Seríamos capazes de eliminar a Humanidade com uma simples decisão – parar de nos reproduzir enquanto espécie. Simples no que requer, embora complexa nos seus motivos e implicações. Guiados por propósitos menos extremos, há quem opte por não ter filhos ou inclusive considere que os ter não seria ético. Vejamos porquê.

Autoria: Patrícia Marques, MEFT (IST)

A lógica de parte dos antinatalistas baseia-se no seguinte – visto que a vida é uma experiência tão severamente sujeita a dor, a única decisão moral é impedir tal sofrimento indesejado e em vão em novos seres humanos. Aliás, a responsabilidade em gerar a sua existência poderia ser suficientemente pesada para levar a não o fazer. Um dos grandes argumentos prende-se aqui – o problema da responsabilidade e consentimento. Claramente, segundo as leis físicas e biológicas pelas quais nos regulamos, seria impossível expressar o nosso desejo e vontade de nascer, antes de tal acontecer – isso não questionemos. No entanto, podemos, sim, debater se será moral ou não infundir dor no outro sem a sua concordância.

O problema pode ser traduzido como “ser lançado ao mundo”, conceito explicitado pelo filósofo alemão Martin Heidegger, que utiliza o termo Dasein para exprimir a experiência do ser humano, particular na sensibilidade para a mortalidade, consciente de paradoxos e dilemas, ciente de si. A procriação será problemática, pois impossibilita a obtenção de consentimento para ser induzido à existência, Dasein, com todas as suas frustrações e exigências que não são escolhidas pela pessoa, desde convenções sociais às dinâmicas do arbítrio com as relações causa-efeito. Se, por outro lado, um natalista pode não identificar o consentimento hipotético do nascimento como uma questão relevante, apoiando-se no questionável argumento da possibilidade do suicídio, esta é, para além de uma escapatória complexa nos campos moral e emocional, uma condição que sucede o “ser”, ou seja, levanta muitos mais problemas, ao invés de solucionar o principal. 

Segundo uma linha de puro pessimismo e fatalismo, o norueguês Zapffe argumenta a favor do antinatalismo com base num paradoxo de teor biológico. O Homem possui as ferramentas para se revoltar, analisar o seu meio, absorver o seu destino enquanto mortal, refletir acerca dos seus padrões de comportamento, etc., todo um esquema complexo cujas exigências mais profundas, espirituais e metafísicas não serão satisfeitas. Nomeadamente, a busca por sentido numa existência e mundo quase aleatórios, sem respostas vindas dos cosmos. Perante a problemática, Zapffe afirma que a solução é a cessação da reprodução, a qual impedirá o autoengano na possibilidade de obter respostas metafísicas concretas.

Um outro argumento revolve em torno da procriação, não diretamente da existência. O professor e filósofo argentino Julio Cabrera atribui à reprodução humana uma conotação extremamente negativa, na medida em que consiste num ato de poder unilateral e de pura desconsideração. Uma vez que ter filhos estará associado unicamente aos interesses dos progenitores (e não do ser criado em si), esta é uma situação profunda e inevitavelmente assimétrica. Argumenta que tal é moralmente punível, ciente do rumo recheado de atrito que o humano leva até à morte, no qual os valores por si criados e momentos positivos experienciados são vistos como meras defesas paliativas face ao seu declínio permanente. 

David Benatar é um dos mais célebres autores que advogam pelo antinatalismo, sendo que a lógica por si desenvolvida compreende os pesos do sofrimento e do prazer. Especificamente, a ideia de que a ausência de dor tem maior relevância que a ausência de prazer, dado que a última não é algo negativo – só o é quando alguma pessoa existe e é privada desse bem. Por exemplo, consideramos, em geral, triste que haja quem nasça para sofrer, mas precisamente esse mesmo sentimento de compaixão não surge quando pensamos em pessoas que não foram induzidas à existência e, por isso, não experienciaram felicidade. Argumenta que não nos é atribuída a obrigação moral de dar origem a seres (felizes), mas sim a de não gerar pessoas infelizes. Assim, não optar pela procriação é o mais ético, dado que a ausência de prazer é, neste caso, insignificante, sendo que é impedida diretamente a existência de um ser humano que pudesse ser privado desse bem. 

Focando numa visão mais globalizante e menos devota às atrocidades enfrentadas pelos seres humanos, reparemos que, caso as mortes e destruição provocadas pelo Homem fossem causadas por qualquer outra espécie, a tendência seria inibir a sua disseminação e, quiçá, impedir a sua reprodução, tendo em vista o bem comum e a prosperidade da vida dos vários seres na Terra. Ora, sejamos imparciais – tal confere um forte argumento para o antinatalismo, visão que complementa a de evitar, ao máximo, o sofrimento de seres sencientes. Sendo nós a espécie mais destrutiva para o meio circundante, tendo por base um conjunto de regras morais acima definidas, nomeadamente, a prevenção do sofrimento e, daí, claro, colocando de lado quaisquer hipóteses de incentivo ao suicídio ou simpatia para com genocídios, cessar a criação de mais pessoas será o mais acertado. É precisamente este o intuito do Movimento pela Extinção Humana Voluntária, que procura abdicar da reprodução, segundo um processo gradual e arbitrário, isto é,  negar o instinto de procriar para seguir a decisão racional de aniquilar a degradação ambiental do planeta.

Alguns dos pontos a favor do antinatalismo relacionam-se com a necessidade de auxílio inerente àqueles já existentes. Quer seja perante o desejo de assumir uma relação de maternidade ou paternidade relativamente a um Ser, quer seja a crença na possibilidade de educar uma pessoa na fase mais crítica do seu desenvolvimento ou quaisquer outros motivos que nos levam a optar por procriar, a adoção surge como uma alternativa a ser avaliada. Ao invés de decidir reproduzir-se, tendo em consideração todas as nuances moralmente problemáticas já referidas, adotar um bebé, criança ou jovem traduz-se numa satisfação de cuidados necessários a uma criança cuja nascença foi já induzida. Há, ainda, quem enalteça a possibilidade de desviar recursos para pessoas em situação de pobreza ou fragilidade, considerando este um ato moralmente mais adequado e elevado.

Muitos de nós, em momentos de profunda angústia, poderão ter tendido, de modo natural, mas perigoso, para a indignação – seria melhor não ter nascido? Que esta mesma questão seja tida em conta, a partir do momento em que ponderarmos procriar. Que reflitamos acerca da importância de experienciar uma vida em qualidade e da responsabilidade que nos será competida, bem como a série de fatores económicos, psicológicos e emocionais envolvidos no papel de um guardião, seja ele pai, mãe ou mentor. Tomo isto como um apelo final, não ao antinatalismo, mas à reflexão profunda na decisão tanto de nos reproduzirmos biologicamente como de assumir o encargo de guardião e de ter filho(s).

Referências

[1] Is it wrong to bring children into a broken world? The theological case against the growing anti-natalist movement. 

[2] Being and Time, part 4: Thrown into this world | Simon Critchley 

[3] On Antinatalism and Depression | Epoché Magazine 

[4] Anti-natalism: the birth of a tragedy – The Oxford Student 

[5] The Case for Not Being Born 

[6] The Voluntary Human Extinction Movement

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