Youthless e a Evasão pela Arte

A pequena sala da galeria Zé dos Bois, em Lisboa, tremia face ao volume sonoro esmagador. Baixo e bateria reverberavam incessantemente, numa actuação que desafiava tanto a audiência, quanto o sistema de som. Estávamos a 19 de Setembro e os Youthless, sob o nome de Flaming Tits, davam um concerto surpresa. Os temas sucediam-se, sôfregos, numa catadupa frenética e desinibida, que obrigava a multidão a dançar. O duo erguia uma muralha sónica densa, não entre o palco e a audiência, mas sim em nosso redor, delimitando um espaço comum, febril e criativo.alex youthless

 

Um mês mais tarde encontro-me com Alex (bateria e voz) e Sab (baixo) no Jardim da Estrela. O Outono já chegou e com ele os dias mais curtos e remelosos. Cheira a chuva e a luz gasta-se, rapidamente, antecipando um fim de tarde sombrio. Os próprios músicos parecem reflectir a mudança do clima, estando visivelmente mais calmos do que quando os conheci no Verão. Esta mudança anímica não é, porém, novidade para quem toca junto desde os tempos da escola.

“Conhecemo-nos no Instituto Espanhol de Lisboa, e aí formámos uma banda chamada Three and a Quarter. Ensaiámos até o Alex ir para a universidade, nos EUA, onde gravámos um álbum e fizemos uma digressão”, explica Sab. As transições geográficas imperaram sempre numa banda cujos membros provêm de países distintos: “Alex veio de Nova Iorque aos 14 anos e eu passava sempre muito tempo com a minha família, em Londres.”

Foi desta amálgama de culturas, bem como de uma busca constante por novas influências, que despertou o projecto Youthless. A mãe de Alex mostrou-lhe música clássica minimalista, o pai jazz e o irmão rock. Num ensaio, por brincadeira, ele foi para a bateria e Sab para o baixo. Rapidamente criaram sete músicas e aperceberam-se que conseguiam compor a dois.

As suas músicas assumem uma estrutura paralela à da maior parte do rock, na medida em que fazem uso apenas da bateria e do baixo. Este último é ligado a dois amplificadores distintos, o que possibilita tocar em quatro oitavas simultaneamente. A sonoridade é, portanto, espessa e ruidosa: “Queríamos soar como se os Sonic Youth tivessem sido produzidos pelo King Tubby [célebre produtor de dub]”, adianta Sab.

Nas primeiras gravações delinearam o molde em que iria assentar o seu som ecléctico: “um manto sonoro de barulho, onde o próprio ruído seja um catalisador psicadélico”. À composição a dois, e sempre num ambiente descontraído, opõem-se os concertos, celebremente caóticos e explosivos. Não obstante, o seu noise rock visa comover e não apenas alienar, porque, como explica Alex: “a música é uma vibração e nós queremos tocar para pessoas que não a racionalizem, mas que a sintam.”

Talvez por isso prefiram tocar em clubes, salas pequenas e com uma identidade forte, onde o público seja receptivo. Intenções que não impediram, todavia, espectáculos anárquicos, em que assistências menos hospitaleiras ficaram pasmadas com a potência fracturante do seu som e das suas performances. Alex recorda que “num concerto organizado pelo Fua [Joaquim Durães, produtor do festival Milhões de Festa], o Sab bebeu demasiado bagaço e vomitou em palco. Já eu saltei de um segundo andar e magoei-me nas costas…”youthless foto11

 

É curioso ouvir todas estas peripécias e excessos numa tarde sonolenta de Outono. O sino da Basílica da Estrela ressoa, imponente, enquanto Alex pede mais um chá. Veio há pouco de uma sessão “duríssima” de fisioterapia porque, após seis semanas intensas e desregradas, contraiu uma grave lesão nas costas, o que obrigou a uma pausa do grupo. Só recentemente regressaram aos palcos, mais revitalizados do que nunca: em Março irão lançar o seu primeiro álbum.

Apesar de ainda pouco poderem revelar acerca do lançamento do This Glorious no Age, a editar em Portugal pela NOS e no Reino Unido pela CLUB.THE.MAMMOTH e Kartel Records, o seu entusiasmo é palpável. “É um disco que retrata as minhas experiências pessoais de uma forma não filtrada”, principia Alex.

Estes temas são já focados no primeiro single, Golden Spoon, que conta com um videoclip do amigo e colaborador Francisco Ferreira (Capitão Fausto e BISPO). A este seguir-se-á Attention, uma faixa que aborda a complacência com a hecatombe do quotidiano.

Pergunto-lhe se vê as suas composições como eminentemente sociais. Diz-me que “não são arte didáctica, porque não tenho nem o direito, nem o conhecimento para apontar uma direcção. Não são um lamento ou uma lição, mas creio que têm uma componente social implícita, como toda a arte.”

É perceptível a sua mudança de postura: o baterista pondera agora com vagar as respostas. Faz-se notar a seriedade com que escreve as letras, cuidadosamente camufladas sob a erupção instrumental. “Estes singles são a minha observação resignada desta montanha russa de eventos babélicos.” Eventos estes que, afirma, “não importa definir como bons ou maus. É mais importante compreender que catalogar ou adjectivar.”

Alex medita e cita alguns dos seus autores de referência, uma e outra vez, revelando a profundidade do seu projecto de escrita. Ao fazê-lo as suas palavras contrastam com o fim de tarde bucólico: “O capitalismo vai fazer a humanidade definhar. Criou um espectáculo onde a experiência directa cessa e se vive através de um show amplificado pelos media. A internet, por exemplo, permite um maior alcance, mas tira valor à música. Se o que chega a mais gente é mais pequeno, então o seu impacto é menor.”

À medida que o nosso tempo se esgota, consome-se também a luz do dia. Muitas questões ficam em aberto acerca do novo trabalho desta banda, que dissimula observações sociais em malhas distorcidas de alta voltagem. Questões estas que apenas os concertos, como o de dia 21 de Novembro, em Évora, podem ajudar a responder. Até lá fica a convicção da banda de que “a arte nos tira de um meio hermético e nos mostra algo de muito real e verdadeiro. É aí que assume uma vertente social e é nisso que reside o seu enorme poder.”

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico


Texto: Gil Gonçalves

Foto: Jannike Stelling

Bento Jesus Caraça, o diplomata do conhecimento humano

Bento Caraça, nascido em Vila Viçosa no ano de 1901, é um dos mais proeminentes pensadores portugueses do século XX. De família de poucas posses, viu os seus estudos serem possibilitados graças à sua “protetora” D. Jerónima, proprietária da herdade na qual trabalhavam os pais. Em 1918, entra em Economia no Instituto Superior de Ciências Económicas (atual ISEG), após ter concluído com distinção o curso liceal. No ano seguinte é-lhe dada a oportunidade de se estabelecer como professor assistente no departamento de Álgebra Superior e Geometria Analítica, chegando  a professor catedrático do mesmo estabelecimento onze anos depois, em 1929. Caraça é rapidamente apreciado em larga escala pelos alunos de todo o instituto, provavelmente devido à sua paixão e entrega ao ensino e aos métodos inovadores que aplicava para transmitir o conhecimento. Isto apesar de ser conhecido também pela sua enorme exigência e rigor.
Num texto publicado em 1933 numa conferência da Mocidade Livre (uma associação recém-criada na altura) e intitulado A Cultura Integral do Indivíduo, Bento fala dos problemas que a Europa atravessava na época e que ainda iria, porventura, atravessar. Deixando sempre um sinal de esperança,de que toda aquela “turbulência” iria sucumbir e que uma vida melhor se avistava para todos. Nesse mesmo documento procurou definir em que consistia um homem culto.

“O que é o homem culto? É aquele que:
    -Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
    – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
    – Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida”
Bento Jesus Caraça, Maio 1939

Apesar de neste tipo de matéria não haver certo nem errado, visto que cada pessoa é livre de ter a sua definição de conceitos tão vastos e incertos como este o é, não deixo escapar esta hipótese para concordar e assumi-la como minha também.
O homem culto não deve ser aquele que, muitas vezes confundido com o sábio, é um foco enorme de centralização de conhecimento e que, normalmente, a tem como a única e verdadeira fonte de saber. Bento Jesus tenta, aqui, que nos afastemos desses dogmas, dessas verdades incautas. Ao termos bem determinada a nossa posição no cosmos, conseguimos chegar facilmente ao oposto do sábio e assumir uma postura semelhante à de Sócrates: “Só sei que nada sei”.
Para se ser alguém culto falta primeiramente ser isso mesmo, alguém. Alguém no sentido de se ser um ser humano. Além de descobrir, ou tomar conhecimento, da sua posição exterior, é fundamental, também, tomar consciência da sua posição interior. Isto é, de que maneira o indivíduo se revela a ele próprio. Somente após tomarmos plena consciência de quem somos e da nossa própria dignidade, conseguimos verdadeiramente conduzir os nossos atos para a finalidade do bem comum e da solidariedade. Ao sentirmos plenamente os efeitos das ações exteriores a nós, conseguimos transpor as consequências das mesmas nos outros.
bentodejesuscaracaO último ponto da definição de Caraça sobre o homem culto tenta responder, muito modesta e graciosamente, à mítica questão: Qual o sentido da vida? Mas não deixemos esta definição ser um fim em si próprio. A mesma é tão aberta quanto a própria questão.  O indivíduo culto é aquele que tem consciência de que para melhorar o mundo tem, primeiramente, de melhorar ele próprio. O aperfeiçoamento individual foi o que nos permitiu, enquanto espécie, chegar onde chegámos hoje. Esta última condição assenta profundamente nas duas anteriores a ela. Decorre que, apenas após tomarmos conhecimento de nós próprios e do nosso lugar no universo, podemos almejar o aperfeiçoamento, porque apenas a partir dessas condições temos o ponto de partida para tentar atingir o máximo de nós próprios.
Em 1941, cria a Biblioteca Cosmos, uma coleção de livros sobre as mais variadas áreas do saber, que, além do baixo custo de aquisição, estava estruturada de uma forma que pudesse ser compreendida pela generalidade dos portugueses que fossem literados. Neste mesmo ano também, edita o livro Os Conceitos Fundamentais da Matemática. Livro esse que iria ficar marcado como sendo, provavelmente, a obra-prima de Bento Jesus. No prefácio o autor descreve dois modos distintos de como devemos encarar as ciências e a matemática no decorrer da vida:

“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”
Bento Jesus Caraça, Junho 1941

Estas duas faces da mesma moeda, o conhecimento científico, como Bento Caraça nos apresenta, são exatamente isso. Tal qual dois pólos magnéticos, sempre que há um Norte há um Sul. Julgo ser díficil dissociar completamente as duas ideias. Reparemos no estado avançado, pelo menos em termos cronológicos e de dimensão de conhecimento produzido, em que a ciência se encontra. É um feito gigantesco alguém, por grande génio que seja, tomar a segunda via apresentada e conseguir, isto é, enquanto é vivo e capaz disso, acrescentar conhecimento a uma certa área. A dimensão civilizacional à qual chegámos, não nos permite ter tempo para encarar a ciência pela via poética, por muito que gostássemos. Podemos sim, enveredar por este caminho esporadicamente, por um tema que nos fascine particularmente. Esse caso, acho inclusivamente, que deve ser encorajado. Questionar certas áreas do saber que nos causam maior confusão e por tal, talvez também, admiração.

Este grande cientista não se limitava a causas dentro do seu espectro académico, como é sabido. Na década de trinta, juntamente com outros intelectuais da época, adere à Liga contra a Guerra e o Fascismo. Este tipo de associações, contando ainda com as ligações que tinha ao partido comunista português, PCP, valeram-lhe a desconfiança e perseguições por parte do estado. Apoiou a SPA, Sociedade Protetora dos Animais, por exemplo. A qual se manifestava contra as touradas e espetáculos tauromáquicos.
A 10 de setembro de 1946, é instaurado um processo disciplinar contra Bento Caraça por parte do Ministério da Educação por antipatriotismo. Pouco tempo depois é-lhe forçado o resigno da cátedra no Instituto onde lecionava. A falta desse rendimento complica a situação económica que vive com a sua esposa Cândida Gaspar e o seu filho, João Caraça. Cândida vê-se também ela perseguida pelo regime. Bento decide dar lições particulares em sua casa para trazer algum sustento para o lar. É interrogado e preso pela PIDE nesse mesmo ano. É posteriormente colocado em prisão domiciliária devido ao seu deteriorado estado de saúde. Acaba por falecer em sua casa a 25 de junho de 1948.

Aqui procurou-se relembrar um dos maiores pensadores portugueses que promoveu a emancipação da maioria da população através da cultura e do conhecimento. Bento Jesus Caraça acreditava genuinamente que o conhecimento era a arma de libertação de um povo. Um povo educado e culto jamais pode ser subvertido por regimes opressores da liberdade de pensamento e de opinião.

(Escrito com o Novo Acordo Ortográfico)

André Miguel Carvalho

Referências:
http://www.jc.iffarroupilha.edu.br/site/midias/arquivos/201210131571687conceitos_fundamentais_da_matematica%5B1%5D.pdf

Helena Neves. Bento De Jesus Caraça. Cultura E Emancipação, Um Problema Ainda Do Nosso Tempo.

http://www.dorl.pcp.pt/images/SocialismoCientifico/texto_bjcara%E7a.pdf


Texto: André Miguel

Tradição – Um legado que reflete o contexto sociopolítico

‘Quem canta, seus males espanta’. O adágio é secular e a actividade a que concerne remonta aos primórdios da humanidade. O bucolismo do campo, mas sobretudo os homens e as mulheres que dele vivem, criaram as mais belas melodias que, hoje, residem na nossa memória colectiva e que são parte integrante da nossa identidade enquanto povo .

O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.
O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.

No início dos anos 60, Michel Giacometti, etnólogo e musicólogo corso radicado em Portugal, encetou uma demanda que só terminou mais de 20 anos depois. Nesta, empenhou-se a recolher, in loco, o legado fonográfico das gentes de Norte a Sul do país, recolhendo músicas, canções e histórias em aldeias, vilas, procissões, etc. Com efeito, ainda hoje se trata da recolha mais exaustiva feita em terras lusas, constituindo parte importante do cancioneiro popular. Esta recolha, embora exaustiva e imparcial, coincidiu, temporalmente, com o advento da democracia e com os ventos revolucionários que dominaram a cena política e social do nosso país durante vários anos. Como tal, foram sobretudo os cantares de intervenção e de crítica das condições de trabalho que se tornaram mais conhecidos e amplamente divulgados, sendo os restantes menosprezados e até marginalizados.

Antes disso, o conhecimento que havia desses cantares devia-se sobretudo à actividade promovida pelo Estado Novo, muito preocupado em não deixar morrer o espírito patriótico e em exaltar a identidade nacional. Nesse sentido, foram várias as iniciativas levadas a cabo pelo Secretariado Nacional da Informação, impulsionado por António Ferro – figura central nas políticas culturais do regime, membro do saudoso Grupo d’Orpheu e que tinha o condão de reunir à sua volta os maiores intelectuais do país. Nessas exibições, o principal era mostrar um estilo de vida simples e despretensioso das pessoas do campo que, embora trabalhadoras e com pouco, viviam felizes e alegres. Isto significou que só os cantares de trabalho eram divulgados e valorizados, levando a que muitos cantares de natureza vária não se tornassem nem conhecidos nem reconhecidos.

Por não se encontrarem dentro deste espectro social e político, no que às letras diz respeito, existem muitos cantares que, embora parte do nosso cancioneiro, ficaram de fora deste conjunto de canções que se tornaram conhecidas graças à divulgação feita nestes dois períodos. É disto exemplo a canção ‘Lá cima Ó castelo’, cuja letra, se encontra abaixo transcrita:

 

Lá cima ó Castelo

Há de tudo à venda

Diga-me ó menina

Se a nágua tem renda

 

Se a nágua tem renda

Mas deixai a ter

O que você queria

Era a nágua ver

 

Já não há não há

Já não pode haveri

Vinho na caneca

P’ra genti bueri

 

P’ra genti bueri

Pr’a genti pagari

Já não há não há

Quem mande deitari

 

Lá cima ó Castelo

Si vendem palitos

Diga-me ó menina

Se a nágua tem bicos

 

Se a nágua tem bicos…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem laranjas

Diga-me ó menina

Se a nágua tem franjas

 

Se a nágua tem franjas…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem limões

Mocinhas bonitas

Não são p’ra ganhões

 

Já não há não há…

 

Esta canção, oriunda da Beira-Baixa, tem, curiosamente, muitas linhas rítmicas inspiradas no canto sefardita (nome dado aos judeus que viviam na Península Ibérica, nomeadamente, na região das beiras). Vale a pena ouvir, por causa disto, a música na versão que se encontra no álbum “Sefarad en Diáspora”(link: https://youtu.be/NAoswjSodgk ), sendo aliás uma das poucas versões que se encontram disponíveis para audição online. Importa, também, dar um olhar atento ao conteúdo da letra.

De facto, ao longo da letra é notória a referência a um ambiente de festa em que há mulheres, vinho e ‘náguas’ que, para quem não sabe, é uma espécie de saiote que as mulheres vestiam debaixo das saias. Há, inclusivamente, uma clara alusão à vontade dos homens verem a nágua das senhoras (“O que você queria/ Era a nágua ver”), o que, à época, podia ser considerado algo ousado e, em alguns sítios, até obsceno.

Sendo esta uma canção cantada por vozes femininas ao ritmo dos adufes, é curioso também, verificar a vontade de quem canta em pagar o seu próprio vinho (Vinho na caneca/ (…)/P’ra genti bueri/P’ra genti pagari). Ainda que possamos estar a entrar no campo da especulação, não será possível que estejamos perante uma espécie de vontade de emancipação destas mulheres? Mulheres estas que, convictamente, ficavam a noite toda em plena alegria e cavaqueira, mostrando, desta forma, a sua rebeldia e genuína vontade de viver (Já não há não há/Quem mande deitari). Relativamente à última estrofe, surge um termo pouco frequente na língua portuguesa, ‘ganhões’. Na realidade, os ganhões eram os homens, geralmente jovens e fortes, que não tinham tido a sorte de aprender qualquer ofício, e faziam todo o tipo de trabalhos não especializados, à medida que estes iam aparecendo, consoante a altura do ano.

Talvez por isto e pelo tom de luxúria que parece transparecer à medida que vamos ouvindo o refrão, esta música tenha ficado de fora do âmbito dos dois períodos de divulgação descritos no início do texto. No entanto, não é por isso que estas músicas devem continuar no esquecimento, ou privilégio das localidades mais remotas do interior do nosso país. Porque são estas e outras memórias que fazem a nossa cultura, que é, na verdade, o reflexo dos muitos povos que por cá passaram e do quotidiano de muitos homens e mulheres que, ao longo de séculos, aqui viveram.


Texto: Afonso Anjos

Oymyakon, o “Polo do Frio”

Com -67,7ºC Oymyakon, uma localidade de 500 habitantes no nordeste da Rússia (leste da Sibéria), detém o recorde de temperatura mais baixa alguma vez registada pelo homem, num local permanentemente habitado. Isolada do resto da civilização e com condições climáticas extremas, a luta pela sobrevivência é diária e a população destemida criou, ao longo dos anos, formas de adaptar aparelhos e bens do nosso dia-a-dia a ambientes agrestes. Aqui, o frio ártico é algo que têm de suportar.

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A alimentação dos habitantes é maioritariamente carnívora, à base de carne de cavalo e de rena, pois o solo, permanentemente congelado, impede a plantação de vegetais. Algumas das iguarias locais são a carne de rena, carne crua raspada de peixe congelado e cubos de gelo de sangue de cavalo com macarrão. A culinária é peculiar, mas eficiente para condições tão extremas quanto estas.

As condições extremas implicam também algum cuidado com os bens dos habitantes. Os carros têm de ser estacionados em garagens com aquecimento ou, se deixados no exterior, com o motor ligado. O combustível como o gasóleo congela a -50°C, sendo necessário manter as bombas de gasolina abertas 24 sob 24 horas, que são um serviço essencial para garantir que a economia não pare. Há também que cuidar dos aparelhos electrónicos, visto que estes não foram inicialmente construídos para condições tão extremas, pois o metal e outros materiais dilatam ou contraem quando expostos a temperaturas extremamente baixas.

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O clima é subártico extremo devido às cadeias montanhosas que cercam a cidade e impedem que as densas massas de ar frio saiam do vale. Durante o inverno (que tem a duração mínima de 9 meses) não há um raio de claridade, é completamente escuro, durante quase 24 horas por dia, com uma temperatura média de -58°C. As pessoas movem-se apressadamente nas ruas, com a cara quase completamente tapada, tentando chegar ao próximo abrigo o mais rapidamente possível, pois existe a possibilidade de congelar o rosto, desprotegido, em poucos segundos.

Quanto à origem do nome, Oymyakon significa, no dialeto da população, “rio que não congela”. Mesmo com uma temperatura exterior de -60°C a água que corre no rio perto da localidade não congela. Isto deve-se ao facto de, na região, o congelamento das rochas atingir o grau máximo na Terra, chegando até 1.500 metros de profundidade, exercendo pressão (com o aumento de volume) sobre as águas quentes subterrâneas provenientes das fontes naturais perto da localidade, o que resulta no aparecimento destas águas à superfície.

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As pessoas que aqui habitam são de uma grande perseverança e resiliência, sendo um exemplo da capacidade do ser humano em adaptar-se a condições extremas do meio ambiente. E, apesar desta cidade ser um local extremamente desafiante para sobreviver, a paisagem natural é ímpar, com montanhas exuberantes, vales, rios e uma vida selvagem quase completamente intocada pelo ser humano (habitada por aves de grande porte, ursos, leões-marinhos e alces).

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Texto: Rita Feijão

Kung Fury, o regresso ao futuro

Os anos 80 foram uma época em que comédia, super-heróis, acção e viagens no tempo se tornaram tão banais quanto a quantidade de filmes de culto que surgiram nesta década. Misturando esta nostalgia com o a oportunidade do crowdfunding, David Sandberg, um realizador que profissionalmente vivia da criação de anúncios publicitários, criou uma fórmula que promete despertar o interesse de todos com um regresso aos clássicos, ela é o filme Kung Fury.

Decidido a fazer uma mudança na sua vida, o realizador escreveu o guião para o filme que conta com os mistérios dos policiais dos anos 80, artes marciais, viagens no tempo, e como cereja no topo do bolo David Hasselhoff, o actor e cantor que ficou imortalizado com a série Baywatch (“Marés Vivas”). O filme foi financiado através da plataforma Kickstarter e contou com $630 019 de donativos.

O filme já está gravado, e embora não exista uma data prevista para a estreia, encontra-se no site a informação de que o filme será lançado no final de Maio na internet, gratuito. Terá cerca de 30 minutos de duração e promete muita diversão.

No dia 16 de Abril, a surpresa chegou com o lançamento da nova música de David Hasselhoff, True Survivor, cujo vídeo contém alguns momentos do filme.

Para os curiosos segue-se o link para o site e para o trailer do filme.


Texto: André Pombeiro

Mecânico e Rei por Skype

Céphas Bansah
Céphas Bansah

Céphas Bansah é mecânico na Alemanha e rei de Hohoe, um reino tradicional no Gana. Vive em Ludwigshafen, na Alemanha, e governa os seus cerca de trezentos mil súbditos por telefone, fax, e-mail e Skype.

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Céphas Bansah é dono de uma oficina de mecânica na Alemanha.

Em 1992, com a morte do seu avô, Bansah foi coroado. Apesar de, hierarquicamente, levar apenas o bronze, antecedido pelo pai e pelo mais velho dos 75 irmãos, o facto de os detentores do ouro e da prata serem canhotos excluiu-os da liga, uma vez que o canhotismo é considerado sinónimo de desonestidade entre os membros da étnia Ewe. Nesta altura, o novo rei estava a terminar o curso de Técnico de Mecânica na Alemanha, onde decidiu continuar. “Eu tinha duas razões pelas quais queria vir para a Alemanha: em primeiro lugar, o meu interesse em seguir uma carreira para usar e reforçar a experiência adquirida com os meus estudos e, em segundo lugar, para ganhar uma visão sobre as “típicas” atitudes alemãs – o sentido inflexível do dever, disciplina, diligência e ambição.” – Afirma o rei, que acredita conseguir mais contactos, parceiras e doações para o seu reino em território germânico. Para governar a mais de seis mil quilómetros de distância, começou por combinar comunicações regulares via fax com cerca de oito visitas a cada ano. Com o Skype, cortou o número de presenças ao meio. “Uso o Skype para falar com meu irmão e com e meu povo e para saber como estão a ir as coisas, se são precisas mais pontes, mais escolas, como estão as obras…”, diz.

Céphas Bansah tem ainda uma plataforma de doações online, onde pretende amealhar dinheiro para construir uma escola técnica em Hohoe, onde se ministre o ensino de marcenaria, mecânica e indústria têxtil, de modo a incentivar a prática de actividades técnicas e artesanais. Segundo o rei, os têxteis são a principal prioridade por serem destinados às mulheres, as quais merecem especial atenção do governante uma vez que, estando no seio de uma sociedade adepta da poligamia, podem ser abandonadas a qualquer momento. Os 75 irmãos do rei, por exemplo, são filhos de 12 mulheres diferentes.

Para além de rei e mecânico, é conhecido como entertainer e músico, aparecendo diversas vezes nos média, numa tentativa de apelar ao interesse nos seus projectos. Tem estado em muitos programas de televisão por quase todas as estações germânicas, bem como em vários shows nacionais e internacionais, onde publicita lembranças como bolsas e óculos escuros com a sua fotografia. “Há muitas mulheres que gostam de mim, então elas compram”, afirma.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico


Texto: Inês Mataloto

Masdar City – A cidade do futuro no meio do deserto

Masdar City
Masdar City

A 17 km sudoeste da capital dos Emirados Árabes Unidos, Abu Dabi, está localizada a que é considerada “a cidade do futuro”. Masdar City é uma cidade em construção desde 2006, com a capacidade para 40000 residentes, que se rege pelo lema de proporcionar o mais elevado nível de qualidade de vida, com o menor impacto ambiental.

Financiada pelo governo dos Emirados Árabes Unidos e construída pela subsidiária da Mubadala Development Company, Masdar, a cidade é 100% dependente de energias renováveis, produz zero resíduos, livre de combustíveis fósseis e com a meta, ainda por atingir, de zero emissões de dióxido de carbono.

É sede para empresas líderes no ramo do desenvolvimento sustentável e centros de investigação, e mais importante, é onde está sediada a primeira universidade dedicada ao estudo da sustentabilidade e das tecnologias renováveis – Masdar Institute.

Rua típica da cidade
Rua típica da cidade

Localizada num pedaço de areia no meio do deserto, as temperaturas elevadas são controladas através de uma torre de arrefecimento com 45m de altura, no centro da cidade, que “suga” o ar quente e o arrefece, libertando para as ruas da cidade uma brisa de ar fresco, mais confortável para os habitantes. Desenhada pela empresa britânica Foster and Partners, é inspirada nas cidades árabes, a arquitetura é vanguardista e bastante amigável para andar a pé e para os ciclistas. Há vários parques naturais espalhados pela cidade e os edifícios foram construídos perto uns dos outros, de forma a criar ruas e passagens estreitas abrigadas do sol.

É a primeira cidade com um sistema de transportes com zero emissões de carbono. Os automóveis foram substituídos por um sistema automatizado guiado por trilhos, com carros de tamanho mais reduzido para uso individual ou em grupo, com estradas e caminhos de ferro que ligam Masdar a outros locais.

A cidade é habitada maioritariamente por estudantes, e ainda está longe de estar lotada. Dentro das casas todas as ações são monitorizadas e tudo funciona com sensores, de forma a controlar os gastos e a cumprir as metas estabelecidas, por exemplo: um banho mais longo é rapidamente terminado quando o uso de água passa os limites permitidos.

A cidade não foi construída com o intuito de mudar a população em massa de um local para o outro, foi principalmente com o objetivo de criar um sítio onde fosse possível a investigação e a experimentação de novas tecnologias, maioritariamente renováveis, sendo o único local no mundo que o permite fazer quase sem limites. É o local ideal para empresas “verdes” em crescimento e para jovens estudantes com ideias inovadoras no ramo das energias renováveis e desenvolvimento sustentável. Já existem diversas parcerias com grandes empresas e instituições, como o MIT, a Siemens, a World Wide Fund for Nature e a Greenpeace.

A Masdar City pode vir a fracassar no que diz respeito ao número de habitantes não estar a crescer como esperado, mas é sem dúvida um local onde o futuro vai nascer, um local que permite despertar a consciência local e mais tarde, quem sabe, mundial, para comportamentos mais amigos do ambiente, numa altura em que as energias renováveis e o desenvolvimento sustentável parecem ser a nossa única opção.

Masdar City vista do exterior
Masdar City vista do exterior

Texto: Rita Feijão

Love in Japan

O Japão, uma das grandes potências económicas atuais, possui a terceira maior economia  mundial em PIB nominal ( total: US$ 4769 trilhões) e a quarta maior em poder de compra. No entanto, tal soberania económica corre risco uma vez que se trata do país com a taxa de crescimento populacional mais baixa aumentando, em média, 0,2% por ano.

A queda na natalidade deve-se a um grande fenómeno social ao qual atrevo-me a chamar “contaminação capitalista do humanismo”. Cada vez menos jovens japoneses têm interesse em formar uma família, uma vez que a consideram um obstáculo à sua carreira e à manutenção do seu estilo de vida. Os resultados saltam à vista pois já são vendidas mais fraldas para pessoas acima dos 65 anos de idade do que para bebés.

japan1No entanto, o lado mais preocupante nem sequer se encontra por trás das implicações económicas que o envelhecimento populacional poderá trazer, mas sim na quantidade de locais que fomentam que esta situação piore. Locais descritos pelos cidadãos como os “substitutos do amor”.

Dentro de tais “substitutos de amor” encontram-se, entre outros, os hosts clubs, os cuddle cafes, máquinas espalhadas pelas ruas de Tokyo que vendem cuecas usadas  e uma indústria de brinquedos sexuais vasta ao ponto de conseguir satisfazer qualquer tipo de fetiche imaginável.

Os hosts clubs/ hostess clubs tratam-se de bares dirigidos ao sexo feminino e masculino, respectivamente, onde os clientes pagam entre 80€ a 160€ ( salário médio mensal : 1330.27€) por hora para serem cortejados por um indivíduo do sexo oposto. Os serviços prestados baseiam-se sobretudo em mostrar interesse na conversa do cliente, servir-lhe bebidas ou dançar com o mesmo. Não existe qualquer tipo de contacto sexual  entre ambos, sendo apenas um local no qual podem saciar o desejo de sociabilizar que continuamente reprimem no seu dia a dia. É uma indústria muito competitiva pois os hosts sobrevivem sobretudo graças aos clientes regulares que se apaixonam por tal amor ilusório, chegando estes a pagar quantidades exorbitantes para terem um encontro privado com o seu host favorito.japan2

Por outro lado, em termos de atividades diurnas, dentro da categoria “paid love”, os cuddle cafes são tanto ou mais bizarros que os hosts clubs. Encontram-se direcionados a todos aqueles que após um dia estressante de trabalho desejem ter alguém com quem poder fazer “conchinha”, sem que isso tenha que conduzir a manter uma relação sexual.

Para entrar em tal local é necessário pagar 3000 yen iniciais (20,5€). Após a admissão, existe uma taxação por hora, uma taxa especial se o cliente desejar escolher a sua rapariga favorita e uma ementa de serviços também, como seria de esperar, cobrados à parte.

 

Serviço convencional (inclui apenas o ato de fazer “conchinha”):

  • 20 min – 3,000 yen/ 20.5 €;
  • 40 min – 5,000 yen/ 34 €;
  • 60 min – 6,000 yen/ 41 €;
  • 2 hs – 11,000 yen/ 75€;
  • 3 hs – 16,000 yen/ 109€ ;
  • 4 hs – 20,000 yen/ 136€;
  • 5 hs – 25,000 yen/ 170.5€ ;
  • 6 hs – 30,000 yen/ 204.5€ ;
  • 10hs – 50,000yen/ 341€.

 

   
Servi
ços extra:

  • O cliente dorme no braço da rapariga (3 min) – 1,000 yen / 6,82€;
  • A rapariga faz festinhas nas costas do cliente (3 min) – 1,000 yen/ 6,82€;
  • O cliente tem o direito de fazer festinhas na cabeça da rapariga (3 min) -1,000 yen/ 6,82€;
  • O cliente e a rapariga olham diretamente nos olhos um do outro (1 min) -1,000 yen/ 6,82 €;
  • A rapariga troca de roupa (1 vez) – 1,000 yen/ 6,82€;
  • O cliente recebe uma massagem nos pés (3min) – 2,000 yen/ 13,64€;
  • O cliente dorme no regaço da rapariga (3 min) – 1,000 yen/ 6,82€;
  • A rapariga dorme no regaço do cliente (3 min) – 2,000 yen/ 13,64€.

Nota: A descrição dos serviços extra é a tradução literal da ementa que é oferecida aos clientes ao entrarem no cuddle cafe.

 

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É de salientar que estes são apenas dois exemplos dentro da diversidade de serviços que funcionam como  “substitutos do amor” que podemos encontrar no Japão. Atualmente, com o desenvolvimento da realidade virtual e com as inúmeras possibilidades que os Oculus VR irão possibilitar acredito que as tentativas de combater este fenómeno, culpável pelo envelhecimento populacional desmesurado, tornar-se-ão cada vez mais inúteis, restando-nos apenas o exemplo deste país no ocidente.


Texto: Maria Sbrancia