Existe uma crescente pressão social para se imporem normas que visem promover a integral participação das mulheres em todos os aspetos da sociedade: dos assentos parlamentares à obrigatoriedade de quotas em posições de poder empresarial. Mas não serão estas mesmas medidas somente mais montanhas que se erguem como forma de encobrir uma discriminação sistémica que em quase nada evoluiu em mais de um século do movimento feminista?

Autoria: Pedro Rodrigues, MEQ (IST)

É deveras um símbolo do progresso lermos os cabeçalhos dos jornais, e vermos reportagens na televisão, que dão voz a mulheres que foram capazes de alcançar posições de chefia em indústrias historicamente dominadas pelos homens. Mas eu afirmo que esta mesma exposição comprova que ainda nos encontramos a largos passos do Éden. 

A guerra pela plena igualdade de género é travada em diversas frentes em simultâneo, mas a ritmos distintos. Presentemente, as ambições que mobilizam um maior número de apoiantes fundamentalmente exigem o cessar do fosso salarial existente entre homens e mulheres, bem como o acesso às mesmas oportunidades de progressão de carreira. Pelo vento entoam cânticos que clamam por representação, proteção e o cabal respeito dos seus direitos inalienáveis. Mas por mais que se eduque a população, existem fações cuja obtusidade moral só o tempo resolverá.

Gerações inteiras que nos antecedem possuem, na sua maioria, uma mentalidade extremamente provinciana e arcaica, completamente desligada do progresso e vivendo o seu quotidiano como na sua mocidade. Durante décadas seguiram as ditas “tradições” e impediram as mulheres de desenvolver o seu potencial na plenitude, mostrando uma mão de ferro, e rédea curta, para com qualquer ato de dissidência. A triste realidade é que mudanças integrais a paradigmas de tal maneira enraizados na própria sociedade, só podem ser feitas geracionalmente. O ativismo e a exposição mediática servem para curar o sexismo latente que se ergueu com o surgimento do patriarcado.

A luta pelo estabelecimento de uma utopia é o fator predominante que alicerça o nosso orgulho exacerbado por ver mulheres cuja própria existência é, por si só, um ato de revolta contra o sistema, de luta e perseverança num mundo que lhes cuspiu em cima por terem nascido com útero e vagina. É a força motriz que consubstancia uma guerra que muitos dão por terminada, é mais um pilar que se ergue no movimento pela igualdade, mais um muro de opressão que se desmorona e mais um grito de liberdade que ecoa.

 E mais uma razão que comprova o quão intrínseco é o sexismo. 

A discriminação nada tem de novo. Devido à sua intemporalidade é quase possível afirmar que a mesma é uma idiossincrasia da própria Humanidade. Desde os primórdios da civilização que determinados grupos de indivíduos tiveram a sua liberdade condicionada em prol do “desenvolvimento”, ou somente para cumprir a ambição desmedida que propele o capitalismo. É um conceito que sobreviveu a milénios de progresso e avanços de natureza antropológica, mas que somente se adaptou às circunstâncias sem nunca se ter extinguido. 

A pedra angular da nossa civilização assegura veementemente o tratamento digno e igualitário, mas as salas e palácios onde estas adendas foram escritas na constituição, ironicamente ergueram-se como resultado da opressão dos povos e classes sociais mais impotentes. E não é complicado fazer a analogia à sociedade contemporânea, que assenta as suas prioridades em defender o status quo em vez de fazer justiça àqueles que com o seu sangue pintam as páginas da nossa História. 

Mas a Humanidade está a progredir por forma a emendar os delitos do passado. Pelo mundo inteiro têm vindo a brotar cada vez mais movimentos que rogam pragas às ideologias de género e sensibilizam as pessoas a serem acérrimos defensores do feminismo. Uma das mais evidentes consequências é o crescente destaque nos noticiários, e outros espaços de informação, de mulheres que ganharam notoriedade pelo seu percurso pessoal de excelência. Um ato perfeitamente inócuo em primeira análise.  

Não obstante, uma observação mais cuidada cimenta a hipótese de que as motivações subconscientes que alimentam este mediatismo são, por vezes, bastantes vis. Destacar mulheres que, devido à sua resiliência e tenacidade, contrariaram a índole preconceituosa, conseguindo assim alcançar os mais altos patamares da sua carreira profissional, é puramente belo quando nos abstemos de ler nas entrelinhas que antes delas dezenas de homens lhes antecederam. Porque é uma luz de esperança ver mulheres que ganharam reconhecimento internacional na Ciência quando fechamos os olhos às inúmeras contribuições que deram ao longo da História e que culminaram em invenções e descobertas publicadas a nome de um “Sir…”. Porque é um motivo de júbilo vermos mulheres como cabeças de partido, como representantes políticas de um país, embaixadoras da nação no estrangeiro e referências multidisciplinares à escala global quando ignoramos que tantos homens tiveram um passe de livre acesso a estas mesmas oportunidades desde o berço. 

Sentir orgulho desmedido por quem sob tantas adversidades é capaz de se erguer não é uma indicação direta de que façamos parte da solução. É sim uma oportunidade de perceber que este mesmo sentimento esconde por detrás todo o caminho que ainda é preciso percorrer no combate à discriminação. Não é uma desonra sucumbir, por vezes, à ilusão de que as coisas podem estar a melhorar. Para erguer uma nação do zero há que destruir o que sobre ela assenta, há que vasculhar nos escombros e destroços dum passado negro o que de bom lá existiu e adaptar esses ideais às necessidades contemporâneas. É preciso ter empatia por quem esta luta diz respeito, é preciso ter compaixão por quem pereceu na batalha pela igualdade. Até ao último suspiro haverá combatentes, até ao último amanhecer haverá esperança.

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