Exemplos de egoísmo humano chegam-nos diariamente e provêm, talvez com anormal frequência, do país das cinquenta estrelas. No atual contexto social, quando o raio de consequências destas ações se alarga e poderá ter efeitos devastadores, reflita-se sobre a Humanidade: quão facilmente nos isentamos da noção de dever cívico e responsabilidade individual?

Autoria: Mª Teresa Parreira, MEBiom (IST)


Perante as medidas de confinamento adotadas (talvez tarde demais) pelos Estados Unidos da América em resposta à pandemia da Covid-19, manifestações a favor da reabertura do comércio e do país romperam em diversos estados, trazendo ao resto do mundo pérolas da sabedoria humana sob a forma de cartazes inspirados:

Num país que sustenta, na data de escrita deste artigo, mais de 1.36 milhões de casos de infeção e cerca de 80.000 mortes[1], é impossível deixar de notar na ironia que este tipo de iniciativas comporta: ignorando recomendações de proteção e distanciamento social, manifestações contra a instalação de um estado de emergência têm como efeito derradeiro o prolongamento do mesmo, acompanhado de um impacto devastador a nível social e económico. Situações de crise (como já terá sido referido centenas de vezes durante esta quarentena) fazem emergir o melhor, mas também o pior, da Humanidade. No contexto de uma pandemia que está a ceifar milhares de vidas e perante afirmações como “MY BODY, MY CHOICE”, não pude evitar questionar-me: quando nos é inconveniente agir de forma altruísta, quão facilmente nos libertamos da nossa responsabilidade individual? 

Um estudo conduzido em 1968 por John M. Darley e Bibb Latané[2] explorou e trouxe novo entendimento sobre um dos aspetos desta questão. Seis participantes eram colocados em cabines individuais e, em rondas de 2 minutos, cada indivíduo podia falar sobre si e ser ouvido pelos restantes, estando apenas um microfone ativo a cada momento. O primeiro interveniente era um participante infiltrado, que afirmava relutantemente ser sujeito a graves convulsões quando sob stress. Seguiam-se as rondas dos restantes participantes. Na sua segunda intervenção, o indivíduo infiltrado emitia sons de sufoco e pedidos de ajuda, simulando a ocorrência de uma convulsão grave. Ao fim dos dois minutos devidos, o seu microfone era desligado e a experiência continuava.

Eis, portanto, cinco adultos conscientes de que um dos participantes estava num estado crítico; conscientes, também, de que os restantes participantes teriam igualmente ouvido o pedido de ajuda e, dessa forma, outros intervenientes havia que poderiam auxiliar o sujeito infiltrado. Convido o leitor a prever a conduta dos indivíduos submetidos à experiência.

Entre um total de 15 participantes, apenas 4 acederam prontamente aos pedidos de ajuda, saíndo de imediato da sua cabine. Dos restantes, seis permaneceram no seu lugar e cinco saíram apenas após o microfone da “vítima” ter sido cortado. Este comportamento revelou-se consistente com o acontecimento que originou o estudo descrito: o homicídio de uma jovem nas ruas de Nova Iorque, que alegadamente teve como testemunhas pelo menos 38 cidadãos, nenhum dos quais chamou a polícia ou saiu do seu apartamento para ajudar a vítima, apesar do ataque ter durado mais de meia hora. Ao fenómeno observado foi dado o nome de “Bystander Effect” (Efeito do Espectador ou Difusão de Responsabilidade), destacando o facto de que a presença de outros indivíduos diminui a probabilidade de uma pessoa intervir numa situação de emergência3]. Quanto maior o número de espectadores, mais dissolvida fica a culpa de não agir de acordo com o que ditam princípios morais de nobreza e menor é a sensação de responsabilidade para com o outro.

Não sendo esta uma justificação para o comportamento egocêntrico e ignorante descrito inicialmente, que em última instância não passará de uma escolha egoísta e desinformada, protestos como os que têm vindo a observar-se expõem a facilidade com que, perante a necessidade de ceder em certos confortos com vista a um bem geral, fechamos os olhos e fazemo-nos surdos à causa. Porque o altruísmo é pedido a milhões de indivíduos, aqueles que decidem não cumprir sentem menos o peso dessa escolha. Curiosamente, na situação invulgar em que a nossa sociedade foi colocada, há uma certa inversão do paradigma do espectador: o auxílio é prestado cessando a ação (recolhendo-nos num sítio seguro) e a recusa em fazê-lo torna-nos agentes passivos de uma tragédia. 

A difusão da responsabilidade é uma ilusão que permitimos a nós próprios quando a alternativa pede que cedamos no conforto que tomámos como quotidiano. A realidade contrasta: são as mais de 280.000 mortes e a incerteza nas consequências para os infetados e para o mundo, provocadas pelo que Trump apelidou de uma “simples gripe”. Fica o apelo: perante a escolha entre renunciar a pequenos prazeres ou uma conveniente ignorância, Karen, as raízes do cabelo podem esperar.

Make America Selfless (again?).


[1] United States Coronavirus (worldometers.info), consultado a 10/05/2020;

[2] Darley, J. M., & Latané, B. (1968). Bystander intervention in emergencies: Diffusion of responsibility. Journal of Personality and Social Psychology, 8, 377-383;

[3] Kahneman, D. (2011). Thinking, fast and slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.

Comentários

Porque é que não fazem um artigo a comparar as taxas de mortalidade nos EUA e na Europa? Talvez não satisfaça a vossa narrativa…

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