Autoria: João Carriço (LEQ)
“Mas isso não é a faculdade dos malucos?” é uma das muitas frases que ouvia quando dizia, no final do meu secundário, que ia estudar para o Técnico. Como acredito que seja bastante evidente, acabei por ignorar estes comentários e candidatar-me ao IST. Em retrospetiva, não estavam errados.
Tentando não reiterar o que foi dito em editoriais anteriores, a carga de trabalho semanal que nos é esperada é uma piada entre demónios, e contabilizando o tempo perdido em deslocações e necessidades básicas, pouco mais restam do que as horas necessárias a um sono de beleza (se muito!). O custo que este ensino de topo nacional acarreta é também monetário: sim, refiro-me às propinas! E, numa altura em que se debate cada vez mais a ação social e a acessibilidade do ensino superior, a prioridade do atual governo é de as aumentar.
Temos ainda os deslocados, que, geralmente, ou pagam fortunas para se confinarem a cubículos sem janelas, ou se veem obrigados a submeter-se às condições frequentemente questionáveis das residências universitárias. E isto tudo sobre uma oscilação nauseante entre Lisboa e o seu local de residência, com deslocações longas e decerto saturantes.
Por isso, a resposta ao comentário com que optei por começar este devaneio é simples: sim, o Técnico é para malucos (e não para cromos, ao contrário daquilo de que um professor de Química Orgânica me veio a acusar). Ou, pelo menos, é essa a explicação mais lógica a que consigo chegar, porque o argumento de que tudo isto é por um bem maior (forma bonita de mencionar um emprego estável) é irracional: podemos muito bem simplesmente gravar pequenos vídeos para as redes sociais a fazer lip-sync a funk brasileiro; ou então promover casinos, ou comprometer-nos a combates de luta livre em que vamos garantidamente perder. Enfim, a lista de atividades sem esforço que são mais financeiramente recompensantes do que uma licenciatura em Portugal é infindável. E devo confessar, estes percursos (vá, talvez o último não) são muito tentadores.
Mas, ainda assim, na que é conhecida como uma das faculdades mais exigentes do país, não são poucos os que conseguem despender do seu tempo para que a sua vida não seja uma simples sucessão de letras gregas, numa proporção de 10:1 com números. Só percorrendo o corredor sombrio da Secção de Folhas, deparamo-nos com as casas de três núcleos que difundem a criatividade neste ambiente tão asfixiante e monotonamente ciêntifico. Não nos esqueçamos também dos que, em catacumbas dos Pavilhões de Mecânica, constroem protótipos para competir em eventos internacionais, bem como todos os outros que não se encaixam sob estes guarda-chuvas. Parece quase paradoxal que numa faculdade conhecida pela sua carga de trabalho aproximadamente infernal exista um esforço conjunto tão grande em torno do associativismo, e ainda mais difícil do que deduzir a equação de Navier-Stokes é, decerto, explicar esta anomalia. Como sugestão meramente académica, talvez seja o desejo de fugir à obsessão justificada pela engenharia?
Para além dos núcleos, há ainda que salientar todos os que se dedicam a fazer por que o ensino superior não seja tão desvantajoso. Todos os que vemos em manifestações no Dia do Estudante, procurando oferecer resistência ao aumento das propinas e lutando pela acessibilidade do alojamento. Todos os que se candidatam e são eleitos para órgãos académicos, com a missão de ter debates saudáveis com entidades hierarquicamente distantes. Todos os que negociam um método de ensino menos sufocante e mais humano. Em geral, todos os que procuram dar a entender que a voz dos estudantes não é um simples ruído de fundo. Finalmente, não nos podemos esquecer daqueles que, num final de ano letivo, ainda dedicam o seu tempo a juntar textos sobre esta masmorra, formando uma espécie de criatura de Frankenstein em papel, para ser distribuído pelo Técnico, enquanto lutam contra métodos de avaliação dignos de supervilões. Quero acreditar que todo este trabalho não é simplesmente para podermos elevar o nosso ego ao poder dizer que temos o nosso nome num pedaço de papel. Por isso, seria extremamente ingrato se não enaltecesse a perseverança de todos os que tornaram isto possível. Espero que não deixemos de mostrar periodicamente à comunidade académica que a maluquice é também um potente motor para a produção jornalística.



