Sentimentos de um português. Muitas vezes contraditórios, oscilando entre o Orgulho e a Vergonha. Uma análise do Amor e do Ódio a Portugal à luz dos acontecimentos recentes resultantes de problemas do passado.

Autoria: Rafaela Palácio, MEMec

Amor à Pátria. Nas últimas semanas temos tido mais do que demonstrações suficientes deste fenómeno (ou assim somos levados a crer), um pouco por todo o mundo. Com ênfase nos EUA e na resistência do  ex-presidente, Donald Trump, em aceitar a derrota, motivando os seus apoiantes a tomarem comportamentos agressivos; no Reino Unido e no orgulho Inglês exacerbado que levou à saída da União Europeia e, por fim, em Portugal onde, após as últimas eleições presidenciais, tomamos consciência do crescimento de algumas fações mais incómodas à democracia nos últimos anos. Mas estes recentes acontecimentos, a meu ver, nada têm de amor aos respetivos países. Estas revoltas, decisões e apoios mais têm de obsessão pelo seu País do que de amor por este. Deixando esta pequena grande questão de lado, podemos então discutir a realidade do Amor e do Ódio a Portugal. Todas as paixões e ódios são extremos e com Portugal não podia ser diferente.

Começando pelo Amor com uma pitada de Orgulho. O primeiro passo para amar este País é ter uma quantidade razoável de orgulho nas conquistas ancestrais. Não é exclusivo ao povo português, mas é sem dúvida algo que o caracteriza. Afinal, somos tão pequenos, mas já fomos tão grandes, donos de meio mundo. A verdade é que este feito só foi possível de alcançar por meios, no mínimo, discutíveis. Se fôssemos criar uma checklist, podíamos, por exemplo, marcar  “feito” nas caixas de “Não ao respeito pelas outras culturas e religiões”, “Tomada forçada de território” e “Escravatura”. E mesmo assim, após 500 anos, continua a ser motivo de orgulho.

Se se pretender um Orgulho, um Amor e um sentimento nacionalista mais exacerbado, o melhor mesmo é ser emigrante. Observa-se o fenómeno curioso de que, quanto maior a distância, mais paixão há por Portugal. Talvez a saudade e a nostalgia do seu tempo em Portugal ajudem a esta sensação, ou talvez seja apenas a distância emocional que é natural ao passado, semelhante a uma época de exames: no momento pode parecer um acontecimento deveras penoso, mas mais tarde acabamos por reconhecer que não foi nada de mais. No fundo, temos tendência a atenuar a maioria das nossas más experiências com o passar do tempo, entre elas as dificuldades passadas em Portugal que forçaram a emigração.

Esquecendo por um tempo saudosismos e saudades, exploremos o extremo oposto, o Ódio e a Vergonha de Portugal e de ser Português. É o que mais vemos discutido em tempos de campanha eleitoral: dos políticos corruptos à mistura do dinheiro público com o privado, nomeadamente através de injeções de capital que perpetuam o ciclo vicioso de má gestão, passando pela falta de sustentabilidade do nosso sistema de pensões e da relação turbulenta de grande parte dos pequenos empresários com o fisco. Isto para não falarmos da educação, da saúde, dos transportes públicos, da falta de financiamento para a Cultura e para a Arte e do aumento das desigualdades enquanto deveríamos estar a caminhar para a extinção destas.

Pois bem, Portugal é sem dúvida uma rosa com muitos espinhos. Mas esses espinhos são necessários, tal como as pétalas da rosa. Haverá equilíbrio entre dois sentimentos tão opostos? Talvez o equilíbrio resida no reconhecimento de que não somos o melhor país do mundo, mas podíamos ser. E deve partir de todos nós, cidadãos, o primeiro passo para a mudança, para o atingir do equilíbrio. 

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