É dito por aí que o movimento MeToo chegou a Portugal, com três anos de atraso, mas parece que chegou (pelo menos com mais força do que em 2018). As denúncias surgem de todo o lado e contra toda a gente e agora que há nomes parece que as coisas podem efetivamente mudar. No entanto, ainda não ouvi críticas vindas do ou dirigidas ao mundo desportivo (desde o caso Cristiano Ronaldo, talvez). O que se passa? Há alguém que esconde? Ou podemos finalmente acreditar que a integridade e respeito que tanto são apregoados pelas federações e grandes patronos desportivos são ideais reais, ou seja, que no desporto isto não acontece? Desculpem estragar-vos a festa, mas acontece.

Autoria: Carolina Bento, MEBiom (IST)

Pratico desporto federado desde os treze anos. Pratico basquetebol desde os treze anos. Desde que sou crescida o suficiente para perceber do que se falava, ouço histórias de treinadores que se atiravam a miúdas mais novas. Como jogadora, nunca me aconteceu. Nunca tive um treinador que me abordasse de uma forma menos correta e mais sexual. Às minhas colegas? Não sei. Como jogadora, nunca me aconteceu. 

Comecei aos treze anos e continuei o meu percurso. Quando tinha dezanove anos, decidi experimentar arbitrar basquetebol. E adorei. Adorava estar em campo, adorava falar com os miúdos, adorava toda a dinâmica da equipa de arbitragem. Adorava arbitrar. Até ao dia em que fui assediada. 

Foi em 2019. Sim, passaram dois anos e só agora faço alguma coisa quanto a isso. Estive calada, porque tive medo dele. Estive calada, porque tive medo do que podiam pensar de mim. Estive calada, porque me senti culpada, senti responsabilidade. Estive calada, porque me chegaram a dizer que eu era “demasiado simpática”. Estive calada, porque tive nojo de mim mesma. Estive calada, porque não consegui lidar com a situação. Estive calada, porque achei que era a única. Este ano, fui abordada por uma colega que me disse que havia mais mulheres que tinham sofrido de assédio por parte do mesmo homem e que me perguntou se eu não queria avançar com um processo. A ideia de que mais mulheres tinham sido assediadas pelo mesmo homem causou-me uma repulsa enorme. Mais ainda, a ideia de que mais mulheres ou jovens podiam vir a ser assediadas pelo mesmo homem, fez-me perceber que o meu bem-estar não podia valer o sofrimento delas. Falámos com três advogados. Foi-nos dito que o processo prescrevera (devia ter lidado com isto em menos de seis meses na altura) e que ia apenas ser arquivado. O texto que se segue é uma exposição que fiz a um dos advogados para tentar avançar com um processo judicial (retirei qualquer elemento que permitisse a identificação do indivíduo, dei-lhe um nome genérico como João; Joões, não se sintam atacados):

“Fui nomeada para arbitrar um jogo com o João. O João é um árbitro com muito prestígio e com uma carreira bastante notável e, consequentemente, senti-me uma privilegiada. Toda a gente me disse “aproveita, vais aprender imenso”, “não deixes de fazer perguntas”, “o João é mesmo óptimo, ouve tudo o que tem para te dizer”. O João, além de árbitro com uma enorme influência sobre quase toda a gente, tem também um cargo relevante nas estruturas de relevo na associação e na federação, pelo que a sua opinião sobre mim podia influenciar significativamente a minha “carreira” na arbitragem. Além disso, o João tem pelo menos mais 16 anos que eu.

Após a nomeação, recebi um e-mail dele, para combinar as coisas para o jogo, um procedimento normal. Como não tenho viatura própria, pedi-lhe boleia, como faço para a maioria dos jogos longe de casa. Os e-mails estenderam-se mais do que com qualquer outro colega, mas assumi isto como sendo só simpatia e interesse da parte dele em que eu aprendesse bem as coisas e fôssemos bem preparados. Ofereceu-me inclusivamente um apito e mais tarde uma t-shirt de jogo, eu não tinha nenhuma oficial e muitos árbitros têm o hábito de dar t-shirts aos mais novos. 

No dia do jogo, apanhei boleia, correu tudo bem. Quando chegámos ao pavilhão, este tinha apenas um balneário para os árbitros, que é a realidade de muitos pavilhões. Nestes casos, equipamo-nos sempre um de cada vez, enquanto o outro espera lá fora. Entrámos os dois para pousar as coisas e ele disse “Vai-te vestindo.”, fiquei sem jeito e sem grande reação e ele repetiu isso várias vezes até que disse “Se não te sentes bem, equipa-te na casa de banho, enquanto eu me visto”. Tive receio de ser vista como pudica e por isso não lhe pedi que saísse. Portanto, fui para a casa de banho e vesti-me, mas quando saí ele ainda não estava completamente vestido, ainda tinha as calças desapertadas e continuava a falar comigo como se não se passasse nada, eu comecei a arrumar as minhas coisas para me distrair do que se estava a passar. Na altura não achei que isto tivesse sido propositado, não pensei no assunto, não liguei. Fomos arbitrar o jogo e depois do intervalo houve a necessidade de chamar a polícia, devido ao comportamento desadequado de um adepto; depois de terminarmos o jogo, a polícia iria esperar para que saíssemos do pavilhão com escolta. Ele disse para eu ir entrando e tomando banho, enquanto ele acabava de discutir as coisas com a polícia. Tranquei a porta do balneário e comecei a despir-me, para tomar banho. Quando já estava sem t-shirt e sutiã, ele começa a tentar abrir a porta, faz várias tentativas, até que eu visto e fecho um casaco e abro a porta, esperando que ele só quisesse ir buscar o telemóvel para estar distraído enquanto esperava. Mas quando entrou, sentou-se só numa cadeira e disse: “é melhor ficar aqui dentro, senão as pessoas lá fora vão começar a falar e fazer perguntas, mas vai tomando banho”, voltei a ficar sem resposta e ele disse ” ah, mas senão te sentires confortável eu saio. Mas isto é tudo com respeito, desde que haja respeito não há problema”, tive medo de dizer que não, tive medo de dizer que estava desconfortável e que queria que ele saísse, tive medo que ele dissesse que eu era pudica. Continuando a ser muito ingénua, como o balneário tinha uma parede entre os chuveiros e o sítio onde ele estava sentado, pensei que ele talvez fosse ficar quieto no seu canto. Comecei a tomar banho e ele perguntou “posso ir?” e eu respondi “já estou mesmo a acabar, já saio”, ele voltou a perguntar e eu repeti o que tinha dito. Ele veio para os chuveiros, completamente nu, e aí saí logo mesmo, e ele perguntou-me “já acabaste?” e eu disse que sim, e ele olhou para as minhas pernas e disse “estás cheia de shampoo, não acabaste nada”, eu não tinha shampoo nenhum e continuei a secar-me e a vestir-me e ele perguntou-me “foi a primeira vez que tomaste banho com um homem?” e eu respondi “sem ser com o meu namorado, sim” ao que ele respondeu “se tudo for com respeito não tem mal nenhum”. Disse-me “Vem esfregar-me as costas” e eu respondi ” Não, João, não” e ele disse “Carolina, vem lá”, eu disse que não e ele lá parou. Saímos do balneário, eu estava em pânico, porque ia voltar de boleia com ele, e estava com medo, estava com medo que ele percebesse que eu não estava bem e se aproveitasse disso. Voltou a perguntar se alguma vez tinha tomado banho com um homem, voltou a falar do respeito e disse “não digas a ninguém que tomámos banho juntos, é mau para mim e para ti também”, fez uma piada qualquer relativamente à situação e disse-me “ri-te lá” e no fim disse “só custa a primeira vez”. Chegámos ao metro do Colombo e pronto, fui-me embora. 

Havia testes de arbitragem na semana seguinte, faltei. Comecei a evitar todos os eventos em que me pudesse cruzar com ele, evitei ir a formações e faltei a avaliações.

Fui às Festas do Basquetebol de Albufeira para arbitrar. As Festas do Basquetebol são um torneio anual entre as seleções distritais de sub-14 e sub-16. Tive esperança que ele não fosse, estava inclusivamente a evitar pensar nisso. Quando lá cheguei, apercebi-me de que ele ia ser uma presença constante. Num dos dias, ele fez a observação dos meus jogos. Havia três jogos e éramos três árbitros, pelo que no jogo do meio foi a minha vez de ficar de fora. Ele chamou-me para ao pé dele e começou a falar comigo, inicialmente sobre questões técnicas, erros que eu tinha feito no jogo anterior, depois sobre situações do jogo dos meus colegas e depois começou a dizer-me que ao contrário de muita gente na arbitragem, ele gostava muito de mim. Não tive resposta e ia continuar sem dizer nada a ninguém, mas no último dia das festas, reparei que uma das minhas colegas, uma oficial de mesa na altura menor de idade, estava a receber mensagens dele. Perguntei-lhe se a estavam a deixar desconfortável e ela disse que sim. Aí senti que tinha de fazer alguma coisa, não podia deixar que a minha colega sentisse aquilo que eu senti e, por isso, falei com uma árbitra mais velha, que me disse para falar com ele e deixar as minhas intenções claras (não que eu alguma vez tenha achado que as precisava de clarificar) e que ia falar com ele sobre a colega mais nova. Nesse dia, liguei-lhe a dizer claramente que não queria nada com ele, mas senti-me parva, nunca houve momento algum em que lhe tenha dado essa ideia.”

Tive vergonha desta história, tive vergonha da minha atuação desde o momento em que isto aconteceu. Senti-me fraca, senti-me uma merda. 

Este ano, consegui contar esta história. Consegui avançar. Consegui perceber que a culpa não foi minha, como não é de nenhuma vítima. Consegui ir falar com advogados sobre isto. Infelizmente, a lei não me protegeu, como não protege a maioria das vítimas. Mas onde a lei não nos consegue proteger, temos de nos questionar sobre o que as outras estruturas – instituições desportivas às quais muitos de nós pertencemos e nas quais confiamos desde sempre – estão a fazer. 

Isto não me aconteceu só a mim. Isto não acontece só no basquetebol, ou no voleibol ou se quiserem na ginástica norte-americana. Isto acontece, como já muitas disseram, em qualquer situação em que alguém se encontra com poder sobre outra pessoa e não há nenhuma estrutura que procure estas situações e que procure proteger as vítimas. Não é pelas federações fecharem os olhos que as coisas não acontecem. Pior, é por fecharem os olhos que as coisas continuam a acontecer, e a piorar. 

Temos de nos questionar se o mundo do desporto está a fazer o suficiente para proteger as suas e os seus atletas. Temos de nos questionar se a ausência de casos não resulta de um medo de falar sobre isso. Temos de nos questionar se a ausência de casos não resulta de uma proteção por parte dos clubes e das federações. Mais importante, temos de nos questionar sobre o que podemos fazer de melhor. O desporto não é isto.

Infelizmente, com receio de represálias e falta de apoio da lei portuguesa, muitos de vocês não saberão quem é o João. Mas o João, se ler este texto, saberá que é dirigido a si. Os meus colegas saberão de quem falo. E as pessoas que, de alguma forma, se sentiram aproveitadas pelo João, também. Está na altura de lhes dar voz.

Comentários

Olá,

Infelizmente o que descreveste é o dia a dia da sociedade (com maior ou menor grau). As pessoas não têm sensibilidade para o problema e sinceramente não percebo o porquê.

Eu cresci numa instituição de apoio à criança e sempre que acontecia algo éramos sempre tratados com desprezo e com frases do tipo: és pobre e mal agradecido . Tinha nojo e medo das pessoas. Como adulto cheguei a ter uma depressão quando a minha filha nasceu (tinha medo de não a proteger e via o mal em todo o lado). Desconfiava de tudo e todos.

Essa indiferença para o problema em todas as suas dimensões é visível até aqui no diferencial. Fiz um comentário ao artigo https://diferencial.tecnico.ulisboa.pt/ambientalist/a-vida-que-podemos-salvar/ e a resposta do autor chocou-me. Foi do tipo: foi uma polémica, entretanto pediram desculpa (o ónus da prova está sempre com a vítima) e já está tudo bem, são credíveis e coisa e tal. Mostrou total alienação pelo problema.

Abuso de quem não se pode defender (porque estar calado é mais confortável) não é nem pode ser considerado uma polémica. É crime e deve ser tratado como tal. Escusado será dizer que do diferencial nem uma palavra.

Não nos podemos calar. Por nós e pelos outros.

Bem haja. Boa sorte.

O desporto é uma dimensão da sociedade. Se no dia a dia a sociedade responde com indiferença …

Isso tem que ser denunciado em todas as dimensões. Quem o faz tem que perceber que está errado.

Obrigada Carolina pelo teu testemunho. Que Joões como este deixem de ter estas atitudes e permaneçam impunes.

Senti uma repulsa e nojo enormes ao ler o artigo.
A legislação tem que ser alterada e um crime desta natureza não pode prescrever em 6 meses, uma vez que as marcas deixadas num ser humano serão para sempre.
São precisas mais mulheres com M grande como a Carolina, a quem eu dirijo um grande bem haja pela coragem demonstrada ao trazer a público o que fica sempre na penumbra.

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