Homo Sapiens: a espécie mais “inteligente” do reino animal, que tem um bloqueio cerebral e falta de sono quando está apaixonada, faz coisas estúpidas por amor, sofre horrores quando tem um coração partido e mais de metade das músicas e filmes que consome são à volta deste conceito.

No fundo, é isto que nos define como espécie, esta capacidade de nos ligarmos aos outros e criarmos laços, tanto amorosos como de amizade, enquanto outros tristes animais estão apenas a tentar sobreviver. Mas nós evoluímos de espécies que há milhares de anos atrás estavam também apenas preocupadas em sobreviver. O que é que aconteceu que nos tornou tão dramáticos e levou William Shakespeare a escrever Romeu e Julieta?

Autoria: Rita Fontes, MEBiom (IST)

De notar que vou maioritariamente falar sobre amor romântico entre macho e fêmea porque é esta a origem do conceito, uma vez que está associado à reprodução. Mas já estamos no século XXI, por amor de Deus, e quem quiser pode-se amar à vontade porque temos mais que fazer do que só produzir descendência. De qualquer forma, o amor romântico parece ser algo particular ao ser humano. Mas isso não é o único traço que parece ser só nosso, o conceito de escolher pessoas aleatórias e chamá-las de amigos e aturar-nos mutuamente nas adversidades da vida também não é comum a muitas espécies.

O que os seres humanos têm em comum com a maioria dos mamíferos trata-se do laço forte entre mãe e cria [1]. Portanto, podemos considerar que o amor materno é a forma mais pura e primitiva de ligação emocional entre dois indivíduos e talvez a origem de todas as outras formas de amor. 

Os instintos maternos dos mamíferos também tiveram de vir de algum lado. Nos répteis, por exemplo, é comum as mães abandonarem os ovos à sorte, portanto não teremos lagartos fêmea como mamãs do ano – nada contra as capacidades maternas de sportinguistas. Para quem não sabe, a palavra mamífero vem de mammalia, que em latim significa basicamente “possuidor de seios” (bonito, eu sei). Ao longo da evolução surgiu esta classe de animais diferenciada pela capacidade de lactação para alimentar as crias. A amamentação em si poderá ter sido a origem dos laços mais fortes entre mãe e cria: de um lado um sentido de proteção, do outro um sentido de dependência e de ser cuidado [1].  

Milhões de anos mais tarde, esta é a história de como a tua mãe vai sempre dizer que és lindo mesmo quando mais ninguém diz e de como te vais sentir sempre perdido se deixares de a ver no supermercado. Mesmo que tenhas 22 anos, telemóvel e a chave do carro.

Piadas à parte, foi talvez aqui que os animais começaram a formar relações minimamente afetuosas entre eles. Neste ponto, os machos eram maioritariamente fornecedores de genes e pouco mais contribuíam para a história. Respeito pelas mães solteiras da evolução, mulheres fortes e independentes que não precisavam de um homem.

Pensa-se que o amor romântico tenha surgido há cerca de 6 ou 7 milhões de anos atrás, depois de nos termos separado dos nossos primos chimpanzés e antes de haver uma separação entre sapiens e neandertais [1]. E já que tocamos nestes últimos, descobri nas minhas leituras de Verão que existiam envolvimentos não só sociais, mas também sexuais entre neandertais e sapiens e que temos alguma herança genética desses a quem recorremos para chamar limitado (para ser simpática) a alguém. Neandertais, que eram mais diferentes de nós na altura do que qualquer outro ser humano atualmente, se quiserem parar um momento para fazer considerações sobre a evolução do racismo e da xenofobia [2]. Isso sim, seriam histórias de amor dignas das salas de cinema no São Valentim, qual 50 Sombras de Grey.

Na verdade, é aqui que a coisa fica interessante (antes da parte dos neandertais, aí entusiasmei-me). Há uma teoria particularmente mórbida para a origem do amor e só por ser mórbida eu gosto dela-desenganem-se se acham que eu estou a escrever este artigo por ser uma eterna romântica

Com a evolução, os primatas, para além de desenvolverem laços emocionais, também precisavam de cérebros cada vez maiores para lidar com isso tudo. Consequentemente, os bebés começaram a nascer com cérebros menos evoluídos para que se pudessem desenvolver no seu esplendor no mundo cá fora, moldados consoante os estímulos que recebem (plasticidade cerebral). Consequentemente, os bebés primatas são particularmente dependentes das mães. 

Onde é que surgiu o problema? Em muitos primatas, a mãe não vai estar sexualmente disponível até ao desmame do seu bebé. Se o macho quisesse chegar até ela, teria de matar o bebé primeiro. Escalou depressa, eu sei. Há, portanto, quem defenda que 1/3 dos primatas pratiquem monogamia para prevenir infanticídio-caso não tenham percebido, isto não é a vossa típica leitura do dia dos namorados.  Mas quando os pais começaram a ajudar e a criar laços com as crias, estas tinham mais hipóteses de sobreviver e as espécies começaram a prosperar com esta coordenação: a evolução favoreceu a monogamia [3].

Obviamente, esta ideia do infanticídio é um pouco controversa. Há quem defenda apenas um patriarcado mais simples em que os machos não queriam que mais ninguém procriasse com a respetiva fêmea e daí surgiram as famílias. De qualquer das formas, o mote para as relações românticas parece ter sido um pequeno apêndice das relações das mães com as crias e foi favorecido pela evolução [3].

Há mais evidência disto se formos analisar todo o processo hormonal que está por trás do romance. Acho que nalgum ponto já nos deparámos com considerações relativas às diferentes fases do amor, uma vez que é interessante perceber como algo vendido como inteiramente espiritual é tão controlado por químicos dentro do nosso corpo [3][4]:

Fase 1: luxúria, o desejo sexual. Nada surpreendente se considerarmos que a história acima começou com os pais das crianças. Aqui temos as hormonas sexuais a bombar: testosterona e estrogénio. 

Fase 2: atração, a fase da paixão, altamente explorada por Hollywood. Repleta de acontecimentos químicos. Dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa, está em alta. Ao estarmos com o(a) amado(a) temos a mesma sensação de quem ganhou um prémio, comeu uma fatia de bolo de chocolate ou, até, consumiu droga. Em supressão temos, contudo, serotonina, que normalmente nos acalma. Explica estarmos constantemente a pensar no(a) amado(a) como se fosse uma obsessão e termos preocupações parvas e pouco lógicas. Por fim, também temos norepinefrina (literalmente adrenalina) a aumentar o nosso ritmo cardíaco e fazer-nos suar e corar. Pela milésima vez na vossa vida: não é assim tão errado dizer que o amor é uma droga.

Contudo, seria impossível vivermos constantemente nestas fases. Já foi demonstrado que ambas bloqueiam de alguma forma o córtex pré-frontal [4], responsável pelo pensamento racional, portanto ficamos mesmo ceguinhos. Não seria nada prático para o mundo se estivéssemos constantemente em períodos em que a qualquer momento pudéssemos cometer uma loucura por amor, portanto depois daqueles meses loucos iniciais de relação surge a fase 3.

Fase 3: Ligação, a fase calma onde se estabelece um compromisso duradouro. Basicamente é aqui que se vê se a coisa é para manter. Há duas hormonas principais. Por um lado, temos a oxitocina, produzida durante relações sexuais ou contacto físico no geral, que aumenta a sensação de calma, segurança e satisfação. Por outro lado, também temos vasopressina, produzida após relações sexuais, bastante associada à ligação com o outro em contexto de monogamia.

Nesta terceira fase continua a haver uma sensação de recompensa, mas muito mais comedida. Curiosamente, a oxitocina também é libertada pela mulher durante o parto e a amamentação. As ligações entre dois parceiros a longo prazo não são assim tão diferentes das ligações entre mãe e filho(a), estando baseadas em processos hormonais semelhantes, apesar de ocorrerem por vias diferentes, o que valida as hipóteses apresentadas [3].

Portanto, eu penso que este artigo, apesar de ter amor romântico no título, acabou por honrar mais o amor de uma mãe do que qualquer outra coisa. No entanto que fique a nota que, apesar de muitas vezes nos chamarmos de egoístas e destrutivos como espécie (o que somos nalgumas coisas), foi graças à nossa capacidade de criarmos laços e cooperarmos que chegámos tão longe na escala da evolução e talvez seja mesmo isso o que nos torna mais humanos no sentido filosófico da palavra.

Referências

[1] The Conversation, “The Origin and Evolution of Love”

[2] El País, “O sexo de neandertais com outras espécies demonstra que eram muito mais sociáveis do que nós”

[3] BBC, “The Sinister Reason Why People Fall in Love”

[4] MyMed, “The Stages of Love”

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