O mistério que nos assombra é o de saber se em cada acto da nossa existência nos construímos ou destruímos, se caminhamos pela estrada que nos embala ou se nos desviamos do caminho outrora visto. O que acontece quando somos chamados a existir? Principiamos um novo caminho ou terminamos uma via absorta? 

Autoria: Samuel Neves, MF (FLUL)

Ao ser humano foi dado o ânimo. Por isso é um animal, porque pode animar, pode pensar, pode destruir, pode criar, pode falar, pode mudar, pode escutar, pode estar, simplesmente pode… e porque tem esse poder, ele pode originar, ele carrega em si a origem, o arquétipo. Este originar original, pura dádiva porque dada, acompanha-o em cada momento da sua duração. Mas que duração? A que dura entre o nascimento e a morte? Mas nós não conhecemos o nosso nascimento nem a nossa morte… quem se lembra de sair do ventre da mãe? Quem sabe o seu dia último? O Princípio e o Fim estão em nós numa relação de proximidade longínqua. Próxima porque deles não nos largamos, longínqua porque são o horizonte que capta os nossos olhares. Deles temos apenas os seus modos, as suas formas, pois o ser humano pode principiar e findar, pôr um início e um fim. Enfim, pode modificar porque lhe é dado os modos do Princípio e do Fim. Modificando ele afirma-se. Ou seja, é no acto de modificar, é no enquanto que ele se afirma, que ele se ex-cessa. Ex-cessa-se porque está sempre fora do cessar ele próprio, porque não desiste, porque não consegue não principiar, porque não consegue ser ele mesmo como é para sempre. Mas também não consegue ser sempre um outro, não consegue não cessar-se em si, não consegue não findar. Há, portanto, uma preponderância no ser humano para, ao mesmo tempo, cessar-se e ex-cessar-se. Ele principia findando e finda principiando, mostrando a sua paradoxia. Realiza este acto num momento que não dura, porque não conhece verdadeiramente o Princípio e o Fim. Assim, não é na sua duração que o ser humano se afirma, mas antes no Instante. O enquanto da sua afirmação está no âmago do Instante:

“A tragédia do Instante não é que ele acabe quando surge. É que nunca tenha principiado e nunca chegue. O Instante é um monstro de que nunca ninguém viu nem a cabeça nem a cauda. Literalmente falando é semelhante à Eternidade.” 1

É deste Instante que o ser humano participa, ainda que o transcenda. É nele que está a sua condição paradoxal, pois em cada momento ele principia e finda, começa e acaba, constrói e destrói. Como é possível tal paradoxo? Qual o fundamento do fim principiado ou do princípio finalizado?

No uno que constitui o nosso indivíduo, a nossa indivisibilidade, vivem, digamos, dois seres: o eu e o eu-mesmo. Esta convivência, este diálogo, dá-se sob a presença do Tempo, que não é a sucessão de instantes que podemos ver nos relógios. Nestes, há um presente que está entre um passado e um futuro, mas no Homem vive um tempo mais complexo, que conjuga estes três momentos temporais que, para Heidegger, num sentido que lhe é próprio, são os momentos estruturais do ser-aí [Dasein]2: quanto ao passado, sendo o ser humano um ser-lançado, ele é já sendo antes de qualquer consciencialização ou decisão, vivendo, de certa forma, determinado por este lance, por este empurrão; o futuro, também sempre presente na estrutura do ser, é abertura de possibilidades com as quais ele se confronta decidindo em pleno acto de liberdade; quanto ao presente, o ser transparece um ser-em-queda, um ser caído que urge elevar-se, é um ser que sente a presença de uma ausência preenchida na aurora do canto da primavera. 

É na conjugação destes três momentos estruturais que nasce o arcabouço paradoxal do ser humano, que é um sendo-humano, pois “o homem é sendo”3. Na condição de ser-lançado e na condição de ser-para-a-morte, ele existe ex-sistindo, existe aberto ao possível, recusa encerrar-se em si e abraça as possibilidades pelas quais se constrói. Mas para a sua construção, o Homem implica-se na sua de-cisão, Ele constrói-se destruindo-se, ele ex-cede-se cedendo-se, ele une-se de-cindindo-se. Isto porque ele mesmo é a pedra a lapidar e o escultor que a lapida; é a tela e o pintor da mesma; é o jardim por cuidar e o jardineiro; é o campo por lavrar e o agricultor; é o poema por clamar e o poeta; é a canção por cantar e o cantor; é o pedaço de barro e o oleiro; é o que está por criar e o criador. Só a morte pode parar esta dinâmica:  

“O nosso ser é um barro em automodelação constante. Só a morte lhe tira o pano molhado de lágrimas, concluindo a obra de arte.” 4

Não se pense, portanto, que este paradoxo é um absurdo! O paradoxo, por ser intrínseco à ação humana, no sentido mais abrangente do termo, é menos uma determinação que uma possibilidade de ser, pois o sendo humano, não o esqueçamos, tem como fundamento a liberdade! É através desta que ele se modela, se esboça, se oferece para a morte.

Desengane-se quem vê na morte apenas um fim, pois ela é também um princípio. Morrendo é que damos à Humanidade a obra que fomos, templo vivo em ruínas, lágrima de água pura num séquito deserto, semente fecunda em terra de indigência, luar divino na noite sombria, Atlântida encontrada num mar perdido, Ilhas Afortunadas em águas embriagadas.

Referências:

1 LOURENÇO, E.,2016. Obras Completas –Tempo e Poesia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p.293

2 BLANC, M., 2018. Estudos sobre Heidegger. Lisboa: Guerra e Paz, p.132.

3 FERREIRA, V., SARTRE, J., 2012. O Existencialismo É Um Humanismo – Da Fenomenologia de Sartre, Lisboa: Quetzal, p. 83.

4 PASCOAES, T., 2002. São Paulo, Lisboa: Assírio & Alvim, p.250.

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