Autoria: Maria Alves (LEQ)
Nos dias 21 e 22 de fevereiro, a Aula Magna foi palco do XXIV TUIST – Festival de Tunas “Cidade de Lisboa”, um evento repleto de talento, tradição e emoção. O festival reuniu diversas tunas universitárias, proporcionando momentos inesquecíveis – desde a energia contagiante das claques até uma surpreendente e comovente celebração de amor: um pedido de casamento que encantou o público e tornou esta edição ainda mais especial.
Entre pequenas encenações, vídeos e jogos, nasceram risos e piadas dignas do seu próprio espetáculo de comédia, que marcaram as pausas entre as atuações das diferentes tunas, tornando-as ainda mais envolventes. No dia 21 de fevereiro, subiram ao palco a TAE- Tuna Académica do Liceu de Évora, e a TFIST- Tuna Feminina do Instituto Superior Técnico, a TMUC- Tuna de Medicina da Faculdade de Coimbra, a Desertuna- Tuna Académica da Beira Interior.
As primeiras atuações ficaram a cargo das tunas extra-concurso, a TAE e a TFIST. A TAE, com 124 anos de história, entregou interpretações instrumentais de clássicos da música portuguesa, destacando-se a emotiva execução de Canção do Mar, que cativou o público. Já a TFIST apostou em versões paródicas de MPB (Música Popular Brasileira), incluindo a adaptação de Burguesinha, de Seu Jorge, e Deixa Acontecer, do Grupo Revelação, e algumas músicas mais tradicionais como A Júlia Florista, de Amália Rodrigues.
Seguiu-se a TMUC, cuja atuação enérgica e visualmente impressionante com as pandeiretas levou as claques ao delírio e, mais tarde, garantiu à tuna o prémio de Melhor Pandeireta. No repertório, destacaram-se temas que exaltaram a tradição, especialmente através da guitarra portuguesa, como Coimbra dos Amores e Às Vezes. Esta última, curiosamente, é uma peça instrumental, mas, segundo a própria tuna, é frequentemente considerada aquela onde as vozes dos tunos estão mais afinadas – um título ironicamente apropriado, já que a música “tem tudo para correr bem… mas às vezes…”.
A apresentação terminou com um apelo à doação de sangue, alertando para a preocupante escassez nos bancos de sangue. A TMUC destacou a importância deste gesto altruísta, lembrando que doar sangue leva apenas cinco minutos, mas pode fazer toda a diferença na vida de alguém.

A Desertuna apresentou uma atuação diversificada, com grande destaque para as pandeiretas e para a icónica Toninho, uma música que homenageia um dos seus membros – “mais amigo da boémia do que propriamente dos livros” – e cuja imponente estatura também é mencionada na letra. Entre os momentos mais marcantes, estão as emblemáticas rosas na boca, distribuídas pelo público ao longo da performance, e a criativa interpretação de Adamastor, onde os tunos se uniram de forma irreverente para representar uma nau em plena cena épica. A grandiosidade da apresentação refletiu-se na conquista dos prémios de Melhor Instrumental, Melhor Solista e Melhor Tuna, um feito que, sem dúvida, encheu de orgulho a Milou, a carismática mascote da Desertuna – uma raposa embalsamada que, como manda a tradição, testemunha todas as aventuras da tuna.
Por fim, a TUIST encerrou a noite com um pequeno ato teatral cómico, protagonizado por um português, um brasileiro e um francês, que arrancou gargalhadas ao público e serviu de introdução a um repertório variado. Entre as músicas apresentadas, vale a pena enfatizar Dou-me ao Mar, um clássico da tuna, e Lisboa Não Sejas Francesa, de Amália Rodrigues. Um dos momentos mais simbólicos da atuação foi a interpretação de Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Composta em 1973, a música foi censurada pela ditadura militar brasileira e só foi lançada em 1978, tornando-se um hino de resistência contra a repressão, a tortura e a dor do povo brasileiro. Nesta mescla de culturas entre nações irmãs, a TUIST escolheu Cálice para celebrar os 50 anos da Revolução dos Cravos, reforçando o seu significado como símbolo de liberdade.
No dia 22 de fevereiro, aturam a Azeituna- Tuna de Ciências da Universidade do Minho, a Hinoportuna- Tuna Académica de Viana do Castelo e a TUM- Tuna Universitária do Minho, sendo que todas estas tunas foram a concurso.
Desta forma, o segundo dia começou com a atuação da Azeituna, que habitualmente colabora com a TUIST na organização deste evento. A sua entrada fez-se ao som de uma adaptação de P’ra Frente É Que É Lisboa, de Os Quatro e Meia, com uma letra personalizada que narrava a sua jornada pelo Brasil, ao lado da TUIST, até ao tão esperado momento de subir ao palco.
A meio da atuação, houve uma pausa inesperada para que o público pudesse acompanhar o telejornal da Azeituna, recheado de breaking news absolutamente essenciais para a atualidade mundial. Entre os destaques, houve uma profunda análise comparativa entre as brumas íntimas da Cristina Ferreira e da Anitta, os efeitos devastadores de um único fino bebido por um tuno em terras brasileiras, e uma reflexão desportiva sobre Cristiano Ronaldo – que, aos 40 anos, se recusa a abandonar os relvados, tal como os membros mais antigos da tuna, que, apesar do tempo passar, não desistem de competir no icónico concurso de penáltis. Claro que, neste caso, a baliza era um copo, e o verdadeiro desafio era ver quem marcava (ou melhor, bebia) mais rápido. Tudo O Que Eu Te Dou, da autoria da Azeituna, foi a chave que trancou a sua apresentação, tendo sido dedicada a todas as mulheres do público.
O TUIST Tank foi uma das grandes inovações desta edição, desafiando as claques a convencer os tunos a comprar os seus produtos revolucionários. A que melhor o fizesse ganhava um ponto no acirrado concurso das claques – um prémio de valor inestimável, claro.
A primeira claque a subir ao palco foi Física, seguida de Ambiente, que apresentou um kit de costura para o traje, que, diga-se de passagem, rasga-se nas situações mais inconvenientes possíveis. Civil trouxe o tijolo de utilidade infinita, incluindo a possibilidade de ser lançado à cabeça de caloiros com menos aptidão musical. Química foi representada por um solitário caloiro, que tentou convencer o público de que a tabela periódica é sinónimo de inteligência e pode ser usada nos mais improváveis contexto (incluindo na casa de banho). Eletro compensou com entusiasmo, enquanto Aeroespacial apresentou um avião – projetado especificamente para levar os tunos de volta ao Brasil. Mecânica inovou com uma fralda “prática, eficiente e firme”, uma solução engenhosa para problemas logísticos de última hora. Já Tagus e Bioclaque trouxeram principalmente ânimo e espírito competitivo. LEIC, por sua vez, revelou o segredo para a sobrevivência no TUIST: um kit infalível contendo a principal solução para a ressaca – continuar a beber.
No final, a claque de Civil ganhou o ponto, uma vez que conquistou o público (e os tunos) com o seu lendário tijolo – um objeto de mil e uma utilidades, cujo real propósito talvez continue a ser um mistério para os mesmos, mas cujo impacto foi inegável.
Foi, então, a vez da Hinoportuna subir ao palco. A sua primeira música, Cantigas do Maio, original de José Afonso, mas com arranjos da tuna, foi dedicada a todas as mulheres presentes. Cantada num balançar suave que hipnotizava o público, a atuação foi acompanhada pelo porta-estandarte, que carregava a bandeira nacional. A sua seguinte música era um original da tuna e tinha como objetivo contar a história de dois povos que apesar de distantes no mapa, partilhavam o amor pela música – Entre O Samba E O Fado; na performance desta música, o porta-estandarte fluía com a bandeira portuguesa e brasileira. A última música do repertório foi Havemos de ir a Viana, escrita por Pedro Leal, e a qual Amália Rodrigues deu voz.
A TUM, vencedora da última edição do TUIST, e do prémio de Melhor Porta Estandarte deste ano, apresentou-se com Tunalmente Molhado, um original, mais uma vez, dedicada às donzelas do público. Destacaram-se os movimentos dos porta-estandartes, que pareciam fundir-se com o seu objeto, entre movimentos lentos. Foi apresentada O Tejo corre no Tejo, de Carminho, como uma dedicatória à capital, com a sua melodia que encanta e acalma.
Por fim, atuou a TUIST, deixando a mensagem de que, apesar de viajar pelo mundo ser envolvente e aquecer o coração, não há nada melhor do que voltar a casa. Desta forma, todas as músicas apresentadas seriam da autoria da tuna. A TUIST estreou Não Vais Ser Tu, uma bela música que relata o sonho de amar e o dissipar do mesmo, e que amar nunca deve ser origem de arrependimento.
Foi no fim desta melodia que, de certa forma, a família TUIST cresceu e o festival tornou-se casa, já que um tuno encheu-se de coragem, explicando que quando temos vontade de fazer algo, devemos simplesmente fazê-lo e, com essas palavras, pediu a sua amada em casamento, comemorando os oito anos desde que a conheceu, após de um “sim”, seguiram-se os abraços e beijos.
Após a apresentação de Se Um Dia Não Houver Luar, teve lugar a entrega dos prémios, na qual Informática venceu o Prémio de Melhor Claque, já que exaltou as diferentes tunas de forma inigualável ao longo dos dois dias do evento. Em seguida, houve discursos do presidente da AEIST e a chamada de convidados especiais ao palco.
Em suma, foram dois dias de belas apresentações, que trouxeram um pedaço de cultura das diferentes zonas de Portugal e também do Brasil, comemorando a liberdade, o amor e a irmandade entre diferentes povos. As tunas, com as suas atuações, transmitiram este amor tão intenso que têm pela música e pelo espírito académico, cantando uma história com cada acorde.