Mudança é algo que acontece constantemente na nossa vida. No entanto, há mudanças  e mudanças. Pequenas que vão caindo na monotonia do dia a dia e grandes que alteram a nossa vida de maneiras que, muitas vezes, nem imaginávamos. São  normalmente estas grandes mudanças que vamos relembrando, e que nos moldam como indivíduos. É nesse espetro que está a entrada para a faculdade. Esse primeiro ano que algumas pessoas recordam com tanto carinho, outras com alguma desilusão. Ser caloiro é uma experiência única para cada pessoa, e hoje venho falar um pouquinho da minha.

Autoria: Joana Bonito, LEFT

Eu não fui só caloira, fui caloira COVID (não sei se tal termo existe, mas parece-me  bastante adequado). Cheguei a um campus vazio, a salas com fita sinalizadora, quase como no CSI, setas no chão a indicar caminhos, salas vazias e com um X nas mesas como se marcasse um  tesouro, e, claro, máscaras. Semana sim, semana não, com a maior parte das aulas da semana sim a serem simplesmente assistidas no piso superior da biblioteca do Central.  

Não propriamente o melhor início para conhecer pessoas. Conhecer pessoas como  quem diz conhecer nomes que aparecem no grupo de WhatsApp, e as vozes dos corajosos que,  de vez em quando, lá faziam uma pergunta ou duas por Zoom. Aliás, devo dizer que a minha  capacidade de reconhecer vozes melhorou consideravelmente – uma das vantagens de ser  caloira COVID. Com tudo isto, não quero dizer que não conhecia pessoas. Sim, aquele grupo de  15 pessoas que calhou ter o horário igual ao meu, e o seu número não acabar num múltiplo de  2, que é a minha tentativa inteligente de dizer número ímpar. Mas ganhar confiança só estando com as pessoas em semanas alternadas é difícil, especialmente quando os convívios fora  das aulas são quase inexistentes. Os primeiros tempos não foram fáceis, formar novas amizades  no meio da loucura de uma pandemia, em especial para uma pessoa tímida, foi de facto um  grande desafio. Fez-me falta o esboçar de um sorriso, o estar cara a cara, o à-vontade para  piadas. Admito que o primeiro semestre, nesse aspeto, foi bastante solitário. Apesar de estar  sempre rodeada de pessoas, acredito que todos nos sentíamos um bocadinho assim, perdidos no  meio de tantas restrições. O segundo semestre online não veio ajudar. Era da cama para a secretária, de volta para a cama. Mais Zoom, testes online e Zoom (mais treino de  reconhecimento de voz para os meus ouvidos). Com a abertura aos poucos, no final do semestre,  as coisas ficaram mais fáceis e, de repente, já não me sentia tão sozinha.  

Foi um início atribulado, diferente e inesperado, mas, no fundo, acho que todos os inícios  são assim. O que foi sobretudo diferente na minha experiência foi este início de segundo ano. Salas cheias, auditórios com tantas caras que nunca tinha visto, cantina sem lugares. Entrei em  bibliotecas que nem sabia que existiam, descobri novas salas de estudo por necessidade (não sei o que se passa à quinta-feira, só sei que nunca tenho lugar, odeio quintas). Foi uma sensação estranha chegar a um campus igual, mas, ao mesmo tempo, tão diferente daquele que tinha memória. Senti-me de novo uma caloira que não sabe onde são as salas, que nunca entrou em  metade dos pavilhões (triste, eu sei), e que ainda anda um pouco perdida no meio de tantas pessoas. Talvez não tão perdida como no ano passado, mas ainda um pouquinho. Penso que todos nos sentimos num misto semelhante de emoções. O voltar à normalidade, o que quer que isso seja. A realidade é que, no último ano e meio, habituámo-nos a uma nova normalidade e, independentemente das muitas saudades da época pré-covid, não podemos só voltar atrás como se nada tivesse acontecido. É um novo começo, um reaprender, e é assustador, pelo menos para mim foi. Todas aquelas sensações que senti na primeira semana do primeiro ano  estavam de volta, e tive de saber lidar com elas de uma forma diferente. Porque não só o mundo está diferente daquilo que era há um ano, eu também estou. 

Dois começos diferentes, para os quais pensava estar preparada, mas que, de alguma  forma, me apanharam de surpresa. Dois começos que me mudaram, que me fizeram ultrapassar  o medo e avançar. Dois começos que vou levar comigo para a vida.

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