iluminados com os seus quando se apresentaram como “banda de rock profissional”. O concerto começa descerimoniosamente com ‘Cleaner’; a audiência recita, de pulmões cheios e em coro, os versos cíclicos de ‘Richman’ e dança em êxtase ao som de ‘Southern Hype’. ‘Prime Time’, do novo EP ‘Garden Exit’ é uma nova favorita do público, que aplaude em antecipação ao ouvir as quatro notas iniciais.  Apresentam uma faixa nova, sem revelar o título; uma música da repetitivadade característica do”quase-krautrock” da banda e que foi muito bem recebida. Falta o resto do álbum!  Um precalço relacionado com crowdsurfing interrompe o concerto por momentos, mas depressa recomeçam com ‘Hair’, melancólica, de explosão emocional, pontuada por solos de guitarra esquizofrénicos e provocadores. O concertotermina ao som de ‘Fantasy Football’ e a banda despede-se tão depressa quanto chegou.

No segundo dia os repórteres ficaram na conversa fiada até ouvirem os sons de Morning Coffee pelo canto do ouvido. Este concerto transmitiu uma energia única, será pelo trompete, pela desorganização aparente dos instrumentos ou do peito do vocalista exposto, renegando a t-shirt? Não sabemos, mas foi um som bem elaborado. Por vezes escapavam para o seu registo mais melancólico, instrumental – abusando do trompete ou do baixo – não tiveram medo de se expor através da melodia.

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Morning Coffee no TimeOut Bar

Ditch Days começaram algo apreensivos. As poucas pessoas presentes pareciam pouco; talvez lhes tenha passado este pensamento na mente. No entanto logo que se puseram confortáveis tocaram o seu som. A guitarra complexa, emboramuito semelhante a outras bandas que por ali passaram. Mas no geral a música era catchy: atiravaos ouvintes à viagem lenta pelamelodia e agarrava-os de volta com os seus solos impressionantes. ‘Melbourne’ foi tocado perto do fim, puxando a sua veia do dream pop e atraindo a audiência para a sua música mais em voga. No fim uma voz do público ressoa “Toca lá mais uma, vocês são do caralho!”. Ditch Days acabam com uma bateria a la Green Day, seguida do seu piano característico, em conjunto com a guitarra a emitir um solo imundo que pontuou o concerto que roubaria o protagonismo do dia.

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Ditch Days no TimeOut Bar

Grand sun, vindos de Alfragide, vieram animar outras bandas sem receio. António nos teclados mostrou-se à vontade para comunicar entre as músicas que tocava profusamente. Impressionaram pelo arranjo sonoro, os teclados que sempre estiverem fortes integraram-se com a bateria que muito capaz de seguir qualquer registo musical. Em ‘Lev Yashin’ e ‘Ludovic’ notaram-se mais as notas do baixo, lowkey noutras músicas. Tocaram ‘Timekeeper’ como sempre: um começo de piano e bateria que embriaga os ouvintes no seu ritmo. Segue-se o grito da guitarra que junta todos os instrumentos. Despedem-se do Montijo com um concerto que revela a sua evolução ao longo deste ano.

Quando chegámos ao terceiro dia já interiorizávamos o Indieota de forma diferente. Nem espaço, nem as bandas nem o festival no todo representava o mesmo. Nesse sentido o festival cresceu como uma ideia no fundo da mente o que é sempre positivo porque a personalidade de um festival é o que faz as pessoas voltar. Contudo, o Indieota teve os seus problemas. A falta de organização em horários, de atenção dada às bandas, ou o facto de não apelar a uma população indecisa com o seu passe geral de cinco euros.

Cada pequeno pormenor pesou; isso viu-se na pessoa para quem este festival representava o culminar de trabalho e sacrífico, o Luís Teixeira. O que retemos do festival não foram as coisas más que eram evidentes mas aquilo que o Indieota tornou possível e que não é realçado o suficiente: expressão. Ver uma banda como Postcards from Wonderland não é um deleite melódico mas ver três jovens a divertirem-se como nunca, dando a uma audiência uma janela parao seu mundo privado é aquilo que o Indieota representa. É por ver cervejas a serem pagas pelo público, por haver meia dúzia de almas na pista a dançarem com toda a sua vitalidade pela música que fomos ao Indieota e é daí que vem o afecto pelo festival.


Texto: Francisco de Azevedo & Francisco Carvalho

This Glorious No Age

Após um hiato, os Youthless voltam à carga.

This Glorious No Age é o primeiro LP do duo, sucedendo aos Eps Telemachy e Monsta. Trata-se de um registo fervilhante, camadas e camadas de densos instrumentais sobrepondo-se em lancinante tensão. É um disco onde a banda mostra que o ruído, tal como as palavras, não deve ser gasto em vão.

 

Meses antes [a entrevista pode ser lida em http://diferencial.tecnico.ulisboa.pt/2016/01/13/youthless-e-a-evasao-pela-arte/],numa tarde ressacada de Outubro, Alex (voz e bateria) havia-me exposto parte do conceito artístico subjacente ao álbum:

“Retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada. Não é arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não é um lamento ou uma lição, mas creio que tem uma componente social implícita, como toda a arte. É uma obra contemplativa, que descreve a viagem desde o mundo pré-eléctrico até ao caos tecnológico moderno. “

De facto, This Glorious No Age apresenta-nos uma experiência itinerante , impressões vigilantes da desordem quotidiana. Ao longo de faixas como “Sail On” e “High Places”, expõe-nos uma realidade que sempre vimos, mas em que não reparámos.

O álbum funde momentos catárticos e tumultuosos (de que “Skull and Bones” e “Lightning Bolt” são exemplos) com interlúdios ominosos, de synths em aflitivo desvario (em “Pale Horse”, por instância, a internet faz-se som, e presenciamos o transe sónico do ultra-moderno).

this gloriousAo riff distorcido e estrepitante de “New Wave Suicide” opõem-se as vezes reminiscentes do plano onírico, em “Silver Apples”, e ao refrão cristalino de “High Places o pranto pungente de “Holy Ghost”.

 

“Só agora estamos a sentir as ramificações da invenção da electricidade, pois a tecnologia superou a capacidade de assimilação psíquica do ser humano. Este disco é a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirmara, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar. Trata-se de um álbum muito influenciado por Marshall McLuhan.[um dos fundadores da teoria dos Media e quem cunhou os termos global village e the medium is the message]”.

 A composição assume a sua maior expressividade em malhas como os singles “Golden Spoon” e “Attention”. No primeiro, reverberações primárias alertam a hecatombe. A bateria pujante dá o mote, acompanhando o refrão que não resistimos a cantarolar, em concordância com o fim inevitável. É um hit que não foge, contudo, á matriz ruidosa que os caracteriza. Os breaks tombam em massa, antecipando o feedback, término animalesco de veia noise à No Age (duo americano).

De realçar, ainda, “Black Keys White Lights”, onde fazem do barulho, belo. Nesta música, os coros infantis (os próprios filhos do baixista Sab foram os ilustres convidados) vaticinam a transformação premente, em irónica afronta.

“O meio eléctrico descentraliza tudo, dá espaço e credibilidade a todas as vozes e perspectivas e, por isso, desaglomera o poder”, frisara Alex. “A desilusão colectiva com a política irrompe. A verdade é relativizada. Vivemos numa era onde a informação mudou a natureza das coisas.”.YouthlessTGNA

 

É com esta estratificação ideológica em mente que, em “Lucky Dragons” – canção belíssima que encerra o projecto – saltamos no vazio, após a quebra súbita na muralha sónica.

Lúcidos mas não menos alienados, convencemo-nos de que as horas se gastam. Resta-nos contar minutos e desfrutar de bandas como esta.

Afinal, por muito que o recado fatídico incomode, quando os mensageiros são desta qualidade, merecem ser poupados.

 

–Single “Golden Spoon”: https://www.youtube.com/watch?v=PkSWyuhrYGQ

–Os Youthless tocam dia 8 de Julho no Optimus Alive.


Texto: Gil Gonçalves

Entrevista – Roberta Medina

A entrevista que se segue é da autoria de Inês Mataloto e Gil Gonçalves, e foi feita no âmbito da comemoração dos 30 anos de existência do Rock in Rio. A Roberta Medina, Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio, partilha um pouco do que tem sido a história deste festival de música.

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  1. Este ano, o Rock in Rio celebra 30 anos de existência. Quais considera terem sido os pontos mais marcantes de todo o processo de desenvolvimento do festival até agora?

Realizar a primeira edição do evento no Brasil, “contra tudo e contra todos”, e reunir 1.380.000 pessoas em dez dias de música e em paz. Conseguir pôr o Brasil no mapa do entretenimento mundial. Ser o primeiro festival de música organizado do mundo e tornar-se uma referência internacional. Os três minutos de silêncio Por Um Mundo Melhor em 2001, que tiveram impacto em 90 milhões de pessoas ao mesmo tempo através dos meios de comunicação. A estreia do evento em Portugal, provando que o sonho da internacionalização era viável. A estreia nos Estados Unidos, levando novidade na forma de fazer e na oferta do evento, mesmo para um mercado tão forte na área do entretenimento como o americano.

 

  1. Roberto Medina criou, celebremente, o festival após uma discussão com a esposa, onde esta o espicaçou dizendo que “não tinha ainda feito nada de realmente grande no seu país”. Três décadas corridas, o que ainda vos motiva, não só a voltar ao Brasil como a expandir fronteiras e palcos?

O que nos motiva é o facto de criarmos um movimento global Por Um Mundo Melhor. É usarmos a música como plataforma para mobilizar pessoas por todo o mundo por uma mesma causa. Nós sentimos o poder das pessoas unidas a cada espectáculo, sentimos que aqueles milhares de pessoas cantam juntas. Queremos fazer com que essa força seja usada para construirmos, juntos, uma sociedade mais harmónica.

 

  1. Como surgiu a ideia do Rock in Rio e como foi todo o processo de preparação para a primeira edição?

O Rock in Rio surgiu de uma visão do Roberto. Como o próprio costuma dizer, o Rock in Rio é que o procurou, e não o Roberto que o procurou a ele. O Roberto estava descontente com o país e, depois de anos de ditadura militar, ele queria fazer algo realmente impactante capaz de unir várias tribos para mostrar uma juventude forte, com liberdade de expressão. E queria também promover o Rio de Janeiro como destino turístico a nível internacional, já que nesta altura o Brasil não era um destino apetecível.

Mas depois de desenhar a ideia, rapidamente começou a perceber as dificuldades em executar a mesma! Na época, era muito complicado levar para o Brasil qualquer banda internacional porque custava o dobro do que levá-la a qualquer outra parte do mundo; o país não estava sequer preparado para um evento desta dimensão e não existiam infra-estruturas; os bilhetes custavam pouco e para financiar um projeto desta envergadura o Roberto sabia que era preciso angariar patrocinadores, o que era impensável nesta altura. Durante quase 70 dias o Roberto não foi bem-sucedido em nenhuma das suas abordagens. Teve que bater em muitas portas e levar muitos “nãos”. Foi então que se lembrou de usar uma última cartada, chamada Frank Sinatra. O Roberto tinha trazido o artista para atuar no Brasil e eles criaram uma relação, pelo que resolveu pedir a sua ajuda para conseguir promover um encontro com os grandes players do showbiz, para conseguir apresentar o Rock in Rio a agentes e artistas e cativá-los. A estratégia funcionou e, no dia seguinte, já diversos jornais divulgavam o evento!

O passo seguinte foi pensar em como conseguir investimento e atrair o público e foi aí que chegou ao conhecimento do Roberto que a Brahma, cervejaria, na altura cliente da agência dele (Artplan), queria aproximar-se mais do público jovem. E, como publicitário, o Roberto acabou por fundir as duas coisas e conseguiu, não só investimento para montar o Rock in Rio, como respondeu com o maior dos sucessos ao briefing da Brahma, que acabou por lançar uma nova cerveja e experimentá-la perante o público de mais de um milhão de pessoas!

 

  1. De que forma a legenda atribuída em 2001 (Por Um Mundo Melhor) ainda se reflecte nos ideais do festival?

Com o projeto “Por um Mundo Melhor” o evento assumiu o compromisso de ser mais do que música e entretenimento, passando a usar o seu mediatismo e a capacidade de mobilizar massas para sensibilizar as pessoas na construção de um mundo melhor. Isso passa por assumirmos causas sociais ou ambientais a cada edição, contribuindo ativamente com elas, e, acima de tudo, com vários exemplos que podemos dar através das nossas ações e escolhas.

Já investimos, desde 2001, juntamente com os nossos parceiros, mais de 24 milhões de euros em causas diversas; em 2006, o Rock in Rio compensou, pela primeira vez, a sua pegada carbónica, o que permitiu, em 2008, implementar um manual de boas práticas com vista à redução da pegada carbónica que, por sua vez, em 2010, evolui para um plano de sustentabilidade, integrando questões sociais e económicas. O Rock in Rio é, também, o único evento com a certificação na ISO 20121 – EVENTOS SUSTENTÁVEIS, desde 2013.

Na prática, todas estas ações resultaram em fatos concretos como: os resíduos produzidos tiveram, até ao momento, uma taxa média de reciclagem de 71%; até 2016 termos plantado cerca de 300 mil árvores; instalamos 760 painéis solares que geram rendimento permanentemente para projetos sociais através da Sic Esperança; doámos 15.632 refeições; compensámos as emissões de CO2 do evento, entre muitos outros resultados a nível nacional e internacional. Ou seja, para além das ações no recinto aliadas às preocupações de redução da pegada carbónica, reciclagem dos resíduos produzidos, entre outras, mantemos o nosso compromisso de contribuir para uma comunidade mais justa e equilibrada e apostamos na compensação dos nossos impactos e em potenciar os impactos positivos. Esta visão tem vindo a crescer e é um compromisso que faz parte do ADN da marca e do evento que é hoje internacional, tornando este compromisso também ele global, nunca esquecendo a nossa ação local a cada edição.

Agora estamos a lançar o Amazonia Live, o primeiro projeto transversal a todos os países onde o Rock in Rio está, e que se vai estender por mais de uma edição, até 2019. Com este projeto, o Rock in Rio compromete-se a plantar 1 milhão de árvores na Amazónia, o “pulmão do mundo”, mas tem como objetivo atingir os 3 milhões e, para isso, vai motivar parceiros e fãs a abraçar esta causa sob o mote “Mais do que Árvores, Vamos Plantar Esperança”. A Amazónia foi a zona escolhida porque tem impacto em todo o mundo uma vez que abriga a mais importante reserva de biodiversidade do mundo, tendo um papel fundamental na redução do impacto do aquecimento global.

 

  1. O Rock in Rio desde as suas origens que agrega multidões recordistas, tendo tido um enorme impacto nos amantes de música de todo o mundo. E a sua recepção pelos próprios músicos como foi? O que sente ao ouvir estrelas como James Taylor apontarem o festival como um momento transformador e singular?

É muito emocionante, é a prova concreta do poder transformador da música e do poder das pessoas unidas por um mesmo objetivo, força essa que atinge não só quem assiste mas quem faz. Antes do primeiro Rock in Rio só havia o Woodstock, e este tornou-se uma referência para muitos dos grandes músicos que estão em tournées hoje em dia, tendo sido o sonho de meninos que estavam a começar suas carreiras e que desejavam um dia tocar naquele palco. Ouvimos isso de artistas como os Metallica, 30 seconds to Mars e muitos outros.

 

  1. O festival foi palco de momentos tão díspares e caricatos como disparos de canhões, travessias de moto e beijos. É a imprevisibilidade o factor transversal à música ao vivo, que nunca a envelhece ou entedia? 

É a vontade de fazer as pessoas felizes! Nas 12 horas de festa que se vive na Cidade do Rock, em dias de evento, a nossa principal preocupação é para com as pessoas, com o seu bem-estar e o seu conforto. E é o facto de conseguirmos, num clima de enorme festa, fazer as pessoas conviverem umas com as outras, num clima de união e felicidade, que torna este evento único. A vibração que se vive na Cidade do Rock é demasiado forte para, algum dia, entediar!

 

  1. O que distingue o Rock in Rio Lisboa dos restantes?

Com certeza o Parque da Bela Vista, que é um ambiente natural único para acolher os milhares de pessoas que vão para curtir as 12h de festa em cada dia de evento. Outra diferença é o público português, que recebe os artistas de forma intensa e vibrante, além de ter um comportamento exemplar. A atmosfera do Rock in Rio Lisboa é muito especial, o clima que se vive na Cidade do Rock é o palco perfeito para fazer desta experiência algo ainda mais feliz e inesquecível.

 

  1. Qual a edição de que mais gostou? Porquê?

2012 foi uma edição que me comoveu muito porque o país estava num clima muito deprimido por causa da crise e o que se viveu dentro da Cidade do Rock foi exatamente o contrário. O Parque da Bela Vista tornou-se uma bolha de alegria que serviu para recarregar as energias e renovar a esperança de quem passou por ali e dos milhares de pessoas que acompanharam o evento pela televisão. Isso faz com que o nosso trabalho tenha um valor ainda mais especial.

 

  1. Qual o concerto a que mais gostou de assistir?

Ao longo de tantas edições é difícil escolher um só concerto. Afinal, já passaram pela Cidade do Rock cerca de 1.500 artistas. Mas houve um concerto que me marcou recentemente: o dos Queen com Adam Lambert, na edição de 2015 no Rio de Janeiro. Quando eles puseram um público imenso a cantar “Love of My Life”, em 1985, eu era muito nova e não assisti a esse momento mas ouço falar dele há 30 anos! Em  2015, eles voltaram e foi muito emocionante ver as pessoas a levarem as suas famílias para relembrar aquele momento. E agora eu também já tenho o “meu” Love of my Life! (risos)

 

  1. Qual a música que mais a comoveu?

Primeiros erros do Capital Inicial e Circo de Feras do Xutos & Pontapés.

 

  1. O que podemos esperar do Rock in Rio no futuro?

Enquanto marca, ser cada vez mais global e mobilizadora de pessoas em prol de um mundo melhor. Enquanto evento, continuar a liderar o nosso segmento no que cabe à entrega de qualidade, à inovação, à qualidade das infra-estruturas, das atrações e do line up world class que entregamos sempre ao público.

 

  1. O festival sempre se caracterizou por trazer os maiores nomes, os criadores de hits e tendências. Porque não apostar também em grupos menos conhecidos, divulgando-os de forma única?

Um dos aspetos diferenciadores do Rock in Rio desde sua primeira edição foi sempre misturar estilos musicais e talentos de renome com outros menos conhecidos. Pelo perfil do público do evento, a presença de grandes nomes tem que ser sempre maior. O Palco Vodafone, por exemplo, tem precisamente o objetivo de trazer para o evento artistas de um segmento mais restrito, o da música alternativa. Uma das grandes oportunidades neste caso é justamente dar a conhecer estes talentos – alguns já com grande notoriedade no seu segmento – para um público mais massivo.

Fizemos isso quando fomos um dos primeiros festivais a dedicar um palco à música electrónica, em 2001, quando ela ainda atingia apenas um segmento de nicho. O mesmo aconteceu no caso do Palco Raízes com a World Music em duas edições do evento, o Hot Stage que foi dedicado aos novos talentos em 2008, o Sunset que continua a promover encontros únicos de artistas de renome com novos talentos.

No Palco Vodafone, este ano, vamos voltar a receber grandes nomes internacionais como os irreverentes e eletrizantes Black Lips, o trio canadiano Metz, os brasileiros do rock psicadélico Boogarins, as espanholas Hinds e até uma das maiores revelações dos últimos tempos, os Real Estate. E a nível nacional, marcarão presença nomes como Keep Razors Sharp, Sensible Soccers, Capitão Fausto e até o conhecido por uma capacidade de produção surpreendente, B Fachada. Para além destes nomes, a opening slot deste palco ficará a cargo da Vodafone Wild Card – novos talentos na música portuguesa.

 

  1. Pela altura desta edição de 2016, os alunos do Técnico ainda estarão submersos em trabalho. Convença-os a largar os estudos pela música.

Faz uma pausa nos estudos e vem recarregar as energias no Rock in Rio-Lisboa! Festa, festa e festa, é isso que vamos oferecer a todos os que passarem pela Cidade do Rock nos cinco dias de evento. Desde o Palco Mundo ao Palco Vodafone, passando pela Eletrónica, com a novidade das pool parties, e pela Rock Street e Street Dance, o maior evento de música e entretenimento do mundo vai ter atuações únicas de artistas de topo, com hits que vão fazer toda a gente cantar e dançar da primeira à última música. E estamos prontos para vos receber numa Cidade do Rock ainda mais bonita, com muitas atividades e muita música boa!


Entrevista: Inês Mataloto & Gil Gonçalves

Há algo de novo no Reino da Dinamarca

 

Há algo de novo no Reino da Dinamarca.

Lust For Youth são post-punk dançável. São electrónica cerebral com devaneios amorosos. São reverberações sombrias vindas de um lugar com tanto de inóspito, quanto de íntimo. E são ainda algo mais, apenas explicável na mundividência daqueles que, no sábado à noite, se deslocaram ao Musicbox para ouvir este trio nórdico.

Criado pelo sueco Hannes Norrvide, o projecto, com laivos de synthpop, destaca-se pela forma como concilia a linha lo-fi e gótica com uma estética romântica e rítmica. Oriundo de Gothenburgo, o músico vive agora em Copenhaga, lar de outras bandas como Iceage, Lower e Halshung, e faz-se acompanhar por Loke Rahbek e Malthe Fischer.

Juntos inserem-se num lote de bandas dinamarquesas, com cada vez maior dispersão, assente numa arquitectura sónica frígida, os seus traços cortantes e distanciados. Inclusos na selva de betão da capital, abrem portas ao mundo e ao abismo. É a lírica depurada e niilista que os marca, cravada numa matriz instrumental intimidante e soturna. Os músicos (adolescentes na sua maioria) parecem defender que fomos enganados, e que, no final de contas, talvez a Escandinávia não seja a região mais feliz do mundo.

Afinal, há sombras na terra do Sol da meia noite.

 

A abertura da noite ficou a cargo dos First Hate. Sintetizadores inquietantes e voz lúgubre marcam este duo, também proveniente da capital danesa. A aura de informáticos a quem colocaram um microfone nas mãos e uma tour mundial à porta, não foi, contudo, suficiente para gerar grande comoção na sala ainda por encher. Ainda assim, fazendo do inusitado cool, provaram, mais uma vez, que miúdos estranhos nem sempre dançam sozinhos.

 

Era já perto da meia-noite, quando os Lust For Youth subiram ao palco.

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O público dividia-se entre uma maioria curiosa, em silenciosa expectativa, e um pequeno lote de fãs, frenéticos e empolgados.

A banda, que já passara tanto por Lisboa, como pelo Porto, apresentou-se coesa e compenetrada. Hannes enfrentava o público num misto de displicência e de um auto-controlo, que não deixava de ser palpitante. Rosto pueril, maçãs do rosto emaciadas, num trejeito à Morrissey, e pose desprendida compunham a restante personagem cénica. Ladeavam-no o guitarrista de anorak e capucho (canhões de fumo até nórdicos arrepiam) e o teclista, incógnito por detrás do estandarte da banda.

Os temas ecoaram pelas paredes sólidas da sala que, com as suas luzes esbatidas e clima austero, se tornou no local ideal para receber o grupo. As composições foram intoxicantes, densas e com a melancolia por batuta.

O vocalista, qual Ian Curtis homoerótico, tecia vitrais para uma alma dolente. A sua magreza obscena e sinuosa, expunha os caminhos labirínticos de um coração oblíquo. Como testemunhara em Junho de 2014 à Wondering Sound, era ele “no bem e no mal, tanto apaixonado como pungente” o mote das canções. Mergulhou-se, assim, no vazio, assistindo à apologia de que o amor é bom (s)e fodido.

Ao longo de cerca de 45 minutos, os três elementos tocaram músicas do seu último álbum Compassion (incluindo uma interpretação especialmente tocante de “Sudden Ambitions” ), bem como malhas antigas ( “Illume”, “Running” e, naquele que foi o momento da noite, “New Boys”).

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Em geral, os Lust For Youth conseguiram imprimir a sua forma e estilo. O concerto pedia, contudo, mais variedade na setlist, bem como uma sala mais cheia, para escutar estes temas que cheiravam a amor e cigarros.

E a noites de insónia, logo esquecidas.

Ao contrário desta.

*Este artigo não segue o acordo ortográfico


Texto: Gil Gonçalves

Fotografias: Tomás Monteiro


Old Jerusalem e o “aceitar das coisas como as coisas são”

São quase dez da noite e Francisco Silva (Old Jerusalem) não consegue encontrar o seu carro. Sigo-o, percorrendo em debandada todos os pisos do parque subterrâneo, na esperança de recuperar a viatura estacionada há muitas horas, no começo de um extenuante dia de contacto com a imprensa.

O músico portuense recapitula metodicamente a sua viagem prévia, jornada que só terminará já de madrugada quando regressar à sua cidade natal, e se preparar para mais um dia de trabalho enquanto economista. Quando, finalmente, a nossa procura é lograda, oferece-me simpaticamente um CD. Fica, assim, provado que mesmo para quem se move dentro de um horário e de uma profissão tão constringentes, há espaço mental para gostos paralelos, desvelos e esquecimentos.

 

Largas horas antes, encontramo-nos num café, no Cais do Sodré. Lá dentro, o ambiente luminoso e acolhedor contrasta com o fim de tarde de inverno; as vozes e conversas rechaçam o frio, espantando o doce negrume que se abate sobre Lisboa. Francisco está sentado ao centro, alheio a estas transformações que envolvem a sala, lendo Patti Smith e aguardando estoicamente a enésima (e última) entrevista do dia. Aqui, como na génese do seu projecto artístico, cimentado a passos curtos e ao longo de mais de uma década, parece cómodo e pragmático.

De facto, é a aceitação do rumo natural das coisas – e não a sua imposição – que pautam o seu estabelecimento enquanto músico profissional, como explica: “Não sou uma pessoa movida por ambições desmesuradas, as coisas acabaram por se direcionar neste sentido”. Sentido, este, marcado pela edição de seis álbuns, vários EPs e pela conquista de ampla admiração por parte da crítica.oj foto 2

 

Oriundo do Porto, desde cedo revelou um espírito com tanto de curioso quanto de diletante. Aos catorze anos, e ainda sem saber tocar qualquer instrumento, previu a composição futura de um disco. Essa promessa tinha, como adianta, mais de caricato que de profético, uma vez que só durante o seu décimo segundo ano de escolaridade, aprofundou o estudo de guitarra no Conservatório, ao mesmo tempo que prosseguia a área de Economia. Esta desmultiplicação temática vir-se-ia a revelar uma constante na vida de Francisco.

A Economia, que inicialmente era “um frete e uma rede de segurança financeira” acabou por se revelar um prazer. Por outro lado, “o que escrever canções implica é diametralmente distinto do que o que essa ciência requer, são mundos diferentes e que se desconhecem, mas que redundam numa base humana comum, o que torna a sua exploração tão interessante.”

Após a envolvência em projectos efémeros como o de uma “banda metal rudimentar” e um conjunto pop, decidiu gravar uma demo com material emprestado. O registo chegou aos ouvidos de Rodrigo Cardoso, membro dos Alla Pollaca, que começava a editora independente Bor Land. Dentro em pouco, os dois músicos procederam a uma parceria, bem como ao lançamento do EP dividido, Alla & Old. Alcançava-se, assim, a atenção dos media especializados e um sonho de adolescência.

Seguiu-se, em 2003, o álbum de estreia: April. Tido como um dos melhores álbuns do ano pela Blitz, apresenta um registo intimista com influências folk, uma beleza insustentável aberta em versos bem pensados.

Old Jerusalem, nome escolhido por causa de uma canção de Will Oldham, rapidamente se tornou num songwriter reputado, de qualidade lírica inegável. As palavras, e os que estas aportam, são uma prioridade, como explica entusiasticamente: “Não descanso enquanto não resolvo uma má linha. Há momentos em que comprometo o espaço sonoro para não enlutar a letra.”

Peço-lhe para desvelar o seu método de composição, proposta a que acede sem veleidades: “Dos sons, à palavra, à rima, à estrofe. A história é a ponte entra as rimas descobertas; a música é o mote, acolchoando a lírica que surge de brincadeira.”

Trata-se de um processo criativo pessoal que o músico, cabelos grisalhos e olhos cansados, sob lentes espessas, perscruta absorto: “É impossível distanciar-me de tal forma que ache as músicas muito boas. Não consigo auto convencer-me do impacto que a minha música possa vir a ter. Contudo, o processo justifica-se a si mesmo: a incapacidade da percepção total do seu conteúdo não o torna menos aprazível.”

Mais uma vez o autor encara com naturalidade a sua obra e o retorno que esta suscita: “Já me pacifiquei com a impossibilidade de prever matematicamente a atenção e a resposta do público.” E acrescenta: “O móbil não é o auto convencimento de grandeza! Há que respeitar o público e a forma como este interioriza o meu trabalho.”oj foto

 

A conversa dispersa-se por entre os meandros do elo criador-crítica. Francisco revela-se um interlocutor nato, dinâmico na sua contemplação vigilante do que o rodeia. Por entre golos de chá, perde-se a atenção às horas, mas ganha-se um melhor entendimento sobre um dos mais singulares cantautores portugueses dos últimos tempos: “A interacção entre produtores e consumidores de música deve assentar num respeito mútuo, pesando, contudo, mais as opções do artista. É um jogo onde o público e o padrão vigente não devem ser constrições. Em última instância, apesar de o critério de apreciação ser o do público, o artista é que manda e deve ter liberdade absoluta.”

No seu caso, o livre arbítrio levou-o A Rose is a Rose is a Rose, o seu trabalho mais recente, e que foi baptizado na sequência de uma frase de Gertrude Stein, remetendo para o “princípio da Identidade e o aceitar das coisas como as coisas são.”

Trata-se do sexto LP de Old Jerusalem e dá continuidade ao labor já iniciado, de forma coerente. Efectivamente, a ideia de Old Jerusalem é relativamente fechada e hermética : “Tem margem de manobra, mas contém uma essência que se deve manter.”

Excepção feita para a nova “colaboração âncora” de Filipe Melo que, ao tocar piano e orquestrações, “trouxe cores que não estavam na minha palete”, bem como as participações inauditas de Nelson Cascais, no contrabaixo, Petra Pais, na voz, entre outras.

Cria-se, desta forma, um álbum mais expansivo, percorrendo um vasto espectro sonoro, sempre orgânico e manejado com mestria. Francisco cunhou aqui “um espaço que deve condensar algo maior, com a fé que o ouvinte tenha experiências similares que tapem os buracos.” Respeita-se a natureza das coisas, o seu ritmo e moldes, “abnegando face ao alheio.”oj foto 3

 

Mais que confrontação, contemplação, num registo que pretende ser um olhar resignado sobre o mundo e o que o move. Pergunto-lhe se, face à situação política (à data, Marcelo Rebelo de Sousa assumia a Presidência da República), tem planos para explicitar uma mensagem política em temas futuros. Convicto, nega o intuito, tecendo paralelos com as raízes do folk, influência mais audível em Old Jerusalem: “O folk de outrora ambicionava uma maior intervenção social, a que o crescimento do género e da indústria tiraram congruência e genuinidade. Acho mais benéfico que cada um pense por si. Até porque tentar romantizar problemas políticos pode inibir a sua solução pragmática, colocando-a num patamar abstracto e impessoal. Os chavões de massas costumam ser falsos, prefiro uma comunicação mais íntima.”

Um diálogo pessoal, com um público que lhe é próximo, a retomar já neste mês de Abril (dia 8 no Maus Hábitos, no Porto, e dia 16 no Teatro Gil Vicente, em Barcelos).

 

Findo o nosso tempo, dirigimo-nos para o exterior do café. Por entre o breu, grupos encaminham-se em rebuliço para alguns dos bares e salas de concertos mais badalados da capital. Não posso deixar de me interrogar se Francisco aspira alcançar uma audiência mais abrangente. Seguro, confidencia, passos acelerados sobre a Rua cor de rosa: “Gostava que a minha música chegasse a muita gente, mas não me moldo a esse propósito. Ainda assim, não quero descambar num acto narcísico: edito para que me queiram ouvir e enquanto me quiserem ouvir!”.

Nós cá o esperaremos, ano após ano.

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico


Texto: Gil Gonçalves

Tay – A experiência que a Microsoft se arrepende de ter feito

No passado dia 23 de Março, a Microsoft lançou um novo serviço, de nome Tay. Tay é uma experiência na área da inteligência artificial.

tay

Tay é uma aplicação que teria como finalidade melhorar o serviço ao cliente no serviço de reconhecimento de voz da Microsoft. Numa fase experimental, Tay também interage com utilizadores do Twitter. E foi precisamente isso que correu mal.

O serviço lê tweets dos utilizadores e responde de acordo com os seus conhecimentos, usando algoritmos de inteligência artificial que lhe permitem emular o comportamento de uma rapariga “teenager”. Ou pelo menos era essa a ideia.
Tudo começou da melhor forma: os primeiros tweets passavam mensagens inofensivas como “olá mundo!”, “os humanos são fixes” ou “porque é que não é #DiaNacionalDosCachorros todos os dias?”.

hello_world  taySuperCool

Óptimo. Isto da inteligência artificial é giro. O que é que podería correr mal? Tay foi desenhada para aprender com o comportamento dos outros cibernautas – comportamento esse que nem sempre é o mais politicamente correcto. Não tardou até que Tay começasse a aprender calões e insultos genéricos. E, umas horas depois, foi lançada a primeira “bomba”:

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Depois de mensagens antisemitas e impersonações do terrorista, perdão, candidato Donald Trump, a Microsoft parou o serviço temporariamente.

tay-byeO serviço demorou cerca de 24 horas a ser desligado e, por essa altura, o mal já estava feito. A Microsoft já se pronunciou sobre esta ocorrência, que descreve como um ataque por parte de “trolls”.

É curioso perceber o mecanismo que levou Tay a adoptar frases politicamente incorrectas. Os “trolls” não se limitaram a escrever frases para Tay repetir – o que fizeram foi um passo para além disso. Pensa-se que os “trolls” conseguiram guiar Tay para ler alguns recursos específicos na Internet que continham mensagens ofensivas.

Ficamos expectantes pelo regresso de Tay. Isto se a Microsoft tiver coragem para a ligar outra vez!


Texto: Miguel Rodrigues dos Santos

LUX

LUX é a única curta-metragem  académica portuguesa selecionada para exibição no festival de Cannes 2016 na secção Short Film Corner. A obra realizada por Bernardo Lopes e Inês Malveiro foi produzida pela Universidade Lusófona de Lisboa, onde estudam, e já foi exibida em mais de dez festivais de cinema tanto a nível nacional (Lisboa & Estoril Film Festival), como a nível internacional (World of Film Festival Glasgow)

O Diferencial foi beber café com Henrique silva, antigo aluno de MEEC do Instituto superior Técnico e o Diretor de som e música desta criação.

Diferencial: Fala nos do LUX.

Henrique Silva: Esta é aquela história clássica. O Pedro é um escritor com o processo criativo interrompido e isto não lhe permite fazer nada. O filme é muito simples, foi filmado em película e só tem planos fixos. Posso dizer que, não sendo triste, é muito sombrio e observacional, ao estilo do cinema europeu. Tivemos o cuidado de garantir que cada espetador saísse com uma ideia própria, um conceito que eu acho muito bonito.

Diferencial: Quando aceitaste o desafio sentiste que viria a ter tanta visibilidade? Sonhavas ir a Cannes?

Henrique Silva: Nunca na vida! Nós trabalhámos e demos o nosso melhor na procura de reconhecimento, mas nunca pensei chegar a Cannes. Nunca pensei vir a dar entrevistas por causa de um filme que fiz. Não estava a espera que o filme tivesse este impacto. Fomos a mais de 10 festivais, fomos à Índia, a Glasgow e agora vamos a Cannes. Foi o meu primeiro filme, foi tudo muito experimental para mim, apesar de estar num curso de som, este não é direcionado para o cinema.

Quando começámos a pré-produção do filme, em 2015,não conhecia o grupo de trabalho que tenho hoje. É que nem éramos do mesmo curso. Eu e o Luís, o meu parceiro do crime, tínhamos que fazer o projeto de curso e pensámos juntar-nos à malta de cinema e trabalhar nas curtas finais. Todos os anos há o evento Over And Out, no São Jorge, onde elas depois são apresentadas. Queríamos participar um pouco neste mundo como num projeto de investigação.A realização deste filme tem uma história bonita. Na altura não nos conhecíamos mas tivemos uma química incrível, uma relação de amizade e de trabalho que acho terem sido o segredo do filme.

Diferencial: LUX Road Trip. A ideia de uma viagem de auto-caravana com amigos, ao longo de todo Portugal, é um sonho de muitos jovens. Qual é o plano?

Henrique Silva: A auto-caravana só leva quatro, se pudéssemos íamos os seis ou até mais (risos). O que queremos fazer é arranjar espectadores para este filme. Pensámos “Epa, vamos fazer uma “road trip” por Portugal e mostrar a nossa curta”. Conseguimos arranjar os patrocínios da Lusófona e da Indie Campers e juntámo-nos a outros colegas para realizar este sonho de partirmos à aventura. A nossa viagem começa em Cannes e passa por vários cine-teatros e escolas desde o Porto até ao Algarve.

O nosso país está cheio de cine-teatros que ao longo dos anos se têm vindo a perde. Esta é a forma que nós encontrámos para dinamizar estes espaços enquanto divulgamos o nosso cinema. Nisto, também queremos gravar o percurso e criar uma longa metragem. O cinema português esteve nas ruas da amargura. As nossas obras são muito poéticas, numa altura em que a malta jovem tem o estilo americano muito enraizado. Agora começa-se a ver um renascer do cinema jovem português e, com isso, uma maior apreciação do mesmo. Isto com Cannes muda tudo! Queremos aproveitar esta oportunidade para darmos o nosso contributo.

Diferencial: Saíste do IST para fazer filmes? Se voltasses atrás no tempo até ao teu primeiro ano aqui no campus da alameda o que e que dirias ao teu eu caloiro?

Henrique Silva: Quando entrei no Técnico pensava que queria ser engenheiro. Queria ser engenheiro, o meu pai é engenheiro… era aquela coisa. Entretanto reparei que passava muito tempo a tocar, a ouvir música e, no meu segundo ano, já me sentia infeliz. Não estava a ter sucesso. Falei com os meus pais, o que não foi fácil. A ideia do Técnico é muito segura. Esta área nem tanto. Eu tinha essa noção, mas era a minha paixão. Fui para a Lusófona. Esforcei-me muito, tornei-me monitor assistente e deixei de pagar propinas. Tentei dar o meu máximo. Aprendi tudo de raiz, só sabia tocar guitarra.

Não há nada como uma pessoa fazer aquilo de que gosta. É um ponto comum, mas é verdade. O meu conselho seria seguir aquilo que nos faz vibrar.

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Texto: Mariza Mariette