Testemunho 1: Anónimo

Sou um rapaz e fui assediado por outro rapaz. Numa viagem que fiz sozinho, o processo de revista foi demasiado longe. Um revisor que estava noutro posto tinha o olhar fixo em mim desde que cheguei à fila. Quando foi a minha vez de ser revistado, ele deixou o posto onde estava para me vir revistar pessoalmente. Digamos que, ao revistar a zona da cintura, preferiu passar o tempo a revistar exaustivamente o meu aparelho genital do que a verificar se realmente estava a contrabandear algo. Tudo isto a olhar nos meus olhos. Estava sozinho e não tinha a quem contar ou pedir ajuda.

Testemunho 2: Anónimo

Infelizmente, acabo por também escrever aqui. Joguei volley desde muita nova e quando subi para as Juvenis sofri de assédio. Recebi mensagens privadas do meu treinador ‘João’, mas pensei a 100% que eram apenas de preocupação, para ver se estava tudo bem para ir treinar e dar o meu melhor nos jogos, mas não. As mensagens tomaram outro rumo. Acabei por não responder e por vergonha apagava-as, ignorava-o com a esperança que desistisse. Nunca contei a ninguém, permaneci calada a pensar que era a única. Tivémos um torneio no Norte e ficamos a dormir na sala de uma escola. Quando chegámos instalámo-nos – tanto as jogadoras como os treinadores. Coloco o meu colchão e vou à casa-de-banho. Quando volto, reparo que o ‘João’, se tinha instalado ao meu lado, colchão com colchão. Entrei em pânico! Comecei a reclamar, a dizer que não me sentia confortável, que não queria. Ninguém percebeu o porquê, até que tive de contar. Finalmente falei, contei tudo. Infelizmente não fui a única, colegas minhas partilharam que também receberam mensagens menos próprias. Juntámo-nos e fomos falar com a direcção do Clube. Abafaram o caso e nada foi feito. Continuamos a época com o ‘João’ como treinador, como se nada se tivesse passado, como se fosse possível esquecer tudo aquilo que se passou, como se fosse possível conseguir estar ao lado dele e não sentir nojo. Hoje em dia continua a ser treinador das camadas femininas, incluindo crianças!

Testemunho 3: Anónimo

Era meu professor. Não havia uma aula que não me pusesse desconfortável. Fazia constantemente comentários de carácter sexual comigo para toda a gente ouvir. Chegou a pedir-me para ficar depois das aulas, para falar mais tempo com ele. E das vezes que fiquei só me elogiava. Ele tinha um comportamento predatório comigo, parecia que ficava ciumento quando eu me ria com outros rapazes à frente dele, e começava a dar-me raspanetes exagerados. Até que a coisa começou a ficar física. Começou a ser frequente abraçar-me, a encaixar-se em mim. Chegou a apalpar-me o rabo. E eu não sabia como parar aquilo. Na altura nem conseguia bem compreender o que se estava a passar. E os piores episódios começaram a acontecer durante os testes. Este homem decidiu que eu deveria ficar sentada numa bancada no fim da sala, enquanto o resto da turma estava sentada nas mesas normais. Desta maneira não estava no campo de visão dos meus colegas. A meio dos testes, aproximava-se de mim, e perguntava várias vezes ao meu ouvido “se eu estava bem”, “se queria que ele fizesse alguma coisa para mim”, e outras coisas do género, enquanto me tocava no corpo, de forma nojenta. Isto ainda durava alguns minutos. E eu não conseguia fazer nada, paralisava com medo. Estava em pânico por um homem daquela idade me tocar sem eu querer. E quando finalmente parava, eu pouco conseguia fazer também. Ainda tinha que me enganar a mim própria e fingir que isto não tinha acontecido para continuar a fazer o meu teste. Fingi por demasiado tempo que não tinha acontecido. Só mais tarde é que soube que ele tinha tido comportamentos semelhantes com outras raparigas, e que algumas dessas raparigas fizeram queixa, mas que nada lhe tinha acontecido. E por ainda ter medo dele, por ter medo do que me pudesse acontecer a mim mas não a ele, não falei.

Testemunho 4: Anónimo

Fui a uma padaria comprar pão. Enquanto esperava, reparei que um senhor, que tinha idade para ser meu pai/avô, estava de lado junto ao balcão a olhar para mim. Como estava muita gente, tive que lá ficar uns 5/10 minutos à espera e durante todo esse tempo o senhor continuou a olhar-me fixamente, não como se estivesse distraído, mas de uma forma imprópria. A dada altura ele já se tinha virado de frente para mim e, mesmo tendo tentado olhar para ele para que notasse que eu o tinha visto e (quem sabe?) talvez parasse de olhar para mim, nada parecia tirar-me daquela situação. Senti-me suja, impotente, comecei a questionar-me se o que tinha vestido era demasiado revelador ou não, quis ir embora. Não é justo que não possamos estar à vontade nas mais simples tarefas do dia-a-dia. Foi só um olhar? Foi. Mas incomodou, estragou o meu dia, foi assédio.

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