Um problema real que se observa em muitas universidades pelo país fora e com o qual todos nós, se formos atentos, vamos deparar-nos mais cedo ou mais tarde: em alguns departamentos, docentes e investigadoras mulheres são uma raridade.

Autoria: Rafaela Palácio, MEMec (IST)

À exceção das “tradicionais áreas reservadas” às mulheres, a carreira de investigação e docência no ensino superior pode não ser a mais convidativa nem a mais acessível. 

Primeiro que tudo, observemos alguns dados da nossa instituição dos inscritos em todos os anos à data do ano letivo 2018/2019. Nesse ano, o curso de Mestrado Integrado (MI) em Engenharia Civil contava apenas com 27% de mulheres[1], MI em Engenharia Física e Tecnológica com 23%[2], MI em Engenharia Aeroespacial com 20%[3], Licenciatura em Engenharia Naval e Oceânica com 19%[4], MI em Engenharia Mecânica[5] e Licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores[6] com 17% e MI em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores com 15%[7], apenas para enumerar alguns dos cursos existentes no Instituto Superior Técnico.

Logo aqui, à entrada da universidade, as chances de uma mulher vir a ser docente de um dos departamentos a que pertencem os cursos acima mencionados são muito menores do que as de um homem, de forma lógica por serem em menor número face ao número de homens que iniciam a sua formação nas mesmas áreas.

Aparentemente, o problema começa com as baixas percentagens de admissão de mulheres nestes cursos. No entanto, estes números são apenas indicadores de algo muito mais profundo e enraizado também na nossa cultura: a falta de interesse da população feminina por estas áreas. Este é um assunto sobre o qual reflito há já uns tempos, e penso que não se trata definitivamente de um fator biológico, mas sim do meio cultural em que estamos inseridos na infância, e de outros fatores a que estamos expostos durante o nosso desenvolvimento, estendendo-se até à influência que têm os brinquedos da nossa infância.  Este tema é precisamente o foco de um outro artigo “Como os teus brinquedos te moldaram”, cuja autora é Ana Rita Fontes, presente nesta edição do Diferencial[8]

Desviando a nossa atenção da infância e desenvolvimento, à entrada da universidade temos então aquelas míseras percentagens de mulheres a entrarem nos cursos acima descritos e, terminando o curso, podemos progredir então para a carreira na ciência, a investigação. Podemos dividir o raciocínio em duas partes: primeiro, porque não ingressam na carreira científica e segundo, porque desistem ou produzem pouco na carreira académica. Trata-se, portanto, não só de barreiras à entrada, mas também à manutenção da carreira académica. A primeira parte deve-se principalmente ao baixo número de mulheres que progridem na educação nessas áreas para poderem aceder à carreira científica nessas mesmas áreas. A segunda parte, a meu ver, está sujeita a razões muito mais complexas, a uma conjugação de fatores que analisados separadamente podem não parecer razão suficiente para a desistência ou não ingresso na carreira de investigação, mas que combinados têm realmente muito peso na decisão do abandono desta carreira. 

Depois de alguma pesquisa e reflexão, consegui identificar três fatores que podem ter um elevado peso na decisão de não progressão da carreira científica. O primeiro é a má remuneração. Podemos argumentar que tanto afeta homens como mulheres, e é verdade, mas lembremo-nos do acumular de diversos fatores. De uma forma geral, a investigação feita em Portugal é mal paga, e, para além de mal paga, é instável. Dois exemplos concretos são os testemunhos apresentados a seguir.

Inês Trindade, 30 anos, doutorada em psicologia clínica há três e nunca conseguiu um contrato permanente. No seu próprio artigo no Jornal Público expõe a sua situação: “nunca tive mais do que quatro anos assegurados. Aconteceu pelo menos uma vez ter apenas três meses de salário assegurados. Trabalhei sem remuneração durante um ano e meio, antes de conseguir a primeira bolsa e, neste momento, estou desempregada, sem apoio salarial, enquanto mantenho funções de coordenação de projetos de I&D e escrevo artigos que contarão para o posicionamento da minha universidade em rankings internacionais.”[9] 

João Silva, 45 anos, doutorado e investigador na área dos incêndios florestais há já quase 25 anos, é um dos que reconhece a dificuldade e a instabilidade da carreira de investigação. No entanto, numa entrevista à Rádio Renascença em 2017 percebeu-se a sua desilusão com esta carreira quando ao fim de 20 anos de experiência continuava a concorrer a bolsas, sem estar vinculado a uma instituição.[10]

Uma das consequências da má remuneração é o baixo desempenho, e a área científica não é exceção. Prova disso é o relatório “A evolução da ciência em Portugal (1987-2016)”[11]. De uma forma geral, Portugal apresenta um dos menores rácios de recursos humanos por mil ativos e um financiamento para a investigação excessivamente dependente do Estado, sendo o mais famoso caso desta dependência as bolsas concedidas pela FCT. Mas o baixo desempenho não é a única consequência da má remuneração nas carreiras científicas, a incerteza da atribuição das bolsas condiciona outras áreas da vida de uma investigadora, nomeadamente a constituição de uma família. E quando falo em constituição de família, não me refiro apenas à gestação, mas sim a todo o tempo e dinheiro que é necessário investir para o crescimento e formação dos filhos. A isto ainda acresce algo que, infelizmente, ainda ocorre em muitos contextos familiares, que é a atribuição da totalidade ou de grande parte das tarefas domésticas à mulher. É um trabalho depois do trabalho. Assim, a má remuneração, o trabalho exigente e a vontade de constituir família podem forçar a mulher a abandonar esta carreira.

E com a pandemia, o que mudou (se é que algo mudou)? 

Bem, de vários artigos podemos concluir que sim, algo mudou com a pandemia, mas não para melhor. O confinamento apenas acentuou as desigualdades de género também presentes na carreira científica, tendo o problema raiz no papel tradicional da mulher, de realizar as tarefas da casa, quando, hoje em dia, as mulheres já têm um outro emprego, resultando a sua combinação numa sobrecarga imensa para a mulher. Podemos observar este fenómeno, primeiro descrito na Nature[12] referente a março e abril de 2020, portanto, nos primeiros dois meses do confinamento quase que global, no entanto, era bastante recente ainda na altura para podermos dizer com segurança que o confinamento contribui para o abrandamento de artigos científicos por parte de mulheres. Com o estudo submetido na revista Science[13], qualquer dúvida que restasse extinguiu-se. Uma redução de 33% nas publicações científicas no grupo de investigadoras mães, face aos seus colegas investigadores ou investigadoras sem filhos não é pouco, não é simbólico, é um decréscimo estrondoso. Partindo daqui, a primeira questão que me ocorre é: e os investigadores que têm filhos? Este estudo é apenas mais uma evidência de que a mulher é a encarregada das tarefas domésticas e de cuidar dos filhos e da sua carreira académica e claramente percebemos que é impossível fazer os dois em simultâneo e bem.

Na minha opinião, o futuro passa por captar mais jovens mulheres para as áreas das ciências e tecnologias e dar-lhes ferramentas para que possam chegar e manter a sua carreira académica, passando por melhor remuneração e, sempre que possível, uma melhor dinâmica de divisão de tarefas em casa. Podemos estar melhor do que há 50 anos atrás, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Referências

[1] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9360&pg=1#.YD4mtWj7RPY

[2] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9458&pg=1#.YD4nRGj7RPY

[3] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9357&pg=1#.YD4mUmj7RPY~

[4] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=L162&pg=1#.YD4n-Gj7RPY

[5] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9369&pg=1#.YD4lC2j7RPY

[6] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9121&pg=1#.YD4ntmj7RPY

[7] http://infocursos.mec.pt/dges.asp?code=1518&codc=9367&pg=1#.YD4m9Gj7RPY

[8] Como os teus Brinquedos te Moldaram – Diferencial

[9] Balada de despedida: a insustentabilidade das carreiras científicas em Portugal

[10] Ciência precária. João é profissional das bolsas há duas décadas

[11] Portugal continua “aquém” do desempenho científico de outros países europeus

[12] Are women publishing less during the pandemic? Here’s what the data say

[13] Pandemic hit academic mothers especially hard, new data confirm

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