Quando no palco cai o pano

Com a declaração do estado de emergência, bailarinos e futuros bailarinos depararam-se com a necessidade de descobrir toda uma nova forma de trabalhar. Como se não bastasse, a situação de pandemia deixou a descoberto a tradicionalmente precária condição do sector artístico, agravada desde o início de Março. Como têm estes artistas lidado com a impossibilidade de subir ao palco? Quais são as suas perspectivas para o futuro?

Autoria e fotografia: Matilde Almeida, MEBiol (IST)


No dia em que comecei a escrever este artigo fazia 1 mês e 13 dias que a minha irmã tinha voltado de Madrid, animada perante a inesperada oportunidade de tirar umas férias a meio do ano.

A Joana tem 16 anos. Aos 15 foi estudar para o Real Conservatorio Profesional de Danza Mariemma, em Madrid, onde vive desde então. Está no 11º ano, o penúltimo antes de começar a fazer audições para entrar numa companhia de dança profissional, ou seja, para entrar no mercado de trabalho.  

Sete dias depois da sua chegada a Lisboa era declarado o primeiro Estado de Emergência Nacional. Rapidamente percebemos que o que de início parecera uma breve vinda a casa se transformara numa visita forçosamente prolongada.

A relutância que tinha em escrever sobre esta situação era enorme. Como seria possível acrescentar algo de novo escrevendo sobre um assunto que, num espaço de meses, se tinha tornado o centro da vida da sociedade em geral?

No entanto, o contacto próximo que tive com a experiência da minha irmã fez com que me apercebesse da recente condição em que se encontra uma das esferas da sociedade que mais se ressentiu com esta paragem forçada e que pode ter passado despercebida a muitos.

Para um corpo cujo ritmo normal é, para o mais comum dos mortais, uma daquelas idas ao ginásio em que se “dá tudo” e se jura para nunca mais, o confinamento a que estamos sujeitos desde o início de Março é como – e espero não ser mal interpretada quando digo isto – uma morte temporária. Vendo-se de repente fechados em casa, estudantes de dança e bailarinos profissionais tiveram de reinventar toda uma nova rotina e de descobrir a capacidade de manter um nível de disciplina surpreendente até para quem, como eles, está habituado a lidar com ela diariamente. «A disciplina é indispensável, porque quando misturas o teu espaço de descanso com o teu espaço de trabalho, é preciso ter muita disciplina para conseguires ter motivação, por um lado, e, por outro lado, algum descanso», admite Mariana Romão, bailarina da Companhia de Dança de Almada e professora de dança.

Para ajudar a manter essa motivação e, de certa forma, mitigar a sensação de isolamento, várias companhias de dança e bailarinos começaram a dar aulas online gratuitamente com alguma regularidade. É o caso de Lua Carreira, bailarina freelancer e criadora do projecto Moonwalk Reverse: «Comecei a dar algumas aulas [de dança] online. Paralelamente, fazia aulas de manhã por Zoom com uma companhia em Amsterdão. Portanto, fui arranjando contactos de companhias que começaram a fazer aulas online e juntei-me».

Saioa Poblador, de 19 anos, é finalista do curso de dança clássica do Real Conservatorio Profesional de Danza Mariemma, em Madrid. Estando prestes a acabar a sua formação no Conservatório, numa situação normal estaria agora a viajar em audições para companhias. No entanto, esta mudança radical deitou os seus planos por terra. Num tom meigo mas preocupado, confessa: «Como somos finalistas, este ano era suposto estarmos no nosso melhor, a preparar o nosso futuro. O facto de me ver em casa sem poder fazer nada aumenta a ansiedade perante a incerteza do que vai acontecer no próximo ano. Se estivesse noutro ano do curso, teria a hipótese de recuperar tudo, mas estando no último não há audições e o conservatório deixa-nos um pouco “no ar”». Realista, Saioa reforça um sentimento comum a todos profissionais da dança: «O plano para o futuro é estranho, não se sabe nada ainda». 

Saioa também está a ter aulas online, mas estas são dadas a toda a turma pela sua professora do conservatório. Sente falta da comunicação com os professores, que nesta área depende muito do contacto físico. Fala-me sobre as limitações de espaço: «Tive de remodelar um pouco o espaço em casa, de comprar linóleo para pôr no chão. A verdade é que a experiência não está a ser muito boa. Afinal, não é o mesmo que trabalhar num estúdio, com espaço, com altura… Em casa, tenho medo de fazer muitas coisas. Há passos que já não pratico há muito tempo». 

Contudo, não hesita em mostrar o lado positivo da experiência: «Nós, que ainda não estamos numa companhia, temos professores que nos dão muito, por isso às vezes esquecemo-nos do trabalho individual que temos de fazer por nós próprios. O confinamento fez-nos perceber que, fora da escola, quando estivermos numa companhia, o tipo de trabalho vai ser esse. Em companhia, dão-nos aulas, mas não as correções que já temos de ter interiorizadas. Agora, estou a aperceber-me muito mais da importância dessa rotina para o meu futuro».

António Ferreira, de 17 anos, aluno da John Cranko Schule, partilha desta opinião. «O trabalho é muito mais individual mesmo em termos de correcções, porque não temos o professor ao nosso lado, somos nós a -nos, e nesse aspecto acho que até pode ser interessante, porque, como muitos professores dizem, nós somos o nosso melhor professor, conhecemo-nos como mais ninguém. Estando em casa, é como se puxássemos cá para fora esse professor que temos dentro de nós. Aumentamos muito mais o sentido auto-crítico. Nesse aspecto, por estranho que pareça, este confinamento até pode ser explorado e interessante», diz com otimismo. Tendo começado a estudar em Estugarda no início deste ano letivo (depois de 6 anos a estudar na Escola de Dança do Conservatório Nacional, em Lisboa), António viu-se obrigado a regressar a Portugal no início de Março. Está, tal como Saioa, a ter aulas de dança em regime não presencial. Na escola, a interrupção do ano letivo, que começou a 10 de Março e que a princípio estava prevista acabar a 19 de Abril, acabou por prolongar-se até ao início de Setembro.

Já no mundo profissional, prevalece outro tipo de incertezas. Um inquérito lançado em Março pela Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas) revelou que a cada espectáculo cancelado equivale a perda de rendimento por uma média de 18 artistas, 1,3 profissionais de produção e 2,5 técnicos. Estatística preocupante, principalmente se tivermos em conta o número de espectáculos cancelados: um total de 4287, segundo os dados recolhidos pelo inquérito até 31 de Março.

Tanto Lua como Mariana viram apresentações adiadas indefinidamente. «Tínhamos uma peça muito importante chamada Inverno, que íamos apresentar em Almada e que vimos adiada e ainda não sabemos se foi cancelada. Fizemos a estreia no Norte, mas para nós era muito importante apresentá-la em Almada, porque esta é realmente a nossa cidade», conta Mariana. Para além de Inverno, a Companhia de Dança de Almada foi obrigada a adiar várias reposições e um espectáculo infantil que tinha começado a ser criado em Abril. A Lua, a peça que custou mais suspender foi a que tinha começado a coreografar para o Projeto Quorum, uma companhia de dança jovem formada a partir da companhia de dança contemporânea Quorum Ballet. «De facto, foi uma desilusão, porque foi muito trabalho, foi um processo de juntar ideias, de coordenar catorze bailarinos, de tentar comunicar a minha visão das coisas… E esse, mais do que na parte da dança e do movimento, humanamente é um grande trabalho de relações e de empatia».

Agora, tal como Lua e Mariana, todos os sectores da arte se encontram expectantes perante os novos moldes de actuação que se antevêem para artistas e para o público. Apesar de a reabertura dos teatros estar prevista para 1 de Junho, restam ainda questões por resolver, como a melhor maneira de manter a segurança, não apenas de espectadores, como de artistas e técnicos. «Nós fomos os primeiros a parar e vamos ser dos últimos a voltar», afirma Lua. Mariana acredita que também os próprios bailarinos podem diminuir o risco, tendo atenção aos contactos que estabelecem fora do local de trabalho: «Nós, artistas, temos de estar próximos uns dos outros, temos de trabalhar juntos, a não ser que o objectivo seja criar algo em que se mostre distância». Dançar com distanciamento, nota, «é o mesmo que pensarmos em tirar a carta sem conduzir. É impossível. Então acho que os artistas vão ter de ter uma responsabilidade acrescida em termos de cuidados, em termos de contacto com outras pessoas, para depois podermos estar num ambiente de trabalho de forma segura».

Teme-se paralelamente pela rentabilidade da abertura de salas de espectáculo, tendo em conta a maneira como a lotação das mesmas está a ser reduzida e, ao mesmo tempo, não sendo para já possível saber qual será a afluência de público. Segundo Lua, estamos «numa fase em que é muito difícil ter perspectivas de futuro, lá está, porque só de semana a semana é que vamos percebendo como é que as coisas evoluem. Eu acho que vamos andar muito para trás e que os teatros e as artes performativas vão sofrer muito com isso. A parte da cultura é aquela onde as pessoas cortam primeiro normalmente. Da parte do Estado não temos tido muito apoio, também: o Fundo de Emergência que foi lançado foi muito, muito baixo, comparativamente a outras injecções financeiras que estão a ser feitas».

O aparecimento deste vírus retratou melhor do que nunca a emblemática frase The show must go on. Porém, ainda que esta situação tenha dotado os bailarinos de maneiras inéditas de perpetuarem a sua arte, é fundamental ter um especial cuidado para não se cair numa desresponsabilização pelo financiamento do sector artístico por parte do Estado.

Durante os próximos tempos, começaremos a caminhar comedidamente em direcção a uma nova normalidade. Dentro do bom senso de cada um, também nós, como espectadores, somos em parte responsáveis pela subsistência de um sector artístico que tanto tem para nos oferecer: de facto, Portugal tem bailarinos de enorme talento, talento este que é naturalmente reconhecido lá fora. Asseguremos então que continuará a oferecer-nos tanto no futuro. De uma coisa estou certa: mesmo a alguns metros de distância uns dos outros, valerá a pena voltar aos teatros, porque certamente testemunharemos uma entrega à interpretação como nunca antes vimos.

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