Em 1946 George Orwell lançou o seu famoso ensaio Politics and the English Language onde dissecava aqueles que eram, a seu ver, os vícios da língua inglesa que corrompiam o discurso político na sua época. Analisando os seus pensamentos de então à luz do clima político atual fica claro que muito mudou, mas é possível encontrar ainda novas e interessantes conclusões para as mesmas inquietações.

Autoria: João Gonçalves, MEFT (IST)


As principais críticas de Orwell à retórica política dos anos 40 incidiam sobre a ausência de originalidade na escolha de vocábulos, de metáforas e de construções frásicas e sobre a falta de clareza, coerência e capacidade de síntese por parte dos oradores. Os discursos eram, por norma, longos e com linguagem complexa, embora fossem constituídos por “frases feitas” e palavreado político genérico e dispostas, quase mecanicamente, em sequência e sem criatividade ou cunho pessoal. O autor britânico apelava assim, em Politics and the English Language, à escolha de frases mais simples e diretas com palavras mais curtas e ritmadas e exemplos concretos das ideias expostas, em oposição às frases longas, complexas, palavrosas e exageradamente técnicas que repudiava como uma estratégia para simular eloquência sem de facto apresentar ideias concretas.

Uma boa maneira de estimar a complexidade de textos e discursos por estes critérios é através dos testes Flesch-Kincaid de Facilidade de Leitura e de Nível de Ensino. Estes testes, desenvolvidos originalmente por Rudolf Flesch e J. Peter Kincaid para a Marinha dos Estados Unidos da América, permitem atribuir a uma passagem textual em língua inglesa uma pontuação relacionada com a sua dificuldade de compreensão e estabelecer assim uma ligação com o nível de ensino a partir do qual é esperado que um aluno seja capaz de compreender o texto, usando como critérios o número de palavras por frase e o número de sílabas por palavra. Em 2013, o jornal inglês The Guardian aplicou estes testes aos discursos de State of the Union[1] de todos os presidentes americanos até ao então incumbente Barack Obama, com resultados bastante elucidativos.

A tendência é evidente: com o passar do tempo os discursos políticos foram ficando cada vez mais simples e fáceis de compreender. De facto, os dez presidentes com discursos cuja dificuldade corresponde a níveis de ensino mais baixos governaram após a publicação do Politics and the English Language, facto que apaziguaria certamente George Orwell. Estaria então o autor de 1984 injustificado nos seus receios?

De uma maneira geral, se há motivos pelos quais o discurso político atual possa ser criticado eles não correspondem exatamente aos apontados por Orwell. No entanto, os alertas que ele nos dá vão além de questões de forma e pretendem expor uma visão filosófica sobre a essência da língua e a forma como esta nos afeta. Uma das ideias mais interessantes que Orwell expõe no seu ensaio é a de que a linguagem e o pensamento formam uma ligação que não pode ser descurada. Nas suas palavras, a língua inglesa está a tornar-se “feia e pouco precisa porque os nossos pensamentos são insensatos”. O declínio da linguagem é assim uma “consequência da decadência da nossa civilização”, mas “um efeito pode tornar-se numa causa, reforçando a causa original e produzindo o mesmo efeito de forma intensificada”. No clima pós-Segunda Guerra Mundial em que Orwell escreveu estes pensamentos, a decadência da sociedade estava relacionada, na sua opinião, com aquilo que ele via como políticas conformistas, conservadoras e com medo de expressar ideias novas, bem como com aquilo a que chamou “a defesa do indefensável”, como o domínio britânico da Índia ou os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. Atualmente, os problemas que enfrentamos enquanto sociedade talvez sejam outros, mas a influência da língua sobre o pensamento e do pensamento sobre a língua continua presente. Para percebermos melhor como, voltemos aos presidentes americanos e analisemos o panorama atual do discurso político neste país.

As eleições de 2016 são o exemplo ideal de uma pluralidade radical de estilos oratórios e argumentativos. Em 2015, o jornal The Boston Globe submeteu discursos de 19 candidatos à presidência aos testes Flesh-Kincaid. A grande maioria dos candidatos (13) obteve pontuações algures entre o 6º e o 9º ano de escolaridade. Os três candidatos com a pontuação mais elevada, correspondente ao 10º ano de escolaridade, foram os republicanos Jim Gilmore e Mike Huckabee, consistentemente entre os menos votados em todas as sondagens até à sua desistência da corrida, e o democrata Bernie Sanders. Em último lugar, a um nível de dificuldade de linguagem correspondente ao 4º ano de escolaridade… Donald Trump.

Os eleitores, e não só os americanos, parecem repudiar linguagem complexa nos discursos dos seus políticos: em relação ao Brexit, por exemplo, o Secretário da Justiça britânico Michael Gove justificou a sua posição a favor da saída do Reino Unido da União Europeia afirmando que os britânicos estavam “fartos de especialistas”, referindo-se aos estudos e análises que apontavam para os prejuízos para a economia que o Brexit poderia vir a ter. É verdade que a informação deve ser transmitida de forma eficiente e compreensível, mas haverá um limite razoável para aquilo que deve ser a facilidade de compreensão de um texto? Não há necessariamente um certo nível de complexidade envolvido na transmissão de informação rigorosa e compreensiva? Quando é que o “simples” se torna “simplista”?

A eleição de um presidente americano com um estilo oratório tão elementar como Donald Trump talvez seja uma consequência da modernização dos meios de comunicação e da crescente presença das redes sociais nas nossas vidas. Estas inovações incentivam-nos a comunicar com mensagens curtas e diretas e condicionam-nos a deixarmo-nos contentar e influenciar por excertos igualmente diminutos, como notícias das quais apenas lemos o título. Pelo raciocínio de Orwell, é fácil compreender que uma sociedade onde os pensamentos são cada vez mais resumidos e simples leve à eleição de um presidente dos EUA com o hábito de se expressar por chavões e slogans sonantes, de utilizar uma grande quantidade de palavras negativas como “catastrophe”, “bad” e “terrible” para criar uma resposta emocional na sua audiência, de produzir discursos incoerentes e contraditórios e de os temperar com adjetivos pretensiosos ou arbitrários como “tremendous” e “huge”. Tudo isto são abordagens linguísticas fortemente criticadas por Orwell, mas nenhuma encapsula tão bem o estilo retórico de Donald Trump como a sua conta de Twitter, rede social onde a predileção por mensagens curtas se adequa na perfeição à sua tendência para economizar ao máximo em cada frase a quantidade de informação e o número de palavras, chegando algumas a conter apenas uma: “Sad!”.

É de notar que algumas das frases mais emblemáticas da Era Moderna são exatamente afirmações sonantes que utilizam habilmente palavras curtas e expressões comuns para criar algo memorável e marcante. Lemas como “A small step for a man, a giant leap for mankind”, “All you need is love” ou “I have a dream” são instantaneamente reconhecíveis pela sua simplicidade. Por este prisma, e depois de, em 2008, Obama vencer as eleições com o seu slogan trissilábico “Yes we can”, a ubiquidade do “Make America Great Again” de Trump torna-se perfeitamente compreensível.

No entanto, e embora haja algo a ganhar com a utilização de linguagem simples e clara, a verdade é que boas ideias são por vezes demasiado complexas para serem expressas de maneira satisfatória sem recorrer ao uso de linguagem técnica ou discursos longos, o que necessariamente alienará alguns dos ouvintes. Talvez esse tenha sido um dos obstáculos de Bernie Sanders em 2016 e continue a sê-lo 4 anos depois: em debates como o das eleições primárias democratas em Ohio, em outubro de 2019, com um número recorde de 12 candidatos, é impossível distribuir o tempo por todos de maneira a garantir a cada participante a possibilidade de expressar a sua visão em toda a sua complexidade. O resultado é que os debates políticos se tornam numa batalha de one-liners onde o rigor nas ideias passa para segundo plano.

Um exemplo extremo dos perigos da linguagem simplista é dado pelo próprio George Orwell em 1984. Nesta obra o autor cria o dialeto fictício Newspeak, uma perversão da língua inglesa com gramática simplificada e vocabulário reduzido que pretende reduzir a liberdade de pensamento e o livre-arbítrio das pessoas que a falam. Se não podemos dizê-lo, não o podemos pensar. Algo de muito semelhante pode estar a começar a acontecer aos poucos na vida real: ao deixarmo-nos condicionar por tendências sociais para a abreviatura e simplificação, a nossa língua passa de limitada a limitativa e, com isto, subjugamo-nos voluntariamente a um estado de incremental ignorância e falta de capacidade de pensamento crítico. Ideias complexas requerem uma linguagem complexa para serem expressas.

É importante então conseguir encontrar um meio termo de complexidade para a linguagem com que se expressam ideias, tanto políticas como de qualquer outro tipo. A linguagem comum permite a acessibilidade da informação a mais pessoas e, consequentemente, a sua democratização, mas não deve ser aplicada em detrimento do rigor do conteúdo. O “simples” não deve dar lugar ao “simplista”. O discurso demagogo e populista que se tem vindo a afirmar na Europa e no mundo nos últimos anos dispõe já de numerosas armas para levar avante a sua vontade, tais como falácias, mentiras, insultos pessoais e técnicas de desinformação, exemplos das quais abundam, embora já transcendam os objetivos deste texto. Não podemos permitir que a limitação do pensamento através da perversão da linguagem se torne em mais uma destas armas.


Referências:

  1. Politics and the English Language, George Orwell;
  2. Presidential Speeches Were Once College-Level Rhetoric—Now They’re for Sixth-Graders (The Atlantic);
  3. For presidential hopefuls, simpler language resonates (Boston Globe);
  4. The state of our union is… dumber: How the linguistic standard of the presidential address has declined (The Guardian)

[1] Discurso anual do Presidente dos EUA perante o Congresso, tipicamente realizado no início de cada ano civil de mandato.

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