A morte é injusta

A morte é injusta. Por vezes avisa à chegada, até com avanço, por outras nem ao próprio avisa. A morte é injusta, diz-se, porque ninguém merece morrer de tal forma. Diz-se que é injusto morrer apesar de ser para aquilo que todos nós caminhamos: é o mais natural da vida. Morrer é juntar os conceitos de entropia e probabilidade num contexto palpável. Contudo, vemos sempre a morte como algo metafísico, algo que nos transcende e do qual nada concluímos. Não. A morte é bastante física, é directa, não é sarcástica ou obscura.

Por vezes nem pensamos no que é morrer. O que a morte significa é que algo, isso sim metafísico, desaparece do nosso corpo. Como assim o nosso pedaço de carne não está mais habitado por aquilo que fazia de nós nós mesmos? Qual é a diferença, porque não abre a pessoa os olhos para outro dia? A morte é injusta porque, apesar de tudo, não é natural, não é de todo como eu disse, não é nada como eu disse. A morte é uma traição do corpo, uma vingança impessoal das leis da natureza por usarmos um meio pelo qual vivemos. Contudo, o que se perde na morte? Porque não podemos nós pegar no corpo do morto e dar um choque, mexer os químicos, pôr a máquina toda a funcionar de volta?

Para mim e outros tantos, esta pergunta assombra e toma conta do nosso pensamento quando menos desejamos, quase que num oportunismo sádico. A forma como lidamos com este problema divide mundos e culturas. Alguns apoiam-se numa perspetiva intrínseca, uma certeza própria que lhes traz segurança nesses momentos. Outros recorrem a uma justificação extrínseca que se aproveita de um medo partilhado, que prolífera na falta de capacidade de lidar com uma realidade universal, e que lhes traz segurança na forma de uma promessa póstuma.

Acima de tudo, o que mais assusta é o facto de termos dentro de nós algo que ninguém sabe o que é, que não é palpável, que não existe e apenas notamos a sua grande e penosa ausência quando morremos. É por estas razões que não se diz que a morte é injusta, diz-se que a vida é injusta.


Texto: Francisco de Azevedo

Por uma senhora União Europeia mais produzida

Ainda é possível acreditar nesta jovem(?) de 60 anos?

BURKAMP, Dieter (Hrsg.). Zehn "Neue" für Europa - The Ten "New" Europeans. Bielefeld: Kerber, 2004. 119 S. ISBN 3-936646-87-2.
BURKAMP, Dieter. Zehn “Neue” für Europa – The Ten “New” Europeans

O projecto, que começou como um pretexto para evitar novos conflitos entre os países europeus e fugir à atracção das superpotências americana e soviética, e que depois se transformou no maior e mais complexo plano de cooperação económica, social e financeira alguma vez realizado entre múltiplas nações, fez em Março 60 anos. Uma história sexagenária marcada por prosperidade, expansão, desistências e crises – crises económicas, de soberania e de identidade. O seu definhamento e morte já foram profetizados várias vezes durante o início deste século (que só conta ainda com 17 anos…) pelas mais diversas figuras, tanto do outro lado do Atlântico, como ao nível dos próprios estados-membros europeus, e até mesmo por personalidades russas, africanas e asiáticas. Porém, à parte de conjecturas que se estendem desde opiniões pessimistas a whishful thinking, cabe aos europeus decidir o destino desta união, pesando os prós e os contras desta relação.

Ora como falamos de pessoas, a avaliação deste projecto não é feita em moldes puramente racionais e desapaixonados, pelo que a experiência pessoal, a posição dos políticos a nível nacional e a forma como a União é retratada pelos órgãos de comunicação social desempenham um papel relevante na percepção que cada um tem sobre a União. É, por isso, fundamental que exista uma estratégia que promova a imagem do projecto e leve uma mensagem clara e inequívoca sobre os benefícios da União. A questão que se coloca é se esta estratégia tem sido implementada e se tem sido eficiente.
As ideias de pátria, nação e terra são facilmente assimiladas por qualquer um, sendo possível construir à volta delas uma identidade que representa uma comunidade com certas características e valores culturais, à qual é possível estabelecer uma relação afectiva e de pertença. Quando se fala da terra onde se nasceu e cresceu, quando em eventos desportivos como o europeu e o mundial de futebol, e os Jogos Olímpicos, Portugal é representado por equipas ou por atletas individuais; e quando ao nível da arte se é reconhecido lá fora por, por exemplo, o fado e o cante alentejano, fala-se de uma identidade comum. No que toca à União Europeia (UE), esta percepção de pertença a uma comunidade maior do que a nação não existe. A relação é muito menos afectiva e em vários casos é vista de uma perspectiva puramente interesseira por parte dos estados (o exemplo mais claro é o Reino Unido). Não existindo essa relação, a União está mais susceptível ao clima económico. Em alturas de crise e de pouco ou nenhum crescimento económico, é fácil para os políticos cavalgar as ondas de descontentamento e, com discursos eurocépticos e nacionalistas, colocar as culpas na elite burocrática de Bruxelas e propor a saída da UE como a solução dos seus problemas.

Muitas vezes, a UE não é capaz de arrebatar as capas dos jornais nem ganhar destaque nos órgãos de comunicação social. Legislação, por mais importante que seja, deliberações da Comissão Europeia e questões debatidas no Parlamento Europeu (PE) passam ao lado de grande parte dos cidadãos. Existe pouco conhecimento quanto às funções que cada instituição europeia desempenha, a forma como as pessoas são escolhidas para os cargos, o que são e quem são os membros do PE, como é que os partidos políticos nacionais se encontram organizados em famílias políticas distintas no PE, etc. A actuação da UE é subtil e a imagem que se faz passar é aquela que é muitas vezes definida pelos políticos e comunicação social nacionais. Burocracia, regulação excessiva, perda de soberania, governação franco-alemã, elites europeias altamente remuneradas – tudo isto são chavões que constam das críticas, mais ou menos válidas, que se apontam à União. Críticas que vão construindo e cimentando a percepção do cidadão comum sobre a mesma. E relativamente às suas conquistas e trabalho feito? Se não for a UE a falar, quem falará sobre os fundos para a agricultura, para o desenvolvimento tecnológico e científico, a partilha de conhecimento e de pessoas entre universidades e centros de investigação espalhados pela Europa, os projectos de intercâmbio cultural, programas de mobilização como o Erasmus, o Interrail (só para dar alguns exemplos)?

Os tempos são diferentes e exigem formas diferentes de comunicação. Num mundo onde somos constantemente bombardeados com informação nas mais diversas plataformas, é importante marcar uma posição e enviar uma mensagem clara que se eleve acima do ruído. A União tem de mostrar de uma forma vincada, directa e pessoal aos cidadãos europeus aquilo que vale. Os extremistas, nacionalistas e terroristas há muito que aprenderam a fazer uso da comunicação como a principal arma. Se a União não souber usar esta ferramenta de forma eficaz, não receberá os méritos do seu esforço e será olhada com desconfiança e enfadonho, como muitas vezes sucederá no fim do Erasmus: o estudante preenche um inquérito com n perguntas sobre a sua experiência e a ideia que fica no fim é a já tão familiar noção da burocracia europeia, e não um sentimento de partilha e de pertença a um projecto que já conta com 60 anos.


Texto: Miguel Martinho

Architecture Trials: Joshua Florquin

Joshua Florquin is an Architect, graduated in 2008 from Sint-Lucas Architectuur, having spent an year on Erasmus in Roma Tre University as well. He moved to Paris afterwards, where he worked for a few architecture offices like Architecture Studio, Local Architecture Network – a young office, very socially involved, which he still talks about very enthusiastically – and H2O, before founding his own office in 2014.

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In recent times he received some attention over his design of the barbershop Les Dada East, inspired by the ecological policies of the store. On a Sunday morning, we chatted over his methodology and architecture education in our modern but not very sustainable societies.

What are your major concerns when designing?

Personally, I try to design with a social and psychological approach. I think Architecture can’t only be a pragmatic discipline that answers to functional and economic problems, it should also be a discipline that absorbs social, economic, political and cultural changes of humans and their environment and then achieve solutions that are innovative and can stand the test of trend and time. When starting a project I start with the context: urban, architectural and with particular focus on the user. How a specific building can influence the interaction with its user in a positive and functional way. I would say this method is important in my work.

As someone who is now directly responsible for his own projects, and also as a former student, what do you think might be missing, or might be at fault, in contemporary architecture teaching?

I don’t like to criticize, mainly because I think it’s not my place. If I have to answer I’ll say that you have to find a balance, even in education.

Some schools that are very academic and technical, such as the Politecnico di Milano where I met other students during my stay in Italy, were, in my opinion, rather focused on construction techniques. When you’re an engineer or an architect that aspires to build immediately those abilities can definitely be useful.

Sint-Lucas in Gent for example, where I studied, is a school that focuses a lot on concepts. It was the main criteria to present a project. With well funded thoughts on why you were making certain design decisions. I was very glad with this pedagogic approach. In my opinion, and this is of course related to my education, I think it’s important that they give students freedom to come up with new ideas that might even seem strange to us now, but that can be innovative in the future.

It’s necessary to have a technical background, but in my opinion that is secondary. Techniques are evolving very quickly in construction. You learn while working on projects on a professional level. When you’re a student I think it’s more important to develop the brain in a way that capacitates you to develop new ideas who can change the way we live and use space. Nonetheless, technique is very important and that’s why I advocate a strong collaboration between architects and engineers.

I would say that, ultimately, when studying, you should ask yourself what is important to you: whether you aspire to construct immediately with academic technical knowledge, or whether you aspire to come up with new ideas and collaborate with other engineers to achieve those concepts. It’s about finding a balance between those options and knowing what you want to achieve in the future.

Since you started working by yourself you’ve made a fair amount of projects and also got a fair amount of recognition with your Les Dada East. Can you tell us a little bit about how you started?

In 2014 I started with apartments and interior design. It’s true that Les Dada East became quite iconic because it ended up having a lot of attention online and also on magazines in China, South America and now in Europe [on its way to be published now in Architecture Digest]. Maybe it’s the project that got the most attention because I did some PR for it, and for the others I didn’t. I guess it became an important project for me simply because it’s quite appealing and I’m quite happy with it.

Who are your major influences?

That’s actually a hard question because of course an architect likes to say he has no style, and I would like to say that too, but that’s not true because we all have a style and are influenced by other architects.

If I have to say some architects that influence me I’ll go way back and say a big one like Frank Lloyd Wright just because I like integrating nature in my designs. It’s not really true that he influenced me because in the end my architecture is very different from his, but I like his ideas. All architecture that integrates the user and its contexts appeals to me.

I don’t like architects like Calatrava, for example, because of how they do these formalistic approaches or how they repeat themselves. I don’t like styles you recognize every time, that don’t change. That kind of building is an object, it’s not a building that lives in its context.


Entrevista: João Santos

Feminismo – uma filosofia?

“Porque estamos em 2015”, respondeu inequivocamente o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau quando questionado publicamente sobre o porquê de se considerar um feminista. Em condições semelhantes e desprovido de incertezas, também David Cameron, primeiro-ministro britânico, afirmou ser um feminista, se tal significa ser um defensor da igualdade de direitos, alheia ao género. Ambos os parlamentos presididos por estas figuras, de importante relevo no panorama político internacional, apresentam uma assembleia considerada equilibrada no que toca à proporção de homens e mulheres presentes, reflexo provável das suas crenças. Perante novas indagações sobre as suas afirmações, Trudeau confessou mesmo não compreender todo o debate em torno desta temática, que para si não apresenta qualquer complexidade.

As muitas barreiras derrubadas por diversas figuras femininas que se dedicaram à luta por uma sociedade igualitária, onde homens e mulheres pudessem usufruir dos mesmos direitos, não terão sido suficientes para dissipar a nuvem de incerteza que resiste e teima em pairar sobre o conceito do feminismo propriamente dito. Decerto, a maioria de nós associa-o a essa mesma luta protagonizada pela mulher. Ainda assim, o que define de facto o feminismo? Qual a conduta que doutrina, se é que pressupõe algum código de comportamento específico? Na tentativa de aniquilar a dúvida o mais rapidamente possível, podemos sempre recorrer à fonte de elucidação para toda e qualquer questão existencial que o cidadão moderno possa experienciar – a Wikipedia. Esta esclarece-nos alegando tratar-se de um “movimento social, filosófico e político”, que “envolve movimentos, teorias e filosofias que advogam pela igualdade entre homens e mulheres”.

Termos como “teorias” e “filosofias” talvez alimentem devaneios e suposições, quanto ao propósito deste “movimento”, que ultrapassam a mera questão da semântica, quando a definição não poderia ser mais simples.

Por entre devaneios e suposições ergue-se, primeiramente, o preconceito de que o feminismo está direcionado, precisamente, para o sexo feminino. Surge então a questão fulcral que provavelmente terá suscitado o alvoroço relativamente às afirmações de Trudeau e Cameron: Porquê que um homem se haveria de afirmar um feminista se essa não é a sua luta? Não deveria privilegiar outras batalhas, já que o seu papel neste mundo ficou à partida definido desde o seu primeiro fôlego?

O que frequentemente o ruído distorce na transmissão da mensagem é que o feminismo deve ser encarado como um sinónimo de igualdade e não como uma tentativa cega de alcançar uma idílica supremacia feminina, assente na eventual presunção de que a merecemos, visto que a história já nos terá castigado duramente ao longo dos séculos. Pelo contrário, o(a) feminista anseia eliminar o distanciamento entre o homem e a mulher enquanto cidadãos.  E porque 2015 já lá vai, e já se faz tarde, é tempo de nos habituarmos ao facto de a mulher feminista não ser necessariamente solteira ou renegar a sua feminilidade. Tão pouco despreza o homem ou venera a emasculação na tentativa de alcançar a auto-realização, enquanto jura não voltar a usar um soutien. É tempo de o tabu dar lugar à abertura, para que nos foquemos em questões que de facto gozam de alguma complexidade, ao invés de parafrasearmos conceitos cuja essência não incita a busca por novas interpretações.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.


Texto: Beatriz Silveira

Somos tudo mas não somos nada

É impossível escapar ao turbilhão de informação que nos assola diariamente, repleto de relatos do mundo. Para além dos habituais meios de comunicação como jornais, rádio ou noticiários televisivos, também as redes sociais fazem questão de nos manter bem informados, pelo que nem os mais distraídos escapam. No máximo fazem-se despercebidos, talvez como mecanismo de defesa. De facto, dado o cenário atual, adotar uma posição assumidamente de ignorante ou alheio ao meio que nos rodeia pode parecer atrativo e até apresentar algum encanto, ainda que idílico e inevitavelmente temporário.

Vivemos num mundo revoltado, impaciente e claramente cansado, esgotado. A prova deste estado é frequente, ou melhor, infelizmente diária, e ainda que haja muito por onde escolher, é seguro afirmar que o infortúnio que mais nos afeta e assombra atualmente é a ameaça terrorista na Europa, seguida de forma minuciosa pelos meios de comunicação. É assustador o clima de tensão vivido, principalmente após os recentes atentados em Paris, que concretizaram a ameaça iminente e mergulharam a Europa num estado de alerta e medo. Perante todas as notícias sobre o sucedido e testemunhos reais de quem sobreviveu ou perdeu um seu é-me inevitável colocar na posição de quem, de um modo ou de outro, foi vítima não só desta tragédia, mas de muitas outras: como reagiria num cenário semelhante? Entraria em negação, esperando que tudo fosse um pesadelo que em breve acabaria? Fugiria? Sobreviveria? E se sim, conseguiria ultrapassar o trauma? Processar de forma inteligível o que parecia surreal? Como é sequer possível recuperar? O facto de ter sido divulgado uma espécie de manual sobre “como proceder em caso de atentado”, à semelhança de “como proceder em caso de sismo” é de arrepiar o mais descontraído. O último refere-se a um fenómeno natural imprevisível, enquanto o primeiro é uma bofetada na cara da Natureza.

O acontecido em Paris é infelizmente uma amostra do que diariamente ocorre em países devastados pela guerra que se prolonga, onde estas e outras questões ocupam o pensamento daqueles que já não conhecem outro modo de vida senão o da sobrevivência. Destaca-se a Síria, foco de atenção, porém muitos mais são alvo de violência extrema e palco de uma frieza desumana como o Iraque, Paquistão, Afeganistão, ou Nigéria, países que em conjunto detêm cerca de 78% das mortes registadas por terrorismo.

Novamente, os meios de comunicação não desiludem e fazem questão de nos manter atualizados: um massacre num hotel de luxo no Mali, um bombista suicida que provoca a morte de mais de uma dezena de pessoas durante uma procissão na Nigéria, ou num autocarro da guarda presidencial na Tunísia, o aumento do número de crianças-soldado no Sudão do Sul, já para não referir a crise migratória na Europa, pelo que a lista é extensa. Consequentemente, cresce a intolerância e a discriminação generalizadas contra os muçulmanos que se traduz, a título de exemplo, no aumento exponencial do número de crimes de ódio contra os praticantes do islamismo no Reino Unido.

No meio de tanta desventura como é sequer plausível acreditar que ainda reste alguma esperança para a humanidade? Para manter a nossa sanidade mental talvez seja boa ideia focarmo-nos nas coisas boas. Assim o façamos então! Há sempre uma Black Friday para animar o espírito, mesmo que só uma vez por ano, para satisfazer os nossos caprichos consumistas, isto se não der para o torto e acabarmos literalmente espezinhados pela nossa própria ganância, tal é a ironia! Estamos também em plena época natalícia! Contudo, parece já não existir felicidade, nem que seja nas coisas mais pequenas, que não seja obscurecida pelo véu negro da realidade. Resta a felicidade pura nos olhos de uma criança ingénua, que em breve será elucidada. Oxalá, para seu bem e de todos nós, não cresça com uma arma nas mãos.

Perante tudo isto, e ainda que me acusem de porventura assumir, por momentos, uma posição de ignorante e alheia, tento colocar tudo em perspetiva. A verdade é que somos tudo, mas não somos nada. Falta-nos a perceção da nossa pequenez no universo, a perceção da quão privilegiada e efémera é a nossa existência, quer seja por mero acaso ou por dádiva divina. E se nada somos na face ilimitada do universo, se não é certo que não exista vida para além da nossa em algum outro recanto da sua vastidão, quem nos garante que nesse recanto seres superiores não se divirtam com a nossa primitividade?

Há quem defenda que este período atribulado que testemunhamos é só mais um na nossa história e que o havemos de superar. Não nego, e até encontro algum consolo nessa tese otimista.

As palavras aqui partilhadas são de quem assiste de fora o desenrolar dos eventos e que pouco ou certamente nada sabe sobre estratégia militar ou política, de modo a poder formular uma opinião mais fundamentada, restando apenas o desconforto da incerteza quanto ao futuro. Pesa ainda a questão que, no mínimo, passa esporadicamente pelo nosso pensamento: valerá a pena?

*Este artigo foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico


Texto: Beatriz Silveira

Bento Jesus Caraça, o diplomata do conhecimento humano

Bento Caraça, nascido em Vila Viçosa no ano de 1901, é um dos mais proeminentes pensadores portugueses do século XX. De família de poucas posses, viu os seus estudos serem possibilitados graças à sua “protetora” D. Jerónima, proprietária da herdade na qual trabalhavam os pais. Em 1918, entra em Economia no Instituto Superior de Ciências Económicas (atual ISEG), após ter concluído com distinção o curso liceal. No ano seguinte é-lhe dada a oportunidade de se estabelecer como professor assistente no departamento de Álgebra Superior e Geometria Analítica, chegando  a professor catedrático do mesmo estabelecimento onze anos depois, em 1929. Caraça é rapidamente apreciado em larga escala pelos alunos de todo o instituto, provavelmente devido à sua paixão e entrega ao ensino e aos métodos inovadores que aplicava para transmitir o conhecimento. Isto apesar de ser conhecido também pela sua enorme exigência e rigor.
Num texto publicado em 1933 numa conferência da Mocidade Livre (uma associação recém-criada na altura) e intitulado A Cultura Integral do Indivíduo, Bento fala dos problemas que a Europa atravessava na época e que ainda iria, porventura, atravessar. Deixando sempre um sinal de esperança,de que toda aquela “turbulência” iria sucumbir e que uma vida melhor se avistava para todos. Nesse mesmo documento procurou definir em que consistia um homem culto.

“O que é o homem culto? É aquele que:
    -Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
    – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
    – Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida”
Bento Jesus Caraça, Maio 1939

Apesar de neste tipo de matéria não haver certo nem errado, visto que cada pessoa é livre de ter a sua definição de conceitos tão vastos e incertos como este o é, não deixo escapar esta hipótese para concordar e assumi-la como minha também.
O homem culto não deve ser aquele que, muitas vezes confundido com o sábio, é um foco enorme de centralização de conhecimento e que, normalmente, a tem como a única e verdadeira fonte de saber. Bento Jesus tenta, aqui, que nos afastemos desses dogmas, dessas verdades incautas. Ao termos bem determinada a nossa posição no cosmos, conseguimos chegar facilmente ao oposto do sábio e assumir uma postura semelhante à de Sócrates: “Só sei que nada sei”.
Para se ser alguém culto falta primeiramente ser isso mesmo, alguém. Alguém no sentido de se ser um ser humano. Além de descobrir, ou tomar conhecimento, da sua posição exterior, é fundamental, também, tomar consciência da sua posição interior. Isto é, de que maneira o indivíduo se revela a ele próprio. Somente após tomarmos plena consciência de quem somos e da nossa própria dignidade, conseguimos verdadeiramente conduzir os nossos atos para a finalidade do bem comum e da solidariedade. Ao sentirmos plenamente os efeitos das ações exteriores a nós, conseguimos transpor as consequências das mesmas nos outros.
bentodejesuscaracaO último ponto da definição de Caraça sobre o homem culto tenta responder, muito modesta e graciosamente, à mítica questão: Qual o sentido da vida? Mas não deixemos esta definição ser um fim em si próprio. A mesma é tão aberta quanto a própria questão.  O indivíduo culto é aquele que tem consciência de que para melhorar o mundo tem, primeiramente, de melhorar ele próprio. O aperfeiçoamento individual foi o que nos permitiu, enquanto espécie, chegar onde chegámos hoje. Esta última condição assenta profundamente nas duas anteriores a ela. Decorre que, apenas após tomarmos conhecimento de nós próprios e do nosso lugar no universo, podemos almejar o aperfeiçoamento, porque apenas a partir dessas condições temos o ponto de partida para tentar atingir o máximo de nós próprios.
Em 1941, cria a Biblioteca Cosmos, uma coleção de livros sobre as mais variadas áreas do saber, que, além do baixo custo de aquisição, estava estruturada de uma forma que pudesse ser compreendida pela generalidade dos portugueses que fossem literados. Neste mesmo ano também, edita o livro Os Conceitos Fundamentais da Matemática. Livro esse que iria ficar marcado como sendo, provavelmente, a obra-prima de Bento Jesus. No prefácio o autor descreve dois modos distintos de como devemos encarar as ciências e a matemática no decorrer da vida:

“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”
Bento Jesus Caraça, Junho 1941

Estas duas faces da mesma moeda, o conhecimento científico, como Bento Caraça nos apresenta, são exatamente isso. Tal qual dois pólos magnéticos, sempre que há um Norte há um Sul. Julgo ser díficil dissociar completamente as duas ideias. Reparemos no estado avançado, pelo menos em termos cronológicos e de dimensão de conhecimento produzido, em que a ciência se encontra. É um feito gigantesco alguém, por grande génio que seja, tomar a segunda via apresentada e conseguir, isto é, enquanto é vivo e capaz disso, acrescentar conhecimento a uma certa área. A dimensão civilizacional à qual chegámos, não nos permite ter tempo para encarar a ciência pela via poética, por muito que gostássemos. Podemos sim, enveredar por este caminho esporadicamente, por um tema que nos fascine particularmente. Esse caso, acho inclusivamente, que deve ser encorajado. Questionar certas áreas do saber que nos causam maior confusão e por tal, talvez também, admiração.

Este grande cientista não se limitava a causas dentro do seu espectro académico, como é sabido. Na década de trinta, juntamente com outros intelectuais da época, adere à Liga contra a Guerra e o Fascismo. Este tipo de associações, contando ainda com as ligações que tinha ao partido comunista português, PCP, valeram-lhe a desconfiança e perseguições por parte do estado. Apoiou a SPA, Sociedade Protetora dos Animais, por exemplo. A qual se manifestava contra as touradas e espetáculos tauromáquicos.
A 10 de setembro de 1946, é instaurado um processo disciplinar contra Bento Caraça por parte do Ministério da Educação por antipatriotismo. Pouco tempo depois é-lhe forçado o resigno da cátedra no Instituto onde lecionava. A falta desse rendimento complica a situação económica que vive com a sua esposa Cândida Gaspar e o seu filho, João Caraça. Cândida vê-se também ela perseguida pelo regime. Bento decide dar lições particulares em sua casa para trazer algum sustento para o lar. É interrogado e preso pela PIDE nesse mesmo ano. É posteriormente colocado em prisão domiciliária devido ao seu deteriorado estado de saúde. Acaba por falecer em sua casa a 25 de junho de 1948.

Aqui procurou-se relembrar um dos maiores pensadores portugueses que promoveu a emancipação da maioria da população através da cultura e do conhecimento. Bento Jesus Caraça acreditava genuinamente que o conhecimento era a arma de libertação de um povo. Um povo educado e culto jamais pode ser subvertido por regimes opressores da liberdade de pensamento e de opinião.

(Escrito com o Novo Acordo Ortográfico)

André Miguel Carvalho

Referências:
http://www.jc.iffarroupilha.edu.br/site/midias/arquivos/201210131571687conceitos_fundamentais_da_matematica%5B1%5D.pdf

Helena Neves. Bento De Jesus Caraça. Cultura E Emancipação, Um Problema Ainda Do Nosso Tempo.

http://www.dorl.pcp.pt/images/SocialismoCientifico/texto_bjcara%E7a.pdf


Texto: André Miguel

Tradição – Um legado que reflete o contexto sociopolítico

‘Quem canta, seus males espanta’. O adágio é secular e a actividade a que concerne remonta aos primórdios da humanidade. O bucolismo do campo, mas sobretudo os homens e as mulheres que dele vivem, criaram as mais belas melodias que, hoje, residem na nossa memória colectiva e que são parte integrante da nossa identidade enquanto povo .

O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.
O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.

No início dos anos 60, Michel Giacometti, etnólogo e musicólogo corso radicado em Portugal, encetou uma demanda que só terminou mais de 20 anos depois. Nesta, empenhou-se a recolher, in loco, o legado fonográfico das gentes de Norte a Sul do país, recolhendo músicas, canções e histórias em aldeias, vilas, procissões, etc. Com efeito, ainda hoje se trata da recolha mais exaustiva feita em terras lusas, constituindo parte importante do cancioneiro popular. Esta recolha, embora exaustiva e imparcial, coincidiu, temporalmente, com o advento da democracia e com os ventos revolucionários que dominaram a cena política e social do nosso país durante vários anos. Como tal, foram sobretudo os cantares de intervenção e de crítica das condições de trabalho que se tornaram mais conhecidos e amplamente divulgados, sendo os restantes menosprezados e até marginalizados.

Antes disso, o conhecimento que havia desses cantares devia-se sobretudo à actividade promovida pelo Estado Novo, muito preocupado em não deixar morrer o espírito patriótico e em exaltar a identidade nacional. Nesse sentido, foram várias as iniciativas levadas a cabo pelo Secretariado Nacional da Informação, impulsionado por António Ferro – figura central nas políticas culturais do regime, membro do saudoso Grupo d’Orpheu e que tinha o condão de reunir à sua volta os maiores intelectuais do país. Nessas exibições, o principal era mostrar um estilo de vida simples e despretensioso das pessoas do campo que, embora trabalhadoras e com pouco, viviam felizes e alegres. Isto significou que só os cantares de trabalho eram divulgados e valorizados, levando a que muitos cantares de natureza vária não se tornassem nem conhecidos nem reconhecidos.

Por não se encontrarem dentro deste espectro social e político, no que às letras diz respeito, existem muitos cantares que, embora parte do nosso cancioneiro, ficaram de fora deste conjunto de canções que se tornaram conhecidas graças à divulgação feita nestes dois períodos. É disto exemplo a canção ‘Lá cima Ó castelo’, cuja letra, se encontra abaixo transcrita:

 

Lá cima ó Castelo

Há de tudo à venda

Diga-me ó menina

Se a nágua tem renda

 

Se a nágua tem renda

Mas deixai a ter

O que você queria

Era a nágua ver

 

Já não há não há

Já não pode haveri

Vinho na caneca

P’ra genti bueri

 

P’ra genti bueri

Pr’a genti pagari

Já não há não há

Quem mande deitari

 

Lá cima ó Castelo

Si vendem palitos

Diga-me ó menina

Se a nágua tem bicos

 

Se a nágua tem bicos…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem laranjas

Diga-me ó menina

Se a nágua tem franjas

 

Se a nágua tem franjas…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem limões

Mocinhas bonitas

Não são p’ra ganhões

 

Já não há não há…

 

Esta canção, oriunda da Beira-Baixa, tem, curiosamente, muitas linhas rítmicas inspiradas no canto sefardita (nome dado aos judeus que viviam na Península Ibérica, nomeadamente, na região das beiras). Vale a pena ouvir, por causa disto, a música na versão que se encontra no álbum “Sefarad en Diáspora”(link: https://youtu.be/NAoswjSodgk ), sendo aliás uma das poucas versões que se encontram disponíveis para audição online. Importa, também, dar um olhar atento ao conteúdo da letra.

De facto, ao longo da letra é notória a referência a um ambiente de festa em que há mulheres, vinho e ‘náguas’ que, para quem não sabe, é uma espécie de saiote que as mulheres vestiam debaixo das saias. Há, inclusivamente, uma clara alusão à vontade dos homens verem a nágua das senhoras (“O que você queria/ Era a nágua ver”), o que, à época, podia ser considerado algo ousado e, em alguns sítios, até obsceno.

Sendo esta uma canção cantada por vozes femininas ao ritmo dos adufes, é curioso também, verificar a vontade de quem canta em pagar o seu próprio vinho (Vinho na caneca/ (…)/P’ra genti bueri/P’ra genti pagari). Ainda que possamos estar a entrar no campo da especulação, não será possível que estejamos perante uma espécie de vontade de emancipação destas mulheres? Mulheres estas que, convictamente, ficavam a noite toda em plena alegria e cavaqueira, mostrando, desta forma, a sua rebeldia e genuína vontade de viver (Já não há não há/Quem mande deitari). Relativamente à última estrofe, surge um termo pouco frequente na língua portuguesa, ‘ganhões’. Na realidade, os ganhões eram os homens, geralmente jovens e fortes, que não tinham tido a sorte de aprender qualquer ofício, e faziam todo o tipo de trabalhos não especializados, à medida que estes iam aparecendo, consoante a altura do ano.

Talvez por isto e pelo tom de luxúria que parece transparecer à medida que vamos ouvindo o refrão, esta música tenha ficado de fora do âmbito dos dois períodos de divulgação descritos no início do texto. No entanto, não é por isso que estas músicas devem continuar no esquecimento, ou privilégio das localidades mais remotas do interior do nosso país. Porque são estas e outras memórias que fazem a nossa cultura, que é, na verdade, o reflexo dos muitos povos que por cá passaram e do quotidiano de muitos homens e mulheres que, ao longo de séculos, aqui viveram.


Texto: Afonso Anjos

A imortalidade virtual

A única verdade que nos acompanha desde a nascença é a realidade de que algum dia iremos morrer. No entanto, a consciência da própria mortalidade paralisa os seres humanos, levando-os a reprimir este lembrete sobre a efemeridade da vida.

A repressão do medo de morrer, por outras palavras, a negação da morte, é descrita, pelo célebre psicoanalista Sigmund Freud, como um mecanismo de defesa em que uma pessoa lida com uma percepção traumática através da negação da realidade da mesma.

A postura das diversas culturas sobre a morte, o ethos da morte, proporciona uma espécie de ordem e sentido à mortalidade, servindo de alicerce social contra o caos associado à não aceitação do nosso destino.  Ernest Becker, antropólogo e autor do afamado livro The Denial of Death, estendeu a noção de ethos da morte, afirmando que as culturas bem sucedidas fornecem aos indivíduos estruturas bem delineadas para que possam vencer o medo da morte, nomeadamente através da religião. 

Estas doutrinas proveem narrativas plausíveis que permitem negar o derradeiro significado do cessar da vida, o fim da nossa existência. Por exemplo, na concepção Budista a existência é meramente uma ilusão de sofrimento, ultrapassada pela iluminação quando se atinge o Nirvana ou, por outro lado, na religião Cristã é prometida a vida eterna aos fiéis.

Facilmente poderíamos discutir qual a doutrina que garante a maior alienação face ao  significado real da morte. Não pretendo, no entanto, embarcar por esse caminho,  pois qualquer  indivíduo possui a liberdade de lidar com a sua mortalidade sem represálias, desde que não interfira com a liberdade de outrem.

Apesar de tudo, a nossa natureza egoísta impede-nos muitas vezes de fazer uso do que nos distingue dos animais, a razão, utilizando o nosso intelecto em criações que desafiam a própria humanidade.

Entre elas encontra-se o site http://eterni.me/, serviço criado pelo Entrepreneurship Development Program do MIT, que oferece aos utilizadores a possibilidade de se imortalizarem virtualmente, através da criação de um avatar que permite uma interação bastante fidedigna, de modo a que, aquando da sua morte, os seus entes queridos sejam ainda capazes de interagir consigo.

Ao visitarmos o site somos recebidos com a utópica pergunta Quem quer viver para sempre?, seguida de uma breve introdução que deveria ser suficiente para que ninguém desejasse beneficiar deste serviço: Eternime preserva os teus pensamentos mais importantes, histórias e memórias para a eternidade.

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Quando os usuários se inscrevem,  Eternime recolhe diversas informações nas diferentes contas do indivíduo, tais como o Facebook, Twitter, mail, as fotografias e o histórico da posição geográfica do mesmo, entre outras. Uma vez feita a colheita de informação, Marius Ursache, CEO da empresa, diz que existem dois processos essenciais: uma fase inicial de fazer sentidodos dados colhidos e a fase da imitaçãoem si.

Obviamente a fase de fazer sentidoe de imitarsão bastante primitivas actualmente.  No entanto, interagindo periodicamente com o seu avatar, vai permitir que o mesmo faça mais sentido nos próximos 30-40 anos que ainda tem para viver. Desta forma, torna-se mais preciso e irá conhecê-lo melhor com o tempo

Marius Ursache

Custa-me acreditar que já existam cerca de 29.000 pessoas inscritas (11 de Maio de 2015, fonte: eterni.me), dispostas a acreditar nesta visão doentia da nossa existência.

Já nos é suficientemente difícil lidar com a morte de uma maneira natural, logo, qual a necessidade de criar novas formas de sofrimento?

Somos conscientes do drama associado ao tema da morte. Para nós é muito importante enfatizar que não queremos preservar as banalidades da vida de uma pessoa, mas gostaríamos de criar um legado que permitisse que os netos interagissem com o seu avô”

Marius Ursache

Para além de esta frase não fazer sentido, como iríamos explicar a esses supostos netos que esse avatar na realidade não passa de algoritmos de inteligência artificial, não vivos, que, no entanto, simulam perfeitamente a realidade?

Existem diversas empresas que garantem serviços semelhantes, tais como a Legacy Locker, Entrustnet, Deathswitch ou a Life.Vu, mas nenhuma promete a complexidade garantida por Eternime.

Ao darmos asas a estes projectos estamos a ser egoístas num campo que nem sequer sonhei que o pudéssemos ser. Após a nossa morte, a interação dos nossos familiares e amigos com o nosso avatar só tornará mais frustrante o nosso desaparecimento e mais difícil a dor do nosso fim, pois existiremos apenas como um intelecto virtual, dependente de uma ligação a um servidor e impossibilitados de os abraçar, de os tocar, de os beijar ou de sentir.

Irei depositar a minha esperança em que magicamente consigamos absorver, como sociedade, estas palavras sábias do Ricardo Reis:

“Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.”


Texto: Maria Sbrancia

O Despertar da Consciência

Esta semana vi finalmente o filme Interstellar, o que me deixou de novo bastante pensativo em relação aos assuntos das singularidades espaço-temporais, constantes cósmicas e do destino fatal da humanidade.

Rapidamente me debrucei sobre questões irrespondíveis como o sentido da vida, o infinito, a hipotética ausência de tempo e espaço, e tentei ainda compreender este conceito das dimensões para além das 3 espaciais a que fomos habituados na nossa existência. Uma questão que algumas mentes brilhantes da física, como alguns dos nossos colegas do Técnico, sabem responder e sobre a qual me debrucei com mais afinco, foi a do tempo relativo segundo a teoria relativista de Einstein. Estava eu pensando, na minha ignorância, que se o referencial de tempo ao qual um sujeito está subordinado é, de facto, deformado pelas massas do universo, ou pela velocidade a que este sujeito atravessa o espaço tridimensional, será também a sua escala de tempo biológico alterada? Logo me alertaram que sim. O tempo (como o conhecemos) é só um, que se estica e contrai, e controla também o funcionamento do nosso corpo, isto é, o nosso envelhecimento. Supus então, leigamente, que se um indivíduo pudesse ser acelerado à velocidade da luz, essa constante tão misteriosa que tanto domina as leis da física, o tempo seria tão dilatado relativamente ao referencial terrestre que deixaria mesmo de passar. O tempo deixaria de existir para esse indivíduo. Ficaria ele congelado no mesmo instante enquanto viajava a uma tão bestial velocidade? Que recompensa tão cruel para tão grande feito. Na realidade, segundo também me alertaram, essa velocidade é inatingível, a não ser que algo ou alguém tenha surgido já tão célere. A velocidade apresenta, na verdade, um comportamento assimptótico, sendo o limite, quando o factor de deformação do tempo tende para infinito, a velocidade da luz (quando alguém está durante infinito tempo num certo instante, é o mesmo que o tempo não passar).

Estas ilações levaram-me a concluir que aDoorsofPerception própria percepção humana, interligada com o tempo, é também uma função das mesmas variáveis. A forma como experienciamos o ambiente em nosso redor tem de ser também uma dimensão, deformável por ação da influência cósmica. Os sentidos, a nossa experiência empírica, o próprio entendimento humano são transformados pelas coordenadas N-dimensionais em que nos inserimos. Parece-me que, contrapondo as experiências com o consumo de alucinogénios do Senhor Aldous Huxley, as verdadeiras Portas da Percepção (The Doors of Perception, 1954) são abertas pelo acto da viagem espacial intergaláctica, que nos proporcionaria uma nova experiência sensorial do mundo em nosso redor. Estarão as correntes que impedem os nossos cérebros de entenderem certas questões, enunciadas em cima, diretamente interligadas com a localização da nossa pequena residência atual, a Terra? Só Deus sabe. Saberá Deus? Será Deus uma entidade supra-dimensional cuja percepção em grande modo supera a do ser humano? Será Ele o próprio Arquiteto do universo e das leis que nele imperam? Farão para Ele sentido todas as questões cujas respostas se encontram ocultas para lá dos limites aparentemente infinitos do universo e no interior talvez infinitamente pequeno das suas singularidades, os buracos negros?

Regressando a assuntos do domínio do entendimento humano, uma coisa é certa, nós, enquanto espécie, nascemos com o instinto de sobrevivência codificado nos genes, e, a longo prazo, essa sobrevivência só nos é permitida pela expansão universal, saindo deste nosso amado planeta. Mais cedo ou mais tarde, ou acabaremos extintos ou fora daqui, não fosse o nosso tão querido Sol, fonte de toda a vida conhecida, tornar-se numa gigante vermelha, que em cerca de 7 mil milhões de anos, poderá engolir a Terra. Isto se a nossa sobrevivência terráquea não for testada, daqui a cerca de mil milhões de anos, pela extinção de todas as plantas e evaporação de todos os oceanos, ambos causados por um aumento gradual da luminosidade solar (quantidade de energia libertada, por segundo, pelo sol), ou devido a uma outra idade do gelo, fenómeno também com uma frequência bastante elevada, a rondar a centena de milhar de anos, ou uma supernova que expluda suficientemente perto de nós, no raio de 100 anos-luz da Terra, ou finalmente por um asteroide ou cometa, como poderá ter acontecido aos últimos seres vivos que dominaram a terra, os Dinossauros.

Para permitir que um dia consigamos abandonar a Terra e viajar rumo a outras planetas que possamos chamar casa, o desenvolvimento tecnológico pode ser a solução. Mas pode também ser a desgraça. Chegamos agora a um ponto importante que gostaria de frisar. Todos os destinos fatais, referidos em cima, são causados pela natureza, mas há outros, como o famoso Aquecimento Global, que podem levar à extinção da própria espécie que os causou: o Homem. É então uma dicotomia de importância suprema que governa o desenvolvimento tecnológico: pode ser a nossa salvação ou a nossa desgraça. Impera então a necessidade do chamado desenvolvimento sustentável. É para mim, uma palavra muito importante, que define toda a nossa geração, esta Sustentabilidade.

thumb.php Era bom que todos nós passássemos por um Despertar para a Consciência da natureza, a Consciência da sustentabilidade, ou simplesmente que despertássemos a nossa Consciência. De qualquer das maneiras, isso implica sempre a aproximação entre o ser humano e a natureza, e de todos os processos e variáveis que ambas as partes exigem. A aceitação daquilo que é Natural, como o bom senso e o instinto. Talvez sejam essas as nossas maiores virtudes. Talvez devamos apenas escutar o coração, que estiveram, porventura, sempre dentro dele as respostas que buscamos. Talvez seja o Amor, simbolicamente proveniente desse mesmo órgão, a nossa própria salvação, como é até representado no filme que estive a ver. Quero acreditar nisso, e como esse desejo parte do instinto, vou aceitar que sim.

Faço, finalmente, um apelo a todos nós, os alunos do Técnico, e em particular a mim mesmo: Não fiquemos alienados, apenas a viver a rotina, sem juntarmos os nossos pensamentos aos dos outros, numa consciência única de um povo global que quer sobreviver; Não nos sintamos superiores aos problemas da humanidade por pertencermos a uma elite intelectual deste país, que em princípio terá sempre segurança na vida, devido a uma elevada empregabilidade dos alunos do Instituto; Despertemos a nossa consciência e deixemos que o bom senso nos leve a melhor.

Afinal, ainda há pouco falava do desenvolvimento tecnológico sustentável, e quem somos nós, senão os alunos do estabelecimento onde, por excelência, este desenvolvimento acontece, em Portugal? Vamos honrar essa responsabilidade, para bem do Homem e do seu futuro.


Texto: Vasco Abreu

A Avareza

“ O estado foi inventado para os supérfluos. (…) O Estado é o lugar onde todos se
intoxicam, bons e maus; onde todos se perdem, bons e maus; onde o lento suicídio de todos se chama “vida”.
Olhai para estes supérfluos! Roubam as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; a esta rapina chamam eles sua “cultura”, e neles tudo se transforma em doença e desgraça.
Olhai para estes supérfluos! Estão sempre doentes, a vomitar a sua bílis e chamam a isso jornais. Devoram-se uns aos outros e nem sequer chegam a digerir-se.
Olhai para estes supérfluos! Adquirem riquezas e com elas se tornam apenas mais pobres.
Querem o poder, e primeiro que tudo a alavanca do poder, muito dinheiro- esses
impotentes!
Vede-os trepar, esses ágeis macacos. Trepam uns por cima dos outros e empurram-se mutuamente para o lodo e o abismo.
Todos querem aceder ao trono; é a sua loucura- como se a felicidade estivesse no trono.
Muitas vezes é lama que há no trono, e outras é o trono que está assente na lama”

Friedrich Nietzsche em Assim falava Zaratustra

 

Sempre nos foi intrínseca a necessidade de rotular, de quantificar o que nos rodeia. O que terá começado por algo tão simples quanto inventar o dinheiro de modo a facilitar as transações comerciais evoluiu rapidamente para uma nova forma de rotular o nosso valor enquanto humanos.

Passamos então a medir a nossa importância em prol do materialismo e tudo virou uma questão de posse.

O chamado “amor” passou a ser quantificado em prol da fortaleza da monogamia praticada entre as pessoas, da fidelidade. Nem sequer a derradeira união entre dois humanos conseguiu fugir ao que passarei a chamar “O Postulado da Posse”. Quanto mais fácil não teria sido definir a monogamia como sendo o sentimento de não desejar estar intimamente com mais ninguém a não ser o objecto amado e não em prol de uma palavra tão redutora quanto a “fidelidade”. Isto é apenas um exemplo de um dos diversos campos sobre os quais o Postulado da Posse atua.

Longe se encontra o tempo em que a avareza poderia ter sido apenas definida como a sede pelo dinheiro. Tendo começado por se tratar disso, uma mera questão de ganância e cobiça, pouco a pouco, terá conduzido à idolatria desmesurada do próprio, por outras palavras, o auge do narcisismo associado ao materialismo.

Logo, uma vez que acredito que este narciso-materialismo que nos rege corresponde ao
expoente máximo da perfeição humana, passarei então a anunciar o Postulado da Posse de modo
a que todos os que ainda não façam parte do “sistema” possuam uma lista que os conduza ao seu
aperfeiçoamento:

  • Se estiveres numa relação, faz o teu amor público nas redes sociais senão não se trata de
    amor;
  • Publica com uma certa regularidade selfies, nesta nova sociedade narcisista não irás querer
    que ninguém se esqueça da tua beleza;
  • É sempre bom fazer transparecer que possuis uma vida ativa nas redes sociais, pois quantas
    mais atividades publicares, maior será o teu potencial para o olho alheio;
  • Se estiveres vestido de uma forma particularmente boa, quer seja pela marca, quer seja por
    quão bem ficas assim vestido, partilha-o com o hashtag #ootd (oufit of the day);
  • Não te esqueças que não só interessa o que possuis materialmente, com a nova era virtual
    quantas mais pessoas te louvarem nos teus perfis, maior é o teu valor enquanto humano. Para melhorares este aspecto os seguintes hashtags ajudam #followback, #tagsforlikes,
    #picoftheday, #instamood ou #blessed;
  • Tenta ter sempre o que está no “topo” em termos tecnológicos. Ou seja, quanto mais produtos da Apple possuíres melhor serás.

A lista poderia de facto continuar, no entanto, isto tudo pode ser reduzido a um simples lema:

“Procura transparecer tudo aquilo que aspiras ser, não te preocupes em sê-lo, isso implica muito trabalho e atualmente ninguém tem tempo. Por isso, embarca na vida da futilidade e do materialismo e estarás integrado na sociedade”.

 

Esta crónica faz parte de uma série de 7 Crónicas com o mote Os Sete Pecados Capitais Atualizados, a sair nas próximas edições do Diferencial.


Texto: Maria Sbrancia