A ideia de movimento recai inevitavelmente numa ideia de liberdade. Apresenta-se quase sempre como um antónimo ao sentimento de prisão, um esbracejar que ninguém pode controlar sem ser a nossa consciência. No entanto, nem sempre esta sensação corresponde à realidade. O movimento pode associar-se também ao lado mais obscuro e privativo da existência.  

Autoria: Laura Lourenço, LEBiom

    Se formos pelo conceito puramente físico, o movimento é “a variação de posição espacial de um objeto em relação a um referencial no decorrer do tempo”[1]. Ora, até aqui se impõe uma condição que interfere na noção de movimento: o referencial. Assim, extrapolando para o nosso quotidiano, também nas nossas vidas podemos considerar “referenciais”. E, com estes, talvez a nossa ideia do que é realmente o movimento sofra alterações. 

    Abordemos então os movimentos sociais. Os movimentos sociais estão definidos como “os meios de intervenção direta no contexto político que os grupos minoritários possuem”[2]. Desconstruindo esta frase pomposa, os movimentos sociais apresentam-se como uma forma de intervenção de grupos sociais que não apresentam uma grande representatividade parlamentar, para que estes possam ser ouvidos e as suas necessidades impostas pela sua realidade atendidas. Um notável exemplo de um líder do movimento social contra a discriminação social na história dos Estados Unidos é Martin Luther King. Este tipo de organização em prol de uma causa coletiva ou individual é caraterística de uma sociedade ativa e, portanto, de extrema importância. O sociólogo francês Alain Touraine, cujo principal ponto de interesse tem sido o estudo dos movimentos sociais, crê que “a semente dos movimentos sociais está no conflito entre classes e vontades políticas”. Os conflitos estão enraizados no Estado que é atravessado pelas desigualdades sociais e vontades individuais. Assim, estes movimentos servem como ferramenta para uma tentativa de mudança, reivindicação ou reorganização. Em Portugal, um dos movimentos sociais mais badalados é o Direito a Morrer com Dignidade, criado a 14 de novembro de 2015 no Porto, e que tem como principal objetivo a despenalização da morte assistida. 

    Sendo mulher, não posso também deixar de mencionar o feminismo, que me permitiu hoje estar aqui e ter acesso à política, educação e mostrar a minha opinião na sociedade. O feminismo é, assim, um movimento social por direitos civis que desde o século XIX reivindica a igualdade política, jurídica e social entre homens e mulheres[3]. Já alcançou diversas vitórias, sendo o direito ao voto uma das mais importantes e revolucionárias. Este movimento tem ganho força e palco na sociedade, continuando assim a luta pelas mulheres e pelos seus direitos. 

    As questões ambientais fundem-se com os movimentos sociais, originando os chamados movimentos ecológicos ou verdes, mais conhecidos como parte do ambientalismo. Neste caso, é de salientar a relevância de uma “maioria absoluta”, para não dizer total, opondo-se à ideia de minorias patente no conceito de movimentos sociais, já que o bem-estar do planeta deve ser algo que nos preocupa a todos. O nosso planeta está a sofrer terríveis impactos de tantos anos de maus tratos por parte de nós, seres humanos, que não respeitamos a vida de todos os outros seres vivos que connosco coabitam. Para contrapor e tentar remediar estas atrocidades surgiram organizações como a Greenpeace e a WWF (World Wide Fund for Nature), organizações não-governamentais ambientais que atuam em áreas de conservação, investigação e recuperação ambiental. 

    Embora todos estes movimentos anteriormente referidos tenham um papel fulcral na defesa dos direitos humanos, no combate às desigualdades que sempre existiram e continuam a existir na sociedade moderna, numa melhor qualidade de vida para nós e para as gerações futuras, vou agora debruçar-me sobre o outro lado da moeda e debater a ambiguidade deste tema em contextos sociais. 

    O femismo, por vezes confundido com feminismo, corresponde à ideologia de superioridade da mulher em relação ao homem[4]. Assemelha-se assim à ideia de machismo. Ambos consistem na construção de uma sociedade hierarquizada a partir do género sexual. Apresenta-se como um movimento que contraria totalmente a ideia do movimento feminista. 

    O atual despoletar da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que conta já com intervenções de outros países da NATO e apoiantes das duas potências, desencadeou também movimentos. O exército russo move-se em direção à Ucrânia, na tentativa de conquista de território, assim como o exército ucraniano se move para combater a ameaça russa. Este ataque injustificado e condenado por grande parte do mundo está a privar os cidadãos ucranianos de viverem a sua vida, a obrigá-los a ficarem “presos” quer dentro quer fora da Ucrânia. O facto de se sentirem obrigados a abandonar o seu país para sua proteção individual e familiar ou obrigados a combater numa guerra em prol do seu amor à pátria vai contra toda a ideia de liberdade que a palavra movimento inicialmente transmite. Surgem também agora movimentos sociais de protesto contra a guerra e de apoio à guerra. Na Rússia, vozes de esquerda levantam-se contra a guerra[5].  Várias pessoas de diferentes organizações uniram forças e criaram uma Mesa Anti-Guerra das Forças Russas de Esquerda que condena a invasão, alertando para as perdas de ambos os lados de milhares de inocentes. Foram também vários os países que iniciaram uma recolha de bens essenciais para os refugiados ucranianos que são acolhidos e que também são enviados para os que ainda no seu país se encontram. São também vários os voluntários que se oferecem para combater e rumarem em direção à guerra. 

    No entanto, apesar dos movimentos que condenam veementemente este conflito, ascendem também movimentos de apoio à guerra na política russa. Estas manifestações adotadas por soldados, personalidades e políticos que simpatizam com a ação militar de Putin têm até já um símbolo, a letra “Z”, que está a intrigar muitos devido à ausência da mesma letra no alfabeto russo[6]. A manifestação levada a cabo por estes movimentos aumentou não só a ideia de concordância do povo russo com a guerra, como também a popularidade do presidente Vladimir Putin. 

    Em suma, o movimento em contextos sociais tem como em todos os outros conceitos abordagens positivas e negativas. Para todo o movimento que pretende algo de “bom” há sempre uma oposição. Assim, a ideia de movimento ser algo livre pode trazer também sensações de aprisionamento e atrofio. 


Referências 

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento [Acedido pela última vez a 13/03/2022]

[2] https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/movimentos-sociais.htm

[Acedido pela última vez a 13/03/2022]

[3] https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/o-que-e-feminismo.htm 

[Acedido pela última vez a 13/03/2022]

[4] https://arteref.com/feminismo/qual-a-diferenca-entre-feminismo-e-femismo/

[Acedido pela última vez a 13/03/2022]

[5]https://www.esquerda.net/artigo/varias-vozes-da-esquerda-russa-levantam-se-contra-guerra/79711

[Acedido pela última vez a 13/03/2022]

[6] https://www.poder360.com.br/europa-em-guerra/entenda-o-simbolo-z-usado-por-russos-em-apoio-a-guerra/

[Acedido pela última vez a 13/03/2022]

Leave a Reply