Técnico em dose dupla: a história de quem vive dois cursos superiores em simultâneo

Autoria: Tomás Vieira (LEMec)

Desbravar dois cursos superiores simultaneamente, algo que muitos apelidarão de loucura, é algo incomum. Desde 2008 que a DGES não oferece impedimento à frequência múltipla [1], ou seja, desde que as respetivas candidaturas pelo CNAES sejam em anos diferentes [2], é possível. Como são os estudantes que optam por esta rota académica?

Ao contactar instituições oficiais, não existem dados acerca deste perfil de aluno e os relatos escritos são raros. Aquilo que se afere por conversas com terceiros é que o número destes casos tem vindo a crescer, especialmente dentro das paredes do Instituto Superior Técnico (IST).  De maneira a perceber um pouco melhor esta minoria universitária foram entrevistados, pelo Diferencial, três alunos: Bruna Fernandes, Tiago Silva e Eduardo Nazário.

Neste mar de possibilidades, há quem opte por uma sobreposição de saberes ou quem escolha um alargar de horizontes. No caso de Bruna, estudante de Engenharia Aeroespacial (LEAer), Engenharia Informática e de Computadores (LEIC) surge como uma forma de complementar a sua formação principal, adjacente a um sonho de trabalhar nestas duas áreas. Contudo, combinações mais exóticas, num espírito mais eclético, também existem: casos que para além de universidades diferentes, conjugam áreas sem uma interseção óbvia. Tanto Tiago como Eduardo frequentam Gestão (na NOVA School of Business and Economics) e Engenharia Informática no IST simultaneamente, acrescentando à sua maratona académica pelo menos mais uma dificuldade, a distância.

Como conjugam as duas realidades académicas? Eduardo e Tiago estão de acordo: sentem que vivem duas vidas. “Não necessariamente diferentes”, segundo Tiago,  mas no que toca à vida pessoal, os grupos de amigos são “completamente opostos” para Eduardo. Bruna discorda: a semelhança entre os cursos não lhe traz esse desbalanço. “Como está tudo intercalado, não é como se fosse completamente separado”

O “porquê?” é talvez a pergunta mais natural para o leitor. Contudo, para perceber a resposta a que os entrevistados apelidaram de multifacetada, é interessante dar a conhecer as suas motivações pessoais. As respostas variaram entre combinações de falta de estímulo académico, vontade de se aprofundar noutras áreas, ou até, necessidade de uma atividade extra. 

“Não é que estivesse a ser fácil, mas é bastante acessível para o que eu contava, porque não meter aqui algo extra?” – questiona Tiago – “Foi uma ideia que fui ruminando durante algum tempo”. 

Bruna relatou uma indecisão aliada a uma fome por conhecimento: “Na altura da candidatura para o ensino superior estava indecisa. Fiquei o primeiro ano todo a pensar em explorar esta outra opção.” 

Paralelamente, Eduardo: “Eu tinha curiosidade pelo lado da economia. E conhecendo-me como conheço, eu achei que a maneira mais eficaz para aprender seria entrar num curso.”

Duplos licenciados existem e são bastantes, ter duas licenciaturas não é algo doutro mundo. Contudo, o que aqui falamos são de alunos que as fazem ao mesmo tempo, aspeto que nos faz questionar: Porque não fazê-las desfasadamente, uma depois da outra? Eduardo e Bruna estão em sintonia: não querem esperar tanto tempo para aprender. “Não quero ficar assim tanto tempo no Técnico, no ensino superior”, afirma Bruna.

Dois cursos, duas propinas, nesta economia?

 “Se pago duas propinas? Não, não pago. Existe uma questão que é o regime parcial, que pode ser usado por diversas razões”, relata Bruna. Isto pois a propina é paga proporcionalmente ao número de créditos associados ao regime em questão [4]. Resumindo, o segundo curso pode ser (e neste caso é) amenizado tanto em termos de número de cadeiras como financeiramente.

Sem medo de fazer 10 cadeiras por semestre, Eduardo é levado pela sobrecarga a que esta escolha o obriga. Por outro lado, mas não menos corajosos, Bruna e Tiago atribuem esta conciliação em grande parte à já referida possibilidade de fazer uma das licenciaturas em regime parcial. Aspeto que não deixa Bruna atrás dos restantes dos colegas deste ano de licenciatura, dadas as equivalências entre os cursos. Neste campo, há ainda quem sinta dificuldades. A falta de universalidade entre as diferentes instituições (e até cursos) faz com que por vezes, uma diferença mínima de créditos associada à disciplina, mas não tanto em termos de conteúdo, os impossibilite de obter equivalências, como reporta Tiago. 

Foi também discutida a dicotomia entre qualidade com que se faz cada curso e o estímulo que advém de ser um aluno em dobro. Alguns afirmaram que, inevitavelmente, tiveram de aprender de uma maneira mais resumida e breve. Tiago admite: “Sei a maior parte dos tópicos, mas não os sei com a profundidade que talvez um bom aluno saberia”. Eduardo corrobora – “Mesmo quando eu quero mesmo aprender, não posso porque amanhã há teste, então acabo por fazer as coisas um bocadinho mais superficialmente”.  Já Bruna afirma: “De forma geral, não me afeta. No meu primeiro ano até me faltava motivação.”

Muito relacionado ao referido anteriormente, entre os comentários “Nem um consigo fazer um, quanto mais dois” ou “Este maluquinho/a não tem mais nada que fazer”, existe uma dúvida subjacente bastante válida, o tempo e como o gerir eficientemente. A rotina daqueles que abraçam uma jornada dupla é certamente diferente: “Há aulas que se sobrepõem, portanto, não consigo ir a todas as aulas, mas isso é algo que, às vezes, já faço por escolha própria”. Outro problema que Eduardo também levantou foi a pontual obrigatoriedade de presenças. Analogamente, Bruna relata que o IST não é muito favorável à frequência simultânea de dois cursos: “O que foi mais complicado foi mesmo conciliar horários porque o Técnico tem todo este sistema de certo curso durante este ano tem horário de manhã” e estando ambos cursos com horários matinais, tem o caminho dificultado. “Mas tenho conseguido dar prioridade a laboratórios e aulas de problemas, normalmente é onde adquires melhor o conhecimento”.

Todos os entrevistados asseguraram conseguir manter um balanço entre a vida pessoal e académica. Todavia, nenhum nega que esta escolha os afetou a algum nível. “Quando fazes escolhas, abdicas sempre de algo. Tenho sempre de fazer pequenos sacrifícios”, ”Abdiquei obviamente de bastante tempo livre, que no técnico, a fazer um curso já é escasso. A fazer dois, ainda mais escasso fica“ afirmam Tiago e Bruna respetivamente.  Num contraponto interessante, Eduardo diz “A realidade é que acrescentar mais um curso para mim não foi o equivalente a duplicar o trabalho que eu fazia no primeiro ano” e “Eu percebo que não é muito comum, mas o que mais me chateia é as pessoas acharem que eu trabalho muito. Eu acho que posso ter perdido um bocadinho de tempo livre, mas estou a fazer algo que eu gosto, portanto, eu não dou muito esse tempo como perdido ou abdicado”.

Noutra linha de raciocínio, não há como negar as soft skills que todos levantam ter melhorado: “Não desperdiço tanto tempo mas isso é uma lição natural.” e “Saber dar prioridade às coisas que realmente importam. Às vezes vêm me perguntar se eu tenho dicas sobre métodos de estudo mais eficientes e eu digo: é não se perderem nos detalhes”. Para Tiago e Bruna, estas são as lições mais valiosas. Isto tudo além das outras competências específicas que foram adquirindo dadas as culturas, estilos de ensino e métodos de avaliação diferentes, curso para curso. “Fazer dois cursos trouxe-me a capacidade de melhorar estes diferentes aspetos já, em vez de dentro do mercado de trabalho”, afirma Eduardo.

No campo da utilidade dos dois diplomas, a linha é mais fina. Para a maioria de nós, pensar no que havemos de fazer no futuro é, ironicamente, tarefa para mais tarde. Portanto, para estes estudantes polivalentes acaba por ser o mesmo, mas apenas com uma variável a mais “Sinceramente, eu ainda não sei muito bem, mesmo se me perguntares para que mestrado é que eu quererei ir, não sei em qual das áreas dizer.”- diz Eduardo.

Porém, há exceções à regra e há quem tenha ambições mais palpáveis. Tiago assume já um plano: “Em uma fase inicial da minha vida profissional gostaria de ter competências mais técnicas e gestão pode me ser útil mais tarde, no progredir da carreira eu acabo por ter conhecimentos que o engenheiro não tem”. Da mesma maneira, Bruna fala nas suas aspirações de carreira: “Idealmente trabalhar numa área mais voltada para programação de software, mas num contexto do setor aeroespacial, quer sejam drones para Marte ou satélites na Terra qualquer coisa desse género me deixaria feliz”.

Uma das problemáticas mais rapidamente levantadas neste universo é a ocupação simultânea de duas vagas. Isto já que, em Portugal, as vagas de acesso ao Ensino Superior são menores que o número de candidatos, ano após ano. Por exemplo, em 2023, “apenas” 84% dos candidatos foram colocados em primeira fase [3] e há quem argumente que este lugar foi roubado ou seria melhor atribuído para quem não tem. “Eu concorri como todas as outras pessoas, não há um concurso diferente para aqueles que já estão a fazer um curso. O dano seria igual se os fizesse seguidamente” – comenta Tiago em resposta. Pertinentemente, Bruna fez menção às desistências que naturalmente se verificam. “Há sempre pessoas que entram nos cursos e acabam por desistir. Eu, estando a candidatar-me a um segundo curso, é porque realmente quero e realmente o vou fazer”. Na mesma linha de raciocínio, Eduardo assumiu um ponto de vista mais democrático. “Eu percebo, no entanto eu acho que não devemos estar a prender pessoas que queiram fazer mais, as pessoas que tenham capacidade de estar em dois cursos, ou três, ou quatro, ou o que for, merecem podê-lo fazer.”

Todos os entrevistados mencionaram o desconhecimento generalizado deste possível caminho. Todos dizem que se não fosse por um conhecido ou “fofocas”, nunca haveriam descoberto e por consequência, feito esta escolha. Dito isto, sentiu-se um sentimento transversal entre os entrevistados de dar a conhecer esta maneira de abordar a vida universitária e esperança que a sua entrevista suscitasse curiosidade em algum leitor.

Referências:

[1] – Bruno Nunes. (11 de Abril de 2008 ).“Alunos do ensino superior passam a poder frequentar dois cursos em simultâneo”. Público. https://www.publico.pt/2008/04/11/jornal/alunos-do-ensino-superior-passam-a-poder-frequentar-dois-cursos-em-simultaneo-256677

[2] – Frequência Simultânea. (consultado dia 16/03/2024). Direção Geral do Ensino Superior. https://www.dges.gov.pt/pt/pagina/frequencia-simultanea

[3]-Isabel Leiria. (8 de Agosto de 2023). “Número de candidatos ao ensino superior diminui na 1.ª fase”. Expresso. “https://expresso.pt/sociedade/ensino/2023-08-08-Numero-de-candidatos-ao-ensino-superior-diminui-na-1.-fase-0ca6f9c4 

[4] – Procedimentos Académicos. (consultado dia 16/03/2024). Núcleo de Apoio ao Estudante. https://nape.tecnico.ulisboa.pt/apoio-ao-estudante/procedimentos-academicos/  

ES – Ensino Superior

DGES – Direção Geral do Ensino Superior

CNAES – Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior

LEIC – Licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores

LEAer – Licenciatura em Engenharia Aeroespacial

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