Autoria: Joana Abreu, LEFT

Tanto quanto sei, o resto do mundo podia ser transparente. Se ninguém chocar diretamente contra mim, sinto uma tamanha indiferença por tudo o que me rodeia que não tenho a mínima necessidade de o ver. O mundo está tingido a bege-não-quero-saber, azul-pálido e cinzento-máquina. Há vantagens em estar sempre com pressa. Não ter de olhar ninguém nos olhos, não ter de ouvir ninguém tossir. A viagem de metro anestesia-me para o resto do dia e, se for preciso, para mais dois ou três.

Houve um tempo em que as vontades dos homens sobrevoavam as cidades como águias com frinchas escuras mas reluzentes e acutilantes no lugar dos olhos. Agora as vontades dos homens estão enterradas no chão. A sociedade é uma máquina por si, o motor é a inércia, a inércia é a indiferença por se continuar a fazer o que sempre foi feito ou, quiçá, um pouco de nada mais. Por entre os setes da semana, os vintes e quatro dos dias e os sessentas perdidos no meio do tempo, não há nada de distinto, nada de saboroso nem nada que suscite a mais leve repugnância, a mais leve fúria ou comoção.

Mas há dias em que a minha letargia se racha. Há dias em que urge no mais transparente dos homens um profundo desejo. Este desejo não é claro: muitas vezes não passa de uma estranha dormência que começa no meio das unhas e acaba nos nervos das costas. É neste momento que os assobios dos que limpam o chão e dos que furam paredes se cruzam num momento fátuo de harmonia que rapidamente se dissolve no tempo. Estes homens transparentes nasceram grandes e fizeram-se pequenos. Quando não puderam diminuir mais começaram a ficar sem cor.

Quando os assobios dos homens transparentes se cruzam e os desejos se tornam intensos ao ponto de partir vidros, as cordas do trabalho, os grilhões da cidade-máquina não passam de linhas de coser. Basta esse segundo para os homens se quererem fazer animais, se quererem fazer humanos, quererem dormir e comer e amar sem limites horários. Para os homens transparentes, esta certeza dura um instante, mas, para mim, é o peso que carrego nos ombros.

Sinto-me amordaçada. Acorrentada a tantas outras pessoas que se levam a si mesmas como quem carrega lampiões com luzes meio apagadas. Sinto-me adiada. As minhas vontades comeram-se e metamorfosearam-se ao ponto de se transformarem nas vontades de outrem. Esta vida faz-se só e em constante movimento. Por cidades e países e carros e ruído e sem ninguém.

Na cama de cartão de um homem ébrio de transparência, dorme a cegueira da urbe. Este homem invisível dorme ao relento. Este homem é o produto da organização, da hierarquia e da tecnologia. Quando passo por este homem, não o vejo, nem eu nem ninguém. Este homem é o arquétipo da invisibilidade. Há homens que brincam com palavras e há homens que limpam merda.

Pergunto-me se as casas de antigamente cheiravam a pão e rosmaninho ou se as palavras eram cálidas e suaves. As casas de hoje são comboios em linhas retas. São frias. Os passageiros evitam cruzar o olhar com estranhos e vêm emparelhados com um ecrã que entretém.

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