Mudar a nossa vida para um estilo mais sustentável não pode ser visto como um cliché. É necessário reunir estados, empresas e indivíduos, para garantir a qualidade do nosso futuro. No entanto, tal como com todas as alterações, há custos e benefícios que se têm de ter em conta.

Autoria: Rita Serpa


Seja ao nível individual, empresarial ou nacional todos nós cometemos excessozinhos na vida, nos quais só pensamos quando nos deparamos com aqueles documentários que mostram como o crescimento económico e tecnológico têm pressionado os recursos disponíveis na Terra. Os glaciares estão a derreter, a desertificação e a perda de biodiversidade estão a intensificar-se e, a cada ano que passa, torna-se mais difícil manter o aumento da temperatura média anual abaixo dos 1.5ºC 1. Estamos à beira de deixar danos colossais na Terra, aos quais muitas espécies não conseguirão adaptar-se, inclusive a nossa. Mas isso todos sabemos. Quando o futuro das novas gerações já depende mais da sensibilização ambiental do que da sua educação, não há como ignorar todo o ruído que têm feito para que as pessoas mudem a sua vida para um estilo mais sustentável. Por isso mesmo é que, mais do que nunca, é importantíssimo entender os custos e os benefícios de mudar consistentemente o nosso estilo de vida, para podermos passar à ação.

Antes de mais, é preciso entender que o conceito de desenvolvimento sustentável é suportado por pilares de carácter ecológico, social e económico, que projetam um desenvolvimento económico vantajoso, alinhado com a preservação ambiental e o bem-estar da sociedade. Somente unindo todos estes pilares será possível satisfazer corretamente as necessidades do presente e do futuro.


Diferentes vertentes do desenvolvimento sustentável e a relação entre si

Deixem-me contar-vos uma história sobre um banco de três pés, construído por um carpinteiro de meia tigela. Quando o construiu, o carpinteiro fez um bonito tampo e dividiu a restante madeira em três partes para, posteriormente, cravar os pés. O problema é que logo ao início, o pé “Económico” pôs-se com falinhas mansas e convenceu facilmente o carpinteiro a fazê-lo mais robusto do que os outros. Como se não bastasse, no momento em que o carpinteiro se preparava para dividir a madeira sobejante em dois, o pé “Social” embirrou em querer ter madeira suficiente para aquecer os seus banhos de imersão, levando o carpinteiro a mudar novamente o seu plano, ao cravá-lo com a quantidade de madeira que lhe tinha destinado inicialmente. Por último, o carpinteiro lá fez o escanzelado pé “Ecológico” com o que sobrou das birras dos outros. Ao passar pela loja num dia, o Zé Povinho ficou encantado com o baixo preço do banco, comprando-o sem pensar duas vezes na sua qualidade. Surpreendentemente, a coisa até correu bem das primeiras vezes que se sentou nele. Porém, quando o Zé Povinho ganhou uns quilinhos a mais, lá se deu conta do desequilíbrio do banco. Agora anda por aí muito indeciso com o que deve fazer. A meu ver, é simples: ou compra um banco novo equilibrado ou arrisca-se a bater com o rabo no chão.

O problema é que enquanto o pé “Social” e o pé “Económico” não pararem de fazer birras, o carpinteiro vai continuar a construir bancos defeituosos. O conforto Social e o egocentrismo Económico vão ter de ceder a bem do equilíbrio Ecológico. O grande desafio é, portanto, não só convencer o pé Social a mudar mas também levá-lo a pressionar o pé “Económico” a ceder parte do ganho – em madeira – que tem. Ou isso acontece, ou depressa irá haver só bancos de dois pés e muitos rabos no chão.

Mas deixemo-nos de histórias. A verdade é que nenhuma mudança é confortável: é preciso sempre reunir informação, tomar uma decisão e adaptarmo-nos à dita tal coisa diferente. Ainda por cima, estando mal-habituados ao crescente conforto, fruto do desenvolvimento tecnológico, é normal que uma grande parte da nossa sociedade dê mais peso ao seu bem-estar do que às vantagens que advêm das ações “amigas do ambiente”. Pergunto-me então: de que nos serve ser preguiçosos para preservar o nosso conforto atual, se no futuro não houver qualquer tipo de bem-estar? Não podemos desanimar só porque não conseguimos visualizar o impacto das nossas pequenas ações à escala global: uma ação individual poderá inspirar outros a mudarem também, levando à “ação de grupo” que, por sua vez, provocará pressões políticas que criarão mudanças mais estruturais. Aliás, há tantas opções inovadoras e facilmente acessíveis online que atualmente quase só não ajuda quem não quer. No final do dia, temos pouco a perder e muito a ganhar.

Como a Economia é gerada maioritariamente pelas empresas, estas têm um papel crucial a desenvolver para a relembrar de que também ela tem muito a lucrar com a sustentabilidade. Afinal, o aumento da informação disponível e a consequente sensibilização dos consumidores levou a que, pela primeira vez, seja esperado que as empresas assegurem um equilíbrio responsável entre o lucro e o modo de o obter, o que nem sempre é fácil, tendo em consideração que a quantidade e a qualidade exigida pela população tem vindo a aumentar nos últimos anos. Assim, a economia gerada pelos procedimentos e pelo uso de materiais ecologicamente corretos, tendo em conta a consequente diferenciação ética positiva no mercado que a advém e a otimização dos recursos utilizados, torna o investimento lucrativo. Felizmente, os novos mecanismos de financiamento (como as Green Bonds) e as novas plataformas de crowdfunding (como a Kickstarter), em conjunto com o relatório da World Economic Forum 2 que sinalizou os problemas ambientais como um dos principais riscos para os negócios em 2018, têm facilitado a formação de parcerias inovadoras, aumentando o número de empresas que se têm vindo a comprometer com o Acordo de Paris e a adoptar science-based targets.

Apesar de estarem a ser desenvolvidos imensos projetos e directivas cheios de potencial para melhorarem a nossa sociedade, a falta de persistência das equipas envolvidas  impede muitos destes projetos de saírem da folha de papel (como vimos no exemplo do fracasso do projeto PlanIT Valley em 2012, que pretendia construir uma cidade sustentável no concelho de Paredes).3 Sem projetos vitoriosos, não conseguimos atrair parcerias financeiras para Portugal, tornando o nosso desenvolvimento sustentável mais difícil. E Portugal não se pode dar a esse luxo quando ainda tem um caminho tão longo para percorrer. Afinal, segundo os dados da Global Footprint Network, seriam precisas cerca de 2,5 Terras para sustentar a população mundial, caso todos vivessem como os portugueses. E isso afeta o mundo todo, uma vez que os padrões não sustentáveis do consumo português agravam os padrões não sustentáveis de produção dos países fornecedores do nosso mercado.

Verdade seja dita, os modelos económicos e políticos em que a nossa sociedade se baseia não estão construídos para responder à urgência deste problema, e uma das razões para tal é o desprezo do ambiente e dos valores sustentáveis no preço dos nossos produtos e serviços. Porém, se conseguimos evoluir tanto tecnologicamente na última década, não tenho dúvidas de que vamos arranjar ferramentas para evoluir ecologicamente se estivermos motivados para tal. A sustentabilidade é sustentável, dá é trabalho. Por isso, está na altura de todos os organismos da nossa sociedade se juntarem e cooperarem entre si, para que haja uma transição justa, de forma a que o Zé Povinho se volte a sentar num banco equilibrado. Só assim será possível ocorrer um desenvolvimento que seja ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente diverso, que garanta a médio e a longo prazo um planeta em boas condições para a sobrevivência dos diferentes organismos que dependem dos seus recursos limitados. A nós, como indivíduos, cabe-nos fazer o máximo que pudermos dentro das nossas possibilidades. De resto, haverá sempre alguém a reciclar menos e alguém a reciclar mais. Tudo depende da força da nossa motivação.


Fontes:

(1) É de realçar que segundo o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), de outubro de 2018, os atuais compromissos climáticos são apenas suficientes para limitar o aquecimento global em cerca de 3ºC.

(2) Global Risks 2018: Fractures, Fears and Failures, Worls Economic Forum

(3)Atualmente, a China lidera a corrida das ecocidades, planeando alojar 350,000 pessoas em 2020 na ecocidade desenhada de Tianjin Eco-city, que terá metade do tamanho de Manhattan. Prevê-se que a inclusividade social de um quinto dos alojamentos que o estado irá subsidiar para pessoas com salários mais baixos seja o maior obstáculo para esta cidade.

6 de Junho de 2019

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