Parece haver um entendimento cada vez mais claro da importância da neutralidade de género na construção de uma sociedade saudável e bem estruturada. Mas, infelizmente,  ainda há alguns estereótipos que predominam. Um exemplo disso é o facto de a maioria dos brinquedos ainda serem vistos como algo binário, ora associados às meninas ou apenas aos meninos. Isto é preocupante, uma vez que são estes estímulos na infância que acabam não só por nos moldar como também influenciar as escolhas que faremos. Neste mês, em que se assinala o dia da mulher, é altura certa para analisar como esta situação nos afeta em particular. 

Autoria: Rita Fontes, MEBiom (IST)

Tipicamente, quando vamos a um supermercado, temos duas grandes zonas na secção de brinquedos: a zona cor-de-rosa cheia de nenucos e barbies e a zona mais escura com carrinhos e pistolas de brincar.

Podíamos estar a lidar com a herança de uma sociedade que vem do passado com uma mente estratificada face ao papel da mulher e do homem. O que é interessante é verificar que há 50 anos os brinquedos não estavam tão divididos por género como estão atualmente.

De 1920 a 1960, de facto, existiam diferenças acentuadas: brinquedos “para meninas” focavam-se na maternidade e nas lides domésticas, enquanto que os brinquedos “para meninos” viravam-se para uma vertente mais industrial, supondo que todos iriam querer ser engenheiros no futuro. Contudo, por volta da década de 70, o panorama mudou: ao analisar um catálogo de brinquedos de uma das mais famosas cadeias de lojas americanas, menos de 2% dos brinquedos estavam especificamente etiquetados como sendo de rapaz ou rapariga. Isto é possivelmente explicado pelo avanço dos movimentos feministas, por uma maior presença da mulher no mercado de trabalho e pela diminuição das taxas de natalidade após a época do Baby Boom. A mulher não estava necessariamente destinada a ser mãe e a cuidar da casa. [1][2]

Porque é que, apesar de continuarmos a evoluir em termos de igualdade de género desde essa altura, houve uma reversão deste ponto em específico? Por questões económicas,o clássico. As empresas começaram a perceber que se houvesse uma total divisão de brinquedos e cores para meninas e para meninos, famílias com filhas e filhos acabariam por comprar dois de tudo. A irmã que estava para nascer não iria apenas herdar o carrinho e as roupas do irmão, merecia ser presenteada com bonecas e vestidos cor-de-rosa. Para esta situação contribuíram avanços na imagiologia médica nos anos 80, que permitiu aos pais saberem o sexo do bebé antes deste nascer e fazer todo esse planeamento cromatográfico, isto sem esquecer o crescimento do marketing  televisivo. Um menino dos anos 80 talvez até nem se importasse de brincar às cozinhas, mas o anúncio que passava ao pequeno almoço dizia-lhe que ele devia era estar a fazer construções e já se sabe que as crianças são influenciáveis [1][2].

Percebendo como o capitalismo controla a nossa vida, é  altura de analisar o impacto que esta binaridade tem numa fase tão precoce do desenvolvimento, sobretudo nas mulheres.

Parece haver alguma evidência de como os brinquedos com que as meninas mais brincam acabam por afetar as suas escolhas de carreira. Um estudo de 2015 revelou que, no geral, os brinquedos mais associados aos rapazes são  grandes impulsionadores do desenvolvimento da inteligência espacial (legos, puzzles, etc..). Esta inteligência está associada ao processamento do que se vê para perceber a relação espacial entre objetos e para visualizar cenários ou imagens. É importante para o pensamento abstrato, para visualizar informação verbal e para perceber como detalhes se ligam a ideias maiores.

Isto poderá ser uma das razões que explica porque é que não há tanta representatividade feminina na ciência e na tecnologia, uma vez que a inteligência espacial é essencial para um “pensamento de nível superior” necessário, por exemplo, para a matemática. Interessante é também reparar que, apesar da Lego ter uma linha para raparigas, a mesma é mais virada para o playacting e não tanto para a construção, o que já não está associado a esse tipo de desenvolvimento cerebral [2].

A verdade é mesmo essa: ao passo que os brinquedos associados a rapazes envolvem ação e construção, dando a ideia que têm de fazer coisas e resolver problemas, os brinquedos direcionados às raparigas estão, no geral, ligados à estética e à ideia de cuidar. Parece então altura de falar sobre um tema delicado: como aquilo com que brincamos pode estar na base de muitos problemas de autoestima.

As Barbies são o exemplo mais fácil. São colecionadas por milhões de raparigas por todo o mundo que, provavelmente, não reparam que a boneca com que estão a brincar, caso fosse real, não teria as proporções necessárias para se aguentar em pé nem seria saudável o suficiente para menstruar. Um estudo australiano com 160 meninas dos 5 aos 8 anos revelou que aquelas que brincavam com Barbies acabam por ver o tipo de corpo desta última como o ideal [3]. Estas meninas estão mais predispostas a crescer com a ideia de que têm de ser magras para serem bonitas e, tendo em conta que a Barbie é um dos brinquedos mais populares em todo o mundo, esta poderá ser uma fração da explicação para existirem tantos distúrbios alimentares. 

Eu própria gostava de brincar com Barbies quando era pequena, mas acredito que se tivesse passado pela cabeça dos meus pais, que podiam ser prejudiciais para mim, certamente teriam optado por me dar outros brinquedos. É por isso que é essencial termos cada vez mais noção de como as mentes das crianças podem ser moldadas com estes estímulos e de como é importante fazer as escolhas certas. A própria Mattel, empresa detentora da Barbie, já começou a fazer versões mais realistas destas bonecas. [4]

Mas então, com  o que é que as crianças dos diferentes géneros gostam, efetivamente, de brincar? Aqui a literatura varia um bocado: há estudos que dizem que as crianças são naturalmente atraídas para o brinquedo característico do seu sexo; há estudos que dizem que isto só acontece a partir de uma certa idade (em que talvez já houve tempo para absorver preconceitos); há estudos até com primatas que revelam que os machos são mais atraídos para brinquedos de rapaz, mas as raparigas são mais neutras. Portanto, daqui não se podem tirar muitas conclusões, mas talvez cada criança seja uma criança. Da minha experiência, posso dizer que gostava tanto de nenucos como de pistas de carros e comboios, pelo que me pergunto, afinal quantas crianças no mundo não estarão apenas restringidas pelo que os adultos lhes impõem? [5][6][7]

Lembro-me de uma vez, quando era mais nova, em que uma das minhas professoras contou que a sogra tinha oferecido uma cozinha de brincar à sua filha e ela acabou por esconder aquilo porque não queria que a miúda crescesse a achar que o seu papel era na cozinha. Embora pense que a intenção dela era boa, eu acho que, ao fazermos esta reversão, perpetuamos os estereótipos à mesma. A solução não deve passar por não dar à filha o brinquedo, ela podia até perceber que o que queria mesmo era ser uma chef de sucesso no futuro. Deve passar, sim, por dar-lhe todo um conjunto de brinquedos (sem exageros, não criem mimados), não fazendo discriminação de género, deixando a criança por si perceber o que lhe desperta mais interesse.

Essa variedade também vai permitir, à partida, o desenvolvimento das crianças em todo o seu potencial. Para além de se dever promover junto das raparigas atividades que desenvolvam a inteligência espacial, que já foi falada, também junto dos rapazes se deveria incentivar mais a brincadeira com bonecas e cozinhas, por exemplo, uma vez que estas despertam a imaginação, a inteligência emocional, capacidades comunicativas e simulação de situações da vida real [8].

Por fim, é de salientar que já existe uma organização que visa combater estes estereótipos. A Let Toys be Toys tem como iniciativa apelar às indústrias de brinquedos e publicidade que parem de limitar os interesses das crianças ao promover alguns brinquedos e livros como sendo apenas adequados para rapazes ou raparigas. Talvez este seja um passo importante para a neutralização de género que ambicionamos.

Referências

[1] Elizabeth Sweet, Toys Are More Divided by Gender Now Than They Were 50 Years Ago 

[2] Natasha Daly, How Today’s Toys May Be Harming Your Daughter

[3] Jady Troy-Pride, Why playing with Barbies could be dangerous for your daughter

[4] Mirror Mirror, Barbie And Body Image

[5] Gwen Dewar, Girl toys, boy toys, and parenting

[6] Susie Boone, Do boys and girls naturally prefer different toys?

[7] Davis, J.T.M., Hines, M. How Large Are Gender Differences in Toy Preferences? A Systematic Review and Meta-Analysis of Toy Preference Research. Arch Sex Behav 49, 373–394 (2020).

[8] Kevin Zoromsky, Playing with a variety of toys leads to appropriate growth for girls and boys

Comentários

[…] Aparentemente, o problema começa com as baixas percentagens de admissão de mulheres nestes cursos. No entanto, estes números são apenas indicadores de algo muito mais profundo e enraizado também na nossa cultura: a falta de interesse da população feminina por estas áreas. Este é um assunto sobre o qual reflito há já uns tempos, e penso que não se trata definitivamente de um fator biológico, mas sim do meio cultural em que estamos inseridos na infância, e de outros fatores a que estamos expostos durante o nosso desenvolvimento, estendendo-se até à influência que têm os brinquedos da nossa infância.  Este tema é precisamente o foco de um outro artigo “Como os teus brinquedos te moldaram”, cuja autora é Ana Rita Fontes, presente nesta edição do Diferencial[8].  […]

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