Autoria: Beatriz Monteiro (LEBiom)
Todos os cursos do Instituto Superior Técnico (IST) passaram a integrar, desde o ano letivo 2021/2022, uma componente obrigatória de formação em Humanidades, Artes e Ciências Sociais (HACS), com o objetivo de promover uma formação mais abrangente e multidisciplinar. Para entender melhor a origem e a finalidade desta iniciativa, contactámos o professor Carlos Santos Silva, coordenador das HACS, que esclareceu as principais questões.
Atualmente, todas as licenciaturas do IST incluem 9 créditos nestas áreas. Destes, 3 ECTS correspondem obrigatoriamente à Unidade Curricular (UC) de Gestão ou Introdução à Economia, enquanto os restantes 6 ECTS são de opção livre e podem ser realizados numa de sete faculdades da Universidade de Lisboa.
No total, os estudantes podem realizar unidades curriculares em HACS numa das seguintes escolas: Faculdade de Ciências, Faculdade de Direito, Faculdade de Letras, Faculdade de Motricidade Humana (FMH), Faculdade de Psicologia, Instituto Superior de Agronomia, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Instituto Superior de Economia e Gestão, Instituto Superior Técnico e Academia Militar.
Entre estas, a Faculdade de Letras destaca-se pela maior diversidade de oferta, contando com mais de 50 disciplinas diferentes, geralmente com um número reduzido de vagas. O IST, por outro lado, é o que apresenta maior número de vagas em HACS, por semestre. Este ano também se notou a inexistência de cadeiras disponibilizadas pela Faculdade de Belas Artes.[1]
Uma resposta a lacunas na formação
A introdução destas Unidades Curriculares surge na sequência dareestruturação dos currículos realizada no ano letivo de 2021/2022, no âmbito do PERCIST (Princípios Enquadradores para a Reestruturação dos Cursos de 1.º e 2.º Ciclo do Instituto Superior Técnico) e foi proposta no relatório publicado pela Comissão para a Análise ao Modelo de Ensino e Práticas Pedagógicas do IST (CAMEPP), publicado em 2018. Este concluiu que os alunos se encontravam “pouco preparados para lidar com situações […] que não podem, ou não devem, ser reduzidas a uma medida quantitativa”, reconhecendo a “importância de investir no desenvolvimento de responsabilidades cívicas e culturais, na capacidade para compreender o impacto da ciência e engenharia na natureza humana e na sociedade”.
No entanto, a presença de formação nestas áreas não é nova no IST. UC como Contabilidade Industrial e Economia Política- Estatística-Direito Industrial constam do plano curricular do IST desde o decreto de lei que o fundou, de 23 de maio de 1911, e a UC de Gestão integra o currículo da maioria das licenciaturas há várias décadas.
Objetivo
De acordo com o coordenador das HACS, estas UC complementam a formação científica e tecnológica, incentivando a compreensão do contexto contemporâneo e das várias dimensões que moldam a sociedade, favorecendo o pensamento crítico e a análise informada. O objetivo é incentivar uma abordagem mais “reflexiva, contextualizada e interdisciplinar” na interpretação e resolução de problemas, capacitando os estudantes para lidar com a complexidade e a incerteza inerentes às realidades naturais e humanas.
O coordenador acrescenta ainda que esta prática é seguida pelas melhores escolas de engenharia do mundo, como o MIT, onde os estudantes têm de realizar, pelo menos, uma unidade curricular em cada subárea de HACS.
Método de seleção, mais simples e equitativo
O processo de inscrição acontece via Connect e tem em conta apenas a ordem de submissão das candidaturas. Cada estudante é habilitado a escolher até seis disciplinas, ordenadas quanto à sua preferência, podendo concorrer a mais do que uma fase. Cada semestre poderá ter mais do que uma fase de inscrição, de modo a alocar os estudantes não selecionados nas vagas sobrantes.[2] Os alunos finalistas têm prioridade no acesso a estas UC e caso não tenham ficado colocados, devem fazer um requerimento livre para a Área de Graduação e pedir inscrição numa UC específica.[3]
O modelo atual de candidatura está em vigor desde o ano letivo de 2023/2024, por sugestão dos alunos. Inicialmente, tinha em conta as médias de entrada pelo Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) e do desempenho académico no IST, o que gerava algumas desigualdades. Esta alteração veio “simplificar o processo e diminuir situações de injustiça”, esclarece o professor, como, por exemplo, estudantes que entravam por outros concursos que não o CNAES, ou estudantes com notas lançadas em atraso.
Conciliação de horários
A realização destas disciplinas pode ocorrer em qualquer semestre da licenciatura, uma vez que são de opção livre, no entanto, cada curso tem um ano e um semestre preferencial para a sua realização, tendo em conta a sua estrutura curricular.
Segundo o professor, o dimensionamento das vagas em cada semestre é feito de forma a garantir que existem vagas para todos os estudantes que queiram realizar as UC nos semestres propostos pela estruturação do seu curso. Contudo, não existe nenhuma restrição para que qualquer aluno as possa realizar a qualquer altura.
Quanto aos horários, não é possível garantir a sua compatibilidade com as restantes UC, uma vez que estas são de carácter optativo. Para tentar mitigar esta dificuldade, procura-se que a generalidade dos cursos tenha a quarta-feira à tarde livre e que as cadeiras de HACS realizadas no IST sejam lecionadas nesse período. Contudo, o professor considera que esta medida tem um impacto limitado, uma vez que esse período pode ser ocupado com outras atividades letivas ou por sobreposição entre duas UC de HACS. Acrescenta ainda que os horários das outras escolas são definidos pelas mesmas. Posto isto, a única forma de tentar diminuir este problema é tentar publicar “os horários das UC antes da realização das candidaturas, para que a escolha dos estudantes tenha o seu horário em conta”, o que nem sempre é possível.
Vagas
O número de vagas nos últimos dois anos letivos situa-se entre 1100 e 1300 no primeiro semestre e entre 1400 e os 1600 no segundo semestre. Nos anos letivos anteriores a estes, não havia limite, uma vez que algumas escolas tinham UC a funcionar em regime virtual, como era o caso de Belas Artes ou da FMH.
O coordenador acrescenta que o semestre mais difícil na gestão de colocações foi o segundo do ano letivo 2023/2024. Ainda assim, garantiu-se a colocação de todos os estudantes. Tal foi possível, uma vez que diversas UC do IST aceitaram mais alunos do que estava previsto inicialmente, de forma a assegurar que nenhum estudante ficasse prejudicado.
A mais-valia das HACS
Segundo o coordenador, a principal vantagem desta iniciativa reside na formação em áreas que “ajudam a compreender melhor a sociedade, a desenvolver o espírito crítico e criativo”, e que estas competências serão essenciais para a sua vida profissional futura. Além disso, a realização destas disciplinas nas outras escolas “tem a mais-valia adicional de interagir com docentes e colegas de outras escolas, com outra formação e outras práticas de ensino e aprendizagem”.
As Unidades Curriculares em HACS seguem os mesmos critérios de qualquer outra UC do ensino superior, com objetivos de aprendizagem definidos, programas estruturados, bibliografia específica e um corpo docente com atividade científica na área. Posto isto, o professor esclarece que, embora os trabalhos dos núcleos de estudantes no âmbito das Artes e Humanidades seja meritório, a sua atividade não substitui a formação académica formal nestas áreas “assim como as atividades dos núcleos de estudantes mais científico-tecnológicos não podem substituir as UC científico-tecnológicas”. No entanto, ressalva que existe margem para uma maior colaboração entre as duas vertentes.
Análise do QUC do segundo semestre 2024/2025
Analisando o QUC, o maior número de estudantes inscritos corresponde a Unidades Curriculares do IST, totalizando mais de mil alunos no total. Entre estas, destacam-se as cadeiras de Introdução à Economia (195 inscritos), Desafios Globais (122) e Crise Climática e Transição Justa (107). Em contrapartida, a Faculdade de Letras é a que apresenta um maior número de cadeiras disponíveis, cujo número de inscritos varia entre um e sete.
Relativamente à taxa de aprovação, todas as cadeiras do IST têm uma percentagem igual ou superior a 90%, e as cadeiras que apresentam uma taxa de aprovação mais baixa são as lecionadas no ISCSP, com cerca de 50%. Relativamente à carga de trabalho, a maior parte das cadeiras do IST estão de acordo com o previsto, apenas Design Participativo em Planos e Projetos e Desafios Globais se encontram abaixo do previsto. Relativamente às cadeiras com poucos alunos, é impossível analisar a carga de trabalho, pois os resultados do QUC não são estatisticamente relevantes.[4]
Impacto na formação dos estudantes
Segundo o professor, os estudantes que frequentam estas UC terminam o percurso académico certamente mais bem preparados, uma vez que adquirem uma formação mais diversificada. Ainda que a preparação cientifica-tecnológica seja essencialmente a mesma, o contacto com as HACS expõe os estudantes a outras formas de observar e pensar o mundo, que poderão ser importantes tanto na sua vida académica como profissional.
Na prática, o professor explica que este benefício se traduz em vantagens concretas: “um estudante de qualquer engenharia que tenha tido uma UC como Introdução ao Direito na Faculdade de Direito irá compreender melhor a legislação e enquadramento regulatório com que qualquer engenheiro tem de lidar no desempenho da sua atividade profissional”, por exemplo.
Assim, mais do que alterar a formação técnica, as HACS contribuem para formar profissionais mais completos, capazes de integrar conhecimento científico com uma compreensão mais ampla da sociedade em que se inserem.
Referências:
[1] Currículo · Conjunto de Disciplinas em HACS (acedido pela última vez a 22/04/2026)
[2] Microsoft Word – Regulamento UCs HASS.docx (acedido pela última vez a 22/04/2026)
[3] Chat | IAedu (acedido pela última vez a 22/04/2026)
[4] Resultados | Qualidade das Unidades Curriculares • QUC (acedido pela última vez a 15/04/2026)




