Nos dias que correm, em que urge a crença em autoridades científicas, uma série de movimentos “pela (dita) verdade” irrompem os grandes media, proclamando o desvendar de gafes em ideias consensuais e oferecendo teorias antagonicamente paralelas para problemas que nos são comuns. Em circunstância do Dia das Mentiras, parece-me ideal tocar neste tópico e, mais irrestritamente, nas nuances do negacionismo.

Autoria: Patrícia Marques, MEFT (IST)

Embora o termo se possa restringir à manipulação e distorção de factos históricos, referir-nos-emos ao negacionismo como tudo aquilo que rejeite conceitos incontestáveis e verdades básicas, ora por serem a realidade empírica ora pelo consenso científico de que auferem. Em comum, aqueles que se enquadram nesta definição têm o facto de, muito frequentemente, se assumirem como céticos ou pensadores livres e não negacionistas[1], procurarem penetrar profundamente em práticas alternativas[2], tenderem para polos ideológicos extremos[3] e assumirem pública e desavergonhadamente a desvalorização da ciência[4] – denominador menos comum, pois há registo de profissionais de saúde a questionar as recomendações relativas à prevenção de infeção do SARS-CoV-2[5]. A bom rigor, o exemplo poderia, infelizmente, ser alongado a tantos outros supostos especialistas das mais diversas áreas, abrangendo o direito, a educação e o jornalismo. 

Posto isto, acredito que, como a dúvida perante as imposições que nos são oferecidas é um fator presente tanto em ideias negacionistas como no pensamento cético – este, por sua vez, largamente defendido –, torna-se fortemente relevante trabalhar na construção duma clara distinção entre as duas correntes.

Numa era em que já se encontra obsoleta, não pela inadequação mas pelo desgaste do uso, a narrativa da manipulação das massas por meio das redes sociais e do controlo a que estamos sujeitos por parte de organizações com poderes infinitamente superiores (inclusive um deus supremo), todos nós estaremos certamente familiarizados com inúmeras teorias da conspiração: em suma, argumentos que sustentam qualquer tipo de crença em atos de manipulação obscura, intencional e precisamente mal intencionada. Deixo como encargo ao leitor a decisão de investigar, confiar ou aceitar as que desejar[6].

Considerando que nem sempre há segurança no que toca a um consenso quanto a qual das anteriores posições assumir, questionemo-nos quanto às possíveis situações em que nos encontramos perante o direito de sequer questionar se devemos ou não acreditar em algo. É legítimo não confiar na ciência? E duvidar dos relatos históricos? Algo em constante discussão nos ramos da epistemologia e da investigação filosófica, prende-se com o negacionismo que abordamos, mas não exatamente numa relação de identidade. Isto porque há que ter cuidado ao definir que atitudes e ideias são abrangidas pelo negacionismo, visto tal se assumir como um meio possivelmente iminente de suprimir posições alternativas, inibir o pensamento crítico ou incentivar à aceitação cega, dado a caráter assumidamente negativo que lhes seria atribuído pelo público exterior.

Regressando à dualidade anteriormente apresentada, a diferença mais clara relativamente aos diversos modos de expressão da dúvida prende-se na promoção da investigação crítica e racional, assim como, na perspetiva do cidadão comum, a seleção de fontes seguras para o apoio de argumentos e a presença da legitimidade da ferramenta do método científico na corroboração de hipóteses, ao invés da assunção a priori de quaisquer julgamentos. Ao contrário de um negacionista, que se assume precipitado na descrença e arrogante na confiança da sua teoria, um cético crerá na reflexão como prioritária na discussão dos problemas e no combate ao dogmatismo nos seus diversos moldes. No seu pleno, a dúvida tomaria o papel de conduzir (sim) ao questionamento de autoridades públicas e intelectuais. A questão funde-se na dúvida sensata, que, no caso de se encontrar no núcleo do nosso julgamento, nos conduz à verificação de que não somos, certamente, detentores da verdade universal. Acredito que, de facto, podemos construir a verdade que bem desejarmos, cimentá-la em nós e viver segundo ela, se isso não possuir implicações obstrutivas para o próprio ou aqueles que o rodeiam. No entanto, sem métodos de suporte, sem argumentos válidos ou sem qualquer motivo para crermos na veracidade da nossa objetividade, só fará sentido procurar fontes legítimas de conhecimento. Perante estas, claro, indagar, questionar e diversificar as mesmas, porém, manter sempre alguma humildade no processo de tomada de posições.

O conselho foca-se na rejeição do negacionismo, cuja influência tem conduzido à cada vez mais predominante crença em pseudociências e na rejeição sem quaisquer fundamentos de consenso no meio científico por parte de sujeitos não especializados. Um ceticismo ponderado e a constante colocação de questões, embora exaustivos, são pontos centrais num ser que procure a crítica como meio de construção de ideias, assimilando o poder do pensamento reflexivo individual, em colaboração com a seleção de autoridades do conhecimento fidedignas e qualificadas no assunto a debater. Em suma, tudo isto para reforçar que, neste dia 1 de abril, brinquemos às partidas e brincadeiras benignas, evitando a propagação de falsa informação, que, sendo inevitável, o seja apenas nesta data[7].

Referências

[1] “Covid-19: O que negam os negacionistas?”, Expresso – Sociedade.

[2] “Como parar a charlatanice que são as medicinas alternativas?”, Público – Opinião. [Sobre práticas de medicina alternativa]

[3] “Fim dos “Médicos pela Verdade”: o Chega e as afinidades que a VISÃO destapou”, Visão – Sociedade.

[4] “Combating antiscience: Are we preparing for the 2020s?”, NCBI. [Sugere-se a leitura do artigo]

[5] “Ordem dos Médicos condena Médicos pela Verdade a penas de censura”, Observador – Saúde.

[6] “Identificar as teorias da conspiração”, Comissão Europeia. [Sugere-se a leitura do artigo]

[7] “Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2020 – Edição Especial Battle Royale”, COMCEPT. [Sugestão]

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