Autoria: Joana Silva, MEBiol (IST )


Desde os primórdios da Humanidade que nos confrontamos com as intempéries da vida. Afinal, a condição humana de finitude traduz-se num conjunto de limitações: a incapacidade de prever o desenlace dos acontecimentos, de poder mudar o seu rumo, de explicar porque é que têm lugar certos acontecimentos e de evitar determinados conflitos com os outros. Tudo isto, aliado à inevitabilidade da morte, faz parte do nosso conceito de vida, que aparentemente não mudou muito.

Não obstante, existem algumas dissemelhanças intergeracionais visíveis a olho nu. Senão vejamos: nos tempos remotos da juventude dos nossos avós, uma calamidade seria a falta de alimento proveniente de culturas agrícolas, provocada por condições climatéricas adversas; atualmente, as gerações Y e Z (representadas pelos TikTokers e outros influencers de menor relevância) exasperam-se quando a reação redox atinge o equilíbrio químico nas células galvânicas dos smartphones, ou por outras palavras “a bateria, tipo, morre”, conduzindo-as ao expoente máximo do tédio (comparável àquele jantar de Natal, onde nem a família nem o peru nutrem particular interesse em marcar presença). Aqui está uma comparação de como as prioridades se manifestam: na primeira, uma necessidade básica à vida humana; na segunda, uma forma de sobrevivência à luz da juventude de hoje.

Com efeito, estaremos nós num estado de inquietação permanente que nos impele a ausentar do real? Será o mundo virtual mais utopicamente estimulante e (in)compreensivelmente tentador? Talvez… Talvez tenhamos encontrado uma fuga, um escape àquilo que nos rodeia, ao exercitarmos os músculos (dos polegares) num frenético scroll que abre portas ao mundo lá fora, mas que fecha mentes não dotadas de pensamento crítico e pouco curiosas. A verdade é que demonstramos interesse por diversos assuntos da sociedade, lemos de tudo um pouco pensando estar bué informados das cenas, mas raramente mergulhamos a fundo no conteúdo, navegando apenas à superfície. Efetivamente, o acesso fácil e imediato a qualquer tipo de informação é tratado de forma volátil pelos nossos neurónios. As ligações sinápticas tornaram-se mais preguiçosas do que aquelas pessoas que vão passear os animais de estimação de carro, ou que sobem a passadeira rolante até à entrada do ginásio.

É notável a incessante procura – motivada por uma ânsia desmedida e bisbilhotice mais patológica que a das nossas avós à janela – em saber o que está a acontecer em qualquer parte do mundo, de caráter igualmente relevante: novidades acerca da evolução da vacina para o COVID-19, aquilo que a youtuber X fez para o jantar de ontem, ou mesmo ver esclarecida aquela questão fundamental para a “nossa felicidade” – se o amigo Y optou por passar a noite de Sábado no Urban ou na Pink Street. De facto, lá nisto somos bastante parecidos com os nossos avós. Porém, enquanto que eles acediam à informação através de uma janela de vidro singelo, diariamente, nós fazemo-lo através de uma película de vidro, constantemente. E são os excessos que levam à infelicidade!

 Recorrendo à filosofia, segundo John Stuart Mill, a felicidade consiste no prazer e na ausência de dor ou sofrimento. Este conceito de bem-estar designa-se de Hedonismo e é, a meu ver, imutável no tempo. Porém, o elemento de divergência está na origem do prazer.

Para os nossos avós, a alegria provinha das coisas mais simples, das relações humanas, do sentimento de partilha, compaixão, entreajuda, confiança, proximidade e amizade. Delicio-me a ouvir as histórias nostálgicas que os meus avós recordam com saudade e jubilação dos seus tempos de juventude. Nos dias de hoje, sinto que atribuímos maior importância às inúmeras distrações do aqui e o do agora, que nos transportam para o ali e o ‘talvez daqui a pouco’. Quem nunca foi num date tomar um brunch e pediu para sobremesa uma ida ao telemóvel, que atire a primeira pedra. E pedras no caminho, guardam-se todas, para um dia se construir… Não, não pretendo com isto personificar um Pedro Chagas Freitas (até porque não teria inteligência suficiente para construir jogos de palavras tão sábios e prodigiosos, dotados de um nível de intelectualidade que não está ao alcance de qualquer um).

Contudo, na minha modesta opinião, cada momento tornou-se mais fugaz que nunca, mais efémero que a fé de um ateu. Todas aquelas filosofias de vida do Carpe Diem e do #YOLO que inundam o feed do Instagram são tão incoerentes quanto os autoproclamados ambientalistas que nem a reciclagem fazem. Na verdade, a frequência de posts sugere uma relação inversamente proporcional com aquilo que convictamente apregoamos, como Santo António fez aos peixes: desfrutar o presente e aproveitar o momento.

A juventude vive iludida e começo a acreditar que aquela expressão “No meu tempo é que era bom!”, proferida comummente pelos nossos avós, tem algum fundo de verdade. Temos urgentemente de nos desconectar, para nos podermos conectar! E, no fundo, cada geração apresenta as ilusões de que carece.


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