Do lado errado da história

Autoria: João Carranca, LEEC

“Tem 13 segundos para condenar a Rússia “. Quando Augusto Santos Silva proferiu estas irónicas palavras, João Oliveira estava no final do seu discurso na Assembleia da República. Para muitos um discurso surreal, inesperado e até assustador, mas feito com a naturalidade e a calma de quem não tem a mais pequena dúvida em relação ao assunto em questão, foi considerado quase unanimemente um dos momentos mais baixos do PCP na sua longa história parlamentar. Nos dias seguintes, vimos inúmeros altos dirigentes do partido a repetir a mesma lenga-lenga, completamente inalterada pela crítica e a hostilidade expressadas muitas vezes até pelos próprios entrevistadores. Toda esta tentativa de suicídio político levanta a questão óbvia: Porquê?

Bom, vamos por partes. Comecemos pelo espanto generalizado. Porque é que esta recusa de condenar uma invasão não provocada por parte da Rússia colocou tanta gente em estado de choque? Eu diria que se trata de iliteracia política. Vamos fazer uma pequena viagem pela história do partido mais antigo de Portugal. O PCP nega e negou desde o início o massacre de Holodomor. O PCP nega e negou desde o início as purgas Estalinistas dos anos 30. O PCP nega e negou desde o início o homicídio de todas as altas patentes do exército polaco em 1939, apesar de termos uma ordem do próprio Estaline escrita e verídica a indicar isso mesmo. 

Em 1939/40, Álvaro Cunhal escreve vários artigos dedicados à guerra no conhecido jornal comunista “O Diabo”:

“Diz Jules Romains que a guerra foi provocada pelos países totalitários. Mas não sei por que razão, refere-se sempre e unicamente à Alemanha. Não existirão para Jules Romains outros países totalitários?”

Álvaro Cunhal, O Diabo, 16/12/1939

“Eu muito francamente declaro que, hoje em dia, o sr. Chamberlain merece tanta simpatia como o Sr. Hitler ou o Sr. Daladier (a ordem dos nomes é arbitrária)”

Álvaro Cunhal, “Ricochete – 2”, O Diabo, 290, 13/4/1940

Nestes excertos, Cunhal usa um discurso que não só é semelhante àquilo que é atualmente escrito e dito pelos altos dirigentes comunistas em substância, mas também semelhante na forma. Nunca se atrevendo a elogiar Hitler, Cunhal limita-se a desculpabilizá-lo implicitamente ao colocar os líderes ocidentais democráticos no mesmo nível. Ora, o PCP nunca se atreveu a apoiar explicitamente Putin, simplesmente usa o conhecido “whataboutism”, traz a NATO e os EUA para qualquer conversa sobre o assunto, rotulando-os de malvados vilões cheios de segundas intenções, e sobre os quais recai a maior parte da culpa em relação à situação atual.

O PCP nem sempre esteve do lado errado da história. Lutou heroicamente contra Salazar, contra o fascismo. O mesmo Cunhal que escreveu estes artigos, sofreu anos e anos de tortura que chegou a relatar em entrevistas de uma maneira assombrosa. Passou com os seus restantes camaradas de partido por coisas que nem o mais vil dos homens deveria alguma vez experienciar. Tudo para pôr fim a uma triste e miserável ditadura. Engane-se, no entanto, quem pense que o PCP da luta heróica anti-fascista é diferente do atual e que o comportamento triste e deplorável que vemos atualmente é o resultado de uma qualquer mudança no partido. Não há qualquer incoerência. Se Cunhal fosse vivo, diria o que diz João Ferreira, que por sua vez diz o que diz João Oliveira, que por sua vez diz o que diz Jerónimo de Sousa. O PCP consegue conciliar a sua luta anti-fascista com o apoio disfarçado a Putin e o apoio menos disfarçado a vários outros regimes autoritários, desde a China até à Coreia do Norte. Como? Ser anti-fascista não é ser democrata, e lutar contra o fascismo não significa querer democracia. Lutar contra Salazar não é, por associação, lutar para construir um regime em que quem manda é o povo. O PCP (e aqui por PCP refiro-me não aos seus votantes, mas sim aos seus dirigentes) não é nem nunca foi um partido democrático. Passo a transcrever um pequeno excerto do famoso debate de 1975 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares em que se discutia o VI governo provisório onde estavam presentes todos os partidos com assento parlamentar:

Álvaro Cunhal: “Ninguém quer excluir o PPD do país, queremos excluir o PPD do governo, no país ele pode ficar se quiser, mas no governo não, se é um governo democrático não tem nada que fazer lá.”

Mário Soares: “O senhor não é o juiz disso, é o povo português! Até sucede que o povo português preferiu o PPD ao seu partido em grande maioria. Votaram mais do dobro de pessoas no PPD do que no seu partido! Como é que o senhor estende o dedo e diz “estes têm de sair do governo”? Com que direito?”

Noutra parte do debate face às respostas de Cunhal, Soares diz o seguinte:

“Os comunistas e os fascistas têm os mesmos mecanismos mentais, para eles só há contra e a favor. Ou estão comigo ou estão contra mim. Ou são comunistas ou são reacionários.”

Álvaro Cunhal nunca compreendeu verdadeiramente o que é uma democracia, um sistema onde se vota e no qual quem tem maioria governa, concordando ou não com ele ou com os seus. A melhor democracia da história do mundo para o PCP é e sempre foi a União Soviética, que tinha tanto de democracia como o Estado Novo. É preciso entender tudo isto para perceber que o PCP, independentemente das suas grandes conquistas, não é um partido linear. Serviu o seu propósito, mas a verdade é que não serve a democracia.

Um comentário

  1. O que dizer das mãos limpíssimas de sangue dos EUA e aliados que desde a queda do muro contam com mais de 30 intervenções militares desastrosas, do Koweït á Somália, passando pela Líbia, Iraque ou Síria? Cujo resultado principal foi a queda do poder nas mãos de milícias ainda mais arbitrárias e sanguinárias que os ditadores que os precederam: veja-se o caso das milícias líbias que exploram e torturam refugiados, ou os taliban no Afeganistão.

    E mesmo aqui na Europa qd em 2008 foi preciso ‘libertar o Kosovo da opressão sérvia ‘ o Ocidente não se coibiu de invadir esse território. Hoje, o mesmo Ocidente acha-se em condições morais de dizer a Putin que este não pode fazer o mesmo: “libertar a Ucrânia das forças nazis”. É gritante o cinismo latente.
    Enfim, a única postura aceitável de alguém que se diga um verdadeiro humanista é a rejeição do belicismo de Putin e da OTAN.

    Finalmente, aqueles que vindos do nada e sem um passado de participação democrática que possa comprovar as suas boas intenções, vêm sem pejo acusar os partidos que contam com décadas de convívio democrático de não fazerem falta á democracia, revelam eles sim as suas verdadeiras aspirações autoritárias e anti – democráticas

    Um abraço

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