Retrato de um estudante do Técnico

Autoria: Ângela Rodrigues (LEFT)

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher e o Dia Nacional do Estudante decidimos dedicar esta edição ao talento feminino presente no Técnico, que sabe bem o que é ser estudante em áreas onde continua a haver uma predominância masculina: no ano letivo 2024-2025 apenas 3 em cada 10 estudantes que ingressaram no 1º ciclo de estudos eram do género feminino.

Também a dedicamos a todos os estudantes desta instituição, desde aos que chegam quando o sol nasce e partem quando se põe, aos que só cá metem os pés em momentos de avaliações, passando por aqueles que não fazem ideia da existência de um grupo de estudantes que faz jornalismo amador, onde a distribuição de géneros é mais equilibrada, com uma razão próxima dos 45-55.

Correndo o risco de perder a atenção dos leitores, vou fazer o retrato de um estudante do Técnico. Os dois semestres que correspondem a um ano académico dividem-se em 60 ECTS, o que significa que, num quarter, estamos a fazer cerca de 15 ECTS. Umas vezes mais, por estarmos a tentar despachar mais disciplinas ao mesmo tempo; outras vezes menos, porque já não temos mais cadeiras, mas vamos simplificar e assumir os 15 ECTS. 

Basta abrirem o plano curricular do vosso curso, ou terem a sorte de um professor fazer essas contas na primeira aula, numa tentativa de demonstrar que a cadeira pode ser dada numa semana, talvez numa futura revisão do MEPP, para verificar que 3 ECTS correspondem a 24.50 horas de contacto e a 59.50 de trabalho autónomo, num total de 84 horas, e que 6 ECTS correspondem, na maior parte das vezes, a um total de 168 horas de trabalho, divididas entre trabalho autónomo (de 112 a 119 horas) e contacto (49 a 56 horas). 

Passemos então às contas e estimativas. Por questões de simplicidade, vou assumir que só estou a realizar cadeiras em regime de quarter, que não sou de Matemática Aplicada e Computação, curso cuja grande maioria das disciplinas continua a ser dada em regime semestral, e vamos saltar todas as exceções de cálculos, álgebra, HACS, PIC. 

Os 15 ECTS correspondem então a 2 cadeiras de 6 ECTS e a 1 de 3 ECTS. Atendendo a que um quarter tem sete semanas de aulas e uma de preparação, deixando “um dia para o senhor”, terei de trabalhar cerca de 2 horas e meia por dia, ao longo das oito semanas, para cada UC de 6 ECTS para conseguir cumprir as 119 horas de trabalho autónomo; no caso da cadeira de 3 ECTS, devo dedicar-lhe cerca de 1 hora e um quarto por dia, novamente considerando apenas o trabalho autónomo e um dia de descanso. Quanto às horas de contacto, para cada cadeira de 6 ECTS tenho diariamente cerca de 1 hora e meia de aulas, para a de 3 ECTS, cerca de 45 minutos. 

Assim, entre aulas e trabalho autónomo, o meu dia enquanto estudante do Técnico, que não passa de uma média das condições ideais, corresponde a cerca de 10 horas de trabalho. Vamos continuar.

Embora por vezes possa parecer que vivemos no IST, bem me custam as cerca de 3 horas diárias em deslocações (se quisermos pensar nesses termos, custam-me as horas de trabalho autónomo diário para 6 ECTS), pelo que é preciso descontar este tempo. De acordo com o Núcleo de Estatística e Prospectiva e com o inquérito realizado pelo Diferencial no ano passado, em média demoramos 45 a 50 minutos em deslocações até ao campus. Descontemos então 1 hora e 40 em deslocações. 

Podemos também retirar duas horas para almoçar e jantar, o que é obviamente uma estimativa por baixo se almoçarmos na cantina social e tivermos de esperar na fila, se quisermos tomar um café e fumar, ou se tivermos de cozinhar as nossas refeições. Já ocupámos mais de metade do nosso dia (cerca de 14 horas). 

E o resto do dia? De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos da América, um adulto deve dormir cerca de 7 horas por dia, pelo que, cumprindo estas indicações, já ocupámos 21 das 24 horas de um dia. 

Sobram 3 horas, mas ainda temos de descontar o tempo gasto em cuidados pessoais e entre execuções de diferentes tarefas; portanto, e de modo mais ou menos aldrabado, vou dizer que em média fico com 1 hora e meia para imprevistos, família, amigos e outros projetos fora do âmbito académico. Vale a pena recordar que esta estimativa é para um aluno que esteja a fazer 15 ECTS e que demore 50 minutos até ao campus, considerando um dia de descanso semanal. Aos que não são crentes e não precisam de um “dia do senhor”, deixo o desafio de fazerem as contas, e digo já que o resultado não é muito mais animador. 

Ainda assim há quem, apesar destes números, continue a despender as poucas (ou nenhumas) horas que lhe restam em núcleos de estudantes ou secções autónomas, por acreditarem que estas iniciativas podem fazer a diferença no seu percurso académico e no próprio Técnico. 

Por isso, agradeço aos que acreditam neste tipo de iniciativas, e deixo ainda um agradecimento especial aos membros do Diferencial: aos que nos foram deixando ao longo dos últimos meses, aos que contribuíram para que esta edição ficasse pronta em tempo recorde, ou ainda aos que, continuando a pertencer ao jornal, decidiram passar o seu cargo, como é o caso do Francisco Raposo, que deixou um grande lugar para ocupar. Porque, tal como na Ciência, caminhamos aos ombros dos grandes que vieram antes de nós.

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