Autoria: João Cardoso, LEIC

No programa “Zé Carlos”, o humorista Ricardo Araújo Pereira retrata a dada altura um adivinho chamado “Professor Chibanga”, que faz a ousada previsão de que no próximo dia 13 de agosto o mundo iria continuar. Face à confusão do interlocutor, que antecipava uma previsão mais apocalíptica, Chibanga explica que prever o fim do mundo é uma tarefa ingrata: se não acabar, todos apontarão o seu falhanço, mas, se de facto a previsão se concretizar, não estará cá ninguém para congratular o Professor e o seu prodigioso vaticínio. Assim, Chibanga prevê a continuação do mundo, para que possa estar presente para receber os louvores. 

O sketch foi feito há mais de uma década, e encontra-se por isso bastante datado, especialmente por ter um humorista branco a desempenhar o papel de uma personagem de ascendência africana; mas, se tivesse sido feito há mais tempo ainda, talvez a sua lição acerca de previsões ousadas pudesse ter chegado ao escritor americano Francis Fukuyama, que no seu livro de 1992 “O Fim da História e o Último Homem”, declarou que o progresso ideológico do Homem tinha chegado a um ponto final, com a popularização do modelo ocidental de democracia liberal. 

É certo que esta previsão não é apocalíptica ao ponto de não haver ninguém para elogiar Fukuyama num cenário em que esta se concretizasse; contudo, a dura crítica que este livro recebeu em certos círculos académicos é algo que Chibanga teria de facto previsto, mesmo sem recorrer aos seus poderes místicos. Segundo Fukuyama, a democracia liberal constitui o culminar da evolução dos sistemas políticos, oferecendo, face às alternativas, mais justiça e democracia; não sendo por esse motivo substituível por qualquer outro sistema, já existente ou futuro.  

É fácil de compreender a controvérsia que se criou em torno deste livro: como pode alguém anunciar o fim da história numa altura em que milhões trabalham em condições desumanas sendo parcamente remunerados, mas sem os quais o estilo de vida e a abundância do ocidente não seria sustentável? Para não falar da alienação do trabalho e precariedade que muitos dos que vivem neste “sistema insuperável” experienciam. 

Ainda assim, talvez haja alguma verdade na ideia de que o progresso ideológico já não esteja a avançar como outrora, ainda que não pelos motivos que Fukuyama aponta. Com efeito, é difícil imaginar uma alternativa às nossas democracias liberais, ou, pelo menos, uma que seja melhor, mesmo tendo passado quase 30 anos desde a escrita do livro. Está subjacente a isto também uma ideia fundamental: poderá sequer haver um fim da história? Será que aquilo que acontece está a tender para algum ponto final que possamos prever, ou meramente a evoluir de modo incerto?

Uma vez que Fukuyama defendia a primeira interpretação, há que investigar as ideias que o levaram a elaborar a sua tese. Comecemos então com uma das suas grandes influências, um dos filósofos mais ambiciosos que já viveu – Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

Hegel fazia parte da geração que veio a seguir à de Kant, e, por isso, o seu projeto filosófico parte do idealismo que Kant introduziu, que se prendia com a análise da natureza do pensamento, e acrescenta uma dimensão histórica a estas considerações. Hegel postula a existência de um Geist (frequentemente traduzido como “Espírito”), que consiste na consciência coletiva da humanidade, e que, por isso, está sujeito a evolução ao longo do tempo (é de notar que a expressão Zeitgeist – espírito dos tempos – tem origem precisamente com Hegel). Daí surge a necessidade de tentar discernir a lógica da maturação deste Geist, de modo a conseguir prever a sua futura trajetória. 

Hegel introduz, então, a noção da dialética, uma modalidade discursiva em que uma ideia provoca o surgimento de outra – a sua negação – sendo esta contradição resolvida através da “sublação” (por vezes também chamada de síntese), das duas ideias anteriores, o que origina uma nova ideia que preserva o que de melhor havia nas suas predecessoras, sendo simultaneamente uma evolução face a estas. Como exemplo disto, podemos considerar o modo como, nos EUA, o puritanismo e os “valores tradicionais” dos anos 50 foram sucedidos pelo liberalismo e subversão da década de 60, tendo a década de 70 atingido de certa forma um equilíbrio entre as duas décadas precedentes.

Vendo o evoluir da história por este prisma, e considerando a evolução da humanidade e das suas ideias desde a antiguidade até ao seu tempo, Hegel prevê que o limite deste evoluir de conhecimento e de poder será precisamente o alcançar do conhecimento absoluto, em que o Geist adquire um cariz quase divino.

E estas ideias constituíram a base da análise social de Karl Marx. Todavia, Marx subverte a dialética Hegeliana, originalmente aplicada no contexto de uma filosofia idealista; introduzindo o materialismo dialético. Ao analisar as forças e tendências laborais da sociedade, e através da lente das classes sociais, Marx faz a previsão de que a certa altura as classes produtoras da sociedade se irão revoltar, tomando posse dos meios de produção e progressivamente criando uma sociedade sem estado e sem classes – uma sociedade comunista.

Contudo, para Fukuyama, a síntese entre os ideais Marxistas e os capitalistas que ele vê na democracia liberal (e não o comunismo ou a divindade de Hegel) constitui o ponto final da evolução ideológica – a derradeira sublação. 

Mas será que atingimos um sistema para o qual não há mesmo alternativa, ou a uma simples estagnação do progresso histórico? O teórico da cultura Mark Fisher introduz o conceito de “Realismo Capitalista” no seu livro com o mesmo nome, que consiste na ideia de que o sistema capitalista em que vivemos atualmente está integrado na nossa forma de pensar de tal maneira que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que uma alternativa a este. Fisher explora esta lógica cultural através da análise da música, do cinema, da literatura, entre outros; com o objetivo de ilustrar o modo como o pensamento dissidente é comoditizado e vendido. Como exemplo disto, podemos tomar o filme “Wall-E”, cuja mensagem é marcadamente anticapitalista na sua representação de um mundo levado à destruição pelos excessos de uma megaempresa. Contudo, não só o filme é produzido com vista a ter lucro como também a sua mensagem desempenha um papel catártico na sua audiência – permite de certa forma reduzir a culpa sentida pelos consumidores ao assegurá-los que, ao ver o filme, conseguem alguma redenção ideológica. Cria-se, assim, uma distância irónica, em que se consomem produtos de forma contrariada, como se isso fosse diferente do consumo de uma pessoa apoiante do sistema.

Esta integração de mensagens anticapitalistas no próprio modelo capitalista confere-lhe uma considerável robustez ideológica, e serve de empecilho ao surgimento de novas ideias alternativas. Aliás, voltando outra vez à ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, pense-se em quantos filmes contemporâneos representam cenários apocalípticos ou distópicos, comparando com o número de representações de sociedades alternativas inovadoras – quase zero.

Fisher também não esconde a influência que pensadores da escola pós-modernista têm na sua escrita. O filósofo Jean-François Lyotard aponta no seu livro “A condição pós-moderna” que a época terminal do século XX, e por extensão os tempos que correm, são caracterizados por uma perda de fé nas chamadas metanarrativas – teorias todo-abrangentes que pretendem explicar o funcionamento do mundo (por exemplo, a dialética de Hegel, ou o Marxismo). Esta perda de fé deve-se à atomização do conhecimento em diversas esferas, frequentemente incomensuráveis, cada uma regida pelo seu próprio “jogo de linguagem”, um conceito que ele apropria de Wittgenstein e que se prende com a existência de regras discursivas que afetam o significado da fala e da escrita, dependendo do contexto. Como exemplo disto, podemos pensar em como dizer “Está tudo bem?” tem significados muito diferentes numa situação em que se cumprimenta um amigo face a outra em que uma pessoa evidencie sinais de desconforto. Assim, é dificultado o entendimento entre estas esferas do saber, regidas por lógicas linguísticas díspares, impossibilitando a elaboração de teorias que englobem a totalidade da experiência humana. Considere-se, a título de exemplo, como era possível, no século XIX, ser-se simultaneamente filósofo, matemático, físico, naturalista, filólogo, etc., enquanto, atualmente uma pessoa terá que completar licenciatura, mestrado e doutoramento para se poder tornar especialista em alguma espécie particular de plantas encontradas apenas na Mongólia setentrional.

Face a esta atomização, o avançar da sociedade torna-se, então, mais vagaroso, e passa a ser determinado não por grandes confrontos binários entre ideologias, mas por mecanismos mais orgânicos e imprevisíveis. Fukuyama confunde então esta inércia com finitude, talvez por estar a escrever meros anos após o colapso da União Soviética, o que o terá levado a tentar redigir o epitáfio do comunismo soviético, não fosse ele retornar ao mundo dos vivos.

Resta então a seguinte questão: poderemos nós fazer algo quanto ao efeito paralisante deste excesso de jogos de linguagem, de abundância de informação e de estímulos? A meu ver, a tecnologia é a única ferramenta que nos permite lidar com quantidades de informação de outra forma assoberbantes para o cérebro humano. De que outra forma poderíamos compreender as forças do mercado, ou os hábitos e preferências de milhões de pessoas? Resta-nos então a nós – futuros engenheiros e cientistas – zelar para que a tecnologia para a qual contribuirmos seja usada para ajudar as pessoas a encontrar rumo num mundo caótico e incerto, a efetivar mudança política positiva; e não para ajudar a criar algum “metaverse” concebido por um bilionário de Silicon Valley. Cabe a nós assegurarmo-nos que usamos o nosso conhecimento sabiamente. Será que no futuro o iremos conseguir? Infelizmente, só o professor Chibanga conseguiria fazer tal previsão.

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