Revisão do PERCIST: como tornar o Técnico ainda melhor

Desde a sua implementação, no ano letivo de 2021/2022, o modelo de ensino e práticas pedagógicas do IST (MEPP) foi sendo acompanhado e monitorizado de forma atenta por todos: professores e estudantes, coordenadores e delegados de curso, órgãos da escola e pelas diversas comissões que foram nomeadas para o efeito [1]. Enquanto Presidente do IST fui, como não podia deixar de ser, acompanhando de muito perto este trabalho de implementação e monitorização do MEPP nas suas diversas vertentes, o que me permitiu ao fim deste período formar três fortes convicções e tomar uma decisão, que entendo ter o dever partilhar com todos.

A primeira dessas convicções foi a de que os princípios fundamentais que resultaram da reestruturação dos cursos de primeiro e segundo ciclo do IST, em 2019, nomeadamente, (1) a introdução de maior flexibilidade curricular, (2) o estímulo à prática de aprendizagem baseada em projeto; (3) a redução do rácio horas de trabalho contacto/horas de trabalho autónomo; (4) a introdução de unidades curriculares de ciências sociais artes e humanidades; (5) o reforço das valências em pensamento computacional; (6) a introdução de projetos integradores no final do primeiro e segundo ciclo; (7) a valorização de componentes extracurriculares; (8) a oferta de minors como opcionais em áreas transversais, estratégicas ou interdisciplinares, no âmbito do segundo ciclo, e (9) o aumento significativo do número de jovens docentes, não permanentes, em apoio às aulas, não só traduzem aquilo que são as melhores práticas atuais em termos internacionais de ensino em áreas STEM [2], como introduziram uma importante melhoria qualitativa na formação dos estudantes do IST, comparativamente ao ensino que tínhamos antes de 2021. E essa é a razão pela qual a Escola, globalmente, não só não coloca em questão nenhum destes princípios como, mais do que isso, não está disposta a abdicar de nenhum deles.

A segunda convicção que formei foi a de que, passados três anos sobre o início do MEPP, seria este o momento de rever o documento que regula a implementação do modelo de ensino do IST, o famoso PERCIST [3], nomeadamente naquilo a que respeita as vantagens e desvantagens da implementação de unidades curriculares em quarters face à implementação em semestres. Assim, em finais de 2023, assumi esse compromisso com a Escola, introduzindo-o no Plano Quadrienal do Presidente, aprovado pelo Conselho de Escola, no início de 2024.A polémica doutrinária “quarters versus semestres” não é uma questão nova, nem recente nem, tão-pouco, exclusiva do IST. Longe disso. Efetivamente, a identificação do calendário escolar universitário “óptimo” (ou “perfeito”) tem sido objeto de debate (quase sempre apaixonado) desde há mais de 50 anos, em diversos países, nomeadamente nos Estados Unidos [4].

De uma forma geral, a literatura e as discussões, públicas (e publicadas), aquilo que nos mostram é que o ensino em quarters é tendencialmente mais flexível, mais intenso e que tendencialmente favorece a eficiência formativa, enquanto que um sistema em semestres é de menor intensidade, de maior esparcidade e diversidade de conteúdos, de maior concentração de avaliações, que tendencialmente facilita a mobilidade dos estudantes, que tendencialmente facilita a participação em atividades extra-curriculares e que tendencialmente acomoda melhor eventos circunstanciais (um feriado, uma necessidade de ausência à frequência das aulas). 

Quanto ao sistema que é mais eficaz para a retenção e compreensão de conteúdos, nomeadamente a longo prazo, a literatura diverge: não existem certezas, nem são extrapoláveis para o processo ensino-aprendizagem questões retóricas do tipo “é melhor para a retenção de conteúdos ler quatro livros numa semana ou ler os mesmos quatro livros em duas semanas?”5

Não havendo nenhum sistema perfeito, existem escolas excelentes em semestres (por exemplo, o MIT), escolas excelentes em trimestres (por exemplo, Oxford) e escolas excelentes em quarters (por exemplo, a UCLA), assim como existem escolas más em semestres e escolas más em trimestres ou em quarters

Conclusão: não é a opção por semestres ou quarters que faz a excelência ou a não excelência de uma escola: são, evidentemente, os seus estudantes, os seus professores e investigadores, os seus meios laboratoriais e pedagógicos, as suas unidades de investigação, a sua ligação à sociedade e a suas políticas e estratégias educativas e científicas. Se não fosse assim, os rankings universitários teriam como parâmetro de avaliação o funcionamento do calendário escolar (quarters, trimestres ou semestres) e não têm. 

Dito isto, existe a perceção de parte da comunidade do IST de que várias unidades curriculares que hoje funcionam em quarters, poderiam beneficiar pedagogicamente, se o seu regime de funcionamento fosse em semestres. Desta forma, decidi propor ao Conselho de Escola uma alteração ao PERCIST de modo a permitir flexibilizar o número máximo de unidades curriculares a funcionar em regime semestral, depois de obter o parecer positivo a esta proposta por parte de todos os órgãos consultivos da Escola (o Conselho de Departamentos e Estruturas Transversais do IST, onde estão representados todos os departamentos do IST através dos seus Presidentes, o Conselho de Coordenadores de Curso, o Conselho de Delegados de Curso, a Assembleia de Escola, a Mesa Assembleia Geral de Alunos da AEIST, o Conselho Pedagógico, o Conselho Científico e o Conselho de Gestão). 

Para finalizar deixo aqui a terceira, e última, convicção que tenho vindo a formar e que, como não poderia deixar de ser, como experimentalista que sou, é baseada em evidência experimental. Vamos primeiro à evidência. Durante o ano que passou, os estudantes do Técnico, entre muitas outras coisas que neste pequeno artigo não cabem, construíram protótipos de carros de corrida, barcos solares, foguetões, motos, carros a hidrogénio, satélites, drones, veículos sustentáveis, ganharam diversas competições desportivas universitárias, foram junior empresas europeias, chegaram a finais de diversas competições de empreendedorismo, criaram soluções inovadoras nos seus projetos PIC e capstone, e nos seus trabalhos de investigação (muitos nacional e internacionalmente premiados), trouxeram mais de duas centenas de empresas ao IST no JobShop 2024 (a maior feira académica de emprego nacional), trouxeram mais de cinco centenas de empresas ao IST nas suas jornadas e eventos durante as career weaks 2025, criaram e trouxeram cultura com os seus núcleos de teatro, com as suas três tunas, com os seus grupos de música clássica e de jazz. Com isso e muito mais, os estudantes do Técnico mostraram a todos os que quiseram ver, e muitos o quiseram, a sua preparação, competência e talento, a nível técnico, científico, empreendedor, artístico criativo e de liderança. Com isso e muito mais, os estudantes do Técnico mostraram a todos os que quiseram ver aquilo que é a excelência do Técnico enquanto escola de engenharia, ciência e arquitetura, quão vibrante é o seu ambiente e a sua vivência, quão desafiante e estimulante é ser estudante do Técnico. Não foi fácil, nunca antes o foi, e muito provavelmente não o será no futuro. Mas conseguiram, como sempre o conseguiram e como sempre o conseguirão. Mais do que palavras a profetizar desgraças ou discursos a defender grandezas, estes são os dados experimentais daquilo que é, sempre foi, e será o Técnico.Por isso, baseado nesta evidência experimental, tenho hoje, mais do que nunca, a convicção de que “o Técnico está bem e recomenda-se” e que é um motivo de orgulho para todos os que cá estão e que por aqui antes passaram.

Rogério Colaço

Presidente do IST

Referências

[1] Nomeadamente a Comissão de Avaliação e Monitorização à implementação do Modelo de Ensino e Práticas Pedagógicas do IST (CAMIMEPP), nomeada pelo Conselho Científico (CC); a Comissão de Monitorização do Ensino e Sucesso Académico (CMESA), nomeada pelo Conselho Pedagógico (CP) e a Comissão de Avaliação de Avaliação de Eficiência Formativa do 1º Ciclo (CAEF-1C), nomeada em fevereiro de 2023 pelo Presidente do IST.

[2] STEM: Science, Technology, Engineering and Mathematics.

[3] PERCIST- Princípios enquadradores para a reestruturação dos cursos de 1º e 2º ciclo do Instituto Superior Técnico.

[4] e.g consultar: American Economic Journal: V. Bostwick, S. Fischer, and M. Lang , Semesters or Quarters? The Effect of the Academic Calendar on Postsecondary Student Outcomes, Economic Policy 2022, 14(1): 40–80 https://doi.org/10.1257/pol.20190589 40 ou, também por exemplo, Gibbens, B., Williams, M. A., Strain, A. K., & Hoff, C. D. (2015). Comparison of biology student performance in quarter and semester systems. College and University, 90(3), 12.

[5] Uma analogia mais exata seria, eventualmente, “é melhor para a retenção de conteúdos ler quatro livros em simultâneo ao longo de duas semanas, ou ler dois livros na primeira semana e dois na segunda?”. Não sendo esta analogia também totalmente exata, torna, pelo menos, mais claro que a resposta deixa de ser “evidente” ou “trivial”.

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