Autoria: Inês Vilhena, MEIC, IST


A minha participação no ativismo climático começou este Agosto, quando me foi dado um panfleto da Extinction Rebellion (XR) a anunciar uma sessão de esclarecimento sobre o clima. Fiquei chocada com o que descobri e senti que algo tinha de ser feito, pelo que decidi ir à formação de desobediência civil que aconteceu dias depois. Foi aí que, realmente, entrei no ativismo, pois a formação era direcionada à rebelião de dia 27 de Setembro. Lá ensinaram, entre outras coisas, a lidar com a polícia de maneira não violenta (ex. fazer “corpo morto”, não nos mexermos, não provocar nem responder a provocações). Gostei muito desta abordagem, pacífica e sem agressividade mas mesmo assim assertiva e que chama a atenção.

No dia da rebelião levava uma mochila preparada para ficar lá acampada, com muita comida, um cobertor, um saco cama e algum entusiasmo misturado com nervosismo. Quando cheguei lá reparei que algumas coisas não correram como o planeado, por isso a primeira parte foi de alguma confusão, mas mesmo com algum stress diverti-me! Havia um enorme espírito de união enquanto cantávamos (“System change, not climate change!”), dançávamos aos ritmos dos tambores e tranquilizávamo-nos mutuamente (nunca dei tantos abraços como quando entrei para a XR). 

Para mim esta parte foi a mais assustadora da ação; senti-me muito incompreendida, uma terrorista, uma ameaça, em vez de ser uma pessoa comum que apenas queria salvar o planeta a todos.

O que para mim foi o pior momento foi o último, perto da hora do telejornal. Estava a segurar uma faixa quando disseram “cuidado, sentem-se” e uma amiga disse “vem aí a SWAT”. Não entendi muito bem, mas sentei-me, segurei os joelhos (é uma posição ensinada que confere mais estabilidade), e vi chegar a “SWAT”: era a polícia de intervenção. Chegaram mais de 20 polícias com capacetes, armadura, bastões, escudos, todos armados como se fossem para a guerra. Para mim esta parte foi a mais assustadora da ação; senti-me muito incompreendida, uma terrorista, uma ameaça, em vez de ser uma pessoa comum que apenas queria salvar o planeta a todos. Olhar para eles, sentada a abraçar os joelhos enquanto eles estavam todos de pé, fez-me sentir muito vulnerável. Com toda aquela polícia, por momentos esqueci-me da causa, esqueci-me do planeta, e só tive medo. Medo por mim e medo pelos meus amigos, que estavam tão nervosos como eu.

foto: Adja Marcela Barros / Mídia NINJA

A ação tinha trazido consciencialização para o assunto, o que foi uma vitória.

Dois polícias aproximaram-se de mim, um de cada lado, e pegaram-me debaixo dos braços para fora da formação. Um por um fomos tirados, uns tratados normalmente, outros tratados com mais violência (houve alguns empurrões e até murros dados pela polícia), e pouco a pouco fomo-nos juntando na parte de fora da estrada. Mesmo depois de nos terem removido a polícia queria-nos fora da área, e ameaçou carregar contra nós se não saíssemos. Novamente, sentei-me com medo, mas foi diferente, foi medo misturado com frustração, raiva até, por não nos deixarem sequer estar na rua. Mas decidimos ir embora: tínhamos aparecido em direto na televisão e os jornais e noticiários estavam a falar sobre o problema do clima. A ação tinha trazido consciencialização para o assunto, o que foi uma vitória.

Quando cheguei a casa chorei. Chorei de stress, de frustração, de medo, de tudo. Sempre soube que não ia ser fácil, que muita gente lida com as alterações climáticas como uma moda, algo opcional a que se pode prestar atenção desde que primeiro se garanta que há lucro. A sociedade está tão pouco informada sobre a importância do assunto que, quando tentamos chamar a atenção, alguns media chamam-nos de “vândalos” ou “fanáticos”. Isso pôs-me, e ainda põe triste, mas o problema da crise climática é maior que nós e a nossa reputação. Enquanto as leis não mudarem e o planeta não for protegido a luta continuará, e a minha maior força é saber que mais pessoas lutarão comigo.

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