Autoria: Tomás Vieira (LEMec)
Nunca apurei se é a minha iliteracia geográfica, o meu fraco sentido de orientação ou a minha miopia que fazem com que me perca entre os cantos que fazem a faculdade. Não falo aqui só das salas com siglas enigmáticas que, por algum motivo, não têm qualquer correspondência com a inicial do departamento que albergam, nem mesmo da fraca composição visual que faz cada bloco fundir-se com o seguinte. Pouco me queixo da falta de sinalização ou dos pavimentos mal ajeitados – não sou dado a comentários sobre políticas urbanas – muito menos, aponto aqui a minha falta de vontade em me informar. Estou convicto que este tipo de conhecimento não devia advir de uma pesquisa, nem tudo é estudável. Isto porque, nas sombras das duas torres e nas catacumbas de qualquer edifício, ergue-se uma atmosfera de desconhecimento. É uma neblina que, a qualquer hora, cobre pelo menos uma sala, algures no piso subterrâneo de um edifício à escolha. Algo que só não é místico pois o seu terror não é literal e a trilha sonora só se ouve quando já se está fora. E, nós que fazemos perante tal coisa? Sabemos a matéria a ser avaliada, sabemos os nomes e ofícios dos professores e sabemos até histórias, quase míticas, de antigos alunos. Contudo, é-nos misterioso o presente: as palestras de cada departamento, os eventos dos grupos de investigação, as celebrações de aniversário de cada micro-instituição engolfada pelo IST e todas as atividades de cada núcleo de estudantes. Feiras, competições, mesas redondas, podcasts, revistas e notícias. O nosso ecossistema é assustadoramente saturante, somos inundados até para além das aulas e engolir a maré de extras parece impossível. Cada organização compete por uma atenção que à partida não passará de diminuta, face à escala. Nisto, vejo essencialmente uma única forma de viver o sistema: em partes. Cada aluno escolhe a sua luta, desligando-se do grande restante. Não é um processo ativo, muito menos consciente, mas há que reconhecer a sua existência. E nesta problematização excessiva e deveras pretensiosa exponho aquilo que é ao mesmo tempo um problema muito real e um compromisso do Diferencial: dar a conhecer à comunidade estudantil um pouco daquilo que perdem. Um paradoxo, um desafio informal que podemos não cumprir na totalidade, mas assumimos orgulhosamente como luta. Somos uma faculdade de ex-ministros, presidentes e deputados? Somos uma faculdade que está sob uma reestruturação pedagógica global? Somos uma faculdade de núcleos estudantis? Somos uma faculdade com espaço para a expressão artística? Somos uma faculdade com vertente associativa historicamente forte? Sim, li no Diferencial.
A título individual, dedico esta edição aos meus heróis pessoais, que me incutiram, e a muitos outros, a importância e as bases do bom jornalismo amador. Do Diogo Faustino ao Francisco Raposo, o núcleo luta para dar continuidade ao bom nome que nele ergueram.




