Autoria: Margarida Jardim (MEBiom), Maria Abrantes (LEFT), Maria Alves (LEQ), Mário Rui Viana (LEEC), Pedro Ruas (MEC)
Com um pé já em 2025, a equipa cultural do Diferencial chegou-se à frente e analisou alguns dos álbuns que saíram ao longo do ano que passou. Num 2024 que viu grandes obras de pop voltarem a estar em destaque, a ascensão do punk como a nova cara do rock, e uma autêntica guerra no que diz respeito ao hip-hop, foram 10 os álbuns que foram selecionados pela redação, que são apresentados na lista abaixo, sem qualquer ordem de preferência.
Cutouts – The Smile

Se acham que não conhecem absolutamente nada dos The Smile, recomendo a sentarem-se e ouvirem uma música… sim, é o Thom Yorke… sim é rock alternativo, e sim, isto pode curar-vos o dói-dói musical que a falta de Radiohead faz. Mas estaria a mentir se vos dissesse que esta banda surge como substituição dos Radiohead: eles são muito mais que isso! Com uma sonoridade mais jazzy, progressista e “solta”, The Smile apresentam-nos o seu terceiro álbum de estúdio com “Cutouts”. Álbum que é inspirado em temas contemporâneos e relevantes como “atomisation and isolation from world events” (“atomização e isolamento dos acontecimentos mundiais”) [1], consequências das redes sociais. Com músicas excelentes como “Zero Sum” e “Don’t Get Me Started”, a guitarra é um highlight do álbum com uma sonoridade fenomenal. – Margarida Jardim
Hyperdrama – Justice

Existem poucas fórmulas para o sucesso mais eficazes do que uma dupla francesa de DJs. Entre os colossos Daft Punk e Air, um outro está em construção: os Justice. Depois do muito promissor disco de estreia “Cross” em 2007, Xavier de Rosnay e Gaspard Augé têm vindo a explorar o seu som, sem nunca se comprometerem por mais de um álbum a um estilo ou uma fórmula. É assim que, no seu primeiro álbum de estúdio desde 2016, os “homens da cruz” oscilam incessantemente entre o house e o disco ao longo das 13 faixas. Acompanhados de convidados de renome como Tame Impala e Thundercat, apresentam neste projeto músicas que deixam qualquer pista de dança a mexer e que encaixam na perfeição nos monumentais concertos da dupla, onde 14 toneladas de equipamento de luz transformam o palco num verdadeiro espetáculo audiovisual. É seguro dizer que o legado da música electrónica francesa está em boas mãos. – Mário Rui Viana
Spectral Evolution – Rafael Toral

No que diz respeito à música portuguesa, 2024 teve inúmeros lançamentos de nomes já bem estabelecidos na indústria (Samuel Úria, Capitão Fausto, Lena D’Água, Bárbara Tinoco, Branko ou David Bruno são alguns dos artistas que brindaram o ano com LPs). No entanto, poucos chegaram à qualidade de “Spectral Evolution”, do lisboeta Rafael Toral. Com uma única faixa, de 47 minutos de duração, Toral envolve o ouvinte num mundo que vai sendo construído a cada novo instrumento adicionado, a cada novo acorde tocado. Na obra que marca o regresso do artista à guitarra, a fusão deste instrumento com a envolvente eletrónica culmina numa harmonia sem precedentes, digna dos mais rasgados elogios e de um merecido número 14 na lista de melhores álbuns da Pitchfork [2]. Não descurando deste facto, a verdade é que Rafael Toral cria uma espécie de jardim, convidando o ouvinte a integrar a natureza que nele está inerente, sem nunca prolongar a sua estadia. – Pedro Ruas
HIT ME HARD AND SOFT – Billie Eilish

No refúgio de um ambiente doméstico, entre ruídos e sonoridades que transbordam intimidade, Billie Eilish deu vida ao seu terceiro álbum. Num verdadeiro ventre criativo, onde a autenticidade e o controlo artístico pleno coexistem, a cantora uniu forças com o seu irmão e produtor, Finneas, para criar uma obra que reflete, de forma visceral, as suas experiências e visões. Considerado por muitos como o álbum mais maduro da cantora, este conduz-nos por uma viagem através de ânsias, desejos, atrações e relações que se desmoronam, transmitindo uma conjugação de sentimentos e emoções, bem como as reações físicas a que estão entrelaçadas. A estética sonora é demarcada pela fusão de géneros e pela ousadia nas escolhas musicais, o que espelha a fragilidade e intensidade emocional, com arranjos que oscilam entre a suavidade e dissonância, criando uma paisagem sonora tão complexa quanto as emoções que Billie partilha. O álbum é, então, um grande abraço aos ouvintes, em que a cantora se vulnerabiliza ao falar sobre o seu corpo, sexualidade, ambiguidade emocional e ansiedade, escolhendo revelar as suas inseguranças e experiências pessoais sem adornos ou filtros, permitindo que os ouvintes se identifiquem (ou não) com os temas explorados. – Maria Alves
Alligator Bites Never Heal – Doechii

Há uma nova princesa no mundo do rap: “Doechii the don, Doechii the Dean, Doechii the Queen / The swamp ruler!!”. “Alligator Bites Never Heal” é o álbum de estreia em formato mixtape de Doechii. Após alguns anos com singles e tiktok bangers, Doechii finalmente organiza as suas músicas num corpo artístico. O crocodilo (alligator) é uma metáfora característica do álbum, refletindo as origens comuns de Doechii e do animal (ambos da Flórida), mas também o paralelo entre a fuga das vítimas desse predador e a superação dos desafios da própria artista. Músicas como a “Death Roll” dão claridade a este tema prevalente no álbum “This past year I’ve grappled with what felt like a relentless death roll in my life… A dance of drowning in my own vices, battling differences with my label and a creative numbness that broke me” (“No último ano, enfrentei o que parecia ser um death roll implacável na minha vida… Uma dança em que me afogava nos meus próprios vícios, lutava contra divergências com a minha editora e um entorpecimento criativo que me destruiu”.) [3]. Mas se acham que este álbum é pesado estão enganados! Faixas como “Denialis a River” apresentam-nos momentos cómicos, onde a música é uma conversa entre Doechii e a sua psicóloga. Esta música, brilhantemente construída do ponto de vista lírico, juntamente com ‘BOOM BAP’, encapsulam a complexidade lírica e todo o pensamento por detrás desta, que também define o álbum. Por outro lado, há faixas que trazem “the baddie in you”, exibindo confiança, como “Nissan Altima”, onde fica claro que Doechii sabe bem o seu valor. Rapidamente captada como uma estrela em ascensão, “Alligator Bites Never Heal” foi lançado pela gigante Top Dawg Entertainment, que tem artistas como SZA, Jay Rock e Schoolboy Q. Este álbum é, na opinião de muitos (e na minha), o melhor projeto de rap lançado este ano. Refrescante, com mixes muito inovadoras e com uma certa nostalgia dos anos 90, o álbum posiciona Doechii na vanguarda do hip-hop. Aliás, já recebeu nomeação de Grammy para Best Rap Album. É caso para não a tirarmos debaixo de olho. – Margarida Jardim
brat – Charli XCX

Quem diria que seria aos 32 anos e com o seu 9.º álbum de estúdio que Charli XCX seria catapultada para o sucesso global? A inglesa, que atua em nome próprio desde os 14 anos, foi ao longo da última década construindo uma fanbase modesta mas leal, especialmente na cena LGBTQ+ de Londres. Foi deixando, também, a sua pegada na mainstream com as músicas que compôs com e para outros artistas, como os hits “Fancy” e “Señorita” mas, é em “brat” que se afirma em nome próprio. É inegável a influência do EDM neste disco que rendeu a Charli 7 nomeações aos Grammy, sendo favorita a vencer várias categorias. Com um brilhante misto da energia das raves e do seu habitual hyperpop e a viral estética minimalista do seu (agora) icónico verde neon, o “brat summer” foi um dos fenómenos que marcaram 2024. – Mário Rui Viana
GNX – Kendrick Lamar

Em 2024, no maravilhoso país do hip-hop, o clima ficou bastante tenso, em grande parte devido à troca de impressões entre Kendrick Lamar e Drake, dois pesos pesados da indústria musical. A verdade é que nunca pareceram dar-se particularmente bem, estando em pontas opostas do género. Mas a principal questão foi sempre: chegou algum deles a “vencer” esta batalha? A resposta mais acertada ficaria sempre presa no “depende”. A resposta direta é mais rápida: foi o Kendrick. Ficou claro com “euphoria”, assustador com “meet the grahams” e épico com “Not Like Us”. Drake quis, a certo ponto, levar toda esta confusão para os regionalismos, acusando K Dot de não ser fiel à sua cidade, que tem uma longa tradição no campo do hip-hop. Kendrick respondeu, primeiro com a já mencionada “Not Like Us”, um hit instantâneo que colocou toda a gente a dançar ao som de versos que acusam Drake de ser um predador sexual; depois com o “Pop Out Show”, um concerto em Los Angeles que celebrou a cultura do oeste dos Estados Unidos, reunindo uma série de artistas da zona, uns menos conhecidos, muitos com algum estatuto (Steve Lacy, Tyler, The Creator e ScHoolboy Q foram alguns dos que estiveram presentes); e a fechar esta victory lap, “GNX”, um álbum absolutamente frenético, que apesar de não ser tão conceptual como K Dot nos habituou, sublinha o seu estatuto como um dos melhores rappers desta geração. Com um ênfase na produção de G-Funk, Kendrick encontra-se no seu estado mais puro, gabando-se dos vários feitos que já atingiu na sua carreira. Entre doces baladas – como “luther”, onde recruta a antiga colega SZA – e bangers que nos convidam a pôr a música aos altos berros enquanto andamos de carro pela cidade de janela aberta – “tv off”, “peekaboo” ou “squabble up” – Kendrick dá o golpe final em todo o beef, protagonizando um dos momentos mais excitantes do ano na indústria, e deixando todos os céticos com pouco a dizer. Ele próprio reconhece o seu mérito: em “man at the garden”, repete “I deserve it all”. Torna-se complicado contestar esta afirmação. – Pedro Ruas
Submarine – The Marías

Como continuar a trabalhar com um ex? Após o fim do relacionamento entre María Zardoya (vocalista principal) e Josh Conway (baterista), The Marías lançam o seu segundo álbum de estúdio, “Submarine”. A banda mantém-se fiel ao seu estilo característico de dream-pop e indie-pop, com pequenas nuances de R&B e jazz, proporcionando a fusão perfeita com o tema do oceano, inerente ao título (e capa) do álbum. “Submarine” é associado ao primeiro filme da trilogia Trois Couleurs, de Krzysztof Kieślowski, Bleu, no qual a protagonista emerge numa viagem de autodescoberta após um trágico acidente de carro. No caso do álbum, o incidente catalisador é o fim da relação dos dois fundadores da banda. Como María explicou: “No início do filme, a cor azul representava a tristeza e a perda. Mas com o desenrolar do filme, o azul começa a representar a esperança e o desejo pelo futuro”[4], de onde se entende a analogia com o mote do álbum. Apesar dos sentimentos de dor e desgosto explorados ao longo das 14 faixas, “Submarine” não é apenas o testemunho do fim de um relacionamento, mas a visão de uma nova etapa para os membros de The Marías. – Maria Abrantes
The New Sound – Geordie Greep

Em meados de agosto de 2024, o mundo acordou com a triste notícia de que a banda de rock inglesa black midi iria cessar funções. O que não estava planeado, no entanto, foi, pouco tempo depois, ouvirmos Geordie Greep, vocalista da banda, a tomar as rédeas por si próprio e a lançar um projeto a solo. Ao ouvir “The New Sound”, não estamos simplesmente a ouvir uma continuação do som popularizado pelos black midi; estamos, sim, a ouvir as influências de math rock que Geordie inerentemente continuou a ter, misturadas com elementos de géneros completamente distintos, como tropicália, MPB e música latina. O interesse gerado por este LP prende-se justamente nesta amálgama musical: não faz qualquer sentido juntar isto tudo num caldo e esperar que funcione. Mas a verdade é que funcionou, e fica à vista de todos que Geordie não precisa dos seus contemporâneos para conduzir uma obra-prima ao sucesso. – Pedro Ruas
Romance – Fontaines D.C.

Se o objetivo de “Romance” era conquistar os corações dos fãs, o 4º álbum de estúdio de Fontaines D.C. conseguiu ir ainda mais além e converter mais seguidores. “Into the darkness again…” – assim se inicia a primeira das 11 músicas que compõem o álbum. A melodia sinistra e melancólica desta faixa (também intitulada “Romance”) conduz o ouvinte ao desconhecido, numa viagem de possibilidades ilimitadas. O álbum destaca-se precisamente por esta diversidade de sentimentos, que se traduz numa fusão de estilos, com elementos do hip-hop, shoegaze e eletrónica. Muitos consideram “Romance” como um ponto de viragem para a banda pós-punk, que abraça agora um estilo mais “acessível”, mais centrado no rock alternativo e Britpop. Fontaines D.C. reinventam a sua música com um dos álbuns mais aclamados do ano, evidenciando a evolução artística da banda. – Maria Abrantes
Referências:
[2] – Pitchfork – The 50 Best Albums of 2024
[3] – The Forty-Five – Doechii Interview: “Everyone should feel like they’re the shit”[4] – ELLE – How Do You Make an Album with an Ex? Ask The Marías.