Com o número de novas publicações científicas em tendência anual crescente, a garantia de que as mesmas foram sujeitas a um rigoroso escrutínio e verificação diminui em igual medida. A Ciência, que durante séculos lutou para se distinguir de dogmas religiosos, vê o progresso de novo assente em crença – na honestidade dos investigadores. Como um divórcio incompleto de um casamento nunca planeado.

Autoria: Mª Teresa Parreira, MEBiom (IST)


A Ciência sempre primou como instituição criadora de conhecimento por quebrar o elitismo messiânico que, durante tanto tempo, monopolizou a opinião popular e a tomada de decisões. Ao invés de ser apoiada em testemunhos de Homens tocados pelo divino, a Ciência pede procedimentos verificáveis, demonstração. Isso torna-a universal, pois qualquer indivíduo que invista na formação necessária consegue compreender o processo que levou à criação de conhecimento – se é Ciência, todo o argumento é deixado com prova.

O método científico, como é imperativo, evoluiu e foi sendo afinado de forma a provocar a rutura com ditos de Fé. Uniformizaram-se as noções que conduzem a novas descobertas para que o fio lógico que une A a B não seja nunca perdido de vista, quebrado, ou envolto em nós tão intrincados que só podem esconder falsas conclusões. Assim, com resultados progressivamente mais fiáveis, desenvolveu-se a tecnologia que nos trouxe ao panorama científico atual: anualmente, são publicados cerca de 2.5 milhões de artigos científicos, perfazendo uma média de cerca de 5 publicações por minuto. Na base Pubmed, contabilizando publicações que incluem o termo “covid-19”, obtém-se o impressionante número de 5896 correspondências apenas para o mês de abril.

Quando a quantidade de novas informações deixa de ser um problema, o foco recai sobre a qualidade. A variedade e grande número de revistas científicas – em 2014, ascendia aos 28000[1] – vem tornar ainda mais livre o “mercado” da Ciência, fornecendo uma voz às pequenas descobertas; contudo, o sempre crescente número de textos publicados sob condições de verificação pouco comprováveis traz uma inegável diminuição da confiança depositada nos mesmos. Adicionalmente, e em campos da Ciência que podem envolver protocolos dispendiosos ou demorados, a reprodução dos resultados chega mesmo a ser inviável e assim se tornaria também progresso nessa área.

Qual a garantia, então, de que são legítimas as conclusões? Terão havido resultados omitidos ou alterados de forma a contar uma história apelativa o suficiente para que possa ser partilhada? Como estudantes, saberemos talvez bem demais como contornar as falhas no nosso trabalho de forma a construir algo que cumpra objetivos delineados pelos docentes – como, então, certificar que investigadores pelo mundo fora não estão a fazer o mesmo?

Eis-nos a retroceder nos princípios de objetividade e rigor tão orgulhosamente adotados para pôr em prática o atual método científico – por ser impossível verificar escrupulosamente todos os resultados publicados, vemo-nos obrigados a confiar cegamente na Ética científica, nos princípios morais que colocam a honestidade e franqueza em primeiro plano no que toca a investigação. Assim, e ironicamente, a rutura regride e a Ciência retoma como base a Fé. O ritmo de surgimento de novas descobertas força-nos a fugir à imparcialidade que tomámos como alicerce e a adotar a priori a crença de que, quando a escolha é entre abandonar uma hipótese ou publicar falsos achados, a intenção de criar verdadeiro conhecimento se sobrepõe a quaisquer outros interesses (financeiros, políticos?); uma perspetiva que é, infelizmente, utópica,  pois o mundo real recheia-se com frequência de pressões que rumam contra a moral que qualquer investigador apaixonado pela Ciência assume quando entra no campo.

Estamos a bordo de um comboio de progresso sem previsões de abrandamento, tornando inevitável o agravamento desta tendência de deixar por reproduzir resultados e aceitar conclusões (até que o poder computacional evolua para revolucionar o paradigma atual). Restar-nos-á, por enquanto, aguçar o nosso sentido crítico, transformando a Fé onde a religião falhou – ser inquisitivos sem gerar uma Inquisição.


[1] BOON, Sarah (2017), “21st Century Science Overload“, Canadian Science Publishing, 07 de janeiro.

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