Quantas vezes, ao longo do teu percurso académico, te questionaste se estarias no curso certo? E agora, depois de tantas aulas, trabalhos e noites mal dormidas, tens o diploma na mão e deparas-te com a questão inevitável: “o que vou fazer agora?” Cada vez mais há uma pressão sobre os jovens para escolher a “tal” carreira de sucesso. Mas qual é a definição de sucesso para ti? 

Autoria: Tânia Stattmiller, MEQ

Quando era pequena, costumava pensar no que queria ser quando crescesse. “O que queres ser quando fores grande?” era a pergunta que mais ouvia dos meus familiares ou professores enquanto passava do ensino primário para o básico, sem nunca tomar consciência do seu verdadeiro significado. Respostas como “gostava de ser astronauta e voar até ao espaço”, “quero ser médico e salvar pessoas” ou “quero ser cantor e aprender a tocar guitarra” são bastante comuns na idade em que a nossa única preocupação é acabar os trabalhos de casa para depois ir brincar ou comer todos os legumes ao jantar, para a mãe não se chatear. Absorvemos como esponjas o que nos rodeia e aquilo que vemos, com a pureza e ingenuidade que caracterizam uma criança. No entanto, à medida que vamos crescendo, tomamos consciência da realidade que nos rodeia e do suposto papel que um dia iremos desempenhar na sociedade. Começamos a perceber aquilo que gostamos, a formar a nossa personalidade e deixamos de ser as crianças que um dia sonharam voar até ao espaço. Aos poucos, vamos construindo as bases do nosso carácter e apercebemo-nos da realidade pura e dura que é vir a ser adulto, com todas as responsabilidades inerentes a essa realidade.

 “Quando é que, de facto, sabemos que já somos grandes?” A pergunta pode ser diferente de pessoa para pessoa, pode ter o mesmo significado ou outro completamente díspar e pode ser feita em períodos diferentes da vida. No entanto, algo que todos temos em comum é que, pelo menos uma vez na nossa humilde e curta existência, nos questionámos onde, de facto, pertencemos e qual o nosso papel na sociedade.

Aos 17 anos, somos confrontados com a ideia de termos de escolher a profissão que iremos “supostamente” desempenhar o resto da nossa vida. Para mim, esta decisão era, no mínimo, assustadora. Lembro-me de estar rodeada dos meus colegas e amigos, a escassos meses de acabar o ensino secundário, e ver que muitos deles sabiam o lugar que queriam desempenhar e a faculdade onde queriam entrar. E, depois, existia eu. Sei que não era a única a estar nesta situação, mas, na altura, sentia-me como se fosse a única que não fazia ideia do papel que queria ter no futuro. 

Quando entramos na faculdade, entramos numa realidade completamente nova, uma realidade de preparação que antecede o mercado de trabalho. “É isto que eu quero? Não sei. “, “Faz sentido estar a tirar este curso? Não sei.” Apercebi-me que estas e outras perguntas começavam a surgir frequentemente, como se se encontrassem adormecidas, mas, como se, no meu subconsciente, eu soubesse que sempre lá tinham estado. 

Sentia-me uma ilha. Uma ilha num arquipélago de pequenas outras ilhas, ilhas estas, isoladas de mar, cada uma com as suas dúvidas, inseguranças, sonhos e incertezas. E, como ilha que era, tentava construir a minha ponte para a sociedade, levar o meu barco a ancorar num porto seguro. Mas, no meio de tantas outras ilhas como eu, não me podia deixar de comparar com as que tinham melhor areal, maiores e imponentes falésias. Falésias inultrapassáveis que pareciam sobreviver à erosão, aos ventos e ao próprio medo do desgaste pelo tempo. Aquilo que não nos contam, e que não vemos, é que o mar acaba por erodir a rocha. Grandes falésias dão lugar a pequenos rochedos, que, mais tarde, formam o areal, areal este que é comum a todas as ilhas. 

Na época em que vivemos, uma época maioritariamente dominada pela tecnologia e pelas redes sociais, a sociedade impõe-nos a necessidade de ser ilhas perfeitas, de estar em constante movimento e atividade e de saber, desde uma idade precoce, onde ancorar o barco da nossa vida profissional. Somos constantemente bombardeados com informação que consumimos em segundos; imagens de vidas ativas, completas e definidas e ripostamos com opiniões sobre as quais não refletimos ou não nos identificamos, com o único objetivo de sermos aceites pelas outras ilhas. E, entre a confusão e a agitação do quotidiano, o medo de não se conseguir atingir as expectativas que os outros formam para nós, apodera-se da nossa vida. Somos, por isso, uma sociedade arquipélago. Todos queremos o nosso espaço, mas tentamos desesperadamente unirmo-nos a outras ilhas. Cada um depara-se com esta luta e, a certo ponto, este comportamento torna-se desenfreado e excessivamente competitivo. Muitas vezes, isto leva-nos a desempenhar um papel que nada tem a ver com quem realmente somos.

Porém, a história não acaba com a faculdade. Estando eu na reta final de acabar o meu curso superior, dou por mim a voltar à pele da menina de 17 anos, que acabou o ensino secundário, e a questionar-me ainda com as mesmas dúvidas e incertezas de outrora. Acabamos a faculdade, ingressamos no mercado de trabalho e voltamos a ficar presos ao mesmo labirinto. A maior parte dos recém-licenciados tenta desenfreadamente procurar aquela “carreira de sucesso”, para corresponder a uma certa expectativa que têm sobre nós, e desempenha um papel que nada tem a ver com quem realmente somos. Será isto assim tão comum? 

No tempo dos nossos avós, o trabalho era para a vida. As pessoas cresciam, formavam família, mudavam de casa, mas uma coisa era comum, o trabalho mantinha-se ao longo dos anos da carreira do indivíduo. Hoje em dia, a situação é bem distinta. Como sociedade arquipélago que somos, estamos em constante movimento. Os jovens adultos de hoje não permanecem muito tempo no mesmo local de trabalho. Porque será que, de facto, isto acontece? Será somente porque queremos sempre mais e melhor? Ser igual aos outros? Ter o mesmo que os outros? Ou porque, em qualquer momento da nossa vida académica, nunca tivemos tempo para pensar no que realmente queríamos fazer e deixámos a sociedade ditar as regras da nossa vida? 

Somos robôs. Somos os espectadores e não os que controlam as ações, somos levados por uma linha invisível que a sociedade teceu para nós. Não há tempo para parar porque qualquer sinal de abrandamento é visto como fraqueza. A constante mudança de emprego é muitas vezes o sinal de que procuramos algo que preencha o vazio que vivemos. Pura e simplesmente temos medo de seguir os nossos sonhos. Resignamo-nos com a ideia de que, se eu não sei o meu lugar, então é porque há algo de errado comigo, que, de alguma forma, falhei. E esta ideia de falha está presente para onde quer que desviemos o nosso olhar. A pandemia veio, de certo modo, intensificar estes sentimentos, e a verdade é que hoje, mais do que nunca, esta geração se depara com problemas de ansiedade, frustração e depressão.

Sei que em algum momento da nossa vida nos deparamos com estas questões e é normal ainda não saberes quem és ou o trabalho que deverás ocupar um dia. O que venho desmistificar é que não estás sozinho. Há quem, desde cedo, saiba o seu papel no mundo, e, para essas pessoas, talvez este texto não se adeque. Mas, assim como eu, que sempre pensei ser a única com estas crises existenciais, a verdade é que não sou. Não faz mal mostrar fraqueza, porque admiti-lo, em primeiro lugar, já é um sinal de coragem.

Não existe uma idade certa para se perceber o que estamos destinados a ser e a fazer. Há quem o saiba desde cedo, há quem nunca o venha a saber. Ninguém é igual a ninguém e isso é o que nos torna especiais. Temos de parar de ter medo de arriscar. O princípio ou o fim de algo és tu que o decides. 

O que é suposto fazer quando acabarmos o curso? As hipóteses são infinitas. Podemos viajar, fazer voluntariado, começar a trabalhar, tirar outro curso até. Muitas vezes descobrimos aquilo que queremos pela experiência prática do trabalho ou o contacto com os outros. Mas, qualquer que seja a nossa escolha, acredito que o que temos que pensar é o porquê de seguirmos determinado caminho em detrimento de outro. Que o estamos a fazer pelas razões certas e não a cumprir um qualquer objetivo que os outros tenham para nós. Vivemos num país onde somos privilegiados com acesso à educação e, tendo esta oportunidade de estudar e livre-arbítrio na decisão da área profissional, a questão que falta colocar é o porquê de não o estares a fazer. Não exijas de ti mais do que aquilo que exigirias do outro. Não és mais forte nem melhor do que ninguém. Nem finjas. Erra se tiveres de errar. Recomeça se tiveres de recomeçar. Mas olha bem à tua volta, porque irás encontrar outras mãos. As mãos daqueles que fingem e que tu achavas felizes. Dá-lhes a mão e explica-lhes que a felicidade é efémera e de que nada lhes valerá fingir. Explica-lhes como eu te estou a explicar a ti. Porque este texto é para nós. Ilhas protegidas de mar, mas que começam a construir o seu próprio areal.

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