Inquietantemente humano. Escatológico. 

Autoria: Teresa Pires, MEQ (IST)

Em 2003 dava-se a conhecer aquele que viria a ser um dos maiores ícones cinematográficos do género neo noir. Mais do que os prémios vencidos, foram as críticas apaixonadas que o promoveram a um estado de graça irrevogável.

O género não permite revelar muito sem revelar demais. Do enredo apenas se pode desvendar a história de um homem banal que, sem razão aparente, é raptado e forçado a passar quinze anos em cativeiro. Quando libertado, são-lhe concedidos cinco dias para encontrar o raptor e ver saciada a sua sede de vingança.

Simplificado desta forma, parece não transcender o mais comum argumento de um thriller com apontamentos de terror psicológico. Contudo será errado e injusto pensar neste filme com tamanha leviandade.   

O argumento sinistro e sinistramente introspetivo baseia-se num manga japonês do mesmo nome e é adaptado de forma magistral pelo realizador sul coreano. A narrativa crua e sincera cria um ambiente de cortar à faca que tanto prende a atenção como fere a sensibilidade.

Nesta história não há espaço para moralidades ou para juízos, pois a crueldade das circunstâncias e da natureza sobrepõe-se. Dor, revolta e repulsa são sentimentos assíduos em qualquer espetador, diretamente destilados das dilacerantes e abjetas (humanas) reviravoltas.

Quanto às personagens, muito se poderia escrever sobre a sua complexidade, principalmente acerca da forma genial como a sua metamorfose é retratada. Contudo, mais uma vez, poder-se-ia comprometer a surpresa que o filme guarda. 

As sequências são construídas, inteligentemente, para desarmar e chocar a plateia. Todos os pormenores contam e nada é deixado ao acaso.

O esquema cromático é um dos aspetos que torna este filme tão brilhante e que o transforma numa impactante experiência psicológica. As cores e luzes são escolhidas de forma a preparar, subtilmente, o subconsciente do espetador para a derradeira revelação, enquanto que o encadeamento lógico despista a sensata razão, culminando num desfecho agressivo a que ninguém sai incólume.

A violência é outro marco de destaque. A violência das imagens e a violência das ideias  pode incomodar, mas nunca é gratuita neste filme que transpira arte.

O visual tétrico, a estética estudada dos cenários, a simetria das imagens, os reflexos cuidados, as longas sequências ininterruptas não deixam margem para dúvidas, as fronteiras do cinema foram alargadas. 

Park Chan-wook não sugere um filme comum ou convencional, supera-se numa escalada de intensidade e brutalidade. Um verdadeiro clássico moderno, uma obra de mestre.

Se acham que já viram tudo…. (ainda) não viram este filme.

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