Composição: Diogo Faustino

Fotografia Analógica: Madalena Galrinho

Fotografia Digital: Carolina Pereira, Diogo Faustino

A Europa foi e é percorrida a pé. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. As distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário.

Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível. Não há Saras, Badlands, tundras inultrapassáveis. As passagens entre montanhas têm abrigos como os parques têm bancos. Os Holzwege de Heidegger atravessam a mais tenebrosa das florestas. A Europa não tem um Vale da Morte, uma Amazónia, um outback inacessível ao viajante. Este facto determina a existência de uma relação essencial entre a humanidade europeia e a sua paisagem.

Metaforicamente, mas também materialmente, essa paisagem foi moldada, humanizada, por pés e mãos. Como em nenhuma outra parte do globo, as costas, os campos, as florestas e os montes da Europa, de La Coruna a S. Petersburgo, de Estocolmo a Messina, tomaram forma, não tanto devido ao tempo geológico como ao tempo histórico-humano.

Na filosofia e na retórica gregas, os peripatéticos eram, literalmente, aqueles que se deslocavam a pé, de polis em polis, e cujos ensinamentos eram itinerantes. Nas convenções métricas e poéticas ocidentais, o «pé», o «ritmo», o enjambement entre versos ou estâncias recordam-nos a intimidade próxima existente entre o corpo humano ao percorrer a terra e as artes da imaginação. Grande parte da teorização mais incisiva é gerada pelo ato de caminhar.

O Fufgang diário de Immanuel Kant — a sua travessia cronometricamente precisa de Konigsberg — tornou-se lendário. As meditações, os ritmos de percepção em Rousseau são os do promeneur. As extensas deambulações de Kierkegaard por Copenhaga e seus subúrbios revelaram-se espetáculo público e objeto de caricatura.

As ruas, as praças calcorreadas pelas mulheres, crianças e homens europeus são cem vezes mais designadas segundo estadistas, figuras militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos. A minha própria infância em Paris fez-me tomar, em inúmeras ocasiões, a Rue La Fontaine, a Place Victor Hugo, a Pont Henri IV, a Rue Théophile Gauthier.

As ruas em torno da Sorbonne têm nomes de grandes mestres da escolástica medieval. Celebram Descartes e Auguste Comte. Se Racine tem a sua rua, também a têm Corneille, Molière, Boileau. O mesmo se aplica ao mundo germanófono, à miríade de Goetheplatz e Schillers-Transen, às praças que devem o seu nome a Mozart ou Beethoven.

O menino da escola e os homens e mulheres urbanos da Europa habitam verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos, intelectuais, artísticos e científicos. Amiúde, a placa toponímica não regista apenas o nome ilustre ou especializado mas também as datas relevantes e uma descrição sumária.

Cidades como Paris, Milão, Florença, Frankfurt, Weimar, Viena, Praga ou S.Petersburgo são crónicas vivas. Ler as respectivas placas toponímicas é folhear um passado presente. A Place Saint-Germain tornou-se Place Sartre-Beauvoir. Frankfurt acabou de atribuir a uma praça a designação Adorno Platz.

Em Londres, a prodigalidade de placas azuis identifica as residências nas quais não apenas se pensa terem vivido cientistas naturais, artistas e escritores medievais, renascentistas ou vitorianos, mas também aqueles associados ao movimento de Bloomsbury e os modernos.

Somos bípedes capazes de sadismo indizível, ferocidade territorial, ganância, vulgaridade e todo o tipo de torpeza. A nossa inclinação para o massacre, para a superstição, para o materialismo e o egotismo carnívoro pouco se alterou durante a breve história da nossa estada na Terra. No entanto, este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente.

São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento). Radiantemente inúteis, por vezes profundamente contra-intuitivas, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus. A música é indubitavelmente planetária. Não conhecemos qualquer comunidade étnica, por muito rudimentar, que não pratique um qualquer modo de música.

O que vale a pena considerar é se quaisquer destes diversos constructos musicais ou formas executivas implicam os milagres de sentido dos significados que nos são transmitidos por Bach, Mozart, Beethoven ou Schubert. Um pequeno número de centros não-europeus contribuíram de forma fundamental para a matemática, notavelmente a Índia e, durante algum tempo, o Islão.

Mas a épica da conjectura e da demonstração matemática, das hipóteses colocadas radicalmente para além da representação material ou do entendimento comum é, na sua essência, a da Europa e, por transferência directa, da América do Norte. Pode muito bem ser que o estudo da matemática pura, das descobertas axiomáticas de Euclides à Hipótese de Riemann, do Teorema de Pitágoras à recente demonstração do Último Teorema de Fermat, seja o capítulo mais sublime, a longa hora do zénite, do ser do homem.

Uma vez mais, há momentos e sistemas filosóficos exteriores à Europa, mas o fluxo soberano da suposição e da argumentação, nomeadamente em lógica e epistemologia, dimana, como se por compulsão misteriosa, dos pré-socráticos a Wittgenstein, de Bergson a Heidegger, de Plotino a Espinoza e Kant. O nosso legado ontológico é, como Heidegger insistiu, o do questionamento. A nossa matemática tem sido «grega», pelo menos até à proposta da geometria não-euclidiana e à crise da axiomática implícita na Demonstração de Godel de incoerência. Pensar, sonhar matematicamente é seguir as pegadas de Euclides e Arquimedes, seguir as primeiras conjecturas relativamente à insolubilidade paradoxal de Zenão.

(Há) uma consciência própria escatológica que, segundo creio, pode ser exclusiva da consciência europeia. Muito antes do reconhecimento de Valéry da «mortalidade das civilizações», ou do diagnóstico apocalíptico de Spengler, o pensamento e a sensibilidade europeias tinham enfrentado uma finalidade mais ou menos trágica.

A Cristandade nunca abandonou completamente essa expectativa de um fim para o nosso mundo que marcara tão profundamente os seus dias primevos, sinópticos. Muito depois daquilo que os historiadores denominaram como «o pânico do ano mil», as profecias de condenação escatológica e as numerologias que procuram fixar a sua data povoam a imaginação popular europeia. Mas estas expectativas colheram adeptos não apenas junto dos menos cultos. Ocuparam o espírito de, nada mais nada menos, Newton.

Num formato secular, intelectualizado, encontra-se explicitamente na teoria da história de Hegel um «sentido de um final», tal como se encontrara na formulação pomposa de entropia, de Carnot, da extinção inevitável de toda a energia. Pensemos nas representações panorâmicas das cidades europeias em chamas ou assoladas por terríveis inundações que constituem um aspecto deveras curioso da arte romântica.

É como se a Europa, diversamente de outras civilizações, tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História. A língua alemã tem uma palavra que não podemos traduzir, como sucede frequentemente: Geschichtsmude — cansado da História. É uma palavra muito bizarra e obsidiante.

A Europa esquece-se de si própria quando se esquece de que nasceu da ideia da razão e do espírito da filosofia.

O perigo, conclui Husserl, é «um grande cansaço».

No preciso momento em que Husserl se exprimia, o barbarismo assolava uma vez mais a Europa, tal como não tem cessado de fazer. Significará isto que a ideia de Europa chegou ao fim, que não tem qualquer futuro substantivo?

Esta é, certamente, uma possibilidade distinta. Corresponde aquela lógica de mortalidade existente em civilizações e ideologias e que já referi. Ou haverá vias de esperança ainda a merecer exploração?

O pouco que posso propor é a noção de que podemos ter estado a fazer as perguntas erradas. Que, aparentemente, os fatores dominantes a que aludi não são, na análise final, completa ou mesmo principalmente determinantes. Pode ser que o futuro da «ideia de Europa», a haver algum, dependa menos de um banco central e dos subsídios à agricultura, do investimento em tecnologia ou de taxas alfandegárias comuns, do que nos querem fazer crer.

Pode ser que a OCDE ou a OTAN, a maior extensão do Euro ou das burocracias parlamentares segundo o modelo do Luxemburgo não constituam a dinâmica primordial da visão europeia. Ou se, efetivamente, o forem, essa visão dificilmente seja capaz de empolgar a alma humana. Assim, permiti-me que aponte, de uma forma inevitavelmente amadora e provisória, umas poucas possibilidades a merecer exploração se pretendermos que a «ideia de Europa» não tombe naquele grande museu de sonhos passados a que chamamos História.

Os ódios étnicos, o nacionalismo chauvinista, as reivindicações regionais têm sido o pesadelo da Europa. A limpeza étnica e o genocídio tentado nos Balcãs constituem apenas o exemplo mais recente de uma praga que se estende à Irlanda do Norte, ao território basco e às divisões entre flamengos e valões. A disseminação mundial da língua anglo-americana, a padronização tecnológica da vida quotidiana, a universalidade da Internet, são legitimamente considerados grandes passos rumo a uma eliminação de fronteiras e ódios antigos.

A expressão ressonante de Shakespeare «uma habitação local e um nome» identifica um caráter definidor. Não há «línguas pequenas». Toda a língua contém, articula e transmite não só uma carga única de recordação vívida, mas também uma energia em evolução dos seus tempos futuros, uma potencialidade para o amanhã. A morte de uma língua é irreparável, reduz as possibilidades do homem.

Nada ameaça a Europa mais radicalmente — «as suas raízes» — do que a onda detersiva e exponencial do anglo-americano, e dos valores e imagem mundial uniformes que o Esperanto devorador traz consigo. O computador, a cultura do populismo e o mercado de massas fala anglo-americano desde as discotecas de Portugal ao império de comida rápida de Vladivostok. A Europa morrerá efetivamente, se não lutar pelas suas línguas, tradições locais e autonomias sociais. Se se esquecer que «Deus reside no pormenor».

Citações de “A Ideia de Europa” de George Steiner

Leave a Reply