Autoria: Diogo Fernandes (LEMat), Maria Paixão (LEBiol) e Rodrigo Machado (LEFT)
O recente corte no financiamento da FCT trouxe o assunto do futuro da investigação científica em Portugal de volta ao centro da discussão. Aproveitando este facto, o Diferencial quis tentar perceber o atual estado da investigação científica no IST e quais são as perspetivas para o futuro.
Após a entrevista com a professora Ermelinda Maçoas publicada ontem pelo diferencial, hoje divulgamos o testemunho da Dra. Dora Sousa. Doutorada em Química pela Universidade de Reading, atualmente é investigadora contratada do Idmec, onde coordena projetos relacionados com a valorização da pedra natural e materiais sustentáveis.

Fonte: IDMec https://www.idmec.tecnico.ulisboa.pt/research-groups/mechanical-design/people/
Questão: Começou o seu doutoramento em 2008. Na altura quais eram as perspectivas para esta área?
Resposta: Na altura havia uma escassez de oportunidades na área, especialmente no que diz respeito a perspectivas de progressão dentro das empresas. Os salários eram bastante baixos, e muitas vezes os empregadores, que possuíam qualificações mais baixas que as pessoas que empregavam, não valorizavam a formação e experiência dos profissionais.
Questão: Quais são os prós e contras de trabalhar neste meio?
Resposta: A maior vantagem é sem dúvida a flexibilidade de horário. No entanto, é necessário candidatar-se constantemente a fundos que garantam a continuidade do trabalho desenvolvido, o que traz muita instabilidade. Além disso, as restrições impostas nas candidaturas dificultam a aquisição de equipamentos, o que dificulta o nosso trabalho.
Questão: Como é que se explica o facto de noutros países o ramo da investigação científica não ser tão precário quanto em Portugal?
Resposta: No estrangeiro, a grande maioria dos doutorados são integrados na indústria, fundam start-ups, entre outras coisas. São profissionais como qualquer outro, tendo acesso a uma carreira como outra profissão qualquer.
Questão: Na sua opinião, o diploma publicado pelo governo no final de agosto de 2016, que pretendia fomentar o emprego científico, levou de facto à integração de pessoas nos quadros efetivos das instituições?
Resposta: Sei que em algumas instituições, como o LNEC, houve investigadores que foram efetivados através do Prevpap. Contudo, nas universidades não conheço nenhum caso em que, após os 6 anos, os contratos tenham sido efetivados. Isto mostra a medida não foi bem aplicada, pois sem haver uma captação de financiamento é dificil integrar estes profissionais nas intituições.
Questão: Sente que a constante necessidade de renovação do contrato faz com que os investigadores se sintam inerentemente mais pressionados a publicar artigos e que tal pode contribuir para o declínio da qualidade das publicações científicas em Portugal e inclusive levar a um aumento do número de casos de manipulação e fabricação de dados na investigação científica?
Resposta: Tenho a impressão de que, em geral, as publicações nem sempre têm a qualidade desejada. Há muitos artigos com falhas no inglês, artigos que não explicam claramente a metodologia utilizada, vários artigos semelhantes, com mudanças na ordem do nome dos autores, entre outras falhas.