Carris Metropolitana: Um pesadelo disfarçado de sonho

Autoria: Francisco Ferreira (LEIC-T)

A janeiro de 2022, começou a operar em pleno a Carris Metropolitana, uma marca da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML). Gradualmente, até o início de 2023, foi entrando em vigor em 15 dos 18 municípios da AML (as exceções são Barreiro, Cascais e Lisboa, que têm marcas próprias). Uma marca nova que prometia aumentar a frota, o número de carreiras e melhorar os horários, cedo se revelou um problema com vários momentos caricatos à mistura.

Tomando como exemplo Oeiras, antes operado pela Vimeca (marca da Lisboa Transportes) os autocarros brancos foram substituídos pelos amarelos. As fardas foram substituídas por casacos pretos e brancos com insígnias novas. Um claro sinal de uma marca que se quer mostrar inovadora, aproveitando os trabalhadores da empresa antiga por uma questão de familiaridade e manter postos de trabalho. Até aqui, tudo a ser devidamente feito, mas não passa de um truque de ilusionismo.

Os problemas

Uma mudança nos horários acaba sempre por confundir quem está habituado aos antigos. Nos habituais 30 minutos de atraso dos autocarros, ainda se ouve as pessoas a referir-se às carreiras pelos números antigos. Quando chega o motorista, ainda se pergunta por onde passa o autocarro. Enquanto para os mais jovens é fácil descarregar uma aplicação que atualiza automaticamente as carreiras e tem os horários em tempo real, a população sénior fica remetida à espera e a aguardar por informações que nunca chegam.

Os problemas de organização antigos, que levaram a atrasos e faltas de autocarros, foram agravados. Mas, afinal, onde andam os 370 autocarros que iam estar ao dispor dos habitantes? A resposta é simples, vão para os 3 destinos favoritos da Carris Metropolitana: “Fora de Serviço”, “Reservado” e “Recolha”. Vão apenas os autocarros e os motoristas, pois os passageiros estão ancorados às paragens. É também mais comum ver os motoristas ao lado dos seus autocarros parados, em conversas sobre o resultado do jogo de ontem, os problemas táticos do Sporting e a inflação do Costa. Quando algum utente se atreve a aproximar para perguntar onde está o autocarro, as respostas são cortantes: “Não sou eu que a faço” ou “Não estou de serviço, estou a almoçar”. Ao se perguntar a um trabalhador das bilheteiras, é explicado que os horários são decididos apenas pelos motoristas e que estes trocam uns com os outros em cima da hora. Não está nada centralizado e é até impossível saber quem fez/vai fazer uma carreira nesse mesmo dia. Não são raras as discussões audíveis entre utentes e motoristas, que respondem entre risos e sarcasmo que o cliente só pode esperar e que tem de ter calma.

Em Vila Franca de Xira, existe outro problema ainda mais curioso: os motoristas estão a perder-se entre o Bom Sucesso e a Póvoa de Santa Iria. Estes episódios têm uma explicação simples: locais em que passava apenas uma carreira passaram a ter quase uma dezena delas e ninguém acompanhou. Parece que os novos números, cuidadosamente organizados pela área em que operam e pelo tipo de percurso, foram apenas para mascarar os problemas antigos e confundir ainda mais os utentes.

Anunciada em Julho de 2022, a operação da Carris Metropolitana na Margem Norte do Tejo apenas entrou em vigor em Janeiro do presente ano. A demora, não explicada pela nova operadora, era um mau presságio do que aí vinha. Nos telejornais de horário nobre, falava-se dos problemas que já ocorriam na Margem Sul: muitos autocarros com poucos motoristas. Autarcas e utentes uniam-se nestas queixas e ninguém respondia. Ainda agora, um utente que queira reclamar do serviço precário, é obrigado a preencher um formulário genérico em que acaba por aguardar mais duas semanas até receber uma resposta também genérica que leva muitos a desistir. No Portal da Queixa, conhecido fórum de reclamações, a Carris Metropolitana tem uma avaliação de 7.8% e uma taxa de resposta de 2.4%. 

Acentuados pela greve da CP de fevereiro, os problemas da nova operadora tornam-se cada vez mais evidentes. As filas de utentes tornam-se cada vez mais longas e os ânimos cada vez mais exaltados. Não são isoladas as ocorrências de chamadas à polícia e de pessoas a precisar de serem separadas antes de chegarem a vias de facto. Também é comum chegarem táxis e TVDEs às paragens de autocarros por impaciência dos utentes que têm horários de trabalho a cumprir. Muitas pessoas estão a pagar 2 vezes: 40 euros mensais pelo passe Navegante e depois um custo adicional pelo transporte alternativo que é cada vez mais necessário.

Apenas o tempo dirá se existirão reembolsos, mudanças ou explicações. Por agora, fica tudo nas conversas entre utentes, motoristas e entre uns e outros. Os dias passam e as pessoas continuam a pagar por serviços que não são prestados. Os motoristas continuam a ser alvo da ira dos utentes quando, por vezes, não têm culpa. Para a Carris Metropolitana, o dinheiro continua a entrar, então não incomoda se alguns autocarros aqui e ali estão parados. 

Referências

  1. Carris Metropolitana chega a Oeiras (acedido a 22-02-2023)
  2. Motoristas perdem-se em VFX (acedido a 22-02-2023)
  3. Carris Metropolitana – Portal da Queixa (acedido a 22-02-2023)

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