“Women back then would basically go, ‘Well, if I don’t do programming, what else will I do?’” – Janet Abbate, professora associada na Virginia Tech e autora de Recoding Gender: Women’s Changing Participation in Computing

Autoria: Inês Xavier, MEBiom (IST)

Os laboratórios de processamento de imagem são comuns nos cursos de engenharia. A implementação de diversos algoritmos para desfocar, analisar a cor, textura e aplicar filtros, das mais distintas espécies, permite aperfeiçoar as técnicas já existentes, contribuindo para que os nossos aparelhos tecnológicos sejam cada vez mais eficazes. As imagens utilizadas para este tipo de testagem reúnem, normalmente, um conjunto de critérios desafiantes para algoritmos de reconstrução: detalhes finos, texturas, transições abruptas entre elementos e regiões uniformes são características recorrentes. Apesar de, neste momento, existirem milhares de imagens de teste à disposição, a custo zero, uma em especial, para além de cumprir os critérios acima descritos, destaca-se por ter sido o modelo base para o desenvolvimento do formato JPEG. Trata-se de Lena (ou Lenna), uma imagem da modelo sueca Lena Forsén, removida de um centerfold (imagem destacável e desdobrável normalmente colocada no centro de uma revista) da Playboy de 1972 por um grupo de investigadores da University of Southern California (USC). A imagem, ainda em uso – inclusive no IST -, torna-se então quase como que uma metáfora para o papel da mulher nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). Apesar do progresso neste campo, uma história de desigualdade de oportunidade e um conjunto de estereótipos ligados à conotação de certas áreas como mais “femininas” ou “masculinas” levam a que ainda exista uma disparidade entre mulheres e homens neste campo.

No próprio IST os números falam por si: o relatório “IST Factos e Números”, atualizado em janeiro de 2021 e realizado pelo Núcleo de Estatística e Prospetiva do IST, mostram que, no mundo dos 10 987 estudantes do instituto, 71% são do sexo masculino e 29% do sexo feminino. Na componente de docência e investigação a tendência acentua-se: nas estatísticas de 2019/2020, dos 888 docentes/investigadores, 74% são do sexo masculino e 26% do sexo feminino. 

É também intuitiva a conclusão tirada em relação a  quais os cursos com uma maior disparidade entre sexos. Aqueles vistos como marcadamente masculinos, como Engenharia Informática, Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e Engenharia Mecânica apresentam percentagens elevadíssimas de estudantes do sexo masculino  (83%, 85% e 83%, respetivamente, segundo o mais recente estudo, de 2018/2019) e, pelo contrário, cursos relacionados com as ciências da vida são marcadamente femininos, como Engenharia Química, Engenharia Biológica e Engenharia Biomédica (58%, 68% e 63%, respetivamente, segundo a mesma fonte).

Mas nem sempre foi assim. 

Recuemos até ao século XIX. Foi aqui que surgiu o conceito de “computador programável” nas mãos de Charles Babbage, um professor de Matemática de Cambridge, que, inspirado no tear mecânico, idealizou um “tear de números”, ou seja, aquilo  que hoje seria uma calculadora, capaz de realizar diversas operações aritméticas, baseando-se em resultados de operações anteriores. Babbage começou a desenvolver o seu projeto juntamente com a condessa Ada Lovelace, um prodígio da Matemática que, em anotações da sua própria autoria sobre o aparelho, escreveu o que mais tarde foi considerado como sendo o primeiro algoritmo. No entanto, a ideia visionária não chegou a ser completada e, durante décadas, não foram dados novos passos nesta direção.

O hiato computacional foi interrompido na década de 40, quando os computadores digitais se tornaram uma realidade. O primeiro, apelidado de ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), desenvolvido em 1943 em plena II Guerra Mundial, tinha como objetivo computar trajetórias balísticas. Na altura, escrever código era uma tarefa secundária quando comparada com a construção do hardware, sendo então essa tarefa delegada para mulheres que, nos padrões da época, já estariam habituadas a realizar cálculos no seu papel de secretárias. Assim, uma equipa de 80 mulheres, cuja função era calcular manualmente equações diferenciais, foi chamada  para programar o aparelho, acabando por tomar o nome de “computadoras”, denominação que, como sabemos, mais tarde passou das pessoas para o aparelho. O seu trabalho tem reflexos ainda hoje: conceitos como “breaking point”, compilador, novas linguagens de programação (Flowmatic e Cobol) e mesmo a otimização da Fortran foram produtos de mãos femininas. 

Após a guerra e com a explosão dos trabalhos ligados à área da computação, os estereótipos ligados à mulher funcionaram a seu favor, uma vez que os candidatos eram escolhidos com base na sua lógica e meticulosidade, características que alguns executivos associavam às mulheres, por estas realizarem atividades como tricotar, tecer e cozinhar (sendo que, em relação a esta última atividade, o livro de 1968 “Your Career in Computers” afirma que as pessoas que gostavam de “cozinhar a partir de um livro de cozinha” seriam boas programadoras). Em 1967, existiam tantas programadoras que a revista Cosmopolitan publicou um artigo sobre as denominadas “The Computer Girls” e os locais de trabalho apresentavam-se como tendo tantos homens como mulheres. 

Os números continuaram a subir e, em 1983, mostram que a percentagem de homens e mulheres interessados em ingressar numa carreira computacional era igual. Apesar da maior probabilidade de os homens efetivamente seguirem este percurso, a participação das mulheres era bastante significativa, constituindo cerca de 37.1% do total. Mas, a partir de 1984, esta percentagem sofreu uma diminuição. E foi decrescendo até atingir os 17.1% em 2010, menos de  metade quando comparada com os números de há apenas 26 anos.

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Mas como é que esta tendência se reverteu?

Uma das razões para esta queda vertiginosa encontra-se relacionada com a forma como as crianças passaram a aprender a programar. O aparecimento de computadores pessoais nos anos 70 e 80 permitiu que os estudantes tivessem, desde cedo, bases em programação, e tornaram-se uma mais valia para os interessados em ingressar em cursos nesta área. No entanto, a exposição a estes novos aparelhos não era igual para ambos os sexos: um computador era um presente dado mais frequentemente a um rapaz e, mesmo que fosse comprado com o intuito de servir a família por inteiro, era colocado com uma maior probabilidade no quarto de um rapaz; mesmo o próprio marketing falava por si, com anúncios específicos para o público masculino e mesmo com Hollywood a lançar uma panóplia de conteúdo que se focava no “gamer masculino, excluindo desde o início a possibilidade de um computador portátil ser utilizado por raparigas. Por fim, no que tocava a uma primeira exposição ao aparelho em si, era dada uma preferência por parte dos pais aos rapazes, tendo muitas vezes as raparigas que competir por esta atenção e sendo delegadas para trabalhos mais caseiros. A explosão nos anos 80 da cultura nerd/geek, consubstanciada com o aparecimento de videojogos, direcionados e globalizados como exclusivos do sexo masculino, vedou ainda mais a área a raparigas possivelmente interessadas em nelas ingressar. A consequência foi imediata: na entrada para a faculdade em cursos de ciência computacional, a ambientação prévia aos computadores pessoais e a exposição desde cedo dos rapazes à programação colocou-os numa posição privilegiada, permitindo-os acompanhar com mais facilidade os conceitos. As raparigas passaram a ser vistas como menos capacitadas e propensas a enveredar por uma via STEM. 

Assim, chega-se à tendência que permanece ainda hoje. A narrativa imposta pelo mundo do marketing aliada aos costumes sociais prevalentes tornou-se um facto. No entanto, a História diz-nos que não é a biologia, ou qualquer tendência natural, que limita as mulheres de trabalharem em áreas STEM, mas sim a forma como a sociedade construiu o papel de cada sexo neste campo de trabalho. E é claro que esta tendência não é exclusiva às STEM. Por exemplo, um pequeno teste realizado na Escola Básica de São João de Passos, com a cobertura do jornal PÚBLICO, mostra isto em pequena escala: os alunos, quando inquiridos acerca de que profissões se encontravam mais associadas a raparigas ou rapazes, rapidamente associaram profissões como “Cabeleireira” e “Educadora de Infância” a mulheres, e “Bombeiro” e “Polícia” a homens. 

Esta associação está fundamentada em vários fatores.. Recuando até à infância, facilmente se percebe que a comercialização de carros, helicópteros e outros brinquedos com uma vertente mais tecnológica e mecânica para rapazes, bem como bonecas, estojos de cabeleireiro e maquilhagem para raparigas, molda, desde cedo, a perspetiva do papel de género na vertente profissional – muito à semelhança do que ocorreu com as áreas STEM em meados dos anos 80.

Será que queremos que a área de trabalho mais promissora e mais voltada para o futuro esteja, tal como em séculos anteriores, maioritariamente em mãos masculinas? Felizmente, há um conjunto de passos que podemos começar a tomar de forma a realizar esta mudança: mudar a maneira como certos brinquedos são comercializados para as crianças; aumentar a representatividade das mulheres em áreas STEM em filmes e séries de televisão e dar conta dos nossos próprios estereótipos em relação a certas áreas de estudo (como o já tão batido “No Técnico são só mulheres com bigode” ou “Porque é que vais para Informática se és rapariga?”). As desigualdades são feitas de ações menores e maiores, e podem ser esbatidas através de atos igualmente grandes ou pequenos. Talvez remover uma imagem, como o caso da Lena, não mude  integralmente o complexo mundo das disparidades de género nas áreas STEM, mas poderá ajudar a que as mulheres se sintam mais confortáveis nesta área de trabalho. Seguindo o exemplo da revista Nature, que desde 2018 não aceita papers contendo a imagem da Lena, ou mesmo contribuindo para que esta não seja mais utilizada em universidades ou empresas. A Lena já se reformou e deu a sua larga contribuição para a tecnologia como a conhecemos hoje. Será que não é a nossa vez de deixá-la para trás e abrir caminho para um mundo mais igualitário? 

Referências

[1] Pplware, “Charles Babbage – O pioneiro dos computadores”

[2] Wikipedia, “Standard Test Image”

[3] Wikipedia, “Eniac”

[4] The New York Times Magazine, “The Secret History of Women in Coding”

[5] Steve Henn, “When Women Stopped Coding”

[6] Global Nerdy, “Frances Allen Wins the Turing Award”

[7] Allan Fisher & Jane Margolis, “Unlocking the Clubhouse:
The Carnegie Mellon Experience”

[8] Code Fellows, “1984: The Year Women Left Coding”

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