Valores de Poluição em Lisboa baixam, mas mantêm-se acima do recomendado

Estudos de uma equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), indicam que em 2014 a qualidade do ar em Lisboa alcançou os melhores valores de sempre, desde que começaram a ser realizados testes de qualidade do ar na década de 90, com o início do Plano de Melhoria da Qualidade do Ar.

ng1611917

Os registos, encomendados pela Câmara Municipal de Lisboa, monitorizam as Zonas de Emissão Reduzida (ZER), nas quais é limitado o acesso a automóveis, conforme as normas de fabrico dos mesmos. Estas zonas, criadas em 2011 como medida para combater os valores descontrolados de poluição no centro de Lisboa, já representam um terço da área da cidade.

Para as emissões de partículas PM10, 2014 foi o primeiro ano em que este nível se encontrou dentro dos valores legais definidos pela União Europeia, enquanto que para o NO2 os seus valores ainda se encontrem ilegais, embora se tenha notado uma redução.

Mais especificamente, em dados de 2014 registados na Avenida da Liberdade, o valor médio anual de NO2 era de 52 μg/m3, enquanto o valor limite para a saúde humana é de 40 μg/m3 – nesse ano o limite máximo horário foi ultrapassado em 37 dias do ano, quando o máximo para garantir a protecção da saúde humana são 18 dias.

No caso das partículas PM10, o valor médio registado foi de 30 μg/m3, quando o limite é de 40 μg/m3, resultados bons, embora os limites horários tenham sido ultrapassados em 32 dias.

Estes gases são ambos responsáveis por vários problemas de saúde, a longo e curto prazo, relacionados com a fragilização do sistema respiratório no caso do NO2 e com alterações permanentes no ADN – ligadas ao aparecimento de doenças cancerígenas – e problemas cardíacos, no caso das PM10.

Um estudo, realizado em nove cidades europeias ao longo do ano 2013, correlacionou que para um aumento de 10 μg/m3 das emissões de PM10 há um aumento da taxa de incidência de cancro pulmonar nos cidadãos de 22%. Desta forma concluiu-se que ainda não há certezas sobre quantidades seguras para a presença destas partículas no ar.

Juridicamente estes valores colocam Portugal sob investigação em processos de auditoria de infracções, promovidos pela Comissão Europeia, correndo o risco de ser condenado, já pela segunda vez, e a ter de sofrer sanções.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Fontes:

QualAr – http://qualar.apambiente.pt/

Estudo Cidades Europeias 2013 – 
(July 10, 2013). “Air pollution and lung cancer incidence in 17 European cohorts: prospective analyses from the European Study of Cohorts for Air Pollution Effects (ESCAPE)”The Lancet


Entrevista: João Santos

Honor killings: Crime ou tradição?

Por todo o mundo, mulheres e homens são mortos em nome da honra, da família e dos bons costumes. Estes crimes são gentilmente denominados crimes de honra, e tanto antropologistas como historiadores procuram a sua origem, como forma de justificação.

Estes crimes são cometidos, na sua grande maioria, contra mulheres ou raparigas que, através dos seus actos ou existência, trazem desonra à sua família. E por desonra entende-se: tenham sofrido violação, recusem um casamento arranjado, peçam o divórcio, sejam homossexuais, ou apenas alvo de rumores de qualquer uma das acções anteriores.

Poderia ainda pensar-se que, devido à natureza destes crimes, estes aconteceriam apenas numa realidade muito distante da nossa, isto é, em países como o Paquistão ou a Índia, de onde são a maior parte dos casos conhecidos. Mas no entanto acontecem também por toda a Europa, em comunidades imigrantes, e muito menos se ficam pela morte da vítima.

Estes são organizados pela família, numa tentativa restaurar a sua honra. No caso das violações, obrigando a mulher a casar com o seu violador, noutros casos, desde ataques com ácido, mais ou menos mortais, até homicídio de forma mais ou menos violenta.

As leis contra estes crimes, que em muitos países nem crimes são considerados, começam a aparecer e estudos começam a ser feitos mas nenhuma destas acções é bem-sucedida. As mortes e agressões, ou não são reportadas às autoridades, ou são reportadas como acidentes e suicídios. O que resulta em estimativas de diferentes organizações mundiais variarem entre 1000 a 5000 mortes de mulheres por ano.

Nos países europeus são reportados cada vez mais casos. Na Suécia, em 2002, uma rapariga curda foi morta pelo pai. Na Dinamarca em 2005, outra rapariga foi morta pelo irmão. E diferentes casos seguiram-se, em 2006 em Itália, em 2010 na Suíça e em 2011 na Bélgica. Os casos repetem-se, seja qual for o ano ou o país, com a mesma brutalidade. Uns chegam às notícias, outros nem tanto. Apesar de todas as leis tanto contra a violência doméstica, como contra o homicídio, estes continuam a ocorrer.

Das 5000 mulheres mortas por ano no mundo inteiro, 1000 morrem só no Paquistão, onde esta tradição ainda é fortemente aplicada e justificada pela moral, assim como no Egipto e Irão. No entanto, no Paquistão, está a ser desenvolvido um movimento nacional para contrariar esta realidade e levar ao fim estes crimes. Foi criado por uma Paquistanesa, Khalida Brohi, com amigos e conhecidos. Depois de muitos altos e baixos, conseguiram criar uma empresa, chamada Sughar Empowerment Society, que visa dar maior poder, dentro da comunidade, às mulheres, permitindo-lhes contribuir economicamente para a família. Estas mulheres fazem roupa tradicional paquistanesa que é vendida já em vários países. Estas acções permitiram não apenas dar mais poder às mulheres, como alertar a um nível internacional as pessoas para esta realidade.

Estes crimes, assim como tantos outros contra mulheres, crianças e pessoas com deficiência, acontecem por todo o mundo. Esta mudança pode ser feita com o apoio do mundo ocidental. O projecto acima citado está a recrutar voluntario entre as comunidades de estudantes de todo o planeta.


Texto: Bárbara Casteleiro

Berlin House of One

Ev. Kirchengemeinde St. Petri - St. Marien, Bet- und LehrhausTodos os dias somos confrontados com cenários de guerra muito por culpa das diferentes opiniões religiosas em todo o mundo.

No centro da cidade de Berlim, no local onde estava edificada a Catedral de São Pedro – destruída no final da Segunda Guerra Mundial – está a nascer o projecto de uma nova construção que pode ser mais um passo para a compreensão e respeito entre religiões.

berlin1Um grupo de católicos, judeus e muçulmanos juntou-se e teve a ideia de construir um local sagrado que possa albergar uma Igreja, uma Sinagoga e uma Mesquita no mesmo edifício. O edificio foi entretanto baptizado como Berlin House of One.

As três partes do edificio terão todas o mesmo tamanho mas com diferentes formas. Espaços esses que partilham um local comum, ao centro, que oferece a possibilidade da partilha de ideias e opiniões de forma pacífica.

O projecto irá custar à volta de 43 milhões de euros, que estão a ser obtidos por crowdfunding, mas o primeiro objectivo são 10 milhões de euros, que é o valor necessário para se poder construir uma versão mais simples do edíficio.berlin2

O projecto já disponibiliza um site, para os mais interessados, onde se pode acompanhar o seu desenvolvimento ou contribuir.

Esta arrojada ideia tem causado polémica mas os envolvidos não consideram que isso possa ser um entrave para a sua edificação. O projecto é visto como um pequeno passo na luta pela paz e compreensão entre as diferentes religiões, mas um dos principais objectivos é também levar esta ideia ao resto mundo e acabar com as divisões religiosas presentes no mesmo.

Texto: Afonso Anjos

Refugiados em Portugal

Ouve-se falar quase todos os dias das tragédias ao nível humano que decorrem em países distantes como a guerra civil Síria, os conflitos na Ucrânia ou a violência perpetuada pelos confrontos com o Estado Islâmico. Destas contendas quem sai a perder são, invariavelmente, os civis que se vêem obrigados a fugir dos seus próprios países fazendo-se acompanhar, quando possível, de familiares e dos poucos bens que conseguem agarrar.

Foi neste contexto que, em 1991, surgiu o Conselho Português para Refugiados (CPR) como um projecto independente sem fins lucrativos posto em prática por um pequeno grupo de voluntários e alguns trabalhadores. Hoje em dia, o CPR é já uma organização de proporções consideráveis que tem em vista o acolhimento de refugiados, bem como a sensiblização da população em geral para o problema dos expatriados forçados cujo número aumenta a cada ano que passa. No período de 2000 a 2013 foram já recebidos, em Portugal, 2706 pedidos de asilo dos quais 724 receberam resposta positiva, quer na forma de concessão de Estatuto de Refugiado, quer na de Protecção Humanitária.

IMG_1066
Átrio interno do CPR na visita do Diferencial às instalações.

Em conversa com Mónica Frechaut, assistente da direcção e responsável pela informação pública do Centro tentámos perceber como se processa todo o acolhimento do refugiado no nosso país: Quando o indivíduo chega a Portugal faz o pedido de protecção, pedido este que pode ser emitido de dentro do país ou em postos de fronteira (58% de dentro do país, 42% em postos de fronteira – dados referentes ao ano de 2014 até 31 de Agosto). Em seguida procede-se a uma tentativa de provar que o sujeito em causa é elegível para protecção internacional de acordo com a definição de “refugiado” acordada na Convenção de Genebra de 1951: um refugiado é uma pessoa que “receando com razão ser perseguida em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou das suas opiniões políticas, se encontre fora do país de que tem a nacionalidade e não possa ou, em virtude daquele receio, não queira pedir a pro­tec­ção daquele país; ou que, se não tiver nacionalidade e estiver fora do país no qual tinha a sua residência habitual, após aqueles acontecimentos não possa ou, em virtude do dito receio, a ele não queira voltar.” É de frizar que, oficialmente, estes critérios não visam a capacidade ou ausência desta de oferecer asilo por parte do país anfitrião, considerando que o acolhimento depende apenas dos antecedentes do indivíduo.

Durante um processo que dura de dois a três meses em média, o refugiado é alojado nas instalações do CPR, nomeadamente no Centro de Acolhimento da Bobadela ou no Centro de Acolhimento de Crianças Refugiadas, este último destinado ao apoio de crianças desacompanhadas. São também fornecidas aulas de Língua e Cultura Portuguesas bem como apoio ao longo de todo o processo de integração na sociedade.

O Diferencial foi falar com um refugiado Palestiniano que preferiu dar a entrevista em anonimato. O indivíduo em causa fugiu com a família da sua terra natal na Palestina aquando da criação do estado Israelita em 1948 pedindo asilo em território Sírio. Ao crescer no meio do que considerava injustiças perpetradas pelo governo do país anfitrião, lutou durante vários anos contra estas de modo que, no ano de 2005, vítima de perseguição, foi forçado a fugir do país pela segunda vez. Apanhou o primeiro barco em que lhe foi possível esconder-se porque “Um refugiado nunca escolhe!”, e dirigiu-se a Lisboa numa viagem de 10 dias numa sala de máquinas com duas sandes por dia e um balde destinado às necessidades.

À chegada pediu asilo e integrou-se no CPR. Passou cerca de um ano à espera de papéis durante o qual teve aulas de português e fez parte de um grupo de teatro. O refugiado perspectiva como impossível o regresso à Síria mas gostaria de voltar um dia antes de morrer.

IMG_1072
Biblioteca e área de estudo do CPR.

Para além dos óbvios factores familiares que decorrem de famílias forçadas a separar-se no processo de emigração, as principais dificuldades encontradas por um refugiado ao chegar ao país de acolhimento prendem-se com a aprendizagem da língua e o reconhecimento de competências. Tomemos o exemplo de um estudante de engenharia que se vê forçado a saír do seu país de origem e chega a Portugal desprovido de papéis que provem seja o que for acerca da sua actividade académica ou profissional. Não é, de todo, incomum que o estudante seja tomado como isento de quaisquer das suas qualificações previamente adquiridas e que se veja, como tal, impedido de continuar a estudar ou a exercer uma profissão na sua área.

Face às enormes dificuldades que uma sempre crescente percentagem das populações sofre não podemos ficar indiferentes e nós, os jovens em especial, temos a responsabilidade de nos mantermos informados e alerta para os problemas que conseguimos ajudar a resolver. Em www.cpr.pt encontram-se informações mais detalhadas sobre o funcionamento do CPR bem como contactos úteis caso estejas interessado em saber como podes ajudar.


Texto: Miguel Duarte