Autoria: Catarina Curado (LMAC) e João Carriço (LEQ)
O que começou em 2019 como um desafio lançado por um professor do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM), tornou-se hoje numa história de superação de um dos núcleos mais inovadores do Instituto Superior Técnico (IST). O Técnico Fuel Cell (TFC), composto por membros apaixonados pela mobilidade sustentável, enfrentou desde o seu início diversos obstáculos, como a falta de espaço ou a escassez de hidrogénio, que ameaçaram a continuidade deste projeto. Para conhecer de perto esta jornada, o Diferencial conversou com Pedro Camarate, Líder da Equipa, Tiago Nascimento, líder do Departamento de Finanças, e João Lotra, membro do Departamento de Comunicação.
Os primeiros passos do Técnico Fuel Cell
Em 2019 inicia-se a história do TFC com o convite por parte do professor João Dias aos seus alunos, para integrar um projeto, onde, para além de trabalhar em carros locomovidos a hidrogénio, procurariam desenvolver um produto em parceria com uma empresa. Pedro Camarate, que, na altura, frequentava o primeiro ano em Engenharia Mecânica, revelou interesse em integrar o projeto e aceitou o desafio do professor, mas não estava disposto a encará-lo sozinho. Para isso, convidou Tiago Nascimento, que conhecera durante o 7º ano de escolaridade, e que frequentava também o seu primeiro ano no IST, mas em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, para se juntar a esta viagem, o que permitiu uma cobertura interdisciplinar do projeto.
Contudo, o projeto a ser desenvolvido em parceria com uma empresa não teve continuidade, tendo o professor João Dias abandonado também o desenvolvimento de carros movidos a hidrogénio. Mas Tiago e Pedro decidiram prosseguir com este último, angariando mais membros, entre os quais João Lotra, para formar o que hoje conhecemos como TFC.
Mas o caminho não foi fácil. Numa fase inicial, não reuniam todas as condições necessárias para iniciar o seu trabalho: careciam de um local para trabalhar e de patrocínios, pelos quais tiveram de lutar arduamente, uma vez que não possuíam provas vivas do trabalho do núcleo. Após assegurar ambos, o núcleo lidou ainda com outra adversidade – a pandemia Covid-19 – que condicionou bastante o trabalho do TFC. Ainda assim, durante a pandemia não deixaram de marcar presença em competições.
A estrutura interna do TFC
O núcleo possui, de momento, 7 departamentos: Sistemas Elétricos, Dinâmica, Design e Compósitos, Sistemas Autónomos, Comunicação, Gestão e Finanças, e Hidrogénio. Tiago Nascimento integra individualmente o Departamento de Gestão e Finanças, João Lotra desempenha funções no Departamento de Comunicação e Pedro Camarate é o Líder da Equipa.
O TFC conta com a participação de alunos dos mais variados cursos do IST, ainda que não de todos. Quando questionados sobre a existência da procura de alunos de um curso específico para integrar o núcleo, os seus representantes negaram a mesma, esclarecendo ainda que este não é exclusivo ao IST, aceitando alunos de qualquer faculdade da Universidade de Lisboa. Assinalam, contudo, que os membros do TFC devem possuir certas competências, não sendo procurado apenas alguém comum para ocupar um cargo, mas sim a melhor pessoa para o fazer. Realçam, sobretudo, a proatividade como uma das principais competências que um membro do TFC deve apresentar, mas defendem que também é importante manter um compromisso e desenvolver um trabalho consistente.
O hidrogénio e a transição energética
A substituição de combustíveis fósseis por hidrogénio, apesar de uma possível solução para aligeirar a poluição atmosférica, levanta ainda uma série de questões. Até agora, apenas é usado em camiões e autocarros, em raros casos, pelo que veículos locomovidos a hidrogénio são ainda uma realidade distante para o público geral. Os representantes do núcleo afirmam que um dos seus objetivos é desmitificar este tópico, mostrando que o hidrogénio não é menos seguro do que outras fontes de energia.
O TFC pretende também mostrar que o hidrogénio pode ser utilizado em meios de transporte, crendo que no futuro este coexistirá com outras fontes de energia. Vão, assim, ao encontro da missão de alguns dos seus patrocinadores, que também pretendem investir no hidrogénio enquanto alternativa aos combustíveis fósseis. De entre estes patrocínios destacam a GALP, que, para além de permanecer um dos seus principais patrocinadores, foi um dos primeiros que aderiu e apoiou o projeto mesmo antes de ter sido desenvolvido algum carro. O líder, Pedro Camarate, reforça ainda que “sem as parcerias, não era possível fazer nada”, pois são exatamente estas que garantem o financiamento necessário para a aquisição de materiais e para a construção de todas as peças do carro.
As principais dificuldades e conquistas
Atualmente, o gabinete do Técnico Fuel Cell situa-se no Pavilhão de Mecânica III e tem um tamanho equivalente ao de uma sala de pequena dimensão. A oficina, por sua vez, encontra-se na arrecadação do polo Taguspark, que se situa junto ao estacionamento. Devido à falta de espaço na Alameda, onde todas as oficinas já estão ocupadas por outros núcleos do Técnico, o TFC teve de recorrer ao campus de Oeiras para poder desenvolver o seu trabalho. Esta solução surgiu quando um núcleo que utilizava esse mesmo espaço deixou de operar e lhes emprestou a arrecadação, acabando por ficar para o TFC. “Foi um ato de bondade de uma equipa”, afirma Pedro.
Com a evolução do núcleo, a equipa iniciou negociações com vários departamentos do IST na tentativa de garantir um espaço mais adequado, com preferência pela Alameda. Nesse processo, a relação com a Associação dos Estudantes revelou-se fundamental. O líder da equipa destaca que a AEIST tem dado um apoio inestimável, não só na intermediação com a direção do Técnico para discutir a questão do espaço mas também através dos concursos que promove e das feiras organizadas no início de cada semestre, essenciais para divulgar o projeto e atrair novos membros.
A colaboração com outros núcleos tem sido outro fator importante no crescimento do TFC. A equipa destaca a relação de proximidade que mantém com o TLMoto, tendo estes dois núcleos já colaborado em diversas iniciativas, como workshops e cursos de soldadura ou de maquinação convencional. Além disso, beneficiaram ainda de apoio de outros núcleos do Técnico, como o Solar Boat e o PSEM, quer através do empréstimo de ferramentas, quer da partilha de conhecimento.
As duas competições
O primeiro carro construído pelo TFC possuía uma suspensão inspirada num Jaguar, desenhada por um dos membros, o que permitiu que se destacasse dos restantes. Enquanto as outras equipas tinham um objetivo exclusivamente competitivo, o TFC procurava equilibrar a performance da corrida com a criação de um veículo citadino funcional, que fosse, de facto, utilizado no futuro. Por isso mesmo, o carro incorporava peças de engenharia automóvel mais complexas, como, por exemplo, a suspensão, todas desenhadas pelos próprios estudantes. Esta realidade tornava-se mais evidente face às restantes equipas, que, apesar de disporem de orçamentos significativamente superiores, recorriam a estruturas e a peças mais simples, muitas vezes compostas apenas por chapas dobradas.
Nas duas competições em que participaram até à data, um dos maiores desafios enfrentados pela equipa foi a escassez de hidrogénio. A botija que utilizaram continha 15 gramas do gás, sendo esta a quantidade necessária para completar as dez voltas da corrida. No entanto, o custo elevadíssimo deste recurso foi um obstáculo significativo. Enquanto outras equipas europeias conseguiram adquirir um litro de hidrogénio a 200 bares por cerca de 5 euros por quilograma, o TFC chegou a pagar 13 mil euros por quilo, o que equivalia a aproximadamente 200 euros por botija. Na altura, a equipa ainda não tinha uma parceria que ajudasse nesse sentido, algo que já não se verifica. Este constrangimento financeiro inicial fez com que o núcleo não pudesse realizar um maior número de testes ao carro antes da competição, tendo um impacto negativo na eficiência e no desempenho do seu protótipo.

Apesar dos desafios, a equipa continua determinada a alcançar novas metas e a evoluir. Um dos momentos que marcou o crescimento do núcleo foi a sua primeira inspeção técnica na Shell Eco-Marathon, onde conseguiram a aprovação e puderam competir pela primeira vez. Essa validação serviu como um incentivo para a equipa, provando que o projeto não se limitava a uma ideia no papel mas sim a uma realidade concreta. Entre os marcos mais importantes, o TFC destaca ainda o Roll Out, evento de apresentação do carro, que contou com a presença de várias personalidades nacionais e foi um símbolo do progresso alcançado pelo núcleo.