Entrevista ao “Truques da Imprensa Portuguesa”

No seguimento do artigo sobre o jornalismo na nova era, convidámos as pessoas responsáveis pela página “Truques da Imprensa Portuguesa” para uma entrevista sobre as suas perspectivas relativamente aos desafios da imprensa e, como não podia deixar de ser, abordámos também o projecto que têm vindo a desenvolver, o crescimento da comunidade de seguidores e as polémicas e quezílias que se criaram com alguma parte da comunicação social portuguesa.

 

Antes de discutirmos mais a fundo os desafios que o jornalismo enfrenta actualmente, gostaria de começar por vos perguntar, estando fora do mundo do jornalismo, o que é um jornalista e qual o papel que este deve desempenhar?

A nossa perspectiva é a perspectiva de leitor, de público, construída de forma relativamente empírica. Nós achamos que o jornalismo, em geral, e o papel do jornalista, em particular, é fundamental, porque é o intermédio entre a realidade e o público, constitui-se como uma charneira entre aquilo que acontece e aquilo que é dado a conhecer sobre uma dada realidade – por isso mesmo é tão importante que seja criticado, reflectido e revisto, e é isso que nós tentamos fazer.

 

De onde surgiu a decisão de criar este projecto? De um juízo de que existe um desvirtuamento do jornalismo português?

Não, nós temos uma visão crítica em relação ao estado do jornalismo, mas não temos uma perspectiva catastrofista sobre o mesmo. É verdade que o mundo do trabalho no jornalismo enfrenta problemas muito grandes, o modelo de negócio de empresas de comunicação social enfrenta desafios enormes, há muita gente a discutir e a reflectir sobre isso, e há problemas muito específicos que estão a ser colocados nesta altura. Nós temos referido, de forma sistemática, quais são esses problemas: o problema das fontes, da pressão, da quantidade de trabalho, da necessidade de publicar cada vez mais rapidamente. Enfim, há um mar de problemas que nós procuramos explicar e demonstrar sempre através de exemplos concretos, essa é a nossa filosofia.

 

Uma crítica que costumam apontar frequentemente nos vossos posts, é o facto de existir um certo consenso entre jornalistas em colocar a responsabilidade da dificuldade em fazer bom jornalismo nas redes sociais e em apontá-las como um antro de notícias falsas…

Não é bem isso que dizemos. Existe a perspectiva por parte de alguns jornalistas, e começa a cultivar-se essa ideia, de que as redes sociais são um problema, são um inimigo do jornalismo. Isso não é necessariamente assim, não acho que exista uma espécie de dicotomia, de guerra, entre o jornalismo que defende a verdade e as redes sociais que defendem a mentira. Ora, se as redes sociais são espaços onde, de facto, prolifera muita mentira e muitas notícias falsas, sendo as eleições norte-americanas um bom exemplo disso, são também um espaço de muita crítica, que permitiram o surgimento de novos protagonistas e onde toda a gente pode dar a sua opinião de forma relativamente igual, não havendo propriamente um exercício de controlo sobre quem pode ou é capaz de o fazer. O intermédio da imprensa muitas vezes estabelece quem tem acesso a esse espaço de visibilidade pública – quem são os opinion makers, quem são os protagonistas – e as redes sociais eliminam isso. Do nosso ponto de vista é bom, é uma vantagem.

 

Mas um jornalista, que há dez ou vinte anos, tinha um monopólio da informação, vê-se agora condicionado pelo facto de qualquer pessoa poder ser um “jornalista” e divulgar as notícias de uma forma muito mais rápida do que um meio de comunicação tradicional…

Mas nós discordamos desse processo. Achamos que aquilo que pertence ao mundo do jornalismo deve continuar a ser exclusivo do mundo do jornalismo, não pretendemos disputar, com a página que temos, o seu universo. Se alguém tenta substituir, isso não faz sentido, é uma profissão que requer instrumentos, seja do ponto de vista formal, seja do ponto de vista intelectual. O jornalismo deve ser respeitado e deixado aos jornalistas. As redes sociais, por si, são uma estrutura, que pode ser utilizada para o bem ou para o mal, aliás como a própria imprensa, que não é inerentemente boa. As redes sociais são uma estrutura onde existe tudo, porque é onde estão todas as pessoas de todos os tipos. Essa correlação directa entre as redes sociais e as notícias falsas, para nós, é errada e desonesta do ponto de vista intelectual.

 

Se grande parte do público recorre às redes sociais para receber notícias, o controlo e a visibilidade que os media têm acaba por se diluir um pouco na amálgama de informação da rede social. Essa descaracterização e omnipresença das redes sociais não se vai reflectir numa transformação do comportamento dos media tradicionais?

Compreendemos que isso é um grande desafio e que deve ser feita uma reflexão urgente, mas esta não deve ser feita por nós. Agora, nós achamos que este desafio não deve levar os jornais ao clickbait, porque isso só funciona a curto prazo. No fundo, o clickbait pode enganar o público nos próximos tempos, dias, meses, anos, e conduzir a mais venda de publicidade, mas lentamente vai desgastando a credibilidade da imprensa tradicional, que é o seu principal capital. Se abdicam deste capital, então é inevitável que mais ou menos lentamente se acabem por destruir enquanto projecto de jornalismo.

 

Mas uma empresa de comunicação social, enquanto negócio, não pode esquecer quais as características do público para quem comunica. Se o público tem mais interesse em notícias sensacionalistas, em notícias que se foquem no futebol ou no mundo das celebridades, existirá uma tentativa de dirigir a sua linha editorial para que seja mais atractiva para essa parte mais significativa do público…

Sim, mas isso é uma questão de ética profissional. Não significa que a comunicação social tenha de capitular perante isso. Não acreditamos que é um mau público que faz uma má imprensa. É uma má imprensa que faz um mau público e um mau público que faz uma má imprensa. É uma situação de circularidade. O Correio da Manhã tem uma grande tiragem não só porque há muitos leitores a comprar, mas também porque há muitos leitores pouco informados para aceitarem algumas coisas do Correio da Manhã, porque existe o Correio da Manhã a fazê-las. É um processo em simultâneo.

 

O que acham da comunidade que se formou à volta da página e do seu crescimento?

Nós achamos que é interessante e que de certo modo veio dar razão às nossas críticas. A página é assumidamente um espaço de crítica e de subjectivação. Não queremos dar informação, não nos queremos substituir ao jornalismo. Se a comunidade cresce, significa que há gente a achar relevante esse espaço de crítica.

 

Relativamente a algumas críticas que têm saído por parte da imprensa em relação à vossa página- sendo o exemplo mais recente o caso com o Ricardo Costa, jornalista do Expresso- o que transparece é uma reacção algo corporativista da comunicação social que não parece ser capaz de encaixar críticas feitas ao meio, e isso é algo que me incomoda, porque numa situação em que a crítica é dirigida à comunicação social, sendo ela própria responsável por informar e servir de plataforma para fomentar a discussão e opinião, pode dar-se o caso de ser parcial em situações que a envolvam…

Sim, quem é o árbitro nessas situações? Não te consigo dizer. Acho que tem de ser o público. Penso que há, de facto, uma reacção corporativista à nossa pagina. Há muita crítica muito pouco fundamentada. O caso do Ricardo Costa é um exemplo… é capaz de ter feito muitos tweets sobre nós, mas o que encontras nos tweets são só críticas ad hominem e intimidação. Não há nada de concreto. Nós estamos totalmente disponíveis para discutir factos concretos sobre os nossos posts e críticas, e isso às vezes acontece. Se fores ver os comentários, há muita gente que dá posições opostas e nós tentamos dar visibilidade a esse debate. Da parte dos jornalistas, pelo menos de alguns, até porque há muitos a elogiar a página e o trabalho feito, há mais dedicação à destruição da credibilidade e simpatia da página junto do público.

 

O que acham da qualidade do jornalismo em Portugal? Pensam que o vosso trabalho tem dado frutos no sentido de a melhorar?

Relativamente à qualidade do jornalismo, pensamos que a maior parte dos jornalistas faz um bom trabalho, diário e silencioso, e podemos vê-lo quando abrimos os jornais. Havendo problemas, é necessário destacá-los e discuti-los. No que toca aos frutos do nosso trabalho, nós preferimos deixar essa questão ao público. Queremos acreditar que sim, até porque isso se traduz numa correcção de notícias em resultado da publicação de posts da página. Isso já nos deixa satisfeitos. Se é uma transformação estrutural ou mais de fundo, isso deixamos para os seguidores e leitores.

 

Consideram que existe um condicionamento do jornalismo português devido a pressões políticas e de grupos económicos? Veja-se o caso angolano, em que boa parte da imprensa portuguesa se manifesta de forma silenciosa sobre acontecimentos que sejam negativos para o actual executivo angolano.

Nós preferimos falar sobre assuntos em concreto. A questão angolana é bastante importante. Nós acompanhámos o caso de Luaty Beirão e verificámos que existia um padrão. Os jornais com capitais angolanos passaram o caso para segundo, terceiro planos, ou às vezes nem isso… quando era um assunto com interesse, do espaço da lusofonia, que tem interesse para o público português. Agora, nós não fazemos esse tipo de acusações, porque não nos cabe a nós nem temos meios para provar essa influência, mas fazemos uma crítica e damos essa informação aos nossos seguidores para reflectirem sobre estas questões da imprensa.

 

Por que razão se preferem manter no anonimato?

A questão do anonimato não é uma questão fechada, mantém-se em aberto. O anonimato tem a ver em primeiro lugar com a protecção da nossa privacidade, temos vidas privadas que nada têm a ver com o jornalismo, nem somos figuras públicas, e isso podia ser colocado em causa. Ao estarmos a aprofundar temas sobre um poder fundamental da democracia, a imprensa, muitas vezes secundarizado ou esquecido, nós sabemos que a nossa posição nos fragiliza imenso, até porque já recebemos várias ameaças. Em segundo lugar, nós acreditamos que o anonimato é uma questão fundamental, porque funcionamos como gestores de conteúdos, uma vez que cerca de 95% dos nossos posts advêm de sugestões dos nossos seguidores. Que sentido faz assumirmos a autoria de uma coisa quando somos apenas coordenadores de um projecto?

 

Porém, a questão do anonimato não permite defender, por exemplo, de acusações sobre afiliações partidárias e pode gerar alguma desconfiança…

Sabemos que traria algumas vantagens não permanecer no anonimato. Permitir-nos-ia destruir essas acusações. Mas repara no seguinte, nós não pedimos a ninguém para confiar em nós. Não fazemos ameaças a jornalistas, nem é frequente referirmos nomes de jornalistas. É muito pontual e sempre de forma justificada. Não é um anonimato que esconda um crime ou vergonha. Mas tem, claro, as suas desvantagens. A nossa identidade, para o valor das nossas opiniões, é absolutamente irrelevante. Se as nossas críticas forem mal fundamentadas ou mal dirigidas, elas podem ser expostas e criticadas na mesma, independentemente de quem somos.

O Pequeno Buda quer trazer a meditação às universidades

Tomás Mello Breyner, também conhecido por Pequeno Buda, foi um dos oradores do TEDxISTAlameda e encontrou na meditação um método para aprender a viver em harmonia com as cirscunstâncias da vida. Tem a sua própria escola de yoga e é responsável por um projecto que pretende implementar a meditação diárias nas escolas.

Pela tua talk, ficámos com a ideia de que tens uma visão “naturalista” da religião. Defines-te como panteísta ou simplesmente pensas na natureza como uma manifestação do divino?

Eu penso no divino como um todo, não só como a natureza; mas a natureza também pode ser um todo. Para mim tudo é divino – tudo o que está dentro de nós e à nossa volta -, Deus está em todo o lado. Não me identifico com nenhuma religião e identifico-me com todas. Gosto um pouco de todas, porque acho que todas falam exactamente o mesmo. Depois existem as guerras porque alguns dizem “O meu Deus é melhor”, “Com o meu chegas lá mais rápido do que com o teu”, etc.

 

Ficámos curiosos quando disseste que devíamos aceitar (a palavra utilizada foi até embrace) as coisas que nos acontecem, independentemente de serem boas ou más. Como é que se pode lidar e aceitar de forma “passiva” as coisas más que nos acontecem?

Eu gosto de acreditar que tudo é bom. Quando digo bom, não entro no dualismo bom/mau; as coisas são o que são. O que para uma pessoa é mau, para outra pode ser bom, o que nos leva logo a concluir que as coisas não são boas nem más por si só. Se tu classificas uma coisa como boa, e outra pessoa classifica essa mesma coisa como má, quem é que tem razão? As experiências são apenas experiências que existem. Depois a classificação entre bom ou mau já é uma coisa mental que parte de nós, mas, na sua verdadeira essência, as coisas não são boas nem más; são apenas coisas.

 

Trabalhas principalmente com crianças. O facto de haver uma certa ingenuidade da parte delas e, portanto, inconsciência relativamente a este dualismo bom/mau, é uma mais-valia?

Nós não vamos tão a fundo com as crianças, apenas as tentamos trazer para o momento presente. As crianças costumam estar bastante agitadas – o que está, em parte, relacionado com a era digital em que vivemos – e, depois, quando se tentam concentrar, é um problema, o que dificulta a tarefa dos professores. Assim, o que nós tentamos fazer é resgatar as crianças para o momento presente e fazer com que elas percebam que têm de se concentrar, que é bom estar concentrado. Depois a parte da meditação que conecta com o coração e com a essência não é muito abordada. Por vezes falamos um pouco sobre o coração, mas nunca sobre Deus, religião ou filosofias deste género do bem e do mal.

 

Como é que reagem as crianças quando meditam pela primeira vez?

É muito engraçado! Nós trabalhamos com crianças pequenas e, tudo o que é novo para elas, é relativamente fácil. Elas adoram! É um momento no qual elas dizem que se sentem mais calmas e mais felizes. Já tivemos feedbacks super engraçados, como “É o tempo para o coração respirar”. Elas pedem aos professores para fazer meditação antes dos testes. De certa forma, parece que as crianças sabem que precisam destes exercícios; sabem que estão super agitadas e isto é bom para elas. É fantástico ver como as crianças alinham nisto!

 

E os professores também alinham, ou é mais difícil convencer os professores do que convencer as crianças?

É! O nosso desafio é esse mesmo: convencer os adultos de que as crianças têm de fazer 5 minutos de meditação. Por exemplo, professores de Matemática e professores de Ciências não estão muito para aí virados, então às vezes não fazem. Às escolas que aderem ao projecto, nós pedimos mesmo que façam todos os dias; nem que seja só tocar numa taça tibetana, que faz um sonzinho “plim”, e deixá-las em silêncio. As crianças precisam de aprender a estar em silêncio, porque elas estão completamente agitadas de um lado para outro, cada vez mais. No fundo, é normal as crianças estarem agitadas, berrarem, etc; mas, quando se chega a um extremo, já não é tão normal. Nós tentamos resgatá-las para a calma, para que elas consigam estar mais concentradas na sala de aula e, consequentemente, o processo de aprendizagem seja mais fácil.

A meditação também pode ser uma mais-valia em casos clínicos?

Sim. Para crianças que sofrem de autismo, por exemplo, a meditação é uma grande ajuda. É mais difícil para elas fazerem-no – por exemplo, fechar os olhos muitas vezes é difícil -, mas nós tentamos dar uma força e explicar que é importante. Há várias técnicas para as ajudar. Claro que nós não vimos pregar que a meditação é a salvação e que podemos parar de tomar medicação – não, nós queremos incluir a meditação aos poucos! Estamos só a plantar uma semente.

Achas que a meditação poderia ser útil aos estudantes universitários?

Sem dúvida. Nós estamos a pensar em começar a vir também às universidades. Neste momento também já estou a trabalhar com alunos da Oeiras International School – que vão ter os exames finais exames do secundário no final deste ano lectivo -, a qual me contratou para ir todas as semanas à escola fazer sessões com os alunos. Nas universidades é igual: quando nos acalmamos, as nossas ideias arrumam-se; quando estamos em stress, as nossas ideias dispersam-se.

Na tua talk, falaste ainda sobre o teu problema auditivo. O problema resolveu-se?

Não, continuo com o problema; a minha visão da situação é que mudou. Eu continuo a ouvir o zumbido e ouço mal, mas aceitei a minha condição – é assim que eu sou. Às vezes posso não ouvir bem, mas, em vez de ficar chateado comigo mesmo, aceito-me. Se me cortassem uma perna, também não ficaria à espera que a perna me crescesse, teria de aceitar a minha condição. É assim que eu sou e vivo feliz.

E-mail: tomasmbreyner@gmail.com

Site: tomasmellobreyner.com

Socialismos

O pensamento crítico do capitalismo.

fidelA palavra ‘socialismo’ tem tido significados diferentes ao longo dos últimos três séculos. Actualmente, Bernie Sanders diz-se socialista e é reconhecido como tal. Hugo Chavez referia-se a si mesmo como sendo um socialista. O actual governo francês é constituído, maioritariamente, por membros do partido socialista. A União Soviética foi a ‘União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A República Popular da China autointitula-se socialista. Castro é um socialista. Todos estes exemplos parecem gerar confusão sobre o que é afinal o socialismo. Isto acontece porque não há um socialismo no singular. Existem, à volta do mundo, diferentes tipos de socialismo, que foram interpretados de maneiras diferentes por cada cultura, à medida que a ideia inicial se foi diluindo atrás do capitalismo.

No séc.XVIII deu-se uma revolução violenta e surgiu o capitalismo. Este sistema veio acabar com as relações servo-contratuais, do feudalismo, e trazer a ideia de que ninguém tem um lugar fixo na sociedade: as pessoas partem do mesmo lugar numa sociedade livre e igualitária. Não há um foco na sociedade, mas no indivíduo, propondo a celebração do individualismo. Esta revolução, que trouxe as promessas de ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, atingiu a sua expressão máxima na revolução francesa de 1789. Em 1850, meio século após a revolução, as pessoas começaram a aperceber-se que as promessas não se concretizavam. A substituir o servo e o senhor feudal apareceu o capitalista e o proletário. A sociedade não estava a convergir para a igualdade, mas a divergir, surgindo assim os primeiros críticos do capitalismo, que se intitularam ‘socialistas’.

Socialismo é um movimento que precede Karl Marx e, como tal, a ideia de que Marx criou o socialismo é falsa. No entanto, tornou-se uma figura muito importante para o movimento, pois representa a tradição de pensamento e a acção anti-capitalista mais importante desde então. Durante os 120 anos após a morte de Karl Marx, o marxismo espalhou-se por todo o mundo. Ao propagar-se por tantas culturas diferentes, em diversos níveis de desenvolvimento histórico-económico, é natural que se tenham criado conceitos diferentes de socialismo e capitalismo. Os manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels idealizam uma alternativa ao sistema capitalista. Dizem que para alcançar a igualdade no sistema económico, é necessário que as pessoas que tomam as decisões em cada área de trabalho sejam os trabalhadores da mesma. Este sistema económico pretende pôr fim aos pequenos grupos de pessoas no topo, que têm todo o poder e o usam para recolher a maioria das recompensas dos meios de produção. Foi até esta ideia que o trabalho original de Marx chegou.

bernie_bernie_0De forma a alcançar este objectivo seria necessário retirar da posse dos capitalistas privados os meios de produção. Na história da Humanidade nunca houve uma mudança radical do sistema económico
pacífica e este movimento estava consciente disso. Durante a maioria do século XIX este movimento esteve
dividido sobre como
executar esta transição. Enquanto a parte mais radical defendia que esta transição tinha de ser executada da mesma forma que a capitalista, ou seja, com um movimento socialista revolucionário, a outra parte queria tornar-se parlamentar e candidatar-se a governo, ou seja, um movimento socialista evolucionário. No entanto, ambos concordavam que a maneira de fazer a transição do sistema económico passava por apoderarem-se do Estado. Após tê-lo no seu controlo, seria necessário usar o seu poder para fazer a transição e transformação da área de trabalho. É necessário frisar que, nesta ideologia, o estado é apenas o meio para chegar ao socialismo (rearranjar a sociedade e sistema económico) e não o objectivo final.

Nos dias de hoje este conceito inicial de socialismo é mantido por grupos/partidos marxistas e os partidos socialistas não rejeitam o sistema capitalista, mas defendem que o Capitalista principal deve ser o estado e não indivíduos privados.

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Trumpmania

Demagogia a caminho da Casa Branca?

Quem ainda não ouviu falar de Donald Trump, o bilionário do sector imobiliário e celebridade da televisão que se prepara para ser provavelmente o candidato republicano às presidenciais nos EUA? Trump é, sobretudo, um entertainer, um homem que sabe o que tem de fazer para cativar a atenção da audiência.

Acontece que, neste caso,a plateia que o vê é o eleitorado norte-americano e o objectivo do espectáculo é a sua eleição. Ele é um produto da degradação da política norte-americana e, mais especificamente, da radicalização de um partido republicano que já não controla as suas bases. Criam uma representação distópica da realidade, incutindo medo e desconfiança, mas são incapazes de apresentar soluções para as mesmas, sendo por isso reféns do seu próprio radicalismo.

É nesse tipo de ambiente, à saída de uma crise económica e com uns media totalmente subjugados à força das redes sociais, que se geram as condições necessárias para o aparecimento de uma criatura política como Trump. É a antítese do establishment de Washington.
É o político que não é político, vem do mundo empresarial e tem uma língua afiada. Trump é um fenómeno alavancado pela Internet e pelas redes sociais.

O seu nome está quase sempre presente nas pesquisas relacionadas com a política e as presidenciais norte-americanas e uma rápida análise no Google Trends revela que o interesse em Trump apresenta uma tendência sempre crescente nos últimos anos e muito mais acentuada do que em qualquer outro candidato.

Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um
Evolução das pesquisas dos 4 principais candidatos relativa ao máximo da pesquisa de cada um

Quando se olha para as pesquisas relacionadas, enquanto para os outros candidatos grande parte das pesquisas envolvem os adversários e o partido pelo qual concorrem, Trump destaca-se com pesquisas associadas à sua riqueza, património, Twitter e esposa. A classe média que sofreu com a crise económica, mas sobretudo os trabalhadores brancos mais pobres que se vêem em trabalhos precários, vêem-no como um self-made man, alguém que está em total controlo da sua vida e idolatram-no por isso. Quando surge num comício, ele está a vender um produto, a marca Trump.

Investigar o tipo de retórica usado permite perceber por que razão o que diz pode ser tão apelativo. É narcisista, mas transmite presunção com uma autenticidade tal que persuade as pessoas que o ouvem a pensar nessa vaidade como algo fundamental na recuperação da grandeza da América (daí o slogan de campanha “Make America great again”). Mas vamos por partes:

      1. “Don’t” – é um dos verbos mais empregues. O uso de frases negativas é recorrente e está quase sempre associado a dois sujeitos: ‘’We” e “They”. O primeiro refere-se ao país e serve para destacar o suposto estado de fragilidade em que se encontra face a um mundo exterior mais feroz e competitivo. Serve para contrapor com a grandiosidade dos EUA dos anos 80 e 90, quando o país vivia um crescimento económico galopante e saboreava o pós-2ª Guerra Mundial e o colapsar da União Soviética.É vulgar encontrar frases que dão uma imagem de subjugação do país perante outras entidades, sejam elas países como a China, que desvaloriza a moeda para fazer concorrência desleal, como a Rússia, que tem como líder Vladimir Putin, uma figura forte que governa com mão de aço, obtendo sempre o que quer, em oposição à lassidão de Obama, ou como o Irão, que negoceia acordos nucleares e nas costas explora a credulidade do Ocidente para continuar a desenvolver armas nucleares; sejam elas movimentos ou fenómenos como a imigração e a incapacidade de controlar as fronteiras, e  o terrorismo.Todas estas questões são legítimas na sua génese e não devem ser por isso desconsideradas, mas Trump pega nelas e exagera certos aspectos para gerar indignação, receio e desconfiança. “We don’t know”, “We don’t have” são elementos que repete até à exaustão. Toda esta vulnerabilidade não existe por acaso e é preciso usar o segundo sujeito como o agente do mal. “They” refere-se não só aos democratas, mas a Washington (incluindo os seus adversários republicanos nas presidenciais) que se tornou um ícone da corrupção, incompetência e inércia da política norte-americana. Trump aproveita-se da imagem já presente para cavalgar a maré de descontentamento que o povo americano sente relativamente aos seus representantes.São “eles” os culpados, os senadores e deputados que prometem mundos e fundos, mas mal chegados a Washington parecem apanhados pela apatia e amarrados aos interesses de lobbys. Trump apresenta-se como alguém livre dessas correntes. O argumento do “sou rico, sou independente e por isso não preciso de tomar acções moralmente reprováveis” cai muito bem entre as pessoas que estão fartas do clientelismo de Washington.
      2. “Very, very” e “great” – A adjectivação para Trump baseia-se no abuso do superlativo absoluto analítico. “Very simple,hard,proud,sad,weak,upset…” são exemplos do que povoa os seus textos. Faz uso sempre de adjectivos simples, muitas vezes monossilábicos e quase sempre acompanhados de um ou mais “very” que acentuam o adjectivo. Um dos adjectivos mais usados é “great”, o qual costuma estar ligado à sua pessoa.

3. A linguagem do povo – Trump não tem um discurso adornado com palavras caras. Comunica as suas ideias em frases normalmente simples e curtas. Por vezes nem chega a terminar um determinado raciocínio. É capaz de interromper aquilo que está a dizer para fazer um comentário depreciativo sobre alguém, ou congratular-se pelo seu próprio sucesso.

Este ziguezague constante passa uma imagem de uma certa proximidade. Há até coreografias com o público. “Quem vai construir aquele muro?” grita Trump e respondem-lhe de volta “México!” ou quando Trump se vira para os jornalistas a cobrir o evento e os insulta, sendo acompanhado por vaias do público, são exemplos da comunhão que Trump e os seus apoiantes fervorosos partilham.

Conhecem todos os soundbites e repetem-nos, sendo sempre acompanhados pelo sorriso e encorajamento de Trump, que alimenta esta posição de intolerância.

4. “I’m” e “success” – Já apresentou a vítima, os americanos, e o culpado, os políticos, e descreveu o cenário distópico em que vivem. O que falta? O salvador que vai criar empregos para todos, acabar com a imigração e o terrorismo, resolver os problemas do Médio Oriente, e colocar China e Rússia no seu devido lugar.

As duas palavras andam entrelaçadas ao longo de todas as suas intervenções a tal ponto que se torna impossível dissociá-las. Trump é um nome forte e que se junta bem à forma agressiva como fala. Mesmo que lhe apontem falhas no raciocínio, nunca vacila e torna-se mais hostil. Se alguém tenta contrariá-lo, foge ao assunto e rapidamente ostraciza o indivíduo.

Ele consegue sobreviver à sua ignorância, porque logo no instante a seguir ataca quem lhe fez a acusação. Depois disso, a imagem que fica é a incapacidade de quem o acusou de lhe responder de volta. Isto, porque raros são os jornalistas ou personalidades que estão dispostos ou sequer habituados a descer ao mesmo registo dele.

5. “Ad-e tudo” – Exemplos de ad hominem não faltam: seja um jornalista como uma deficiência motora que escreveu um artigo sobre o 11 de setembro e negou que houvesse muçulmanos a festejarem nos terraços dos prédios em Nova Jérsia, seja um rival republicano como Jeb Bush, que acusou de ser um miúdo mimado e estúpido.

Invariavelmente, o plano é este: se criticam as suas posições, furta-se ao confronto de ideias e passa para o insulto, adjectivando o seu opositor de marioneta, aborrecido, fraco ou, em último caso, acusa-o de deturpar as suas palavras, mandando-o reler/ouvir o que dissera.

Ad populum é também frequente. Quando quer dar força às suas ideias, inventa ou refere sondagens em que supostamente a maioria das pessoas concorda com ele. Se a maioria concorda, então só pode ser verdade. O que, reduzido ao extremo, se torna simplesmente em “votem em mim, porque eu sou popular. Porque sou popular? Porque defendo coisas populares”.

Trump sabe aquilo que as pessoas querem ouvir e depois, com a sua aptidão de vendedor, coloca um laço por cima e apresenta-lhes isso mesmo. Sem explicações, sem planos. O produto é apenas a promessa.

Ad baculum é também uma das suas favoritas. Qualquer discussão que não se resolva por ad hominem acaba com Trump a ameaçar através de coerção (física ou, por exemplo, através de processos em tribunal) o seu opositor. Dá uma oportunidade para projectar a sua força e parecer dominante num confronto que era inicialmente ideológico.

Ad verecundiam, por último, é parte integrante da forma de estar de Trump. Fala como se fosse uma autoridade inquestionável no mundo dos negócios e isso lhe desse capacidade para falar sobre tudo. Estamos a falar de alguém ao nível de um deus na terra. Os argumentos de autoridade surgem frequentemente e facilitam-lhe muito o trabalho.

Se ele for bem sucedido em apresentar uma imagem de sucesso e infalibilidade, então basta-lhe depois fazer afirmações sem qualquer necessidade de as sustentar. “Acreditem em mim”, “Eu digo-vos isto”, são exemplos da estrutura base que usa para este tipo de falácia.

Quando Trump diz que será “o melhor presidente criador de empregos que Deus já criou. Eu digo-vos isto” e depois é interrompido por aplausos entusiásticos, todo o trabalho que empregou na criação da marca apresenta os seus resultados. Se isto fosse dito por outro rival republicano teria o mesmo impacto? Muito provavelmente não, seria visto como uma fraca tentativa de conseguir votos.

Trump é uma personagem dos tempos e não é algo exclusivo do outro lado do Atlântico. É um sintoma da incapacidade dos políticos e da própria democracia em responder às necessidades dos seus cidadãos e ao mesmo tempo adaptar-se a um mundo globalizado que é muito diferente daquele em que as nações ocidentais se formaram. A ascensão surpresa de Trump diz-nos também quão incapazes somos de prever o futuro e, ainda mais, de reagir às mudanças, sendo prontamente engolidos pela avalanche de acontecimentos. Muito provavelmente Trump não será o próximo presidente dos EUA, mas ficará para a história como um “palhaço” do circo televisivo foi capaz de, por alguns momentos, acreditar que era possível sentar-se numa das cadeiras mais importantes do mundo.

Architecture Trials: Joshua Florquin

Joshua Florquin is an Architect, graduated in 2008 from Sint-Lucas Architectuur, having spent an year on Erasmus in Roma Tre University as well. He moved to Paris afterwards, where he worked for a few architecture offices like Architecture Studio, Local Architecture Network – a young office, very socially involved, which he still talks about very enthusiastically – and H2O, before founding his own office in 2014.

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In recent times he received some attention over his design of the barbershop Les Dada East, inspired by the ecological policies of the store. On a Sunday morning, we chatted over his methodology and architecture education in our modern but not very sustainable societies.

What are your major concerns when designing?

Personally, I try to design with a social and psychological approach. I think Architecture can’t only be a pragmatic discipline that answers to functional and economic problems, it should also be a discipline that absorbs social, economic, political and cultural changes of humans and their environment and then achieve solutions that are innovative and can stand the test of trend and time. When starting a project I start with the context: urban, architectural and with particular focus on the user. How a specific building can influence the interaction with its user in a positive and functional way. I would say this method is important in my work.

As someone who is now directly responsible for his own projects, and also as a former student, what do you think might be missing, or might be at fault, in contemporary architecture teaching?

I don’t like to criticize, mainly because I think it’s not my place. If I have to answer I’ll say that you have to find a balance, even in education.

Some schools that are very academic and technical, such as the Politecnico di Milano where I met other students during my stay in Italy, were, in my opinion, rather focused on construction techniques. When you’re an engineer or an architect that aspires to build immediately those abilities can definitely be useful.

Sint-Lucas in Gent for example, where I studied, is a school that focuses a lot on concepts. It was the main criteria to present a project. With well funded thoughts on why you were making certain design decisions. I was very glad with this pedagogic approach. In my opinion, and this is of course related to my education, I think it’s important that they give students freedom to come up with new ideas that might even seem strange to us now, but that can be innovative in the future.

It’s necessary to have a technical background, but in my opinion that is secondary. Techniques are evolving very quickly in construction. You learn while working on projects on a professional level. When you’re a student I think it’s more important to develop the brain in a way that capacitates you to develop new ideas who can change the way we live and use space. Nonetheless, technique is very important and that’s why I advocate a strong collaboration between architects and engineers.

I would say that, ultimately, when studying, you should ask yourself what is important to you: whether you aspire to construct immediately with academic technical knowledge, or whether you aspire to come up with new ideas and collaborate with other engineers to achieve those concepts. It’s about finding a balance between those options and knowing what you want to achieve in the future.

Since you started working by yourself you’ve made a fair amount of projects and also got a fair amount of recognition with your Les Dada East. Can you tell us a little bit about how you started?

In 2014 I started with apartments and interior design. It’s true that Les Dada East became quite iconic because it ended up having a lot of attention online and also on magazines in China, South America and now in Europe [on its way to be published now in Architecture Digest]. Maybe it’s the project that got the most attention because I did some PR for it, and for the others I didn’t. I guess it became an important project for me simply because it’s quite appealing and I’m quite happy with it.

Who are your major influences?

That’s actually a hard question because of course an architect likes to say he has no style, and I would like to say that too, but that’s not true because we all have a style and are influenced by other architects.

If I have to say some architects that influence me I’ll go way back and say a big one like Frank Lloyd Wright just because I like integrating nature in my designs. It’s not really true that he influenced me because in the end my architecture is very different from his, but I like his ideas. All architecture that integrates the user and its contexts appeals to me.

I don’t like architects like Calatrava, for example, because of how they do these formalistic approaches or how they repeat themselves. I don’t like styles you recognize every time, that don’t change. That kind of building is an object, it’s not a building that lives in its context.

 

Arte expressiva como protesto

Petr Pavlensky é um activista Russo que desafia as normas do governo através do que considera arte e do que os seus opositores consideram loucura. Algumas das suas obras anteriores levaram-no a agir sobre o seu próprio corpo de formas que se apresentam como verdadeiros desafios aos limites humanos. Em 2012 coseu os lábios como protesto a favor da banda punk rock feminista Pussy Riot, da qual três raparigas foram presas após um concerto improvisado e não autorizado na Catedral de Cristo Salvador de Moscovo. Quando Pavlensky apareceu com os lábios cosidos na Catedral de Kazan, em São Petersburgo, a polícia chamou uma ambulância e o artista foi sujeito a exames psiquiátricos, que o diagnosticaram saudável. Em 2013, no Dia da Polícia no seu país, Pavlensky pregou os testículos à calçada em frente ao Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, em Moscovo. “Um artista nu, a olhar para os seus testículos cravados na calçada, é uma metáfora da apatia, indiferença política, e do fatalismo da sociedade Russa”, afirmou o artista à imprensa. Em 2014 cortou uma parte do lóbulo da orelha, como protesto ao que considera ser o regresso dos métodos soviéticos à Rússia actual. No mesmo ano, vandalizou a ponte Malo-Konyushennyi, no centro de São Petersburgo, em homenagem aos protestos contra o Maidan, um movimento socio-político de apelo à aproximação da Ucrânia com a Europa ocidental.

Pyotr PavlenskyFixation, 2013.

Por mais controversos que sejam os métodos de Pavslensky, a sua linha de pensamento consegue demover muitos dos que consigo contactam, como Pavel Yasman, um dos investigadores responsáveis pela acusação do artista no caso de vandalização da ponte, que acabou por abandonar o caso e por se voluntariar como advogado do activista Russo. O extremismo nas suas performances permite que as mensagens não passem de uma forma simplista. O conteúdo é transmitido, mas a severidade e importância de cada tema é igualmente manifestada.

Hoje em dia podemos dizer claramente que as estruturas de poder convertem as pessoas, de forma sistemática, em borregos que oferecem uma obediência quase animal. Infelizmente, a grande maioria confirma esta teoria e obedece, seguindo o instinto animal do medo”, lamenta Pavslensky. Em declaração à imprensa, o artista ressalva ainda a importância da internet enquanto veículo de transporte de uma outra perspectiva da realidade política e espera que a fluidez de informação seja suficiente para fazer chegar a sua mensagem à sociedade.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Feliz Natal!

1 de Dezembro! Festeja-se a Restauração da Independência. O povo português, autónomo, deixa-se envolver pela sua própria atmosfera natalícia. Há luzes na rua, pinheiros enfeitados, presépios compostos e Pais Natais fotogénicos. O aroma do lume da lareira confunde-se com o odor do consumismo. Oferecer uma recordação fica sempre bem: a provável inutilidade do objecto oferecido é desculpada pela afecção do gesto. Ficam a faltar o bolo rei, as filhoses, os sonhos e as rabanadas que, juntamente com o arroz doce, tapam o buraco no dente que o bacalhau e o peru deixaram passar. As lojas estão cheias um mês, a mesa uma semana, a casa dois dias. É nesses dois dias que esquecemos a correria quotidiana e vivemos como se aquele conforto familiar fosse tudo o que temos. E à nossa volta, o que se passa?

Joyeux Noel! Em França, há quem aproveite o dia 25 para fazer a chamada reconciliação de Natal, que consiste em ir até à casa de alguém com quem se está chateado para fazer as pazes. Podemos dizer, portanto, que o manjar natalício dos Franceses inclui o orgulho.

Vrolijk Kerstfeest! Na Holanda, os presentes são entregues no dia de São Nicolau, 5 de Dezembro. Neste mesmo dia, ocorre a festa de Zwarte Piet (“Pedro Preto”), que seria o ajudante negro do Pai Natal. Para celebrar a data, algumas pessoas saem à rua com a cara pintada de preto, lábios vermelhos e peruca black power, o que é por vezes considerado racista. No dia 25 festeja-se o nascimento de Jesus e acendem-se velas na árvore de Natal.

Fröhliche Weihnachten! Na Aústria, nem tudo se resume em amor, família e presentes. No dia 5 de dezembro, os Austríacos celebram a existência do Krampus, uma espécie de demónio que puniria as crianças más. Na data, as pessoas saem às ruas mascaradas de diabo.

Merry Christmas! Em Inglaterra, o peru também tem a honra de liderar enquanto prato principal. Como sobremesa, contudo, é o Christmas Puddin que se destaca. Trata-se de um bolo composto por 16 ingredientes, entre frutas cristalizadas e cerveja preta, que é feito meses ou até um ano antes de ser consumido. Tradicionalmente, os ingredientes são misturados por todos os membros da família, como símbolo da sua união. Antigamente colocava-se uma moeda de ferro no bolo e cada membro da família pedia um desejo. Aquele que encontrasse a moeda, tinha o seu desejo concretizado. A tradição mantém-se, mas é usada uma moeda de chocolate.

Nos Estados Unidos, o conforto da lareira é também particularmente apreciado nesta época. A pensar naqueles que não têm lareira em casa, uma estação de televisão passou a transmitir o lume de uma lareira durante 24 horas. A tradição já dura há mais de 40 anos, o que nos pode levar a questionar se há realmente quem veja utilidade no canal. De uma coisa tenho a certeza, não há lareira, verdadeira ou virtual, que aconchegue a tristeza que sinto no momento em que me consciencializo que o meu aniversário nunca será festejado de forma tão diversificada como o de Jesus.

*Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

Remember Remember the Fifth of November!

No passado dia 5 de novembro ocorreu mais uma marcha mundial do grupo activista Anonymous. Milhares de manifestantes, em cerca de 150 cidades à volta do mundo, saíram à rua, usando as já famosas máscaras que se tornaram um símbolo.

A marcha foi convocada, pelo quarto ano consecutivo, com o objectivo de incitar uma “revolução de consciências”, uma luta contra a corrupção, contra a guerra, contra o elitismo e contra qualquer outra forma de injustiça ou tentativa de restrição dos meios de comunicação. Embora a convocatória do protesto apele à não-violência, o dia não passou sem alguns confrontos, que incluíram um carro da polícia a arder em Londres, de acordo com jornal Inglês The Telegraph.

Anonymous é uma comunidade descentralizada e de carácter anárquico formada em 2003, que actua de forma coordenada e anónima contra o excesso de poder e as injustiças perpetradas por governos, corporações e outras instituições. Esta organização diz-se “hacktivista” dado que recorre ao uso da internet como meio de divulgação global e como arma em ataques informáticos. Estes últimos incluem a operação Payback is a Bitch, que em 2010 derrubou o site principal de empresas como a Paypal, a Visa e a Mastercard, causandodanos da ordem dos milhões de dólares.

A máscara que rapidamente se tornou símbolo do grupo e que marcou presença em manifestações do Occupy Movement e da Primavera Árabe foi celebrizada pelo romance V for Vendetta e pela adaptação cinematográfica homónima. A sua origem reside num retrato exagerado da personagem histórica Inglesa do século XVI, Guy Fawkes. Este último tornou-se famoso por ter participado, a 5 de Novembro de 1605, num plano falhado de fazer explodir o parlamento Inglês, recorrendo a dezenas de barris de pólvora. Mas o legado de Guy Fawkes não se resume à célebre máscara. Todos os anos no Reino Unido se celebra o seu golpe terrorista falhado com espectáculos de fogo-de-artifício e ainda hoje se ensinam às crianças britânicas os seguintes versos:

 

“Remember, remember the Fifth of November,
The Gunpowder Treason and Plot,
I know of no reason
Why the Gunpowder Treason
Should ever be forgot.”

Nova abordagem sobre a Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT)

Existem vários debates a serem travados no âmbito da saúde mental, quer seja em termos de tratamentos, quer seja no enquadramento do paciente na sociedade e no perigo (ou não) que poderão representar para a mesma.

Um aspecto crítico para se atingir um consenso, relativamente a estas questões, é perceber em termos fisiológicos tais doenças

A PSPT ocorre após a exposição do indivíduo a uma experiência traumática que gere uma resposta emocional de medo intenso, sentimento de impotência ou horror. Esta trata-se meramente da definição actual. No século 19, por exemplo, os indivíduos que sobreviviam a acidentes de comboio eram diagnosticados com “espinha ferroviária”, pois acreditava-se que a histeria que experienciavam devia-se a uma compressão da coluna vertebral. Durante a primeira guerra mundial, era conhecida como neurose de guerra, coração de soldado ou fadiga de batalha. Só a partir da guerra de Vietname é que esta perturbação começou a ser observada, tendo-lhe sido atribuído o nome Perturbação de Stress Pós-Traumático em 1980.

Muito tem mudado na forma como esta doença é percebida e tratada, embora continue a ser a guerra o grande potenciador da mesma.  Actualmente, na Turquia, 1 em cada 3 refugiados Sírios sofrem de PSPT, sendo também muito prevalente em bairros pobres e violentos, como é o caso de uma cidade em Atlanta, na qual as taxas de incidência de PSPT ultrapassam as dos veteranos.

Quem sofre de PSPT possui um risco maior de desenvolvimento de outros problemas de saúde, tais como diabetes, depressão ou algum tipo de toxicodependência. No contexto geral, é muito mais provável que não possuam trabalho ou que possuam problemas relacionais.

Existe um aspecto crucial que diferencia a PSPT de outras doenças mentais, que é o facto de poder ser modelada em outros mamíferos, uma vez que estes sentem e mostram medo da mesma forma que os humanos. A amígdala, que é a região do cérebro encarregada por orquestrar o medo, lê os sinais de entrada, tais como cheiros e sons, e envia mensagens para outras regiões, que filtram os sinais antes de reagir. Num indivíduo com PSPT, os filtros lutam para distinguir entre as ameaças reais e aquelas que podem ser ignoradas.

Um desenvolvimento recente é a descoberta de marcadores que mostram as diferenças entre os cérebros, genes e até mesmo sangue de pessoas com e sem PSPT. Quando um indivíduo com PSPT vê uma imagem de um rosto assustado, a amígdala mostra uma resposta intensificada e o córtex pré-frontal, que regula o medo, é suprimido. Uma equipa da Harvard Medical School encontra-se a desenvolver um teste sanguíneo para a detecção desta doença.

O tratamento actual consiste em reensinar ao cérebro a resposta ao medo. Existe terapia cognitiva, na qual se ensina aos pacientes a pensar de forma diferente sobre o que aconteceu, terapia de exposição, em que são confrontados com estímulos temidos ou mesmo simulações com realidade virtual, para tornar a terapia de exposição mais eficaz.

Uma equipa da Universidade de Stanford, liderada por Amit Etkin, está a estudar de que forma é que os circuitos cerebrais que controlam o medo podem ser ajustados com o auxílio de ISRS (uma classe de drogas usadas, por exemplo, no tratamento de depressão e ansiedade), ou  com os efeitos da estimulação magnética transcraniana.

Embora o desenvolvimento de novos tratamentos possa ser mais longo que o esperado, o reconhecimento da natureza física da PSPT poderia encorajar os doentes a procurar ajuda mais cedo e a abolir o estigma inerente às doenças mentais.

*Este artigo não segue o novo acordo ortográfico

Artigos relacionados interessantes (em Inglês):

http://www.huffingtonpost.com/entry/refugee-crisis-mental-health_55f9b694e4b00310edf55c73

http://commons.marymount.edu/disabilities/2014/12/09/ptsd-in-syrian-refugee-children/

fontes:

http://medvr.ict.usc.edu/

http://ict.usc.edu/prototypes/pts/

http://www.economist.com/news/international/21676772-mental-illness-caused-trauma-may-be-one-first-be-understood-physical

http://www.economist.com/news/international/21677396-physiology-person-ptsd-differs-someone-without-understanding-how-disorder-works

Tradição – Um legado que reflete o contexto sociopolítico

‘Quem canta, seus males espanta’. O adágio é secular e a actividade a que concerne remonta aos primórdios da humanidade. O bucolismo do campo, mas sobretudo os homens e as mulheres que dele vivem, criaram as mais belas melodias que, hoje, residem na nossa memória colectiva e que são parte integrante da nossa identidade enquanto povo .

O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.
O cantar das adufeiras é muito comum na região das Beiras e é, normalmente, acompanhado pelo adufe, um instrumento de percussão, feito a partir de uma quadra de madeira e pele de animal esticada.

No início dos anos 60, Michel Giacometti, etnólogo e musicólogo corso radicado em Portugal, encetou uma demanda que só terminou mais de 20 anos depois. Nesta, empenhou-se a recolher, in loco, o legado fonográfico das gentes de Norte a Sul do país, recolhendo músicas, canções e histórias em aldeias, vilas, procissões, etc. Com efeito, ainda hoje se trata da recolha mais exaustiva feita em terras lusas, constituindo parte importante do cancioneiro popular. Esta recolha, embora exaustiva e imparcial, coincidiu, temporalmente, com o advento da democracia e com os ventos revolucionários que dominaram a cena política e social do nosso país durante vários anos. Como tal, foram sobretudo os cantares de intervenção e de crítica das condições de trabalho que se tornaram mais conhecidos e amplamente divulgados, sendo os restantes menosprezados e até marginalizados.

Antes disso, o conhecimento que havia desses cantares devia-se sobretudo à actividade promovida pelo Estado Novo, muito preocupado em não deixar morrer o espírito patriótico e em exaltar a identidade nacional. Nesse sentido, foram várias as iniciativas levadas a cabo pelo Secretariado Nacional da Informação, impulsionado por António Ferro – figura central nas políticas culturais do regime, membro do saudoso Grupo d’Orpheu e que tinha o condão de reunir à sua volta os maiores intelectuais do país. Nessas exibições, o principal era mostrar um estilo de vida simples e despretensioso das pessoas do campo que, embora trabalhadoras e com pouco, viviam felizes e alegres. Isto significou que só os cantares de trabalho eram divulgados e valorizados, levando a que muitos cantares de natureza vária não se tornassem nem conhecidos nem reconhecidos.

Por não se encontrarem dentro deste espectro social e político, no que às letras diz respeito, existem muitos cantares que, embora parte do nosso cancioneiro, ficaram de fora deste conjunto de canções que se tornaram conhecidas graças à divulgação feita nestes dois períodos. É disto exemplo a canção ‘Lá cima Ó castelo’, cuja letra, se encontra abaixo transcrita:

 

Lá cima ó Castelo

Há de tudo à venda

Diga-me ó menina

Se a nágua tem renda

 

Se a nágua tem renda

Mas deixai a ter

O que você queria

Era a nágua ver

 

Já não há não há

Já não pode haveri

Vinho na caneca

P’ra genti bueri

 

P’ra genti bueri

Pr’a genti pagari

Já não há não há

Quem mande deitari

 

Lá cima ó Castelo

Si vendem palitos

Diga-me ó menina

Se a nágua tem bicos

 

Se a nágua tem bicos…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem laranjas

Diga-me ó menina

Se a nágua tem franjas

 

Se a nágua tem franjas…

 

Lá Cima ao Castelo

Se vendem limões

Mocinhas bonitas

Não são p’ra ganhões

 

Já não há não há…

 

Esta canção, oriunda da Beira-Baixa, tem, curiosamente, muitas linhas rítmicas inspiradas no canto sefardita (nome dado aos judeus que viviam na Península Ibérica, nomeadamente, na região das beiras). Vale a pena ouvir, por causa disto, a música na versão que se encontra no álbum “Sefarad en Diáspora”(link: https://youtu.be/NAoswjSodgk ), sendo aliás uma das poucas versões que se encontram disponíveis para audição online. Importa, também, dar um olhar atento ao conteúdo da letra.

De facto, ao longo da letra é notória a referência a um ambiente de festa em que há mulheres, vinho e ‘náguas’ que, para quem não sabe, é uma espécie de saiote que as mulheres vestiam debaixo das saias. Há, inclusivamente, uma clara alusão à vontade dos homens verem a nágua das senhoras (“O que você queria/ Era a nágua ver”), o que, à época, podia ser considerado algo ousado e, em alguns sítios, até obsceno.

Sendo esta uma canção cantada por vozes femininas ao ritmo dos adufes, é curioso também, verificar a vontade de quem canta em pagar o seu próprio vinho (Vinho na caneca/ (…)/P’ra genti bueri/P’ra genti pagari). Ainda que possamos estar a entrar no campo da especulação, não será possível que estejamos perante uma espécie de vontade de emancipação destas mulheres? Mulheres estas que, convictamente, ficavam a noite toda em plena alegria e cavaqueira, mostrando, desta forma, a sua rebeldia e genuína vontade de viver (Já não há não há/Quem mande deitari). Relativamente à última estrofe, surge um termo pouco frequente na língua portuguesa, ‘ganhões’. Na realidade, os ganhões eram os homens, geralmente jovens e fortes, que não tinham tido a sorte de aprender qualquer ofício, e faziam todo o tipo de trabalhos não especializados, à medida que estes iam aparecendo, consoante a altura do ano.

Talvez por isto e pelo tom de luxúria que parece transparecer à medida que vamos ouvindo o refrão, esta música tenha ficado de fora do âmbito dos dois períodos de divulgação descritos no início do texto. No entanto, não é por isso que estas músicas devem continuar no esquecimento, ou privilégio das localidades mais remotas do interior do nosso país. Porque são estas e outras memórias que fazem a nossa cultura, que é, na verdade, o reflexo dos muitos povos que por cá passaram e do quotidiano de muitos homens e mulheres que, ao longo de séculos, aqui viveram.