A Inteligência Artificial é um compêndio de artigos que relatam o passado, presente e futuro desta. Para iniciar a jornada começamos, na primeira redação, por abordar a sua origem e responder às seguintes questões: Como surgiu? Quem foram os seus fundadores? E, quais as previsões da sua evolução naquela época? 

Autoria: João Valério, MECD

Enquanto conceito, a Inteligência Artificial (AI) teve origem na filosofia, ou no pensamento humano, não sendo possível definir uma data em concreto. Inicialmente, surgiu com forma abstrata, permitindo espaço para inúmeras análises, frequentemente alicerçadas na (eventual) existência de Deus, no seu poder de criação e na condição humana.

René Descartes, um matemático, filósofo e cientista, apresentou alguns pontos de vista interessantes no seu livro Discourse on the Method (publicado em 1637), relativamente às capacidades futuras da AI e onde se poderiam delinear os seus limites. Este defendia que a capacidade humana para pensar estava intrinsecamente associada à alma, a qual apenas poderia ser criada por Deus. Perante esta ideia, infere-se que uma máquina nunca igualaria o nível do raciocínio humano.

Apesar de este tipo de noções se terem baseado em grande parte na razão e nas crenças, inúmeras questões, que outrora eram consideradas marcantes e inovadoras, perduram na atualidade e perdurarão no futuro como importantes pontos de vista, principalmente no que diz respeito à aplicabilidade da ética e da moral neste campo, já integrado no quadro científico.

Posteriormente, nos anos subsequentes a 1940, surgem os primeiros artigos referentes à AI com alguma alusão científica; facto que não surpreende dada a natureza humana. Tal como refere Victoria Camps no seu livro Elogio da Dúvida: “Tem sido uma constante da inteligência humana querer ir além de algumas limitações intrínsecas a seres que são finitos e que têm, inevitavelmente, perceções parciais da realidade.”

Apesar dos artigos anteriormente redigidos, hoje em dia a primeira publicação globalmente reconhecida relativa à AI, denominada por Computing Machinery and Intelligence Mind, ocorreu apenas em 1950, pela autoria de Alan Turing, também um matemático e filósofo, entre outros ofícios, considerado por muitos o principal pioneiro na AI.

Não obstante as similaridades das competências entre ambos os pensadores, Alan Turing apresenta uma posição ligeiramente diferente, não propondo, à priori, um ponto de vista concreto. Este inicia a sua obra proferindo “Eu proponho considerar a seguinte questão, ‘Podem as máquinas pensar?’” e, perante esta questão, dedicou-se a descrever como criar máquinas inteligentes, referidas como computadores digitais, e, particularmente, como testar a sua inteligência, através do The Imitation Game (Teste de Turing).

No que diz respeito aos computadores digitais, um conceito já anteriormente referenciado por outros estudiosos, Turing decompõe a sua constituição em 3 partes: Armazenamento, Unidade Executiva e Controlo. As noções principais são ainda aplicáveis na atualidade. Por sua vez, o Teste de Turing, apesar de algumas objeções, é ainda hoje considerado uma referência para examinar a inteligência de um sistema artificial (HAENLEIN, Michael; KAPLAN, Andreas, 2019). Neste teste, um examinador humano interage, por via escrita, com um outro humano e com uma máquina, e no caso de não conseguir distingui-los assume-se que a máquina é inteligente.

No entanto, o Teste de Turing baseava-se apenas na comunicação, pois Turing, tal como Descartes, acreditava que este era o procedimento adequado para ajuizar a inteligência de alguém. Contudo, com a progressão da inteligência artificial e ao entendermos melhor as faculdades que contribuem para a inteligência humana manifestou-se, recentemente, a necessidade de generalizar o teste, com o intuito de ser transversal a mais competências.

Em 1956, a AI foi reconhecida e estabelecida como uma área científica pelos seus fundadores John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, definindo-a como “a ciência e engenharia de produzir sistemas inteligentes”. Michael Haenlein e Andreas Kaplan apresentaram no seu artigo A Brief History of Artificial Intelligence: On the Past, Present, and Future of Artificial Intelligence uma definição de AI mais detalhada e coincidente com a atualidade, citando-a como “A capacidade do sistema para interpretar corretamente dados externos, aprender a partir desses dados e utilizar essas aprendizagens para atingir objetivos e tarefas específicos através de uma adaptação flexível.”

Nos anos seguintes a 1956, os primeiros esforços no sentido de reproduzir a inteligência humana centraram-se, exatamente, em problemas que exigiam a manipulação de símbolos matemáticos e a procura de soluções (OLIVEIRA, Arlindo, 2019). Esta abordagem reflete a ideia de Thomas Hobbes, expressa em 1651, argumentando que o pensamento humano resulta, simplesmente, da manipulação de símbolos.

Tendo em conta os diferentes projetos iniciados na época estabeleceram-se diversas previsões relativamente ao desenvolvimento da AI. Em 1957, o economista Herbet Simon previu que, em 10 anos, os computadores venceriam os humanos no xadrez e, em 1967, o cientista cognitivo Marvin Minsky citou que “dentro de uma geração, o problema relativo à criação de Inteligência Artificial será substancialmente solucionado” (BRYNJOLFSSON, Erik; MCAFEE, Andrew, 2017).

Para finalizar, todas as ideias descritas contribuíram para a constituição da Inteligência Artificial enquanto campo científico e, apesar das inúmeras previsões, o seu futuro permaneceu incerto.

Bibliografia:

  • DESCARTES, René (1637) – Discourse on the Method. 1ª ed. Oxford: Oxford University Press.
  • TURING, Alan (1950) – Computing Machinery and Intelligence Mind. Volume LIX. Oxford: Oxford University Press. Pág. 433–460.
  • BRYNJOLFSSON, Erik; MCAFEE, Andrew (2017) – The Business of Artificial Intelligence. Massachusetts: Harvard Business Review.
  • OLIVEIRA, Arlindo (2019) – Inteligência artificial. 1ª ed. Lisboa: ENSAIOS DA FUNDAÇÃO. Pág. 52.
  • HAENLEIN, Michael; KAPLAN, Andreas (2019) – A Brief History of Artificial Intelligence: On the Past, Present, and Future Artificial Intelligence. Berkeley: California Management Review. Pág. 3.
  • CAMPS, Victoria (2021) – Elogio da Dúvida. 1ª ed. Lisboa: Edições 70.

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