Autoria: Catarina Curado (LMAC)
Cinco mulheres, mas apenas um objetivo: desafiar as barreiras do mundo do empreendedorismo. Foi com esta premissa que o SEntInnov, núcleo de inovação e empreendedorismo do Instituto Superior Técnico, organizou, no passado dia 6 de março, pelas 18 horas, a mesa redonda “StartHer – Mulheres que inspiram” para debater o que é ser uma mulher num mundo maioritariamente masculino. O evento reuniu Ana Sofia Prata, Maria Gabriela Almeida, Ana Filipa Rebelo, Camila Rodrigues e a moderadora Camilla Ferreira França, num debate relaxado e informal sobre as suas experiências no empreendedorismo.
Foi no ano de 1977 que o dia 8 de março foi considerado, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, dia Internacional da Mulher, para celebrar as trabalhadoras de Nova Iorque que, nesse mesmo dia, fizeram greve por melhores condições de trabalho. Apesar dos avanços, atualmente as mulheres ainda recebem, em média, 16% a menos que os homens e ocupam apenas 8% dos cargos de liderança nas empresas. A estimativa é que a igualdade de género só será alcançada dentro de 130 anos.
Perante este cenário, o SEntInnov convidou empreendedoras das mais diversas áreas: Ana Sofia Prata (professora e cientista molecular); Maria Gabriela Almeida (professora associada do departamento de Química, da FCT-NOVA); Ana Filipa Rebelo (engenheira biomédica); e Camila Rodrigues (ativista para a igualdade de género e cientista política), para inspirar outras mulheres que querem igualmente mostrar as suas ideias ao mundo. O debate foi moderado por Camilla Ferreira França, empreendedora desde os seus 24 anos e formada em Relações Internacionais. Atualmente, é membro da Women in Tech, organização que luta pela igualdade de género, focando-se em quatro pilares: educação, negócio, inclusão digital e advocacia e que, até 2030, pretende chegar a 5 milhões de mulheres.
Ana Sofia Prata, professora de Empreendedorismo e formada em Microbiologia Aplicada, partilhou que sempre teve o sonho de ser investigadora. Quando entrou no mestrado, teve uma cadeira obrigatória chamada exatamente Empreendedorismo, cadeira essa que a própria admitiu ter odiado desde início. Porém, apercebeu-se que aquela era a cadeira em que agarrava no conhecimento adquirido anteriormente e aplicava-o a situações reais. Segundo Ana Sofia, “no empreendedorismo, não era sobre publicar artigos, mas sim lutar pela ideia”. Depois dessa primeira experiência, fundou a sua primeira startup aos 21 anos.
Já Maria Gabriela Almeida partilhou que, enquanto tirava o doutoramento em Bioquímica, teve a oportunidade de utilizar a proteína que estava a estudar e testá-la num sensor. Muitos anos mais tarde, teve uma proposta de uma empresa de aquacultura que viu o seu projeto e quis trazê-lo para o mercado. A partir desse momento, Maria Gabriela tornou-se empreendedora e viajou pelo mundo, apresentando o seu trabalho. Enquanto contava a sua história, admitiu que teve dificuldades em encontrar a equipa certa e que, por isso, o seu projeto ficou atrasado: “estamos atrasadas, mas fizemos o que podíamos”.
Ana Filipa Rebelo, engenheira biomédica de 26 anos, admite sempre ter tido interesse em criar projetos inovadores. Fundou a In-Nova, a júnior empresa da FCSH-NOVA, e também o congresso Tec2Med, que une ciência, tecnologia e medicina: “sempre gostei de fazer parte de projetos com impacto”. O seu percurso no empreendedorismo começou antes mesmo de terminar a tese, quando uma professora a convidou para integrar a equipa de uma startup que precisava de uma engenheira.
Já Camila Rodrigues entrou no empreendedorismo por via da maternidade. Revela que foi mãe enquanto estava a fazer a tese de doutoramento e, nessa altura, sentia dificuldade em conciliar a vida pessoal com a vida de bolseira.
“Nós durante quatro anos estamos com aquele valor [da bolsa de doutoramento], que é um valor que nos permite viver à rasca, não nos permite fazer poupança. E, a partir do momento em que cumprimos o nosso objetivo, somos bem comportados, fazemos a defesa da nossa tese e no mês a seguir já não há nada. Passamos de uma situação em regime de exclusividade, para o mercado de trabalho. Eu tive ainda o desafio de, a meio do doutoramento, ter sido mãe.”
Diante desse desafio decidiu criar um grupo no Facebook para mães que sentiam as mesmas dificuldades. Com o tempo, o grupo “Mulheres À Obra” cresceu, contando hoje com quase 200 mil mulheres. O projeto, que começou por ser um movimento social, tornou-se em algo mais: “somos uma criatura muito estranha, porque não somos nem uma associação, nem um movimento social, nem uma cooperativa, nem uma startup”. Em tom de piada diz ainda: “de vez em quando, quando lhe dá jeito, a minha empresa chama-se startup, para conseguir alguns apoios financeiros”.
A conversa continuou com algumas reflexões das empreendedoras. A moderadora Camilla Ferreira França destacou a importância da igualdade de género no ambiente profissional, dizendo “nós temos de caminhar ao lado, não atrás”. Acabou também por frisar, no contexto da conciliação com a vida familiar que “alguns pratos vão cair, mas que não sejamos nós”.
Ana Filipa Rebelo chegou a abordar a disparidade de género em diferentes áreas: “tudo o que é tecnologia, temos uma predominância de homens; tudo o que é saúde, temos uma predominância de mulheres”. Afirmou que, enquanto empreendedora, desenvolveu características frequentemente associadas a líderes masculinos, como a autoconfiança e a assertividade. Contudo, acredita que este modo de ver as coisas está a mudar: “vamos deixar de associar o cargo de CEO a um homem engravatado”.
Após estas intervenções, Ana Sofia Prata afirmou “não me consigo refletir em algumas coisas que foram aqui ditas e na verdade vejo isso como um bom sinal. Foi muito raro sentir que o facto de ser mulher me estava a pôr para trás, na verdade acho que cresci numa altura em que ser mulher foi uma vantagem”. No que toca ao empreendedorismo, acrescenta que, enquanto professora, sempre tentou mostrar aos seus alunos que há outras formas de ver o mundo. “Como é que eu faço para os alunos ligarem ao empreendedorismo? Começo por não falar de empreendedorismo. Explicar o que é empreendedorismo não é explicar como é que se fatura numa empresa, é explicar que é ter um problema e arranjar uma solução.”
Camila Rodrigues destacou ainda a falta de solidariedade entre mulheres ao nível profissional e admite que, na sua comunidade de Facebook, houve muitas mulheres que, ao assumirem altos cargos, sentiram-se inferiorizadas por estarem ao mesmo nível de mulheres que eram donas de casa. Sobre esta situação, Camila afirma que “não temos de ser amigos de toda a gente com quem fazemos negócio”.
O público também trouxe contribuições importantes para a discussão. Um dos pontos levantados foi que a grande maior parte dos empregos em risco devido à utilização da inteligência artificial são ocupados por mulheres. Mencionou-se ainda um caso na Amazon, em que se utilizou inteligência artificial para a primeira triagem de currículos. Como esses algoritmos utilizados haviam sido criados por homens, ser mulher era um critério imediato de exclusão. Discutiu-se também uma experiência na qual se pedia à inteligência artificial para traduzir “doctor” e “nurse”, tendo o sistema, automaticamente, traduzido para “doutor” e “enfermeira”.
Por fim, falou-se do impacto da liderança feminina na política, mencionando o caso da ex-primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, cujo governo chegou a ter o triplo das mulheres em relação aos homens. O evento encerrou com os conselhos: “assumam-se como mulheres” e “falem só, isso estabelece logo limites”.